terça-feira, 11 de dezembro de 2018

COMO O PÁSSARO SOLITÁRIO

OS SALMOS, NOSSO ESPELHO
14 – COMO O PÁSSARO SOLITÁRIO
─ Perdi o sono e estou gemendo; estou como o pássaro solitário no telhado. Todo dia meus inimigos me insultam; eles se enfurecem e fazem imprecações contra mim(Salmo 102,8-9).
– “Não é fácil ser cristão!”. Jesus nos disse que, para entrar no Reino de Deus, a porta era estreita e o caminho íngreme (Mt 6,13-14), e alertou-nos sobre as dificuldades que encontraríamos: No mundo tereis aflições (Jo 16,33).  Mas também nos prometeu que estaria conosco todos os dias até o fim do mundo (Mt 28,20); garantiu que nos deixaria a sua alegria e a sua paz (Jo 16,22) e nos animou a viver de esperança: Mas tende coragem! Eu venci o mundo (Jo 16,33).
Hoje há  – como lembrávamos ao falar do leão e o dragão – uma dificuldade especial para um cristão que queira ser autêntico e fiel: o ambiente materialista, paganizado, de grande parte da sociedade; a difusão, imposta como se fosse um dogma, de ideias e comportamentos próprios de uma “cultura” frontalmente contrária ao Evangelho. É fácil, por isso, que um bom cristão se sinta só, como um pássaro solitário no telhado, em meio a colegas, parentes e amigos, que não só não compartilham os seus valores como até mesmo os desprezam,ridicularizam e combatem: fazem imprecações contra mim.
Disso falava o Papa Bento XVI numa entrevista: «Existem ambientes, e não são poucos, nos quais hoje se precisa de muita coragem para se declarar cristão… Cresce o perigo de uma ditadura da opinião, e quem não quer acatá-la é isolado e marginalizado»[1]. Como um pássaro solitário!
Também no livro Jesus de Nazaré, o mesmo Papa escreveu: «O que fazem todos é imposto ao indivíduo como pauta de comportamento. O mundo não suporta a resistência, quer colaboracionismo»[2].
Que fazer?. A resposta é simples, embora não seja fácil: imitar os primeiros cristãos.
Num mundo totalmente pagão e muito semelhante ao nosso em seus  costumes, eles eram vistos com um misto de admiração e aversão. Não eram “como todo o mundo”. Se, por um lado, os pagãos ficavam cativados pelo exemplo de amor que eles irradiavam, por outro, a recusa das práticas e costumes daquele ambiente e as virtudes que praticavam contrastavam totalmente com os que os pagãos queria impor como normais: eram castos, despendidos dos bens materiais, fiéis no casamento, generosos com os pobres e doentes… Isso chocava, incomodava. Os primeiros três séculos do Cristianismo são chamados, com toda a propriedade, “a era dos mártires”.
No entanto, esses pássaros solitários, tantas vezes incompreendidos e levados ao matadouro como animais, não pararam de crescer, e foram pouco a pouco o fermento da transformação daquela sociedade; sem violência, só com a força da fé e do amor. O Império pagão, em poucos séculos, achou-se cristão.
Penso que hoje Deus nos pede imitar especialmente três atitudes dos primeiros cristãos: a autenticidade do seu exemplo, a compreensão para com todos e o coração aberto lealmente à amizade.
  • A autenticidade do exemplo. A grande força moral dos cristãos não era a palavra nem a polêmica, mas a silenciosa pregação do exemplo. Um dos mas antigos mártires, Santo Inácio de Antioquia, dava um lema para os cristãos que viviam no meio da sociedade pagã: «Atuar de acordo com a palavra de Jesus, e manifestá-la pelo silêncio»[3], ou seja, deixar que as ações falem por nós.
Sem discussões, e, ao mesmo tempo, sem ceder um milímetro no que se refere às suas convicções, sem querer fazer média nem rebaixar as exigências da  fé, os cristãos podem dar-se e conviver com todos. Sua caridade, sua firmeza serena e sorridente, seu espírito de serviço, a perfeição com que procuram trabalhar, a sua solicitude para com as carências e sofrimentos dos outros, acabam por atrair os que com eles convivem.
Um retrato desse ideal, encontramo-lo em um documento muito antigo, a Carta a Diogneto, uma apologia do Cristianismo – uma bela peça literária – que o bispo Quadrato teria dirigido, no século II, ao imperador Adriano.
