domingo, 21 de dezembro de 2014

Pelo sim de Maria, Deus se fez carne

Deus intervém na vida de Maria e a convida para ser a mãe do Salvador do mundo, Jesus Cristo. Jesus se fez corpo no corpo de Maria, verdadeiro santuário que Deus desejava para hospedar no seio da humanidade. Graças ao sim de Maria, a palavra viva de Deus toma corpo num corpo materno. Com isso, Deus encontra uma casa para morar.
O coração da pessoa é o santuário onde Deus deseja habitar. É o templo vivo, formado por seres humanos, pedras vivas, das quais Maria foi a primeira.
O anjo vai ao encontro da jovem Maria enquanto ela realiza suas tarefas cotidianas. Assim Jesus marca presença lá nas atividades do dia a dia, onde as pessoas vivem, convivem e trabalham. Deus se faz carne para viver junto com os mortais, não para ficar preso nos santuários e trancado nas sacristias. Segundo o papa Francisco, a Igreja não pode ficar fechada em si mesma, mas deve ir ao encontro, abrir-se ás necessidades das pessoas, sair do comodismo e buscar as periferias que carecem da luz do evangelho.
A novidade da vinda de Jesus é que ele não nasce de uma personagem poderosa e influente nem em um grande centro político e religioso, mas nasce da generosidade de uma jovem inexperiente e desconhecida e numa vila sem nenhuma importância. Nazaré, de onde nada se esperava. Ele não vem com poder, como um guerreiro forte e assombroso, nem quer ser um líder triunfalista, mas é o Mestre do serviço e da doação. Veio revelar e construir o reino de Deus, reino da paz, da justiça, do amor e da solidadriedade.
Deus se faz gente na pobre criança de Nazaré para tornar divino o humano. Jesus elevou á dignidade de filhos e filhas de Deus todo ser humano que vem ao mundo. É a concretização da comunhão entre o céu e a terra, já não mediante uma instituição, mas por meio de um menino.

Pe. Nilo Luza, ssp sobre o evangelho deste domingo 21/12/2014

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Abençoado é aquele que mantém o coração temente a Deus

Abençoado é aquele que mantém o coração temente a Deus mesmo diante cheio de doenças e enfermidades. Que tudo a Ele entrega, se purifica dos seus pecados e oferece pela humanidade os seus sofrimentos e as suas dores.
Ambos eram justos diante de Deus e obedeciam fielmente a todos os mandamentos e ordens do Senhor” (Lucas 1,6).
A Palavra de Deus hoje mostra-nos dois personagens, um casal, um homem e uma mulher tementes a Deus, em idade avançada. No coração destes dois seres humanos podia haver certa frustração ou revolta contra Deus, porque, naquele tempo, alguém não ter gerado filhos poderia se considerar uma pessoa que não era abençoada. E quando alguém não se sente abençoado, se sente então rejeitado por Deus.
Ao contrário disso, Zacarias e Isabel sentiam-se amados por Deus apesar da contingência física, de viverem tantos anos juntos e não poderem ter gerado filhos, isso os tornava tementes a Deus, isso os tornava, cada vez, mais servos d’Ele. Não, eles não se condicionaram a servir a Deus por Ele agraciá-los ou não agraciá-los; porque, na verdade, sentiam-se muito agraciados porque Deus estava com eles.
E como é que Deus estava com Zacarias e Isabel? Deus está no coração daqueles que Lhe são fiéis, daqueles que obedecem a Seus ensinamentos e guardam as Suas Leis e Suas ordens apesar das contrariedades, apesar de muitas vezes as coisas não acontecerem, humanamente, como queremos ou planejamos.
Eles não tiraram o coração da Lei do Senhor Deus, não colocaram seu coração na revolta ou na frustração, por isso desde a juventude eram servos do Senhor e tinham um coração temente a Deus.
Deixe-me dizer a você: não importa aquilo que hoje na sua vida possa parecer uma certa frustração. Alguns estão tristes porque não tiveram filhos, outros estão tristes porque os tiveram, mas os perderam em acidentes, tragédias ou para o mundo; porque o mundo os levou, os atraiu. Outros se sentem tristes porque não foram bem nos seus negócios, não foram financeiramente bem-sucedidos.
As coisas darem certo ou não para você não é sinal de ser menos ou mais abençoado por Deus. A bênção de Deus não é pelo que temos, a bênção de Deus é por aquilo que somos diante d’Ele! Pode ser que sejamos visitados por todas as doenças e enfermidades e achemos que o abençoado é quem está sadio, aquele que é atleta, que corre para lá e para cá. Não! O abençoado é aquele que, mesmo cheio de doenças e enfermidades, mantém o coração temente a Deus e não se revolta contra Ele. Tudo a Ele entrega, se purifica dos seus pecados e oferece pela humanidade os seus sofrimentos e as suas dores.
Abençoado e agraciado por Deus é aquele que passa por dificuldades, por frustrações, por sentimentos não realizados e tudo oferece como dom a Deus. Como Zacarias, o sacerdote que se apresentava todos os dias diante do Senhor.
Um anjo de Deus vai visitá-lo, pode ser que não seja para lhe dar aquilo que seu coração tanto anseia, mas para comunicá-lo do prêmio da fidelidade ao Senhor Nosso Deus! Deixe-se ser surpreendido pelo melhor de Deus! O melhor de Deus não é aquilo que, humanamente, achamos que será melhor; o melhor de Deus é ter o Seu consolo, a Sua proteção, o Seu amor e os Seus amparos! Os Seus anjos vêm em nosso socorro, como foram ao encontro de Zacarias e Isabel para anunciar que Deus estava com eles.
Hoje, quero ser anjo de Deus, voz de Deus, para a sua vida! Não importa o que você esteja passando ou sofrendo, seja temente, obediente e fiel a Deus. Ele está com você e isso ninguém pode tirar!
Deus abençoe você!
http://homilia.cancaonova.com/homilia/abencoado-e-aquele-que-mantem-o-coracao-temente-a-deus/

