sábado, 20 de janeiro de 2018

“O Cristo de Charles de Foucauld”

O fiel católico crê, firmemente, que Deus se revelou a nós, de diversos modos, desde a criação do mundo

O título acima é o de um livro escrito pelo Pe. Leonardo de Salles, da Diocese de Lins (SP), e publicado pela Editora Palavra e Prece, em 2010, com 96 páginas.
O cerne da obra está no capítulo 2, que vai da página 39 à 54, e é bem delimitado, como o próprio autor deixa claro ao dar a essa parte o seguinte título: A Cristologia em alguns escritos de Charles de Foucauld, ainda que não cite nenhuma obra original dele, mas se valha, em grande parte, do excelente livro Charles de Foucauld: nos passos de Jesus de Nazaré (Cidade Nova, 2004). Eis alguns pontos do livro, a nosso ver, merecedores de maior atenção.
Na página 20, afirma que Foucauld “passou no Mosteiro de Nossa Senhora das Neves seis anos e meio”. Na realidade, esta é uma informação deficiente, pois ele ingressou, realmente, em Nossa Senhora das Neves, em 1890, mas daí se mudou, logo, para Akbès e, depois, ainda, para a Trapa de Staueli, perto de Alger, de onde foi enviado a Roma, em 1896.
À página 27, se lê que a oração de Foucauld “é a de um pobre. Nada de ofício canônico que possa afastar os que não sabem latim”.
Realmente, o “eremita do Saara” desejava para o povo de Deus uma oração mais acessível. Contudo, ele mesmo foi muito fiel ao Ofício Divino, até quando estava em viagem, conforme constatamos na seguinte passagem da longa carta, de 13 de julho de 1905, ao Pe. Huvelin, seu diretor espiritual: “uma coisa me aflige… gostaria de recitar o breviário, ter as horas de oração, de meditação, as pequenas leituras da Santa Escritura, como quando não estou em viagem, ao menos sob certa medida” (Antoine Chatelard. Charles de Foucauld: o caminho rumo a Tamanrasset. São Paulo: Paulinas, 2009, p. 227). Hoje, o Ofício Divino é rezado na língua de cada povo.
Afirma que Cristo era “leigo” (p. 46). O que é sério, pois assegurar que Jesus não usou, por circunstâncias históricas, o título de sacerdote ou de sumo sacerdote – que lhe pertencem (cf. Hb 6-10) – é correto. Isso, todavia, jamais quer dizer que Ele era um leigo como conhecemos hoje. É de fé que Jesus Cristo é o verdadeiro e único Sumo Sacerdote da Nova Aliança. Desse sacerdócio participam os demais sacerdotes.
Aparecem também afirmações que, levadas ao pé da letra, beiram o relativismo. Com efeito, o autor do livro em análise escreve que a espiritualidade de Foucauld não é a “católico romana”, pois ele venceu as “barreiras doutrinais” (p. 57). Mais: “Foucauld está certo que a melhor religião não é esta ou aquela, mas a que nos faz melhor” (p. 63).
Em resposta, notamos que não há como vencer as barreiras doutrinais de cada credo sem cair no relativismo ou mesmo em um sincretismo. Quem decidisse misturar pontos de duas religiões – a católica e a budista, por exemplo – não prestaria nenhum serviço relevante à humanidade, mas, ao contrário, acabaria por fundar uma nova religião que não seria nem a católica nem a budista. Isso, certamente, Foucauld não fez.
Ademais, a melhor religião é, de forma objetiva, aquela revelada por Deus. O próprio termo vem, aliás de religo, are, do latim, que significa a união do ser humano ao Criador (transcendente) e não algo meramente humano (imanente). O fiel católico crê, firmemente, que Deus se revelou a nós, de diversos modos, desde a criação do mundo, e, de forma plena, em Jesus Cristo. O depósito dessa revelação está confiado à Igreja para a autêntica interpretação (cf. Catecismo da Igreja Católica n. 51-67 e 84-85).
Na página 71, ao tratar da Mística poderia ter dito, em termos muito gerais, que por ela se entende a vida de íntima união com Deus a transbordar em caridade para com o próximo. Pode ser, ou não, acompanhada por fenômenos como levitação, estigmas, dom de cura etc.
Na página 84, há a afirmação de que Foucauld soube “amar a Igreja e ao mesmo tempo relativizá-la”. Ora, na vida, ou se ama ou não se ama. Algo não pode ser e não ser ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto. Isso é elementar em Lógica clássica.
Eis algumas observações ao livro O Cristo de Charles de Foucauld.

