sábado, 6 de julho de 2019

O PECADO QUE ESCONDERMOS NA CONFISSÃO É O PIOR DE TODOS

Do sermão de Dom Lourenço Fleichman
A Missa de hoje começa nos falando da misericórdia de Deus. O evangelho nos fala dos pecadores. Evidentemente nós temos que unir as duas coisas.
A misericórdia de Deus para conosco, que somos pecadores
Nós somos uma dessas ovelhas perdidas, nós nos desgarramos também do rebanho de Nosso Senhor. Nossos pecados, nossas misérias, nossas imperfeições mesmo que são coisas da natureza. O pecado é um ato: eu vou lá e faço, contra os mandamentos de Deus. Desobedeço! Algo consciente, algo que eu sei e quero. Sou fraco e não consigo resistir, e caio.
Contra o pecado vem um ato, também meu, em que eu digo: “Não vou fazer!”. É claro que nosso ato sozinho às vezes não tem força pra isso, precisamos da graça de Deus. Precisamos da ajuda divina para poder impor ao ato pecaminoso um ato virtuoso que vai eliminar o pecado, e nós vamos dizer: “Não farei o pecado! Não pecarei!” Antes a morte que o pecado, dizia São Domingos Sávio. “Eu prefiro morrer do que cometer um pecado”. Quantos e quantos mártires morreram porque um imperador, um prefeito ou um pagão qualquer impunha a eles um ato de religião, um ato de idolatria, um ato em favor de um falso deus, e eles diziam: “Antes a morte do que o pecado!” E morriam! Morriam um atrás do outro. E nós não temos coragem nem mesmo de dar nossa vida por Nosso Senhor.
Ato de pecado se resolve com ato de virtude. A virtude contrária àquele pecado. A gente pratica e sai do pecado. A natureza é mais difícil. As imperfeições da natureza estão enraizadas. É um certo vinco da nossa alma, uma marca indelével na nossa alma que nos conduz a certos atos de imperfeição que podem gerar atos de pecados. Não necessariamente são pecaminosos, mas já são fraquezas, já são inclinações ruins, já são coisas que não são da perfeição da alma de Deus. Quando nós pensamos na alma de Nosso Senhor Jesus Cristo, quando pensamos na alma da Virgem Maria, imaculada, protegida contra o pecado original, aqui nós encontramos natureza perfeita, nós encontramos natureza em que todas as forças espirituais, todas as forças da inteligência, da vontade, ou seja, a razão, vão em favor do domínio de si para que não aconteça de se cair no pecado. Nós, não! Nós fomos marcados pelo pecado original. O pecado original é perdoado no batismo, apagado no batismo, mas a natureza continua imperfeita, continua caindo nessas misérias, nessas imperfeições. Significa que nós não podemos aperfeiçoar a nossa natureza? Não é verdade! Nós podemos aperfeiçoar. Mas, não nós. Não por um ato nosso. “Eu não vou mais ser preguiçoso!” Nós podemos repetir isso diante do espelho todos os dias e nós vamos continuar sendo preguiçosos se temos esse defeito na nossa alma. Ou violento que, de certa forma, é o contrário do preguiçoso. E por aí vai…
Como fazer para corrigir nossa natureza?
Nosso Senhor Jesus Cristo corrige. Aquilo que nós não podemos fazer por obra própria, nós pedimos. Pedimos humildemente, pedimos incessantemente, com perseverança e, Nosso Senhor talvez ouça a nossa oração. Talvez não logo no início, talvez demore. Mas, um dia, Ele ouve. Então nós vamos mudando, nós vamos tendo atitudes já não mais tão próximas daquelas imperfeições. De repente, as pessoas começam a ver que houve um crescimento espiritual. “Aquela pessoa era tão violenta, batia em todo mundo, xingava todo mundo. Agora, não. Agora se controla!” E a gente percebe nas pessoas que vivem da oração, que vivem e que pedem que Nosso Senhor venha em socorro. Nós percebemos essa melhora. Isso é patente. Dentro de casa, uma criança que é bem educada pelos seus pais, os pais percebem que a criança está melhorando. E essas são as realidades que nós podemos considerar para nós mesmos, nós podemos melhorar na nossa natureza. É evidente que uma natureza aperfeiçoada pela graça consegue impor atos de virtude contra os atos de pecado com mais facilidade porque a virtude vai se acumulando e as perfeições que são adquiridas pela perfeição ajudam as virtudes a serem praticadas. Mas, de um modo geral, nós olhamos para o nosso coração e percebemos a nossa grande fraqueza, percebemos que somos ovelhas desgarradas. Nosso Senhor então vem, deixa as noventa e nove lá no redil e vem em busca das nossas almas. E ao nos encontrar no meio do deserto, todos feridos pelo pecado, todos famintos pela fome de Deus, Ele nos toma nos seus ombros.
Voltando pra casa nos ombros de Nosso Senhor