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

O terço da divina misericórdia e a conversão da minha avó

A idosa ganhava a vida lendo cartas, temendo a morte e era incapaz de rezar: sua neta Violetta decidiu agir

Violetta é uma jovem alemã de 20 anos que tinha um carinho especial pela sua avó. Além do amor natural, ela tinha uma razão a mais para gostar da avó: “Ela sempre foi boa conosco, defendia a mim e aos meus irmãos do nosso pai, que batia em nós”, recorda a jovem. Era algo além da proteção física, porque ela também os alimentava.

Como? “Ao longo de quase toda a sua vida, ela se dedicou a ler cartas para ganhar dinheiro. O benefício que tirava disso era que assim podia nos sustentar”, conta a moça.

Violetta é católica, assim como sua avó (pelo menos formalmente), mas a idosa, aos 88 anos e ainda gozando de boa saúde, não ia à Igreja: “Não me lembro de tê-la visto rezar ou ir à missa”.

Uma “fada boa” incapaz de rezar

Isso torturava sua neta, que tinha boa formação cristã. “Infelizmente, ela parecia ser uma 'fada boa', então muita gente a procurava para que ela adivinhasse seu futuro. Quando eu era pequena, achava que tudo isso era normal, não era consciente de que ler cartas é pecado e poderia trazer muitas desgraças”, conta Violetta.

Quando a senhora começou a ter os problemas de saúde próprios da sua idade, mudou-se para a Polônia para morar com sua filha, mas isso não mudou sua aversão à religião, aparentemente incompreensível.

Ela não via sentido na oração nem na missa. “Até quando meu avô morreu, no ano passado, ela nem foi à missa dele.” Às vezes, ela reconhecia que havia “algo” que a assustava e que tinha medo da morte, mas era incapaz de rezar. “Minha mãe queria chamar um padre para confessá-la, mas, como ela não queria saber nada disso, esta opção não existia.”

“Eu mesma me lembrava sempre da minha avó em minhas orações e pedia a Jesus que tivesse misericórdia dela, que lhe desse a graça de poder confessar-se e receber seu perdão antes de morrer", explica Violetta.

Para casos especiais: terço da divina misericórdia

Vendo que nada mudava, no final do mês de agosto, a jovem decidiu rezar o terço da divina misericórdia durante o mês de setembro.

No dia 22 de setembro, recebeu um telefonema: a idosa havia sido levada de ambulância ao hospital, devido a um infarto, e estava internada: “Eu fiquei horrorizada, imaginando que minha avó poderia não ter tempo de se reconciliar com o Senhor, mas logo depois ficamos sabendo que ela havia melhorado de saúde”.