Vanderlei de Lima é eremita na Diocese de Amparo.

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terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Reunião com os Anjos?



Conta-se que, no século XVIII, ingressou na Ordem dos dominicanos um jovem muito fervoroso, que nos fulgores das graças primaveris era constantemente assistido por seu superior. Qualquer função que devesse desempenhar, ou qualquer dificuldade que encontrasse, estava ali seu encarregado para auxiliá-lo ou ensinar-lhe os pontos da regra.


Certa vez, porém, o superior entrou em retiro, ficando o pobre noviço obrigado a passar um longo período sem a ajuda de seu protetor.


Passados alguns dias, as graças iniciais que costumavam inundá-lo começaram a rarear, as provações e tentações comuns da vida religiosa passaram a visitá-lo com mais frequência. Atordoado e inexperiente em meio ao desconhecido mundo espiritual, pensava haver perdido a vocação, ter sido abandonado pela Providência, ou mesmo ter cometido algum pecado grave… No entanto, pedir auxílio ao encarregado ser-lhe-ia impossível até o término do retiro.


O que fazer? Como resolver tamanho impasse?


Os dias foram correndo, e chegou um momento em que o noviço já não aguentava mais: decidiu pedir um conselho ao superior. Acabado o último ato em conjunto do dia, o cântico da Salve Rainha, dirigiu-se rapidamente à cela do religioso e bateu à porta, um tanto aflito. O superior porém, sem sequer abrir a porta respondeu:


– Agora não! Estou ocupado!


Um encarregado ocupado, durante um recolhimento? O que estaria acontecendo? Teria o jovem se enganado, atribuindo ao seu protetor virtudes que na verdade não possuía? Sua necessidade de um apoio espiritual, porém, era muito grande; optou por insistir mais uma vez:não desistiria facilmente, viu-se obrigado a atendê-lo. Abriu um pouquinho a porta e, por uma fresta, perguntou-lhe o que desejava.


– Perdão, mas… preciso da ajuda do senhor! Estou passando por uma dificuldade assim…


– Não se preocupe – interrompeu-o o superior – Quero que veja uma coisa.


Abriu, então, por inteiro a porta da sua cela e o noviço não pôde acreditar no que estava vendo: inúmeros Anjos ao redor da mesa onde trabalhava o superior. Este, notando a perplexidade do jovem, explicou-lhe:


— Estes são os Anjos da guarda de todos os meus subalternos. Eles me comunicam as provações e necessidades espirituais de cada um para que eu tome alguma providência, lhes escreva uma carta ou os chame para uma conversa e, assim, os ajude no que for preciso. E não por acaso, está também aqui no meio deles, o seu Anjo da guarda que acaba de narrar-me as dificuldades que lhe atormentam…


Diante de tão grande santidade de seu superior e de um tão sublime milagre, dissipou-se na alma do noviço toda e qualquer sombra da provação que lhe afligia, e ele pode, assim, seguir sua vocação religiosa, rezando aos santos Anjos da guarda sempre que as dificuldades e dúvidas se lhe apresentavam.

Vemos nesse belo fato a importância da devoção aos nossos celestes Protetores que não hesitam em nos auxiliar sempre, especialmente quando invocamos sua ajuda.


http://www.arautos.org/secoes/artigos/doutrina/anjos/reuniao-com-os-anjos-196463

domingo, 14 de janeiro de 2018

Você está deprimido ou triste? Reze esta oração do Padre Pio


Se você está afundando na escuridão, é fundamental “levantar a mão” e pedir ajuda