Agora, imagine nossa situação de voltarmos para casa nos ombros de Nosso Senhor! Como não vem no coração de uma alma, de uma ovelha, um sentimento de agradecimento, de ação de graças, de reconhecimento, de abandono nas costas daquele Deus que nos sustenta? É assim que nós devemos nos considerar quando vemos a nossa miséria, os nossos pecados, a nossa fraqueza, mas, também vemos Jesus nos tomando nos ombros e nos carregando para casa. É necessário que haja em nossas almas um reconhecimento de que atitude? Nosso Senhor poderia perfeitamente, e seria justo, se Ele nos abandonasse no deserto. Seria justo se, por causa dos nossos pecados, nos largasse perdidos, morrendo de fome e de sede, sendo devorados pelos lobos. Não haveria injustiça nenhuma da parte de Deus porque nós merecemos isso por causa da gravidade dos pecados que nós cometemos. Um único pecado já tem valor infinito porque Deus é infinito. Então quando nós estamos nos ombros, o que nós podemos esperar senão um ato de misericórdia? Não de justiça, porque a justiça seria que Ele nos abandonasse, mas um ato de misericórdia. Que Deus olhe para nós com um olhar de misericórdia. Que Deus nos perdoe. Que Deus ouça o nosso grito de perdão: “Senhor, perdoai-me, eu não faço mais. Eu prometo que eu não faço mais”.
O orgulho pode tornar o pecado já cometido ainda maior
Então nós vamos vendo como que na nossa vida espiritual cabe entrarem aqueles elementos do ato próprio de misericórdia, que é o perdão. Deus precisa me perdoar dos meus pecados, mas como pode Deus perdoar os meus pecados se nem mesmo no confessionário eu quero ir? “Confessionário?! Eu estar ali falando todas as minhas misérias para um homem sentado ali do outro lado? Jamais da vida!”. Então o orgulho vem tornar aquele pecado maior ainda, porque nós não queremos nos confessar. É verdade, existe um constrangimento. Todos nós passamos por este constrangimento de revelar os segredos dos pecados que nós cometemos. Se fosse para revelar os segredos das virtudes, todo mundo ia pra internet para publicar. Mas os segredos do pecado machucam a gente. Então nós temos uma resistência e não queremos ir ao confessionário. Mas o confessionário é o sacramento que Jesus inventou para distribuir misericórdia, para ir ao deserto buscar a ovelha desgarrada. Então nós temos que obedecer a Ele. Vamos ao confessionário! O caminho da casa é o confessionário! Pois então estejamos no confessionário. […]
Regularmente nós precisamos de confissão. Precisamos de confissão porque caímos no pecado, somos fracos. E até quando Ele nos perdoará? Até quando Ele suportará a nossa indigência, a nossa fraqueza, a nossa fome, a nossa nudez? Até quando ele vai usar de misericórdia diante de um ato de justiça que para ele seria fácil, em que ele diria: “Largo essa alma no deserto porque merece estar no deserto”. E não é assim que Ele age. O confessionário está ali aberto todos os dias para que nós possamos pedir perdão dos nossos pecados. Então Ele realmente nos toma no ombro e nos leva pra casa.
O pecado que escondermos é o pior de todos
É claro que quando Nosso Senhor Jesus Cristo penetra na nossa alma no confessionário, quando nós estamos arrependidos dos pecados e que nós cumprimos aquele rito de declarar os pecados, a confissão dos pecados, todos os pecados, não podemos esconder. Se nós escondermos um é esse o pior de todos, é esse que nós temos mais vergonha e é esse que nós não queremos confessar, ou porque nós temos uma vergonha que não cabe diante do Salvador, daquele que dá sua vida por nós, ou porque nós não estamos tão arrependidos assim. Então é necessário que haja essa confissão tranquila, essa confissão como de quem está realmente tendo uma visão de Deus. Imagine se nós tivéssemos Nosso Senhor Jesus Cristo aparecendo para nós como apareceu para Santa Margarida Maria no Sagrado Coração de Jesus, imediatamente nós diríamos tudo: “Senhor eu entrego os pontos. Eu falo todos os meus pecados. Agora não tem mais homem nenhum atrás de mim, é apenas a Vós que eu quero dizer todos os meus pecados”. E nós diríamos.  