Violetta intensificou sua oração do terço da divina misericórdia, pedindo a Jesus que sua avó não morresse naquele estado: “Eu suplicava e chorava... Pedia a Jesus que lhe mostrasse sua misericórdia e que visse as coisas boas que ela tinha feito por nós”.

E o milagre aconteceu. Foi precisamente a idosa que contou o ocorrido: “Um padre passou pelo meu quarto e eu o chamei. Ele esteve comigo duas vezes. Eu me confessei, comunguei e beijei a mão do padre. Agora eu já posso morrer”.

O padre deu à avó de Violetta uma pequena imagem de Jesus Misericordioso, com a seguinte nota: “No dia 22 de setembro, ela se confessou e recebeu a Sagrada Comunhão”. Este era o dia do aniversário de Violetta.

“Jesus, eu te agradeço de todo coração!”, conclui a jovem.

http://www.aleteia.org/pt/estilo-de-vida/artigo/o-terco-da-divina-misericordia-e-a-conversao-da-minha-avo-6339930703790080?utm_campaign=NL_pt&utm_source=daily_newsletter&utm_medium=mail&utm_content=NL_pt-18/12/2014

domingo, 14 de dezembro de 2014

Cinco perigos mortais da cultura de hoje

A história julgará severamente a nossa civilização

Joanidea Sodret CC
Eu acredito sinceramente que os católicos podem e devem abraçar o que existe de bom na cultura atual e servir-se dela de maneira construtiva para agir no mundo a fim de produzir nele um impacto positivo.

Mas a necessidade de "servir-se dela de maneira construtiva" não poderia ser mais urgente, assim como as consequências da falta de ação positiva no mundo atual não poderiam ser mais terríveis. Vários traços da nossa moderna sociedadeocidental serão julgados com severidade pela história, e, com visão imparcial, podemos identificá-los desde já. Cito cinco deles.

1. O abandono da família por parte dos homens

A família foi a maior invenção da história para trazer a paz, a estabilidade e a prosperidade aos seres humanos. Antes do surgimento do cristianismo, o modelo de pai e mãe fiéis um ao outro e aos filhos estava muito longe de ser o padrão. Foi o cristianismo que definiu o mais elevado conceito de família, e foi o conceito de família que nos permitiu garantir os direitos das crianças e das mulheres, além de embasar uma unidade estável e amorosa na qual a civilização pudesse desenvolver-se e florescer.

O desprezo pelo modelo de família tradicional é um fator de crucial importância no aumento da pobreza. As famílias tendem a ficar presas num círculo vicioso em que os homens abandonam suas responsabilidades e, agindo assim, “convencem” a próxima geração a seguir os mesmos passos. Quando os homens abandonam suas famílias, os filhos acabam recebendo menos educação e ficando mais expostos ao crime e à violência.

Será que a história vai nos marcar como a cultura que conseguiu extinguir a instituição da família?

2. O extermínio dos mais frágeis

"Toda sociedade será julgada com base no seu modo de tratar os membros mais fracos", declarou o papa João Paulo II, numa afirmação absolutamente certa. Ficamos horrorizados com os pecados das sociedades do passado: torturas, punições assustadoras e perseguições raciais. As culturas do passado eram muito mais brutais do que a nossa, desde que não levemos em conta o aborto.

E por quê? Os historiadores do futuro ficarão horrorizados ao documentar que a mesma civilização que conseguiu tantos avanços na compreensão e no tratamento da vida humana ainda no útero também matava um milhão de crianças não nascidas por ano.

Graças aos esforços incansáveis de católicos e de outros cristãos, temos trabalhado com perseverança para superar esta mancha em nossa evolução, mas ainda não conseguimos eliminá-la.

3. A epidemia de suicídios

Os índices de suicídio têm aumentado ao longo do século XXI. Hoje, o gesto de acabar com a própria vida é a terceira principal causa de morte de jovens nos Estados Unidos. Em 2012, ainda nos EUA, o suicídio ultrapassou os acidentes de carro como a principal causa de morte por lesão e se tornou também a principal causa de morte entre os militares da ativa.

Há muitas teorias sobre o porquê deste fenômeno. Uma delas aponta para o crescente isolamento social: é cada vez menos comum as pessoas terem um confidente ou um grupo regular de amigos ou vizinhos com quem possam contar. E a solidão leva ao desespero.