Um pequeno texto anônimo diz: “Erga a mão o mais alto possível e Deus vai completar a distância que os separa”. É a frase à que eu recorro durante aqueles momentos em que sinto chegar certa escuridão emocional: a depressão. Para muitos de nós, essa escuridão é um velho e indesejado amigo, o “cão negro” mencionado por Winston Churchill – também chamado de transtorno afetivo sazonal.
O Manual de diagnóstico dos transtornos mentais (DSM) contém definições clínicas para a depressão. Também podemos recorrer à explicação sobre a escuridão espiritual que são João da Cruz escreve em A noite escura da alma. Seja qual for a maneira pela qual você chegou a um estado depressivo ou qual foi a história que o levou até a doença, a chave nestes momentos é estender a mão e buscar o contato.
O estado de depressão não é um vazio. É um espaço cheio de conhecimento diante do qual estamos momentaneamente cegos. Quando tentamos alcançar esse conhecimento sozinhos, geralmente ficamos cansados para continuar aprofundando. Por isso, sucumbimos às ondas de desespero.
Buscar o contato não é um movimento intuitivo quando estamos debilitados psicológica e espiritualmente. Embora tenham nos ensinado que perder a esperança é virar as costas para Deus, o que é pecado, há outro elemento do desespero que é negligenciado. Vem da Regra de São Bento: “Em tudo Deus seja glorificado”.
Em uma recente confissão, estando eu em uma época de depressão, o padre me deu uma penitência bem concreta. Eu deveria ler sobre Jesus caminhando sobre o mar tempestuoso e sobre o medo de Pedro (em Mateus, 14). Depois, teria que refletir especificamente sobre o momento em que Pedro se desespera e busca a ajuda de Nosso Senhor, naquele segundo antes de Jesus tomar a mão dele.
Foi um momento cheio de dúvidas para Pedro, cuja fé havia fraquejado. Também foi uma resposta intuitiva para uma pessoa que estava se afogando fisicamente: estender a mão, tentar se agarrar a qualquer coisa para salvar a própria vida.
O padre me sugeriu essa imagem para que eu refletisse; uma metáfora para que eu voltasse a estender a mão para Cristo – psicológica e espiritualmente. Eu fiquei surpresa com a rapidez com que o instinto de sobreviver espiritualmente se emparelha ao desejo de viver fisicamente quando se está esgotado e em águas profundas.
Na tranquilidade por saber que o Senhor tomou a minha mão e que eu não afundarei, costumo ler esta oração. Às vezes, leio-a até três vezes seguidas:
Permanece comigo, Senhor, pois eu preciso que estejas presente para que eu não me esqueça de ti. Tu já sabes como é fácil para mim te esquecer.
Permanece comigo, Senhor, pois sou fraco e preciso da tua força para não cair tão frequentemente.
Permanece comigo, Senhor, pois tu és a minha vida, e, sem ti, não tenho fervor.
Permanece comigo, Senhor, pois tu és a minha luz, e, sem ti, sou trevas.
Permanece comigo, Senhor, para me mostrar a tua vontade.
Permanece comigo, Senhor, para que eu ouça a tua voz e te siga.
Permanece comigo, Senhor, pois eu quero te amar muito e estar sempre em tua companhia.
Permanece comigo, Senhor, se desejas que eu seja fiel a ti.
Permanece comigo, Senhor, pois, por mais pobre que seja a minha alma, quero que ela seja um lugar de consolo para ti, um ninho de amor.
Amém.
(São Pio de Pietrelcina – Oração para depois da Comunhão)
A depressão é uma batalha e, para muitos de nós, uma cruz para carregar por toda a vida. Ao carregá-la da melhor forma possível, podemos, ao mesmo tempo em que pedimos ajuda, ser conduzidos a uma maturidade mais profunda na fé. Algo que, como a maioria das virtudes, não é tão simples de conquistar.

https://pt.aleteia.org/2018/01/12/voce-esta-deprimido-ou-triste-reze-esta-oracao-do-padre-pio/?utm_campaign=NL_pt&utm_source=weekly_newsletter&utm_medium=mail&utm_content=NL_pt