Diríamos chorando todos os nossos pecados e Ele poria a mão sobre nossa cabeça e diria: “Teus pecados estão perdoados”. Mas, como não é Nosso Senhor Jesus Cristo que nós vemos, não é uma visão mística, é simplesmente um rito da Igreja, um rito da Igreja que ela recebeu de Cristo para trazer essa visão do perdão até o último dia para todos nós. Imagina! Imagina o que é estar vivendo no Século XXI, 2019, 2020, 2050, 2400…, não importa, já é muito longe d’Ele. Já passou muito tempo do tempo em que Jesus morreu na cruz e, no entanto, Jesus está presente diante de nós porque Ele deu pra Sua Igreja o Batismo, a Crista, a Eucaristia, a Confissão, a Extrema-Unção…, todos os sacramentos para que chegassem 2000, 3000, 1500 anos depois de Cristo chegasse até nós o eco do Seu sangue, que ecoa ainda hoje e que vibra ainda hoje nos corações por causa desses sete sacramentos que Ele deu para a Igreja. A Igreja tem autoridade para dizer eu te perdoo dos teus pecados. Como que a Igreja faz isso? Através de um sacerdote que é o próprio Cristo sentado no confessionário para ouvir os nossos pecados. Então não há a visão de Cristo, mas há a verdade de Cristo. Alter Christus, o sacerdote de Cristo que está ali emprestando os seus ouvidos para ouvir, que está ali sentado como um juiz no tribunal para julgar, e que está ali levantando sua mão para perdoar. E é necessário que nós passemos por isso, que nós tenhamos essa simplicidade de dizer ao sacerdote todos os nossos pecados por mais graves que sejam, porque haverá uma mão de Deus pousada sobre a nossa cabeça. A misericórdia de Deus imediatamente se aplica sobre nós e nós somos perdoados.
Sair do confessionário dizendo: eu não faço mais isso
É verdade que existem algumas necessidades no nosso ato de confissão. Primeira é o arrependimento, eu já falei sobre isso. Segundo é a confissão, também já falei. Terceiro: o bom propósito. É necessário que a gente saia do confessionário dizendo para si mesmo: “Eu não faço mais isso”. Aquele ato que é ato de virtude e que impõe a nós uma força nova, uma vitória nova sobre nós mesmos. E nós vamos dizer: “Eu não farei mais esse pecado”. É evidente que quando nós dizemos isso, é toda uma estrutura que gira em torno do pecado que deve desabar. Ela precisa ser destruída. Começando com a internet. Hoje o maior foco de pecado é a internet. Então desligue! É foco de pecado o celular? Quebre-o! Jogue-o fora! “Vou viver sem o celular? Não posso viver sem o celular! Não posso fazer aquele contatozinho eletrônico, antes de dormir vou ficar uma hora, duas horas, três horas, quatros horas… transmitindo, transmitindo…, e mensagens… e fofocas”. Aí, uma hora não aguenta mais e dorme. Isso tem que acabar porque é por aí que entra o pecado. É necessário que haja uma certa consciência da alma que sai do confessionário, de romper com essa doença. Que seja o celular, que seja a internet, que seja alguma outra coisa qualquer, pode ser um livro. Tudo isso são situações que nós devemos por diante de nós quando nós saímos do confessionário, com bom propósito; “Não faço mais esse pecado!”
Estando colocadas essas circunstâncias da boa confissão, cabe ainda um certo juízo da nossa parte de saber o que significa ir ao confessionário, quando a Igreja nos chama ao confessionário. E ela diz: quando o pecado é grave, quando o pecado é mortal. Se aquele pecado está na alma e, não arrependida na hora da nossa morte, nós vamos pro inferno. E essa realidade de ir pro inferno não pode existir, não é possibilidade para nós de ir pro inferno. Mas quando nós somos apegados a um pecado mortal, nós acabamos aceitando isso. Se alguém pergunta “você quer ir pro inferno?”“Não, de jeito nenhum”, mas nos nossos atos nós estamos dizendo “Sim, eu vou pro inferno. Eu prefiro ir pro inferno porque eu não quero me desvencilhar desse vício, não aguento, não consigo”. E não temos recurso à oração. Não queremos nem rezar. Então o orgulho vai se fechando como um animal que estrangula, como um lobo que devora a ovelha no deserto. Então é necessário que haja da nossa parte uma compreensão, atitude forte que nós devemos ter, e o Divino Espírito Santo vem nessa hora com Seus dons sagrados para nos dar a força para vencer. […]
Então, que seja por causa da misericórdia de Nosso Senhor a transmissão desse sacramento do perdão, desse sacramento do amor de Deus nos perdoando, a Igreja, que passa pelo sacerdote, o nosso confessionário na medida certa para o nosso crescimento espiritual, que tudo isso esteja representado nesse Bom Pastor que toma nossas almas sobre os seus ombros e nos leva de volta para casa. De modo que essa casa seja um dia a casa definitiva do Céu. Que nós possamos estar com Nosso Senhor, aí sim, na glória de Deus para sempre. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém!
Niterói, 30/06/2019
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O caminho que conduz a Deus