Lemos nesse escrito: «Os cristãos não se distinguem dos outros homens, nem por sua terra, nem por língua ou costumes. Não moram em cidades próprias, nem falam uma língua estranha, não têm algum modo especial de viver… Morando em cidades gregas e bárbaras, conforme as circunstâncias de cada um, e adaptando-se aos costumes do lugar quanto à roupa, ao alimento e ao resto,  testemunham um modo de vida singular e admirável…
»Casam-se como todos e geram filhos, mas não abandonam os recém-nascidos. Põem a mesa em comum, mas não o leito. Estão na carne, mas não vivem segundo a carne. Moram na terra, mas têm a sua cidadania no Céu… São injuriados, e bendizem; são maltratados, e honram; fazem o bem e são punidos; são condenados, e se alegram como se recebessem a Vida…
»Em poucas palavras, assim como a alma está no corpo, assim os cristãos estão no mundo».[4]
  • A compreensão para com todos. É a segunda atitude positiva de que falávamos. Ninguém pode sentir-se próximo de uma pessoa que não o compreende. Pelo contrário, é um prazer conviver e trabalhar com alguém que valoriza a nossa boa vontade e compreende os nossos defeitos.
Para compreender, é preciso ter humildade e um coração generoso. «Em qualquer ser humano – escreve são Tomás de Aquino – existe sempre algum aspecto que nos permite considerá-lo superior a nós, segundo as palavras do Apóstolo [são Paulo]: “Levados pela humildade, tende-vos uns aos outros por superiores a vós mesmos” (Fl 2,3). De acordo com estas palavras, todos os homens devem honrar-se mutuamente»[5].
Sem compreensão, não pode haver diálogo com os que não partilham da nossa fé nem dos nossos valores morais. Diálogo que não consiste em fazer concessões que acabam negando as verdades católicas, mas em saber escutar com respeito as opiniões divergentes, e, num clima de paz e de troca de ideias, quando isso for possível, expor as nossas crenças, de modo claro, sereno e pacífico.
Como escreve são Josemaria, «com a polêmica agressiva, que humilha, raramente se resolve uma questão. E, sem dúvida, nunca se consegue esclarecimento algum quando, entre os que disputam, há um fanático»[6].
Alertando os que não sabem compreender, santo Agostinho dizia: «Repreendes os outros, e não reparas em ti mesmo. Acusas os outros, e não te examinas. Colocas os outros bem diante dos teus olhos, e a ti colocas-te escondido atrás das tuas costas. Quando Deus te julgar, dirá: “Far-te-ei dar meia volta e te colocarei diante de ti próprio. Então te verás e chorarás»[7].
  • O coração aberto à amizade. É óbvio que a compreensão e o diálogo são dois batentes a que escancaram a porta da amizade. Com essas qualidades, duas pessoas com credos e convicções diferentes, podem conviver, conversar, compartilhar momentos excelentes da vida (conheço vários casais que, possuindo crenças diferentes, se dão maravilhosamente bem).
Se há pontos de discordância, há também muitos pontos em comum com qualquer pessoa de boa vontade. Esses pontos comuns são a ponte que, sem trair a fé, pode unir os corações. E levá-los a cooperar juntos, com a maior harmonia e entusiasmo, em empreendimentos pelo bem da família, da sociedade, da pátria, da ciência… Amar – dizia Saint Exupéry – não é olhar um para o outro, mas olhar ambos na mesma direção. Quantas metas valiosíssimas podem ser encaradas e conquistadas em conjunto, se existe amizade leal entre pessoas que, a despeito das suas divergências em ideias importantes, são capazes de compreender, de ajudar, de valorizar os outros e trabalhar com eles.
«Amar – diz a teóloga católica alemã Jutta Burggraff – não consiste simplesmente em fazer coisas para alguém, mas em confiar na vida que há nele. Consiste em compreender o outro com as suas reações mais ou menos oportunas, os seus medos e as suas esperanças. E fazê-lo descobrir que é único, digno de atenção, e ajudá-lo a aceitar o seu próprio valor, a sua própria beleza, a luz oculta que existe nele, o sentido da sua existência. E consiste em manifestar ao outro a alegria de estar a seu lado»[8].
Esta é a amizade do autêntico cristão. Essa foi a amizade, o amor sincero, com que os primeiros cristãos conquistaram o mundo.