Caráter e as virtudes

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É um fato patente que hoje se observa em muitas pessoas – adolescentes, jovens e velhos – uma espécie de incapacidade de dominar os defeitos do seu temperamento, as suas tendências, inclinações e instintos desordenados, bem como os maus hábitos já contraídos. Isso lhes prejudica a perfeição do trabalho, o relacionamento com os outros, a capacidade de amar, a prática serena e profunda da religião…, e, afinal, a eficácia, a paz e a alegria. É notável como tais pessoas se mostram incapazes de autodomínio e perseverança, ou seja, de domínio da vontade e, portanto, de caráter, desse caráter bem formado que constitui a verdadeira personalidade.
Em muitos ambientes atuais, julga-se que ter caráter é ser “independente” de todos e de tudo, também de qualquer norma moral. Quer-se uma absoluta liberdade para que cada qual crie, estabeleça e defenda os “seus valores” (não “os valores”, porque não se acredita em valores absolutos e universais: tudo é relativo). Todos percebemos, infelizmente, qual é o resultado disso. Desastroso. Substitui-se a vontade pelos sentimentos e pelos gostos. Faz-se só o que se sente e o que se gosta, não o que é bom, porque, para essas pobres criaturas sem caráter só é bom o que “me dá prazer”, o que eu “gosto de fazer, …o egoísmo; só isso seria “autêntico”.
Ora, sentimentos, gostos e prazer: nenhuma dessas três coisas é mão para o volante da vida. Deixe-se guiar por elas (desprezando a formação do caráter e as virtudes) e contribuirá para fazer da sociedade atual um imenso redemoinho de egoísmo, que devora as pessoas, as afunda no seu funil assassino e as cospe depois, deprimidas e inúteis, para fora. Quando só existem “apetites” e “ambições”, não existe um caráter que possa ser firme ou alicerçar qualquer coisa.
A vontade – que está na raiz do caráter – é uma potência, uma energia da alma, que pode estar abafada ou liberada. Na situação concreta das nossas vidas, ninguém tem a vontade suficientemente “livre”. Tem que travar-se, em cada um de nós, uma batalha para conseguir desatrelar a vontade das fraquezas, egoísmos, miragens, paixões, maus hábitos e enganos, e torná-la no que deve ser: a grande força serena, a “executiva” racional da conduta humana.
Isso exige uma luta, seriamente orientada e apoiada no auxílio da oração, dirigida a conquistar as virtudes humanas, que são os pilares do caráter.
Com muita precisão, o Catecismo da Igreja Católica explica: “As virtudes humanas são atitudes firmes, disposições estáveis, perfeições habituais da inteligência e da vontade que regulam nossos atos, ordenando nossas paixões e guiando-nos segundo a razão e a fé. Propiciam, assim, facilidade, domínio e alegria para levar uma vida moralmente boa. Pessoa virtuosa é aquela que livremente pratica o bem” (n. 1804). Todas as virtudes humanas, que são muitas, giram à volta das quatro virtudes cardeais: – o que significa “virtudes-eixo” –, da prudência, justiça, fortaleza e temperança (nn. 1805-1809).
Ossos de vidro e asa quebrada
Um homem ou uma mulher ganham personalidade e consistência de caráter na medida em que adquirem essas virtudes humanas. Elas – diz o Catecismo – “com o auxílio de Deus, forjam o caráter e facilitam a prática do bem” (n. 1810).
Sem virtudes humanas solidamente adquiridas, as pessoas – pensemos especialmente nos adolescentes e jovens – crescem como uma criança doente do mal dos “ossos de vidro”, que tivesse tido a desgraça de cair nas mãos de pais irresponsáveis. Poderia estar sendo alimentada com capricho, vestida com o bom e o melhor, educada com os melhores mestres. Mas, se os pais não cuidam de amparar e “escorar”, com as soluções médicas e tecnicamente mais eficazes, a fragilidade do filho, virá uma fratura atrás da outra e, afinal, a incapacitação ou a morte