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Existe no meu coração uma grande sede de reconhecer totalmente o nada de tudo aquilo que não é Deus. A minha oração torna-se, deste modo, numa espécie de súplica em direção ao centro do Nada e do Silêncio. Se eu estou ainda presente como 'eu mesmo', reconheço que isto é um obstáculo... Se ele quiser, poderá então transformar o Nada em total claridade. Se ele não o faz assim, então o Nada efetivamente parece ser em si mesmo um objeto e continua sendo um obstáculo. Este é o meu método normal de oração ou meditação. Não consiste em pensar nalguma coisa, mas numa busca direta do Rosto do Invisível. Isto não será possível, a não ser que nos abandonemos Nele, que é Invisível.


FOREST, J. Thomas Merton: viver com sabedoria.
Madeira - Portugal: Editora Madeirense, 2018. p. 170.






domingo, 30 de junho de 2019

O NÚMERO DOS ANJOS


Santo Atanásio na questão sexta, cita a opinião de alguns, que tiveram para si, que os homens eram iguais em número aos Anjos, movidos por aquelas palavras do Deuteronômio, como traduziram os Setenta Intérpretes, registrou o número dos povos, conforme ao número dos Anjos. Outros há, que tem para si, que os homens excedem em número aos Anjos e movem-se por este argumento. Porque dos homens tantos se hão de escolher para a glória, quantos são os Anjos que caíram da glória e consta no Apocalipse na figura do dragão (que trouxe consigo a 3ª parte das estrelas), que a 3ª parte dos Anjos caiu, e conforme a isto parece que entende São Bernardo sobre os Cantares, aquelas palavras do Salmo: “Julgará os homens e com eles proverá os lugares vagos no céu”. Donde deduz-se, que não se salvando nem a décima parte, contando todos os infiéis é muito maior o número de todos os homens que o de todos os Anjos.
Porém, nenhuma destas opiniões tem fundamento, porque no Deuteronômio, considerando bem o que Moisés vai dizendo, não se trata do número de Anjos; somente mostra o particular cuidado que Deus teve de seu povo na divisão geral das terras que Deus fez a várias nações. Porque quando, ou conforme aos Hebreus, quando repartia as terras do mundo pelas nações, logo então marcou a terra de Canaã a sete nações, não tanto por a possuírem, mas por a cultivarem e depois de cultivada a entregar aos filhos de Israel, quando saíssem do Egito. Quer dizer que a estas sete nações assinalou os termos da que por eles repartiu, como se dissesse, que não tinha os olhos naqueles a quem as dava, se não no seu povo de Israel, cujos colonos eram os povos e nas demarcações olhavam para o que convinha aos israelitas para os agasalhar no que mostrava grande amor a seu povo, dando-lhe as terras cultivadas e a todas as outras nações, incultas e bravas. E segue-se logo, como se dissera as outras nações, deu terras em herança, mas para si tomou este povo por herança própria. Este é o sentido literal que os expositores comumente dão ao lugar do Deuteronômio.
O Apocalipse não fala da queda dos Anjos, se não dos fiéis, no tempo do Anticristo. Por onde não há fundamento para duvidar, ainda que ponhamos os olhos na grande máquina do mundo e na multidão de criaturas que nele há, se haverá tantos Anjos em número, que nasceram e nascerão? Porque é tão copioso o número dos Anjos (como afirma São Dionísio Areopagita) que excede e é muito maior que o número de todas as coisas corporais e materiais. E São Tomás e outros Doutores escolásticos, da proporção que há entre os corpos superiores e da que há entre os inferiores, agrupam a multidão dos Anjos, por que se vemos que tão grande multidão de criaturas corporais é necessária para responder e encher à distância que há entre a mais vil criatura e entre o homem, a mais nobre do todas as corporais, quão grande número será necessário para responder a distância que há entre o Anjo e mesmo a Deus? Porque como Deus, Nosso Senhor nesta formosíssima e admirável máquina do mundo, pretende principalmente à perfeição dele, se não é limitado seu poder, se não infinito e imenso (criou as coisas em tanto maior número e abundância, quanto elas são mais perfeitas em si). Daí vemos, que todas as coisas baixas e corruptíveis que estão debaixo da Lua, são quase um ponto em comparação dos céus, que são corpos mais perfeitos e nobres. E nos mesmos céus o mais alto e superior excede muito ao inferior e o supremo a todos os demais.
Por esta razão algumas estrelas do firmamento que nos parecem aos olhos tão pequenas, são muito maiores que toda a terra composta de todas as coisas inferiores. Esta mesma proporção há nas coisas espirituais e naqueles supremos espíritos a respeito das coisas corporais as quais excede não em quantidade, se não em número, pois é certo que a alteza no lugar dos corpos responde à nobreza da essência nos espíritos e ao excesso da quantidade, responde a multiplicação do número. E vê-se claramente ser assim, porque se cada um dos homens desde nosso primeiro pai Adão, até o derradeiro, que haverá no mundo, tem seu Anjo da guarda eleito para sua defesa, sem exceção de bom ou de mal, nem de fiel ou infiel, nem de bárbaro Etíope, ou nobre político ( pois todos enquanto homens participam deste beneficio necessariamente havemos de confessar, que os Anjos do derradeiro coro – do qual se provê a guarda dos homens – são mais que todos os homens que houve e haverá até o fim do mundo.
