domingo, 5 de janeiro de 2014

Sem a encarnação não há a comunicação



Francisco nos ensinou a nascer para Deus, para o mundo, para as pessoas e para si mesmo. Tudo isto ele celebrou no Natal, que quis transformar numa experiência mística, num novo nascimento. Ele se fez menino com o Menino. O Espírito do Senhor faz acontecer nele seu "advento de doçura", no auge do rude inverno da natureza e da humanidade.

Estamos no fim do ano de 1223, numa pequena aldeia da montanha do Vale de Rieti, no centro da Itália. Esta aldeia chama-se Greccio. Ali o ano deve terminar como todos os outros: no frio, na distância isolada, na pobreza. A neve vai caindo e as atividades externas vão tomando-se raras. As mulheres fiam a lã, e os homens cortam e racham a lenha.

Gruta de Greccio
Diante da lareira, dentro de casa, contemplam o fogo que crepita. Eles, silenciosos, esperam. Esperam o quê? O retorno de dias melhores? A primavera? O sol? Tudo isto e mais ainda: um pouco de calor humano, amizade, alegria. Sonham com um sopro de inocência e de ternura. Mas o que pode trazer-lhes, naquele momento a felicidade?

Na Liturgia, a cristandade escuta: "Oxalá rasgasses os céus e descesses! (Is 63,19) "Céus, destilai orvalho lá do alto; nuvens, fazei chover o Justo..." (Is 45,8). Parece que em Greccio não há ninguém para falar aos corações. É a imensa solidão do inverno. E como são longas as noites de inverno na montanha! Há o uivar dos lobos. Terra gelada, terra ansiosa, a expectativa de um pouco de Amor, "quando enfim verás nascer a aurora divina?"

Ali todos ouvem falar de Francisco de Assis, que lhes ensinou a viver segundo o Evangelho e em grande fraternidade com todas as pessoas. Revela-lhes o verdadeiro rosto de Deus. Não do Deus dos domínios da eclesialidade, nem das Cruzadas, nem do dinheiro. Mas um Deus dos pequenos que vem a nós com doçura. 

E foi ali, em Greccio, que ele teve esta idéia, e tomado por um grande desejo disse aos seus irmãos: "Quero lembrar o Menino que nasceu em Belém, os apertos que passou, como foi posto num presépio, e ver com os próprios olhos como ficou em cima da palha, entre o boi e o burro." (1Cel, 84).

Naquele tempo, ainda não existiam os presépios de Natal, principalmente os presépios vivos. A ideia era nova, simples, e até ingênua.

Tinha surgido no coração de Francisco como uma chama de Amor. Uma idéia extraordinária como só os poetas podem ter, pois são eles que nos fazem voltar aos olhos da infância. E, logo, reencontramos os segredos perdidos. Um boi e um burro, um estábulo; e o Natal é restituído com o realismo de sua ternura.

Ver e fazer ver o Filho de Deus, nascendo ao mundo na humildade e na pobreza de um presépio entre animais; nada era mais importante para o futuro do mundo. Numa sociedade mercantil, onde o soberano era o dinheiro, o que podia ser mais útil do que fazer brilhar a gratuidade de um Deus? Num mundo de clérigos ávidos de poder e honra, o que podia ser mais salutar do que lembrar a humildade de um Deus? E num tempo de guerras, violências, Cruzadas... o que podia ser mais urgente, mais necessário do que fazer ver a doçura e a mansidão de um Deus?

Não era só uma simples ideia. Era toda a vida de Francisco. Reinventar o Natal, Reencontrar a Humanidade, a Ternura de Deus era o que Francisco queria para si mesmo, para os irmãos e para o mundo inteiro. Era o seu presépio vivo. Era preciso ver longe, muito longe. E assim, a partir da coisa mais simples do mundo, fora dos caminhos comuns, dos caminhos batidos, ele reencontrava a Fonte Oculta da Ternura e da Fraternidade. T