Há pais que parecem criar filhos para que, muito cedo, acabem reduzidos a cacos. Dão-lhes (assim o julgam) o melhor possível em tudo, menos na formação humana e moral. Não cultivam neles, desde a primeira infância, virtudes sérias, com o incentivo do seu exemplo constante e com o acompanhamento de um “adestramento” prático,boa vontade e de bons sentimentos, ainda que não tenham virtudes (nem fortaleza, nem constância, nem desprendimento, nem altruísmo, nem responsabilidade…), e, assim, os deixam abandonados aos seus caprichos, molezas e desordens, com “ossos de vidro” na alma, desde que tirem notas boas ou aceitáveis, não apanhem doenças nem vícios maiores com os seus desregramentos, e não criem encrencas por aí… paciente, pedagogicamente acertado, incansável. Contentam-se com ver que são “bons meninos”, cheios de
A boa vontade e os bons sentimentos, sem virtudes, são como um pássaro de asa quebrada. Uma das estórias mais lindas de Guimarães Rosa fala de um casal de garças alvíssimas, que apareciam, ano após ano, junto do riachinho Sirimim. Uma delas, atacada por um bicho do mato, foi achada um bom dia, enroscada em folhagens e cipós, com uma asa estraçalhada. “Durou dois dias. Morreu muito branca. Murchou” 1 Eu não gostaria que esse fosse o epitáfio do filho de ninguém. Mas muitos pais, com o seu desleixo e a sua inconsciência, o estão preparando.
Os dois testes das virtudes
As nossas virtudes precisam sempre de duas condições ou, melhor, têm que passar por dois testes de autenticidade: o teste da “prova” e o teste da “unidade de vida”. Vou explicar a seguir.
De uma maneira surpreendente, o apóstolo São Tiago começa a sua Carta, que é palavra de Deus incluída no Novo Testamento, dizendo: “Considerai uma grande alegria, meus irmãos, quando tiverdes de passar por diversas provações”. Na realidade, nós desejaríamos que as provações fossem as menos possíveis. Mas São Tiago não pensa assim, porque sabe que as dificuldades que nos põem a prova e nos fazem sofrer podem derrubar-nos, mas – e isso é o que interessa – podem também ser o meio de temperar, de consolidar e fortalecer as nossas virtudes. E, por isso, acrescenta que a prova “produz em vós a constância; e a constância deve levar a uma obra perfeita ” (Tiag 1, 2-4).
São Paulo é do mesmo parecer: “Sabemos que a tribulação gera a constância, a constância leva a uma virtude provada e a virtude provada desabrocha em esperança” (Rom 5, 3-4) 2.
Há coisa mais maravilhosa do que uma mãe sempre serena, com uma serenidade sorridente e ativa, que atravessa problemas financeiros, tribulações de saúde, preocupações com o marido e os filhos, sem mostrar abalo, infundindo sempre neles paz, segurança e uma visão esperançosa do futuro? Todos nós conhecemos e admiramos mães assim, forjadas na dificuldade como ouro testado no fogo (I Pedr 1, 7); generosas sem alarde, heróicas, cuja lembrança nos arranca lágrimas dos olhos. Vimo-las, por vezes, chegar ao extremo, à hora da morte, após longa e sofrida doença, derramando a mesma serenidade de sempre sobre os corações dos seus, esquecidas de si mesmas, consolando e animando a todos, e deixando atrás de si uma esteira de luz. Isto é que é “esplendor da virtude”! Isto é que são virtudes “provadas”!
Não há virtudes fáceis. Não são verdadeiras as virtudes que aparecem nos momentos fáceis e desaparecem nos difíceis.Mas também não há virtudes “especializadas”, só para certos ambientes, e determinadas ocasiões. Aí temos que enfrentar-nos com o segundo teste, o da unidade de vida. Infelizmente, não é raro que muitos cristãos, quando estão com os amigos, os colegas de clube e as relações profissionais, pratiquem admiravelmente as virtudes da convivência. São amáveis, conversadores bem-humorados, prestativos, disponíveis. Chegam, porém, em casa, e parece que o mesmo homem virou “lobisomem”: seco, taciturno, antipático, mal-humorado, reclamando de tudo, isolado no seu jornal, na tv ou na Internet, incapaz de uma palavra ou de um gesto de carinho cálido. Que aconteceu? Que as “virtudes” exibidas em ambientes sociais eram isso, sociais, fachada inautêntica.
Pequena reflexão sobre as virtudes cardeais