Então, qual será o número dos outros coros se for assim como temos provado, que tanto maior é o número deles, quanto sua ordem é mais alta e sua perfeição mais elevada? Isto se conclui da escritura sagrada, a qual falando da multidão dos Anjos, diz: “milhares de milhares serviam o Senhor e dez vezes cem mil o assistiam”. Pelo qual entendem os Padres e Doutores, uma multidão de espíritos celestiais em certo modo infinita. Para confirmação do mesmo, trazem alguns autores uma revelação, que com o favor da Virgem Nossa Senhora, se fez a Santa Brígida, a qual com muita segurança afirma, que os Anjos excedem em número aos homens em dez partes por estas palavras: “Se se compararem todos os homens que nasceram de Adão até ao derradeiro que há de nascer no fim do mundo, achar-se-á que, a cada homem respondem mais de dez Anjos”. E a autoridade desta Santa é de muita estima. Porque o Papa Bonifácio IX na Bula de sua Canonização, acredita e autoriza muito o espirito de profecia desta Santa. Nesta conformidade, dizem alguns Doutores, que a cada Anjo respondem dez Arcanjos e a cada Arcanjo dez principados; e assim como os coros e hierarquias vão subindo, se vai multiplicando o número dos Anjos superiores.
Ao que temos dito se pode acrescentar o que tem São Hilário, São Cirilo e outros, aos quais afirmam que os Anjos excedem aos homens em noventa e nove partes. Pela ovelha da parábola, diz o Santo, se há de entender o primeiro homem e por este todos os mais homens, mas no pecado de um só Adão se perdeu todo o gênero humano. De onde se compreende, que pelas noventa e nove ovelhas que não se perderam se há de entender a multidão dos Anjos, que no céu tem o cuidado e alegria pelo bem e salvação dos homens.
O mesmo diz Santo Atanásio conforme alegado acima, que muitos tiveram para si que a proporção que tem os Anjos para com os homens em número é a mesma que tem noventa e nove para um; ou nove para um. E resume isto das parábolas, a das noventa e nove ovelhas, que o pastor deixou no deserto guardadas para buscar sua perdida e das nove dracmas seguras e uma perdida, porque na ovelha e dracma perdida se representam os homens e nas mais os Anjos. De onde veio Santo Ambrósio sobre o capitulo 15 de São Lucas, a dizer: o rico e grosso pastor de quem nós somos a centésima parte das ovelhas, tem inumeráveis rebanhos de Anjos e de Arcanjos, Dominações, Potestades e de outros semelhantes que deixou nos montes. De onde vem a dizer alguns Doutores, que mais fácil é contar as estrelas do céu e as gotas do mar e as folhas das árvores e as ervas da terra, que compreender a multidão dos Anjos a qual ainda que para Deus seja finita e contada, com tudo em nosso ponto de vista parece infinita.
E São Bernardino de Siena falando do amor misericordioso de Deus e dos meios que a ele nos hão de levar, diz assim: “A segunda coisa que havemos de contemplar, diz São Bernardino, é a multidão dos Anjos”, porque diz São Dionísio no livro da hierarquia que só os Anjos que estão no paraíso são mais do que as estrelas, as areias do mar e da terra, que as folhas e ervas e mais que todas as coisas criadas. Por esta causa disse bem Jó falando de Deus: “Por ventura os soldados do Senhor podem se contar”? O que nos declara a glória e soberana majestade do Senhor que nos criou e se serve deles, como de seus criados e soldados. Porque é grande honra de um rei ter muitos ministros nobres e poderosos e família luzida de criados que o acompanham e sirvam que por isso disse o Espirito Santo: A dignidade e majestade do Rei se conhece na multidão de seus ministros e ter poucos vassalos e afronta do príncipe. E é coisa notável que com os Anjos serem tantos, São Tomás tem para si – posto que muitos têm o contrário – que nenhum há entre eles que não seja de diferente espécie de todos e de cada um dos outros.
E assim como seria formosíssima coisa e maravilhosa se em um campo ou prado povoado de infinitas flores, não houvesse entre elas, duas que fossem da mesma espécie, se não que cada flor fosse da sua e diferente de todas as outras nas cores, na figura, na forma, porque umas teriam as cores singelas, já brancas, já vermelhas, já amarelas, já roxas, já verdes, outras as teriam todas misturadas umas com as outras, em tal proporção que a mistura e composição de cada uma acrescenta-se notável graça a todas semeando à natureza e matizando com diferentes variedades e proporção a cada uma para em todas resultar mais perfeição, mais arte e mais graça natural. (Estando na opinião de São Tomás) naquele copiosíssimo e abundantíssimo campo do céu – a que com razão podemos chamar Jardim de Flores em que há inumeráveis Anjos que como formosíssimas flores o aformoseiam e vestem com singular graça e majestade. Não há dois deles que tenham a mesma espécie, pois em cada um achareis diferentes perfeições, diferente lustre e diferente ser, comunicado do autor de todo o bem e pego infinito de perfeições.
(Retirado do Almanaque Tradição Católica)