As palavras de São Pedro têm sido, há muito tempo, uma espécie de declaração de missão da apologética cristã: "Sabei dar razão da esperança que habita em vós". O mundo está precisando dessas razões mais do que nunca.

4. A sexualização infantil

Quanto mais as crianças usam as mídias modernas, mais elas são convencidas de que a sexualidade é a coisa mais importante que existe. As meninas, em especial, recebem esta mensagem desde muito jovens, através de peças de vestuário, bonecas e programas de televisão carregados de sensualidade, sem falar no conteúdo online disponível 24 horas por dia.

http://www.aleteia.org/pt/sociedade/artigo/cinco-perigos-mortais-da-cultura-de-hoje-5850862240923648?utm_campaign=NL_pt&utm_source=topnews_newsletter&utm_medium=mail&utm_content=NL_pt-14/12/2014

sábado, 13 de dezembro de 2014

Os profetas fazem nossos corações arderem de amor pelo Senhor

Tanto Elias como João Batista fazem os corações arderem de temor e de amor pelo Senhor! Dois símbolos importantes da nossa fé e história da salvação. 
O profeta Elias surgiu como um fogo, e sua palavra queimava como uma tocha” (Eclesiástico 48,1).
Amados irmãos e irmãs no Senhor, a Palavra de Deus, hoje, neste tempo do Advento, nos convida a prestarmos atenção nessas três figuras importantes para a nossa salvação: o profeta Elias, do Antigo Testamento; João Batista, que é a figura que fica entre o Velho e o Novo Testamento, e Jesus Cristo, Aquele que nos traz a Boa Nova da salvação.
O que eles têm em comum? Claro que, primeiro, os dois, tanto Elias como João Batista, prepararam a seu modo e a seu tempo o caminho do Senhor. A palavra do profeta Elias era como uma tocha, um fogo que se acendia iluminando e, ao mesmo tempo, queimando o coração das pessoas que escutavam sua pregação. A profecia dele ardia em quem o escutava, por isso ele não foi um profeta bem aceito por todos.
Por isso a Palavra de Deus, hoje, por intermédio do Evangelho, recorda-nos esse profeta [Elias]. João Batista assemelha-se a ele, porque o povo tinha no coração que Elias não havia morrido e que voltaria e ainda que ele [João Batista] era como se fosse um outro Elias. São dois personagens distintos, são dois símbolos importantes da fé e da história da salvação e cada um a seu tempo cumpre o seu papel.
A palavra de João Batista também ardia nos corações, queimava o coração das pessoas que o escutavam, por isso os dois, tanto Elias como João Batista, fazem os corações arderem e afligirem-se de temor e de amor pelo Senhor! Porque, na verdade, a Palavra de Deus incomoda, provoca reações, sejam elas contrárias ou contraditórias, porque a palavra do profeta vem para nos incomodar.
Uma vez que essa palavra nos incomoda, nós temos duas respostas para dar: a aceitamos, acolhemos e permitimos que essa mesma palavra vá queimando, ardendo o nosso coração, dando-nos a luz e a clareza daquilo que é de Deus e daquilo que nos afasta d’Ele. E, ao mesmo tempo, esse clarão também vai incendiando dentro de nós o apego ao pecado, as desordens interiores, existentes dentro de nós, e vai incendiando o nosso coração com um amor,  um fervor e um gosto pelas coisas de Deus.
É por isso que Jesus Nosso Mestre e Senhor está no meio de nós nos incendiando com o fogo do Seu amor!
Deus abençoe você!
http://homilia.cancaonova.com/