Penso que, como simples amostra – dirigida agora especificamente aos pais – , podem-nos ajudar algumas pinceladas sobre as quatro virtudes cardeais. Serão rápidas, impressionistas, e mostrarão apenas umas poucas moedas do tesouro riquíssimo que guarda cada uma delas 3.
Prudência. Como ajuda e enche de segurança ter um pai que seja alegre, sensato e reflexivo. Que não improvise. Que não dê decepções a toda a hora. Que não mude de planos sem mais nem menos. Que não dê sustos por ter-se esquecido de controlar as contas bancárias, ou os prazos disso ou daquilo, que não precise ouvir aquelas palavras do Paraíso de Dante: “Siate, cristiani, a muovervi più gravi: non siate come penna ad ogni vento…” (“Cristãos, caminhai com mais ponderação: não sejais qual pena movida por qualquer vento…”) 4.
Justiça. Como faz bem aos filhos ter um pai e uma mãe que cumprem o que prometem. Que não se desdizem, porque fica mais difícil aquele passeio com os filhos e estão cansados e são comodistas. Que não tratam os filhos como números, com ordens genéricas, iguais para todos, como se o lar fosse um depósito de robôs, mas, como pede a justiça, tratam desigualmente os filhos desiguais, logicamente não por diferenças motivadas por mimos ou preferências injustas. Que, se fazem uma repreensão justa e prometem um pequeno ou médio castigo (castigo grande quase nunca se justifica), não amolecem, mas cumprem, sem deixar de cercar o filho punido da certeza de que é muito amado e só se quer o seu bem.
E também fazem bem aos filhos outras “justiças” menores do cotidiano. Por exemplo, saber que os pais não se aproveitam nunca de um troco errado (devolvem ao caixa a diferença), nem dão jeitos para enganar e deixar de pagar uma entrada, que qualquer pessoa honesta paga.
Fortaleza. Bastaria lembrar da mãe que admirávamos há pouco. Mas é também um exemplo maravilhoso viver num clima familiar em que não se ouvem queixas nem reclamações, nem gemidos. Em que ninguém se julga mártir ou vítima. Em que o pai, exausto, é capaz de ficar brincando com os filhos, interessando-se pelas suas pequenas problemáticas ou pelos seu sonhos e alegrias, e tudo isso, sabendo oferecer a todos um sorriso carinhoso, no meio da pena ou do esgotamento. Pais que sempre projetam a bela luz da paciência e da constância.
Temperança. Que grande exemplo dão os pais que nunca são vistos, nem dentro nem fora de casa, nem nos dias de trabalho nem aos domingos e feriados, abusando da comida e da bebida. Que não se iludem, achando que vão enganar os filhos dizendo-lhes que se trata só de um “aperitivo” ou uma “cervejinha”, de que precisam muito porque andam fatigados e faz bem para a saúde (quando os filhos os vêem claramente “altos”, com a voz gosmenta e as pernas bambeando por excesso de álcool). Pelo contrário, como toca o coração ver uma mãe que habitualmente “gosta” do pedaço de carne que tem mais nervos e gorduras, ou ver o pai que “gosta” do cinema que a mãe adora…, mesmo em dias em que seu time joga.
E a temperança na questão de TV e de Internet? Acham que os filhos são tolos? Em matéria de informática, quase sempre dão um solene “chapéu” nos pais, e descobrem muito facilmente (pois ainda não aprenderam a viver a virtude da discrição e a controlar a curiosidade) a quantidade de sites inconvenientes que o pai visitou, como se fosse um adolescente com obsessão sexual neurótica.
E em matéria de humildade, que São Tomás de Aquino situa dentro do âmbito da temperança? Como se nota a falta de humildade e como faz mal! Por isso, é tão formativo que os filhos percebam que os pais não se deixam arrastar por mesquinharias de susceptibilidade, por mágoas persistentes, por rancores e incapacidade de perdoar. Que nunca vejam os pais virando o rosto para ninguém, nem dominados por espírito de revide e vingança, nem falando com ódio do cunhado que fez isso ou da tia que fez aquilo…
Virtudes humanas! São tantas as que deveríamos cultivar! Cultivar e ensinar é um empreendimento árduo, mas é decisivo, e, por isso, deve ser enfrentado e levado a termo incansavelmente, com a graça de Deus.