QUATRO CONSIDERAÇÕES PARA SOFRER BEM

Por São Luis Maria Grignion de Montfort
Para ajudá-lo a sofrer bem, adquira o bom hábito de refletir nesses quatro pontos:
1. O olho de Deus
Primeiramente, o olho de Deus, que, como um grande rei do alto de uma torre, observa com satisfação seu soldado no meio da batalha, e elogia sua coragem. O que de Deus atrai a atenção pela Terra? Serão reis e imperadores em seus tronos? Com frequência Ele nos olha sim com desprezo. Serão as grandes vitórias dos exércitos, pedras preciosas, ou o que quer que seja grande aos olhos dos homens? Não, “o que é altamente pensado pelos homens é repulsivo aos olhos de Deus”. O que, então, ele olha com prazer e satisfação, e do que ele pede conta aos anjos e mesmo aos demônios? É aquele que está lutando contra o mundo, contra o demônio, e somente ele pelo amor de Deus, o único que carrega sua cruz alegremente. Como o Senhor disse a Satã, “Não viu sobre a Terra uma maravilha imensa que todo céu contempla com admiração? Já viu meu servo Jó, que está sofrendo por minha causa?”
2. A mão de Deus
Em segundo lugar, considerem a mão de Deus, que permite que nos sobrevenham males de toda natureza, desde o maior até o menor. A mesma mão que aniquilou um exército de cem mil homens é a que faz cair a folha da árvore e um cabelo de suas cabeças; a mão que espremeu tão duramente Jó, gentilmente lhes toca com uma tribulação leve. É a mesma mão que faz o dia e a noite, o arco-íris e a escuridão, o bem e o mal. Ele permitiu as ações pecaminosas lhe machucarem; ele não é causa de suas maldades, mas Ele permite as ações. Se qualquer um, então, lhes trata como Shimei tratou o Rei David, lhes cobrindo de insultos e lhes atirando pedras, digam a si mesmo, “Não nos vinguemos deles. Deixemos que Ele atue, pois o Senhor dispôs que se fizesse dessa maneira. Reconheço que mereço todo tipo de ultrajes, e é com toda justiça que Deus me castiga. Detenham-se mãos! Refreia-se língua! Não golpeie, não diga uma palavra. É verdade que esse homem me ataca, essa mulher me insulta, mas eles são representantes de Deus, que da parte de sua misericórdia vêm me castigar amistosamente. Não irritemos, pois, sua justiça, usurpando os direitos de sua vingança. Nem menosprezemos sua misericórdia resistindo aos amorosos golpes de seus açoites, para que Ele me entregasse, em vez disso, à justiça absoluta da eternidade.” Por outro lado, Deus em seu infinito poder e sabedoria o sustenta, enquanto aos outros ele aflige. Com uma mão ele entrega à morte, com a outra ele dá a vida. Ele o humilha até o pó e depois o eleva, e com ambas mãos ele alcança uma extremidade de sua vida à oura, com carinho e poder; com carinho, não lhe permitindo ser tentado além de suas forças, com poder, apoiando-o com sua graça na proporção à violência e duração da tentação ou aflição; com poder novamente, por vir dele mesmo, como ele nos conta através de sua Santa Igreja, “sustentá-lo na beira do precipício, guiá-lo a uma estrada incerta, ocultá-lo no calor abrasador, protegê-lo na chuva e do frio que o congela, carregá-lo em seu cansaço, ajudá-lo em suas dificuldades, fortificá-lo em caminhos escorregadios, ser seu refúgio no meio das tempestades ” (Oração para uma Viagem).
3. As feridas e sofrimentos de Cristo crucificado
Em terceiro lugar, reflitam nas feridas e sofrimentos de Cristo crucificado. Ele mesmo nos contou, “Ó vós todos, que passais pelo caminho: olhai e julgai se existe dor igual à dor que me atormenta, a mim que o Senhor feriu no dia de sua ardente cólera”. Vejam com os olhos corporais e através dos olhos de sua contemplação, se sua pobreza, destituição, desgraça, aflição, desolação são como as minhas; olhem para mim que sou inocente e lamente porque vocês são culpados! O Espírito Santo nos diz, através dos Apóstolos, a contemplarmos Cristo crucificado. Ele nos manda amarmos com esse pensamento, arma mais penetrante e terrível contra todos nossos inimigos que todas as demais armas. Quando vocês são assaltados pela pobreza, má reputação, aflição, tentação e outras cruzes, armem-se com o escudo, peitoral, capacete e espada de dois gumes, que é a lembrança de Cristo crucificado. Vocês haverão de encontrar a solução para todo problema e os meios de conquistar todos seus inimigos.
4. Acima, o céu; abaixo, o inferno
Em quarto lugar, olhe pra cima e veja a bela coroa que lhe aguarda no céu se você carregar bem sua cruz. Foi essa recompensa que sustentou os patriarcas e profetas em sua fé e perseguições; que inspirou os apóstolos e mártires em seus trabalhos e tormentos. Os patriarcas podiam dizer com Moisés, “Nós preferiríamos ser afligidos como o povo de Deus, e sermos felizes com Ele para sempre a curtir por um instante os prazeres do pecado.” E os profetas poderiam dizer com David, “Nós sofremos perseguição pela recompensa.” Os apóstolos e mártires poderiam dizer com São Paulo, “Por nossos sofrimentos como sentenciados à morte, como espetáculo para o mundo, para os anjos e os homens, somos como lixo e anátema do mundo, pelo imenso peso de glória que nos produz a momentânea e ligeira tribulação.” Olhemos para o alto e vemos os anjos, que exclamam, “Cuidai para não apropriar-se da coroa que está marcada com a cruz que você recebeu, se você suportá-la bem, um outro irá carregá-la como convém e a arrebatará consigo. Lute bravamente e sofra pacientemente, nos dizem os santos, e você receberá o reino eterno.” Finalmente, escute ao Nosso Senhor, que lhe diz, “Eu darei minha recompensa somente aquele que sofre e é vitorioso pela paciência.” Contemplemos abaixo o lugar onde nós merecemos e que nos espera no inferno na companhia dos bandidos e todos aqueles que não se arrependeram, se nós sofrermos como eles sofreram, com sentimentos de ressentimentos, má vontade e vingança. Exclamemos com Santo Agostinho, “Senhor, trate como sua vontade nesse mundo por meus pecados, contanto que os perdoem na eternidade.”
Da obra “Carta aos amigos da cruz”

https://capelasantoagostinho.com/2019/03/11/quatro-consideracoes-para-sofrer-bem/#more-2375