[1] O sal da terra, p. 176
[2] Vol. II, p. 116
[3] Carta aos Efésios, 15
[4] Carta a Diogneto, cap. V, em Padres apologistas, Ed. Paulus, 1995
[5] Suma Teológica, II-II, q. 103, a. 2-3
[6] Sulco, n. 870
[7] Sermão n. 17
[8] Para uma cultura de diálogo, conferência pronunciada em 2009

Os três mistérios da morte de Padre Pio

Esta visita do Papa Francisco tem o centro nos estigmas. Como Padre Pio viveu os estigmas?
Tudo começa a partir do momento em que Padre Pio foi ordenado sacerdote em 10 de agosto de 1910. Naquela ocasião, ele preparou uma pequena imagem de lembrança na qual ele escreveu na mão que queria ser como Jesus: um sacerdote santo e uma vítima perfeita. Então, de suas cartas, descobrimos que ele havia feito várias vezes a oferta de si mesmo ao Senhor para obter a conversão dos pecadores e a purificação das almas no Purgatório. Poucas semanas após essa oferta de si mesmo, o Senhor lhe respondeu a Pietrelcina, exatamente no distrito de Piana Romana que será visitado pelo Papa, enquanto rezava sob um olmo, através do dom dos estigmas.
Então, como ele estava confuso com esses sinais visíveis, ele pediu ao Senhor para que os sinais visíveis desaparecessem e deixassem apenas a dor. Isso aconteceu por alguns anos. Então, em 20 de setembro de 1918, os estigmas voltaram a se tornar visíveis e permaneceram ao longo de sua vida; desapareceu gradualmente nos últimos meses antes da sua morte. Quando foi a realizada inspecção no corpo de Padre Pio, imediatamente após sua morte, o médico assistente, que também era o prefeito de Pietrelcina, Professor Sala, observou que os estigmas haviam desaparecidos completamente sem deixar nenhum traço de cicatriz. Isto, de acordo com a ciência, é chamado de absurdo fisiopatológico.
Quanto aos estigmas do padre Pio, tanto São João Paulo II quanto Bento XVI se concentraram nesse aspecto, falando precisamente da oferta de si mesmo que Padre Pio fez em semelhança à Cristo. Algumas vozes no passado, no entanto, expressaram perplexidade. Você teve a oportunidade de estudar a questão completamente. Que ideia foi feita?
Devo dizer com um pouco de lamentação que as vozes que expressaram perplexidade sobre a autenticidade dos estigmas do padre Pio, foram caracterizadas pela falta de consciência de tudo o que era o aprofundamento que a Igreja queria fazer para verificar a confiabilidade do fenômeno. Em 1919, três médicos vieram ver os estigmas do Padre Pio, por ordem dos principais superiores da ordem e também do Santo Ofício, que produziu três relatórios; Um segundo relatório datado de 1925 foi feito por um dos três médicos.
De todos esses relatórios surge a autenticidade do fenômeno. Dois dos três médicos o chamavam de fenômeno cientificamente inexplicável; O terceiro, o professor Amico Bignami da Universidade La Sapienza de Roma, pediu um experimento: envolvendo as mãos do Padre Pio por oito dias, impedindo-o de usar qualquer substância para manter os estigmas vivos. Ele garantiu que depois de oito dias eles seriam curados. Este experimento foi realizado graças a três frades que enfaixaram as mãos e os pés de Padre Pio; Após oito dias, os estigmas estavam sangrando mais do que antes.
O senhor acabou de publicar um livro: "Os Três Mistérios do Padre Pio", no qual se concentra em três circunstâncias muito particulares relacionadas à morte de São Pio de Pietrelcina ...
O primeiro mistério, através de uma série de testemunhos, alguns dos quais inéditos, consegui reconstruir antes de tudo que Padre Pio conhecia o momento exato de sua morte.
O segundo mistério, no entanto, do qual não há vestígio de novidade, embora tenha sido publicado apenas na Positio do julgamento em um único livro, diz respeito à possibilidade de ter concedido a uma de suas filhas espirituais de testemunhar a sua morte, apesar de não estar fisicamente no convento, porque quando Padre Pio morreu, estava no seu claustro.
O terceiro mistério diz respeito ao desaparecimento dos estigmas sem deixar cicatrizes, porque cada ferida - dizem os médicos - quando é produzida, desencadeia automaticamente um processo de reconstrução com tecido cicatricial. Em vez disso, quando a inspeção foi realizada no corpo de Padre Pio após sua morte, descobriu-se que seus estigmas - atestados em sua autenticidade por três médicos - haviam desaparecido, sem cicatrizes.

https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2018-03/padre-pio-papa-francisco-pietrelcina-estigmas.html
 

PADRE PIO. Sofrimento que gera adoração - Moisés Rocha.