(Adaptação de trechos dos livros de F. Faus: Autodomínio e A força do exemplo)
1 João Guimarães Rosa: Ave, Palavra, Liv. José Olympio, Rio de Janeiro 1070, págs. 270-274
2 Cfr. F. Faus; O valor das dificuldades, Ed. Quadrante, São Paulo, 1989
3 Cfr. Catecismo da Igreja Católica, nn. 1803 a 1811 e seu Compêndio, nn. 377 a 383
4 Dante Alighieri: Commedia, Paradiso, V, 73-74.

sábado, 13 de janeiro de 2018

Oração para o anjo da guarda


"Anjo de Luz, guardião da minha vida. A ti fui confiado pela santa misericórdia de Deus. Ilumina a minha alma, guarda-me dos males, orienta a minha inspiração, fortalece a minha sintonia com Deus e torna-me forte diante dos percalços. Lembra-me todos os dias de não julgar nem ferir. Tinge a minha mente de amor e harmonia para que eu possa tornar o mundo melhor, agora e para todo o sempre.
Amém."


quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Armas na luta contra o maligno

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Para essa luta contra o mal, na qual estamos todos nós empenhados, o Senhor nos oferece "armas", além da prudência que devemos ter para evitar toda contaminação. São elas:

_  A Palavra de Deus;
_ A invocação do Nome de Jesus;
_ O clamor do poder do Sangue de Jesus;
_ O louvor a sós ou comunitário;
_ A frequência aos sacramentos, especialmente à Eucaristia e Reconciliação;
_ A invocação dos Santos Anjos;
_ A ajuda da comunidade;
_ A oração, o jejum, as vigílias;
_ A oração de libertação, cortando os laços que nos prendem aos antepassados, laços esses relativos ao ocultismo ou a toda contaminação e opressão do ocultismo;
_ A recitação do Magnificat e do Salmo 90;
_ A invocação de Maria, o terço e principalmente o Rosário;
_ A renovação das promessas do Batismo, renunciando, mais uma vez, à satanás, ao mal, às religiões falsas, e entregando-nos totalmente a Jesus Cristo, como o Senhor de nossa vida;
_ O revestimento da armadura de Deus, como vemos em Efésios 6, 10-20.


Rev. Mons. Vincent M. Walsh, Conduzi meu Povo (São Paulo, Edições Loyola, 1982), p. 72

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Como identificar pensamentos suicidas


Utilidade pública: 9 fatores de risco e uma pergunta

Muitos de nós nos sentimos impotentes quando se trata de reconhecer um suicídio.
“Isso é tão trágico”.
“Que desperdício de uma bela vida”.
“Por que ele não nos falou sobre isso?”
Muitas vezes, estamos totalmente perdidos em como lidar com o suicídio, um assunto profundamente devastador.
Mas estamos muito mal informados pra discutir isso de forma substancial. O que é compreensível, pois a maioria de nós não é treinada em serviços psiquiátricos e faz o melhor para lidar com as próprias dificuldades na vida.
Descobrir como resolver o problema do suicídio parece estar acima de nossa autoridade.

É importante que cada um de nós se comprometa a ser melhor em falar sobre isso e quebrar certos tabus.

Como identificar que uma pessoa está pensando em suicídio 1
A verdade é que cada um de nós pode ter um amigo suicida neste momento que não está nos contando sobre isso.
Eles não nos contam porque sabem que vivem em um mundo cruel, mal preparado para ajudá-los sem julgá-los.
A principal razão que impede as pessoas que pensam em acabar com a própria vida de falar sobre o suicídio é o medo de serem rotuladas como frágeis e problemáticas pelo resto da vida.
É preciso muita coragem para falar sobre o desejo de se suicidar, especialmente quando você está passando por isso.
Toda pessoa apresenta risco de suicídio. O suicídio não tem rosto.
Mães, pais, jovens, pastores, artistas, o pensamento de acabar com a vida pode enraizar-se na mente de todos.
Mas existem alguns grupos que são mais propensos ao suicídio do que outros.
De acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, lésbicas, gays e bissexuais têm quatro vezes mais probabilidade de tentar se suicidar do que pessoas heterossexuais.
25% dos jovens transgêneros relataram terem tentado tirar a própria vida.
O que algumas pessoas não sabem é que se livrar dessa ideia e aprender a curtir a vida não é uma opção para aqueles que estão verdadeiramente deprimidos.