A VITÓRIA SOBRE NOSSAS TENTAÇÕES

A vitória sobre nossas tentações

Por Santo Afonso de Ligório
Para perseverarmos no bem, não devemos colocar nossa confiança nas nossas resoluções. Se contarmos com nossas próprias forças, estaremos perdidos. Para nos conservarmos na graça, devemos pôr nossa confiança nos merecimentos de Jesus Cristo. Com sua assistência perseveraremos até a morte, ainda que combatidos por todos os poderes terrestres e infernais.
Sem dúvida alguma seremos assaltados algumas vezes por tantas e tão fortes tentações que nossa queda nos parecerá inevitável. Guardemo-nos, porém, de perder então a coragem e de nos entregar ao desespero. Recorramos com toda a pressa a Jesus Crucificado, que ele impedirá a nossa queda. O Senhor permite que até aos santos sobrevenham tais tempestades, como a São Paulo, que afirma de si: “Nós fomos excessivamente oprimidos acima de nossas forças a ponto de nos aborrecermos da própria vida” (2 Cor 1, 8). O apóstolo aqui mostra o que ele podia por própria força e com isso nos quer ensinar que: “ Deus, de vez em quando, nos deixa ver a nossa fraqueza, para que, melhor inteirados de nossa miséria, não confiemos em nós mesmos, mas em Deus, que ressuscita os mortos” (2 Cor 1, 9) e humildemente peçamos o seu auxílio para não sucumbirmos.
Ainda mais claramente disso fala o Apóstolo em outro lugar, dizendo: “Em tudo sofremos tribulações, porém não desanimamos. Somos embaraçados, porém não desesperamos” (2 Cor 4, 8). Sentimo-nos oprimidos pela tristeza e afligidos pelas paixões, contudo não desesperamos. Somos lançados num mar tempestuoso e não vamos ao fundo, porque o Senhor nos concede com sua graça a força de resistir a todos os nossos inimigos. Mas ao mesmo tempo o Apóstolo nos exorta a que não nos esqueçamos que somos homens fracos e frágeis, que muito facilmente podemos perder de novo o tesouro da graça divina, que só poderemos conservar pela virtude divina e não pela própria força. “Nós, porém, possuímos esse tesouro em vaso de barro, para que a sublimidade seja da virtude de Deus e não de nós” (2 Cor 4, 7).
Ainda que, conforme o sobredito, não possamos achar em nós a força necessária para evitar o pecado, mas exclusivamente na graça de Deus, devemos empregar todo o cuidado em nos tornarmos, por culpa própria, ainda mais fracos do que já somos. Certas faltas, de que não fazemos conta, podem ser a causa de Deus nos negar a luz sobrenatural, tornando-se assim o demônio mais forte contra nós.
Tais faltas são: o desejo de passar por sábio ou nobre aos olhos do mundo, a vaidade no vestir, a busca de comodidades supérfluas, o costume de se dar por ofendido com qualquer palavra picante ou com uma simples falta de atenção, o desejo de agradar a todo o mundo à custa do bem espiritual, a negligência das práticas de piedade por respeito humano, as pequenas desobediências, pequenas aversões contra alguém, pequenas murmurações, pequenas mentiras ou caçoadas, o tempo perdido em conversas ou curiosidades inúteis, em uma palavra, todo o apego às coisas criadas, toda a satisfação do amor próprio podem oferecer ao nosso inimigo ocasião para nos precipitar ao abismo. Estas faltas, cometidas com deliberação, nos roubarão, pelo menos os socorros abundantes do Senhor, que nos preservam, sem dúvida alguma, da queda no pecado.
Fonte: Escola da Perfeição Cristã
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COMO PROCEDER NA TENTAÇÃO [PARTE II]: RESISTIR À TENTAÇÃO


Por Adolph Tanquerey
Esta resistência será diversa conforme a natureza das tentações. Há umas que são frequentes, mas pouco graves. Para essas a melhor tática é o desprezo, como tão bem explica São Francisco de Sales: “Quanto a essas pequenas tentações de vaidade, suspeita, tristeza, ciúme, inveja, afeiçõezinhas e outras semelhantes ninharias, que, como moscas e mosquitos nos andam passando por diante dos olhos, e umas vezes nos picam nas faces, outras no nariz… a melhor resistência que lhes podemos fazer é não nos afligirmos, porque nada disto nos pode causar dano, ainda que nos pode enfadar, contanto que tenhamos firme resolução de querer servir a Deus. Desprezai, pois, estes pequenos assaltos e não vos ponhais nem sequer a considerar o que querem dizer. Deixai-os zunir à roda dos ouvidos, quanto quiserem… como se faz com as moscas.
Aqui ocupamo-nos sobretudo das tentações graves: é preciso combate-las prontamente, energicamente, com constância e humildade.
PRONTAMENTE: Sem discutir com o inimigo, sem hesitação alguma ao princípio, como a tentação não firmou ainda o pé solidamente em nossa alma, é bastante fácil rechaça-la. Se esperarmos que lance raízes na alma, será muito mais difícil. Por conseguinte, nada de parlamentar com o tentador. Associemos a ideia de prazer ilícito a tudo quanto há de mais repugnante, a uma serpente, a um traidor que nos quer apanhar de sobressalto, e lembremo-nos da palavra dos nossos Livros Santos: “Foge dos pecados como da vista duma cobra, porque se te aproximares deles, apoderar-se-ão de ti”. E foge-se orando e aplicando o espírito a qualquer outro assunto.
ENERGICAMENTE: não com moleza e como de má vontade, o que pareceria convidar a tentação a voltar, mas com força e vigor, testemunhando o horror que tal proposição nos causa: “arreda, satanás, vade satana”. É, porém, diversa a tática que se deve empregar segundo o gênero das tentações. Se se trata de prazeres atraentes, é necessário afastar-se e fugir, aplicando fortemente a atenção a um assunto diferente que nos possa absorver o espírito. A resistência direta não faria geralmente senão aumentar o perigo. Se a tentação é repugnância em cumprir o próprio dever, antipatia, ódio, respeito humano, o melhor é, muitas vezes, afrontar a tentação, considerar francamente a dificuldade de rosto e apelar para os princípios da fé, para dela triunfar.
COM CONSTÂNCIA: é que às vezes a tentação, vencida por um instante, volta com novo furor, e o demônio reconduz do deserto sete espíritos piores do que ele. A esta pertinácia do inimigo é mister opor resistência não menos tenaz: quem combate até o fim é que ganha a vitória. Mas então, para haver maior segurança de triunfar, importa dar a conhecer a tentação ao diretor espiritual.
É este o conselho que dão os Santos, em particular Santo Inácio e São Francisco de Sales: “porque notai, diz este último, que a primeira condição que o maligno propõe à alma que quer enganar, é o silêncio, como fazem aqueles que querem seduzir as mulheres e as donzelas, que por entrada proíbem que elas comuniquem as propostas aos pais ou maridos. Pelo contrário, Deus, em suas inspirações, requer sobre todas as coisas que as façamos reconhecer pelos nossos superiores e diretores”. E, na verdade, parece que anda vinculada uma graça especial a esta manifestação da consciência: tentação descoberta é tentação meio vencida.
COM HUMILDADE: é ela, efetivamente, que atrai a graça, e a graça é que nos dá a vitória. O demônio, que pecou por orgulho, foge diante dum ato sincero de humildade, e a tríplice concupiscência, que tira a sua força da soberba, é facilmente vencida, quando por assim dizer, a decapitamos pela humildade.
Da obra “A vida espiritual explicada e comentada”.
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COMO PROCEDER NA TENTAÇÃO [PARTE I]: PREVENIR A TENTAÇÃO