Quero estar atento - Clipe com Ministério e Fátima Souza

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Campo de trigo

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Já viste algum campo de trigo completamente curado? Poderás observar que algumas espigas são altas e vigorosas; outras, ao invés, estão dobradas até ao chão. Experimenta a apanhar as altas, as mais vaidosas, e verás que estão vazias; se, ao contrário, colheres as que estão mais baixas, as mais humildes, verás que estão carregadas de grãos. Daqui poderás concluir que a vaidade é algo vazio.

Bendito Seja o Nome do Senhor!


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O príncipe poderoso e rico, que era Jó, viu-se batido pelas maiores adversidades. No mesmo dia lhe deram a infausta notícia da morte de todos os filhos e da perda de todos os seus haveres. Para completar o doloroso quadro, viu-se ele coberto de lepra e desprezado por todos, até pelos mais caros amigos e pela própria esposa. Calmo, sereno, em paz, o pobrezinho não proferiu uma só blasfêmia. Limitou-se a pronunciar estas palavras que se tornaram célebres:

“O Senhor me deu, o Senhor me tirou. Seja bendito o seu santo nome!”

E o Senhor, depois delonga e cruciante prova, recompensou generosamente a paciência do seu servo. Jó recuperou tudo quanto perdera e morreu feliz e rico de bens do Céu e dos bens da terra. Deus nos fere para salvar-nos. Quanto maior for a adversidade, tanto maior será a recompensa. E o Céu está reservado para os que sofrem e sabem dizer como Jó:

“O Senhor me deu, o Senhor me tirou. Bendito seja o nome do Senhor”

“O Céu, dizia o #PeBaltazarÁlvares, é o reino dos tentados, dos aflitos, dos desprezados, dos indigentes. Lá não se entra sem provações”.

Longe de lamentar a nossa sorte e de nos queixarmos da Bondade Divina, deveríamos, nas aflições da vida, olhar para o Alto, imitar o profeta da Iduméa e glorificar o nome do Senhor. Oh! Como é agradável a Deus a alma que, na adversidade, ainda com lágrimas nos olhos, sabe dizer: Bendito seja o nome de Jesus!

Cordel: Como cuidar de almas e corações feridos


Uma imprescindível (e bela) reflexão sobre a evangelização em um mundo doente

RETRATO DE UM MUNDO DOENTE
Olhando a atualidade, na bruta realidade, em que vive o ser humano,
Sem esforço percebemos que o planeta em que vivemos
Segue sem rumo e sem plano.
A inversão da consciência faz gerar a violência, que onde passa causa dano.
Vai semeando doença, idolatria, descrença, incerteza e desengano.

Deus fez tudo com bondade, “fez nascer a eternidade num momento de carinho”.
Nos fez dotados de fé, fez o homem e a mulher,
Pra ninguém viver sozinho.
Com o seu agir preciso, nos botou num paraíso e nos traçou um caminho.
Nos entregou o universo, mas o pecado perverso nos prendeu em seu domínio.

E foi assim que o pecado, virou mal estruturado e alastrou-se entre nós.
Virou praga matadeira, delinquência sem fronteira,
É o bicho mas feroz.
Esse jeito de ofender invadiu o nosso ser de forma triste e veloz,
Virou comunicação no mundo da relação e nos fez seu porta-voz.

Assim, toda a sociedade virou presa da maldade, que onde chega finca o pé,
Impõe suas condições, envenena as relações,
Sem escrúpulo qualquer.
Dissemina a violência, infecta com indecência, seja homem ou mulher.
Essa doença surgiu, se alastrou e invadiu e ‘salve-se quem puder’.

E essa selvageria deixa a humanidade fria, sem piedade e sem amor.
Grandes pisam nos pequenos, quem pode mais chora menos,
Só os grandes têm valor.
Nos palcos da impunidade desfila a banalidade, sem vergonha e sem pudor.
Quem devia governar, inventou de se aliar ao sistema malfeitor.

O mundo está revirado, religião virou mercado, a graça hoje tem preço.
Muitos fiéis iludidos, tantos milagres vendidos,
O céu já tem endereço.
Pilantragem vergonhosa, com pregações enganosas, coisa pior não conheço.
E acredite se quiser, é tudo em nome da fé. A terra virou do avesso.