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

FAZER A VIDA AMÁVEL - O TESTE DA CRUZ

A pedra de toque
O sofrimento é o melhor teste da qualidade espiritual de uma pessoa. O modo de sofrer – se for corajoso, sereno, discreto – revela o nível de maturidade do amor a Deus e do amor ao próximo.
A pessoa egoísta, quando sofre, volta-se para si mesma; sente-se vítima, cai na autocompaixão, reclama e absorve – de modo desagradável e exigente – as atenções dos demais; pode tornar a vida insuportável aos que estão junto dela. Tem muita razão o autor da Imitação de Cristo, quando diz: «Logo nós sentimos e calculamos os sofrimentos que os outros nos causam, mas não nos damos conta dos sofrimentos que nós lhes causamos» (cf., Livro II, cap. 5).
Pelo contrário, quando a pessoa que sofre tem uma alma grande, cresce no amor e amadurece nas virtudes. Com seu exemplo edifica os outros e os ajuda-os a enfrentar, com  fé e com paz, as contrariedades.
Entende-se, deste modo, a frase de São Josemaria: «Não esqueças que a Dor é a pedra de toque do Amor» (Caminho, n. 439). Assim como a “pedra de toque” serve para avaliar a pureza do ouro, a dor abraçada com fé revela a pureza do amor.
Uma longa história de amor e dor
A história do Cristianismo oferece uma corrente ininterrupta de milhares de almas – homens, mulheres, crianças –, que, sustentadas pela fé e o amor cristão, souberam abraçar a Cruz, a renúncia, o sacrifício, os tormentos e a morte, com a alma cheia de paz, felizes por da r a vida, unidos à Cruz de Cristo, pela salvação do mundo. São impressionantes os relatos de incontáveis mártires – antigos e atuais – que, com o exemplo, humanamente inexplicável, da sua paz de alma no meio das torturas, converteram muitos dos que os contemplavam e até alguns de seus próprios carrascos[1].
Fazendo isso, os mártires seguiam os passos de Jesus. Cumpriam ao pé da letra o que escrevia São Pedro: Cristo sofreu por vós, deixando-vos o exemplo, para que sigais os seus passos… Ele que suportou os nossos pecados no seu corpo, sobre o madeiro da Cruz… (1 Pd 2, 21). E o que São Paulo confidenciava: Alegro-me nos sofrimentos suportados por vossa causa e completo na minha carne o que falta aos sofrimentos de Cristo pelo seu corpo, que é a Igreja (Cl 1,24).
São João Paulo II afirmava que, «no final do segundo milênio, a Igreja tornou-se novamente “Igreja dos mártires”. As perseguições contra os crentes –sacerdotes, religiosos e leigos – realizaram uma grande sementeira de mártires em várias partes do mundo. É um testemunho que não se pode esquecer» (Carta Ap. Tertio millennio adveniente, n. 37).
O martírio é um “selo de garantia” da autenticidade do amor cristão. Mas não esqueçamos que há outro “selo” desse amor, por vezes mais difícil: a generosidade com que são aceitas e oferecidas a Deus as contrariedades de cada dia: com saúde ou com doença, com cansaço e sem cansaço, em casa, no serviço, na vida social… «Quantos se deixariam cravar numa cruz perante o olhar atônito de milhares de espectadores, e não sabem sofrer cristãmente as alfinetadas de cada dia! – Pensa então no que será mais heroico» (Caminho, n. 204).
Pense, sim. Por exemplo: O que pode aproximar mais de Deus seus filhos ainda crianças ou adolescentes? Os sermões do pai e da mãe, azedados pela falta de paciência, eriçados de queixas e reprimendas? Ou o exemplo de um pai e de uma mãe que sofrem e sorriem sem perder a calma, que rezam e esperam no meio de padecimentos por vezes muito pesados, e não descarregam as suas dores nos demais?
Essas dificuldades cotidianas são a cruz de cada dia (Lc 9,23), e devem ser um «sacrifício escondido e silencioso», que faz com que um filho de Deus seja «mártir sem morrer» (Caminho, nn. 185 e 622); e o seja sem ter complexo de mártir, sem fazer “cara de vítima”, sem desfigurar o rosto para inspirar compaixão (Mt 6,16). O amor cristão à Cruz – por amor a Jesus Cristo – torna possível padecer sem se vergar sob o fardo da dor; passar mal e continuar assim mesmo a trabalhar e a fazer o bem a todos; e a dar, enfim, com naturalidade até a última gota. Isto é santidade. Esta é uma das melhores maneiras – se não a melhor – de “tornar a vida amável” aos que nos cercam.
«De onde vos vêm as forças?»