Por Adolph Tanquerey
Para triunfar das tentações e fazê-las servir ao bem espiritual da nossa alma, três coisas principais se devem observar: 1º Prevenir a tentação; 2º Combatê-la vigorosamente; 3º Agradecer a Deus depois da vitória, ou levantar-se após a queda.
Trata-se especificamente de cada um destas três coisas em três postagens distintas. Nesta primeira postagem da série aborda-se a questão de como prevenir a tentação
Prevenir a tentação
Conhecemos o provérbio: Mais vale prevenir que remediar. É também o que aconselha a sabedoria cristã. Quando Cristo Senhor Nosso conduziu os três apóstolos ao jardim da Oliveiras, disse-lhes: “Vigiai e orai, para não entrardes em tentações”(Mt 26, 41). Vigilância e oração, eis pois, os dois grandes meios de prevenir a tentação.
Vigiar é estar de atalaia em torno da própria alma, para não se deixar colher de sobressalto. E é tão fácil sucumbir num momento de surpresa! Esta vigilância implica duas disposições principais: desconfiança de si mesmo e confiança em Deus.
É, pois, necessário evitar a presunção orgulhosa que nos lança para o meio dos perigos, a pretexto de que somos assaz fortes para deles triunfar. Foi o pecado de São Pedro que, no momento em que Jesus predizia a fuga dos apóstolos, exclamava: “Ainda quando sejais para todos uma ocasião de queda, para mim nunca o sereis” (Mc 14,29). Reflitamos, pelo contrário, que aquele que julga estar de pé deve ter cuidado, não vá cair”(ICor 10, 12); porque, se o espírito está pronto, a carne é fraca, e segurança não se encontra senão na desconfiança humilde da própria fraqueza.
Mas devem-se evitar igualmente esses vãos terrores que não fazem senão aumentar o perigo. É bem verdade que somos fracos por nós mesmos, mas invencíveis naquele que nos conforta: “Deus que é fiel não permitirá que sejais tentados mais do que podem as vossas forças. Antes fará que tireis ainda vantagem da mesma tentação, para a poderdes suportar”(ICor 10, 13).
Esta justa desconfiança de nós mesmos faz-nos evitar ocasiões perigosas, tal companhia, tal divertimento, etc., em que a nossa experiência nos mostrou que nos vimos expostos a cair. Combate a ociosidade, que é uma das ocasiões mais perigosas, bem como essa moleza habitual, que afrouxa as energias da vontade e a prepara a todas as capitulações. Tem horror desses fúteis devaneios que povoam a alma de fantasmas que não tardam a tornar-se perigosos. Numa palavra, pratica a mortificação sob as diferentes formas e aplica-se aos deveres de estado, à vida interior e ao apostolado. E, então, no meio desta vida intensa, resta pouco lugar para tentações.
A vigilância deve exercer-se especialmente sobre o ponto fraco da alma, visto ser geralmente desse lado que vem o assalto. Para fortificar esse ponto vulnerável, é lançar mão do exame particular, que por tempo notável concentra a atenção sobre esse defeito, ou melhor ainda sobre a virtude contrária.
À vigilância é preciso ajuntar a oração, que, colocando a Deus do nosso lado, nos torna invencíveis. Afinal, Deus acha-se interessado em nossa vitória, porque é a Ele que o demônio quer atingir em nossa pessoa, é a sua obra que ele quer destruir em nós. Podemos invoca-lo com santa confiança, seguros de que Ele nada mais deseja que socorrer-nos. Contra a tentação é boa toda a oração: vocal ou mental, privada ou pública, sob forma de adoração ou de petição. É bom, sobretudo nas horas de paz, orar para o tempo de tentação. No momento em que esta se apresenta, não há mais tempo senão para elevar rapidamente o coração a Deus, para resistirmos com mais vigor.
Continua em outra postagem com a segunda parte com o tema Resistir à tentação.
Da obra A vida espiritual. Explicada e comentada.
https://capelasantoagostinho.com/2018/03/10/como-proceder-na-tentacao-i-prevenir-a-tentacao/