Por que o suicídio começa a parecer uma opção viável?

Como identificar que uma pessoa está pensando em suicídio 3
John Gibson, um pastor cujo nome foi lançado recentemente como parte do hack de Ashley Madison (onde muitas pessoas foram expostas por criarem contas com a intenção de traírem seus cônjuges) cometeu suicídio em agosto.
“Ele falava sobre a depressão. Ele falava sobre ter seu nome lá, e ele me disse que estava muito, muito triste. O que sabemos sobre ele é que ele devotou a vida à outras pessoas, e ele o fez de graça, misericórdia e perdão para todos. Mas de alguma forma, ele não conseguia estender isso para si mesmo”.
– Christi Gibson, sobre o suicídio de seu marido, John.
Jody Nelson, um assistente social clínico em Lansing, Michigan, explica parte do porquê uma pessoa pode se sentir atraída pelo suicídio:
“Uma pessoa suicida muitas vezes vê o suicídio como uma solução pura, limpa e autônoma para seu estado emocional de desespero. O suicídio nunca é puro. Nunca é limpo. E nunca verdadeiramente autônomo. As pessoas suicidas não são capazes de ver ou prever as consequências de seu ato na vida das pessoas ao redor. Sua própria doença faz com que seja impossível para eles enxergarem isso.”

Ele nos aconselha a conhecer os fatores de risco:

Como identificar que uma pessoa está pensando em suicídio 4
1. Depressão. Isolamento. Perdas.
2. Grandes mudanças de vida (e, às vezes, apenas algumas pequenas como começar ou parar de tomar certos medicamentos).
3. Tentativas de suicídio anteriores. Abuso de substâncias.
4. Comportamentos irracionais ou instáveis.
5. Dificuldades financeiras.
6. Acesso a meios de cometer o ato.
7. Intenção suicida.
8. Uma história de suicídio na família.
9. Conexões a outras pessoas que morreram por suicídio.

Jody Nelson diz que, se percebermos esses sinais, devemos perguntar diretamente a pessoa algo do tipo:

“Eu notei que você esteve particularmente para baixo ultimamente. Você está pensando em se machucar?”
Isso não fará com que alguém que não tenha tendências suicidas passe a considerar a ideia de repente.
O que isso fará, caso alguém esteja pensando em suicidar-se, é fazê-lo atravessar uma parede que está o mantendo isolado e, de repente, aliviar parte dos sentimentos acumulados, com os quais ele esteve lidando sozinho.
Uma pessoa com depressão e sentimentos suicidas é muitas vezes grata por encontrar alguém com quem possa falar francamente sobre o que está pensando.
E caso alguém responda que sim, escute-o e converse com ele. Mas também leve-o a emergência, leve-o até lá, vá com ele. Dessa forma, eles terão acesso ao acompanhamento adequado.
Em seguida, fique de olho e acompanhe a situação. Continue conversando come ele, pois ele vai tentar minimizar a situação. Quem não faria isso?

É por isso que é importante para nós falar sobre isso publicamente e agora.

Como identificar que uma pessoa está pensando em suicídio 2
Quando aprendermos a falar sobre o suicídio de forma mais produtiva e demonstrarmos publicamente que estamos tentando entender um pouco melhor do que costumávamos, abriremos portas caso alguém em nosso círculo esteja pensando em se suicidar.
Devemos demonstrar que não iremos julgar nossos amigos e pessoas amadas – apenas amá-los.

Compartilhe esse conteúdo com seus amigos e ajude a quebrarmos alguns tabus sobre o suicídio.

Quanto mais pessoas aprenderem a lidar com isso, melhor.
Divulgue essa causa, é importante!

(via Awebic)