Vejo que não tem mais jeito, ninguém se dá o respeito, já se foi a educação.
No universo do banal, o derrotismo cultural
Virou letra de canção.
A mensagem apelativa, com letra repetitiva já chegou lá no sertão.
Eu rezo horas inteiras: Deus, leve embora essas sujeiras e devolva o Gonzagão.

No espaço esportivo, eu reflito, apreensivo, vendo a coisa como é.
Um futebol feio e chato, em que só tem pé de rato
E cartolas de má fé.
Eles são ruins de bola, não conhecem a escola de Rivelino e Pelé.
Quando os vejo dando bico, sinto saudade do Zico e do eterno Mané.

No mundo da educação, vejo com apreensão o futuro do Brasil.
A burrice estrutural solapou nosso quintal
E o cenário estudantil.
Escolas são depredadas, as leis são desrespeitadas, a velha ordem sumiu.
Vendo tudo como está, nós podemos constatar que o mundo está doentio.

No tocante à saúde, só um tonto é que se ilude e acha que melhorou.
A coisa está piorando, hospitais estão fechando
E a pobreza aumentou.
Cada vez aumenta o tédio da espera por remédio que o governo não mandou.
Pobre sofre todo dia, esperando a cirurgia, mas o dinheiro acabou.

O pobre sofre amiúde, sem ter plano de saúde para ter atendimento.
O rico pode pagar, tem quarto particular,
Não sabe o que é sofrimento.
O País do carnaval é um País desigual, onde há pobre e avarento.
E essa desigualdade é uma enfermidade que causa dor e lamento.

No campo da moradia, até louco desconfia dos absurdos que há.
Lá tem gente sem escola, passa fome, pede esmola
E não tem casa pra morar.
Um pecado estrutural nega aos pobres um quintal e um espaço pra habitar.
Lá, um clamor indiscreto diz que nosso irmão sem teto merece ter o seu lar.

Na grande população existe uma danação que devia ser banida.
A maldita violência, que traz dura consequência
Aos que lutam pela vida.
As pessoas de bondade se escondem atrás da grade, pelo medo construída.
Nossa gente amedrontada, vive sempre apavorada e não encontra saída.

E falando em sofrimento, quem quer um atendimento não encontra um ombro amigo.
Se alguém quer desabafar, ser ouvido e até chorar,
É visto como um perigo.
Neste mundo desigual, em que tudo é pessoal, há um mal que é antigo:
Ninguém imita Jesus, cada um leva sua cruz e suporta o seu castigo.

Se alguém procura um irmão, pra falar de sua aflição, do seu mundo machucado,
Já se ouve a hipocrisia, indicando terapia
Com quem é qualificado.
Ele engole o seu lamento, esconde seu sofrimento e sai meio desolado,
Pois queria só bondade, amor na gratuidade, não amor terceirizado.

Pra curar um mal antigo, busca em outro ombro amigo o remédio pra sua dor.
E encontra atendimento, pois não foi com pagamento
Que ele recebeu amor.
Ali encontrou remédio, pra curar todo o seu tédio e todo aquele pavor.
Como uma ovelha ferida, ele encontrou acolhida no ombro de outro Pastor.

Nesta triste realidade, falta sensibilidade pra acudir quem está sofrendo.
No mundo do egoísmo, reina o individualismo;
Nosso amor está morrendo.
Cada um só quer ganhar, pra isso tem que lutar e o tempo está correndo.
Não é loucura, nem engano; nos falta um samaritano pra ouvir quem está gemendo.

Na opção que fizemos, muitas vezes nós sofremos com nossos próprios pecados.
Fazemos e desfazemos, e às vezes nos esquecemos
Que também somos julgados.
Tratamos com aspereza, sem bondade e com dureza nossos irmãos consagrados.
Agimos como leões, invadimos corações e os deixamos machucados.

Na convivência diária, uma lepra hereditária afeta o nosso agir.
A tal da maledicência, tem uma forte potência
Pra manchar e denegrir.
Com seu jeito ardiloso, faz comentário maldoso com força pra destruir
Tacha o nosso pobre irmão, que apesar da vocação, ele pensa em desistir.

A inveja destruidora, também é a causadora desse mal que nos afeta.
Ela provoca intriga, desconfiança e briga;
Sua maldade é discreta.
É uma praga perigosa, é serpente venenosa, sua ruindade é completa;
Puxar pessoas pra trás, sujar o que o outro faz é sua arma predileta.