São Pedro dá testemunho de que os pagãos, surpreendidos por essa alegria na dor dos cristãos  perseguidos, ficavam pasmados, sem entender nada; e, por isso, o apóstolo recomendava aos fiéis: Caríssimos,…alegrai-vos por participar dos sofrimentos de Cristo… E estai sempre prontos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que a pedir (1Pd 4,13 e 3,15).
Também hoje, comenta São Josemaria, muitos se sentem movidos a perguntar aos cristãos coerentes, quando veem que permanecem serenos no meio de muitas dificuldades: «Como se explica a vossa alegria? De onde vos vêm as forças para vencer o egoísmo e o comodismo?» (É Cristo que passa, n. 148).
A resposta está nestas breves palavras da carta que o Papa Francisco enviou ao Prelado do Opus Dei, com motivo da Beatificação do seu predecessor, o Bispo Álvaro del Portillo: «Este é o caminho da santidade que todo cristão deve percorrer: deixar-se amar pelo Senhor, abrir o coração ao seu amor e permitir que seja Ele quem guie a nossa vida» (A carta inteira foi lida aos participantes da Beatificação, em 27/09/2014, logo antes de se iniciar a cerimônia).
Quer dizer que tudo é uma questão de amor. Só o amor gera amor. Só o amor vivificado pela graça de Deus pode abraçar a dor e transformá-la em amor a Deus e ao próximo. Esse é um prodígio especificamente cristão, infinitamente superior ao fanatismo suicida e à insensibilidade estoica perante a dor.
Alguns testemunhos
Os testemunhos dos cristãos que passaram vitoriosos pelo “teste da Cruz” são inúmeros.
Gosto muito de lembrar São Tomás More, chanceler da Inglaterra, o homem de máxima autoridade no país depois do rei, Henrique VIII. Encarcerado na Torre de Londres por longo tempo, e depois decapitado em 1535 por recusar-se a trair a sua consciência e a sua fé católica, quando já previa a sua execução, dizia à filha predileta, Margareth: «Minha filha queridíssima, nunca se perturbe a tua alma por qualquer coisa que possa vir a acontecer comigo neste mundo. Nada pode acontecer senão o que Deus quer. E tenho plena certeza de que, aconteça o que acontecer, por muito mau que pareça, será na verdade o melhor»[2]. Thomas More deu um heroico testemunho de fé e se abandonou totalmente à vontade de Deus. Fazendo isso, levou ao extremo o “amor a Deus sobre todas as coisas” (cf. Mc 12,30 e Jn 14,23).
Gostaria de lembrar também dois exemplos dos nossos tempos, que pude conhecer bem de perto.
O primeiro, é o de São Josemaria Escrivá, com quem tive a graça de conviver em Roma por dois anos. Coincidi, em 1954, com a época em que o diabetes que padecia alcançou o maior pico de gravidade, tanto assim que esteve à beira da morte. Dou testemunho de que presenciei dia a dia exatamente o que descreve seu principal biógrafo: «Trabalhava e mexia-se como se estivesse bem de saúde… Custava-lhe sorrir; mas os seus filhos recordam-no sempre com o sorriso nos lábios». Nós, os estudantes que o víamos quase diariamente,  «nada notávamos – escrevi há tempo –; de nada se queixava nem com a palavra nem com a expressão do rosto e, por isso, nada nos preocupava. Não sabíamos que, na verdade, durante todos aqueles meses felizes vividos junto de um Padre que irradiava dinamismo e felicidade, estivera atravessando uma das piores fases da sua doença»[3].
O segundo exemplo é de uma menina, Montserrat Grases – cujo processo de Beatificação está em curso –, que faleceu em 1959, aos 18 anos, de um câncer na perna. Da sua tocante biografia extraio só este testemunho de uma amiga dela, que a acompanhou em várias das trinta sessões de radioterapia: «Quando íamos a essas sessões, todas as enfermeiras perguntavam-lhe o que tinha; mas ela mudava logo de conversa e acabava perguntando pelas coisas delas. Fez-se muito amiga de uma enfermeira: soube que aquela moça gostava de desenhar, e ficaram falando dos desenhos e dos problemas da outra… Às vezes, quando terminávamos, a enfermeira dizia-me: – “Como é simpática, alegre e carinhosa esta menina! Mas nunca fico sabendo se a perna lhe dói ou não. Você sabe?” E eu lhe respondia: – “Eu também não sei”. Porém, com certeza no momento de lhe fazerem os curativos, sofria uma barbaridade. Sofria pelos outros. Ela sempre sofria pelos outros» (isto é, oferecia a dor a Deus pedindo pelos outros)[4].
São uns poucos exemplos do “teste da Cruz”. Mas ajudam-nos a perceber como é o bom roteiro do amor cristão testado pela dor. Um roteiro que, com a ajuda de Deus, todos nós podemos percorrer cada vez melhor, seguindo os passos de Cristo.
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