Amor que se revela

Com a festa da Epifania, celebramos o amor de um Deus que em seu Filho deseja revelar-se a todos os povos, representados pelos magos que seguem a estrela nascente.
À primeira vista,pode parecer estranho que, desejando revelar-se a todos, Deus se encarne numa criança indefesa, na cidadezinha sem importância de Belém, no meio de gente simples e humilde. Em vez de se revelar triunfalmente, com sinais espetaculares, Deus faz nascer uma estrela, a indicar o caminho até seu Filho. Uma estrela que é o presente divino ao desejo humano de encontrar a eternidade, o próprio Senhor e criador.
Em cada gesto de bondade e vida, podemos reconhecer hoje a estrela guia. E vivendo os valores ensinados pelo Mestre, oferecemos ao mundo sinais de que o Senhor continua vindo sempre até nós. Ele vem sempre, nas coisas simples da vida, e nos dá forças no trabalho diário, na alegria compartilhada, na solidadriedade que busca aliviar a dor dos que sofrem no corpo e na alma.
Os presentes dos magos nos indicam quem é o menino recém-nascido, ajudando-nos a compreender sua missão. O ouro indica que ele é o verdadeiro rei, diferente dos reis da terra, pois Jesus vem instaurar o reinado de Deus, pelo perdão e pela justiça. O incenso indica que ele é Deus e como tal deve ser adorado,em seu infinito poder de amar e dar a vida. A mirra indica a natureza humana de Jesus, Deus que se encarna, assume a condição humana, sofre até as últimas consequências e dá a vida na cruz.
E nós, onde e quando temos encontrado o Senhor? Quais presentes temos oferecido a Ele? O discípulo de Jesus não vive à espera de sinais, mas transforma sua vida em sinal para o mundo: sinal do amor de um Deus que continua caminhando conosco.

Pe. Paulo Bazaglia, ssp sobre o Evangelho deste domingo 06/01/2014

sábado, 4 de janeiro de 2014

O juiz da terra

Cantai a Iahweh um cântico novo, pois ele fez maravilhas, a salvação lhe veio da sua direita, de seu braço santíssimo.
Iahweh fez conhecer a sua vitória, revelou sua justiça aos olhos das nações: lembreo-se dos eu amor e fidelidade em favor da casa de Israel.
Os confins da terra contemplaram a salvação do nosso Deus.
Aclamai a Iahweh, terra inteira, dai gritos de alegria!
Tocai para Iahweh com a harpa e o som dos instrumentos; com trombetas e o som da corneta aclamai ao rei Iahweh!
Estronde o mar e o que ele contém, o mundo e os seus habitantes; batam palmas os rios todos e as montanhas gritem de alegria diante de Iahweh,pois ele vem para julgar a terra: ele julgará o mundo com justiça e os povos com retidão!


Salmo 97 - Bíblia de Jerusalém

Resultados Imediatos

"O motivo de muitos desistirem dos seus ministérios é porque almejam resultados imediatos e querem fazer do seu jeito. Somos guerreiros, soldados e devemos estar sob a direção do Grande General de Guerra para que possamos ter grandes vitórias.
Deus sempre tem algo novo, aprendizado novo para todos nós, pois maior é aquele que está em nós do que aquele que está no mundo".

FONTE: Filhos Espirituais de Pe. Pio

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

As épocas do coração

Um segundo tema constante na espiritualidade do Carmelo é a necessidade de decidir a que Deus seguir. Nossa tradição nasce no Monte Carmelo, o lugar da luta entre os seguidores Yahvé e os seguidores de Baal. Elias exortou o povo a fazer com segurança sua escolha do verdadeiro Deus. Os carmelitas, tanto em comunidade como individualmente, têm que lutar sempre contra as forças da desintegração e da fragmentação que trazem os interesses pelos ídolos.
Nicolas Gálico em sua obra intitulada Ignea Saggita, acusou os membros da Ordem de perder o caminho enquanto iam migrando do deserto à cidade e iam se acostumando a seus atrativos. Acusou-os de seguir seus próprios desejos desordenados, com a desculpa de um ministério necessário. As reformas de Albi, Mantua , Juan Soret, Teresa de Ávila e Tureme continuamente recordavam aos carmelitas que deviam ter um só Deus, e servir a esse Deus com todo o coração .
Os santos de nossa tradição sabiam o quanto é difícil encontrar e seguir a esse Deus verdadeiro e distingui-lo entre os falsos deuses que nos são oferecidos. Esta presença no profundo de nossas vidas, nós a encontramos no mundo ao nosso redor. No Cântico Espiritual João da Cruz diz : “E todos quantos vagam, de ti me vão mil graças relatando...” Teresa de Ávila aconselhou: Deixem que as criaturas lhes falem de seu criador”
Em nossa exuberância pedimos à criação de Deus que seja mais do que é. Com regularidade colocamos os desejos de nossos corações em alguma parte da criação de Deus e pedimos que seja a realização daquilo que procuramos. Pedimos a alguma parte da criação que não seja criada . Tomamos um bem e pedimos que se converta em um deus.
O coração, cansado de sua contínua peregrinação, procura assentar-se e construir para si uma casa, negando-se a seguir adiante. Convive com os deuses menores, encontrando gozo, paz, identidade, segurança e outros alívios para seus desejos. Este consolo temporal mascara um problema espiritual e também um problema de desenvolvimento humano. João da Cruz estava convencido que quando a pessoa se centraliza em algo ou alguém que não é Deus, a personalidade se desequilibra.
Estas “prisões” criam uma situação de morte. Nenhuma coisa ou pessoa a quem eu peça que seja meu deus, e que realize meus desejos mais profundos, pode corresponder a esta expectativa. O ídolo ao qual eu peço que seja meu “tudo”, começará a derrubar-se sob essa pressão. E porque não podemos crescer mais do que nossos deuses, um deus menor significa um ser humano menor. Em conseqüência, aquilo a que estou “atado” morre ante minha necessidade, e eu morro junto com ele, porque meus desejos mais profundos não podem encontrar nada nem ninguém que possa estar no seu grau de elevação e intensidade.
O dinamismo auto-transcendente de nossa humanidade nos impede concluir que já chegamos ao final da viagem. Afirmar prematuramente a vitória, enquanto estamos apegados aos ídolos, nos levaria a deixar de exercitar-nos numa autêntica auto-transcendência. Em outra palavras, o coração já não é livre para escutar e seguir o convite do amado. Esta escravidão do coração é o resultado do desejo desordenado. A solução está na libertação do coração que não consegue aniquilar o desejo senão reorientando-o.