O ciúme desmedido é outro mal embutido na consciência da gente.
É um sentimento feio, que se instala em nosso meio
Deixa a pessoa doente.
A doença do ciúme é algo que se resume como um ser deficiente
Quem tem ciúme tem medo, não sabe guardar segredo e é muito impertinente.

Há também a vaidade, que vem com tudo e invade nossos puros pensamentos
Chega impondo sua norma, nos envolve e nos transforma
Muda os nossos sentimentos.
A busca pelo poder e a ganância pelo ter são nossos contentamentos
Com isso nos esquecemos do lugar onde nascemos e ficamos avarentos.

Com o impulso da vaidade, se temos autoridade, somos diferenciados
Carro novo em nossa mão, dinheiro à disposição
E outros bens reservados.
Esses males perigosos, que nos deixam vaidosos, nos mantêm escravizados
A vaidade causa danos, nos faz viver de enganos e nos deixa enfeitiçados.

A maldita prepotência e a auto suficiência também causam danação.
Há elemento empinado, porque é mais estudado
Ofende sem compaixão.
Arrota sabedoria, não aceita companhia, vai sempre na contra mão
Esquece que algum dia vamos fazer moradia debaixo do mesmo chão.

A disputa vergonhosa é outra peste danosa que invadiu nosso meio.
Há sujeito à toda hora correndo sempre por fora
No embalo do devaneio.
Usa o fim como proposta, apunhala pelas costas e não tem nenhum receio
Vai sem ver o mal que faz, passando os outros pra trás e não acha isso feio.

A falta de humildade é outra triste verdade que temos que encarar.
Geralmente é quem foi pobre, que se reveste de nobre
Se camufla pra esnobar.
Usa seu potencial de ser sujeito do mal para ferir e pisar
Esse tipo de pessoa não pode ser coisa boa e nunca vai melhorar.

Outro veio da maldade chamada infidelidade, eu não posso esquecer
Esta age com lisura, deixa nossa estrada escura
Faz a gente se perder.
Nos coloca em confusão, provoca decepção, problemas pra resolver
Mancha nossa integridade, fere nossa identidade, nosso sim e o nosso ser.

Outro mal que causa arraso, é o chamado descaso, tenho que salientar.
É doença enraizada, é uma marca registrada
Ninguém pode duvidar.
A triste realidade apresenta propriedade começando a se estragar
Quem olha com mais cuidado percebe prédio estragado prestes a desmoronar.

Outro fruto da maldade, a danosa falsidade impregnou o nosso agir.
Essa gente causa medo, não sabe guardar segredo
E tem fama de fingir.
Não usa a consciência, ignora a confidência de alguém que quis se abrir
Aborta nossa esperança, não inspira confiança, é falso até no sorrir.

Em nossa sociedade, a ausência da verdade provoca destruição.
A pessoa mentirosa, é serpente perigosa
E mãe da corrupção.
A mentira causa briga, provoca ódio e intriga, faz surgir separação
Quem mente não tem moral, caminha num lamaçal, é estada de perdição.

Querer ser dono do alheio, esse é o vício mais feio que mancha o nosso ideal.
Numa atitude tão feia, mete a mão na coisa alheia
E acha tudo normal.
Essa coisa doentia, que é doença universal
Desvia o comportamento, causando constrangimento e mancha a nossa moral.

Nosso mundo está doente; é mundo feito de gente, é obra da criação.
Deus criou tudo perfeito, planejou com muito jeito
E indicou a direção.
Mas chegou o triste dia, em que o homem, sua cria, levado pela ilusão,
Com o apoio da mulher, desvirtuou sua fé, e assim nasceu a ambição.

A autossuficiência, mãe de toda violência, autora de todo mal,
Confundiu o ser humano, chegou ditando seu plano,
Fez ali o seu quintal.
Esbanjando competência, invadiu a consciência, sem precisar de aval.
Com seu jeito dominante, fez nascer, naquele instante, nossa doença moral.

Num momento inesperado, apareceu o pecado, pra trazer destruição.
Prontos pra fazer besteira, o homem e a companheira
Mancharam a reputação.
E o casal iludido, vendo o fruto proibido, cedeu à corrupção.
Hoje nos resta a esperança: para que haja mudança, tem que haver a Conversão.


Por Padre Anchieta Tavares, publicado originalmente em A12.com