AS ÉPOCAS DO CORAÇÃO
A DINÂMICA ESPIRITUAL DA VIDA CARMELITANA


sábado, 14 de dezembro de 2013

São João da Cruz

São João da Cruz

O santo deste dia é conhecido como “doutor místico”: São João da Cruz. Nasceu em Fontiveros, na Espanha, em 1542. Seus pais, Gonçalo e Catarina, eram pobres tecelões. Gonçalo morreu cedo e a viúva teve de passar por dificuldades enormes para sustentar os três filhos: Francisco, João e Luís, sendo que este último morreu quando ainda era criança. Como João de Yepes (era este o seu nome de batismo) mostrou-se inclinado para os estudos, a mãe o enviou para o Colégio da Doutrina. Em 1551, os padres jesuítas fundaram um colégio em Medina (centro comercial de Castela). Nele, esse grande santo estudou Ciências Humanas.
Com 21 anos, sentiu o chamado à vida religiosa e entrou na Ordem Carmelita, na qual pediu o hábito. Nos tempos livres, gostava de visitar os doentes nos hospitais, servindo-os como enfermeiro. Ocasião em que passou a ser chamado de João de Santa Maria. Devido ao talento e à virtude, rapidamente foi destinado para o colégio de Santo André, pertencente à Ordem, em Salamanca, ao lado da famosa Universidade. Ali estudou Artes e Teologia. Foi nesse colégio nomeado de “prefeito dos estudantes”, o que indica o seu bom aproveitamento e a estima que os demais tinham por ele. Em 1567 foi ordenado sacerdote.
Desejando uma disciplina mais rígida, São João da Cruz quase saiu da Ordem para ir ingressar na Ordem dos Cartuxos, mas, felizmente, encontrou-se com a reformadora dos Carmelos, Santa Teresa D’Ávila, a qual havia recebido autorização para a reforma dos conventos masculinos. João, empenhado na reforma, conheceu o sofrimento, as perseguições e tantas outras resistências. Chegou a ficar nove meses preso num convento em Toledo, até que conseguiu fugir. Dessa forma, o santo espanhol transformou, em Deus e por Deus, todas as cruzes num meio de santificação para si e para os irmãos. Três coisas pediu e acabou recebendo de Deus: primeiro: força para trabalhar e sofrer muito; segundo: não sair deste mundo como superior de uma comunidade; e terceiro: morrer desprezado e escarnecido pelos homens.
Pregador, místico, escritor e poeta, esse grande santo da Igreja faleceu após uma penosíssima enfermidade, em 1591, com 49 anos de idade. Foi canonizado no ano de 1726 e, em 1926, o Papa Pio XI o declarou Doutor da Igreja. Escreveu obras bem conhecidas como: Subida do Monte Carmelo; Noite escura da alma (estas duas fazem parte de um todo, que ficou inacabado);Cântico espiritual e Chama viva de amor. No decurso delas, o itinerário que a alma percorre é claro e certeiro. Negação e purificação das suas desordens sob todos os aspectos.
São João da Cruz é o Doutor Místico por antonomásia, da Igreja, o representante principal da sua mística no mundo, a figura mais ilustre da cultura espanhola e uma das principais da cultura universal. Foi adotado como Patrono da Rádio, pois, quando pregava, a sua voz chegava muito longe.
São João da Cruz, rogai por nós!