sexta-feira, 6 de março de 2026

Semana 2: Sexta-feira - Os Inquilinos Perversos

Semana 2: Sexta-feira

Os Inquilinos Perversos


“Ouvi outra parábola” (Mateus 21:33). Ele fala conosco e também com

os judeus. Escutemos, pois, e vejamos toda a história da Igreja sob a

figura mais simples que se possa imaginar.

“Havia um pai de família que plantou uma vinha” (Mateus 21:33). Foi

Davi quem cantou sobre isso: “Trouxe uma videira do Egito; tu

expulsaste as nações e a plantaste. . . . Criou raı́zes profundas e encheu a

terra. As montanhas foram cobertas com sua sombra, os poderosos

cedros com seus galhos; estendeu os seus ramos para o mar e os seus

rebentos para o rio” (cf. Sl 80,8-11). Aqui está algo ainda mais claro em

Isaı́as: “Meu amado”, isto é, meu Filho ungido, o Cristo, “tinha uma vinha

em uma colina muito fértil” e “plantou-a com videiras escolhidas; ele

construiu uma torre de vigia no meio dela,” para aqueles que cuidariam

dela, e ele “construiu nela um lagar” (Isaı́as 5:1-2). Estas são as próprias

palavras de nosso Salvador.

“Ele arrendou aos arrendatários” (Mateus 21:33). Ele confiou seu

cuidado aos sacerdotes, filhos de Aarão, e aos doutores da Lei.

“Enviou seus servos aos lavradores para colherem seus frutos”

(Mateus 21:34). *“Eu vos enviei todos os meus servos, os profetas”*

*(Jeremias 35:15), de manhã e à tarde, para avisar os prı́ncipes, os*

*sacerdotes e o povo, que eles devem dar a Deus o fruto que ele espera*

*do cuidando da sua vinha com a Lei e as Sagradas Escrituras.* Em vez de

ouvir os profetas, eles os perseguiram e os mataram (Mt 23:34). “Qual

dos profetas vossos pais não perseguiram?” Santo Estêvão perguntou

lhes. “Eles mataram os que de antemão anunciaram a vinda do Justo, a

quem vocês agora traíram e mataram” (Atos 7:52). E exatamente por

isso que Jesus os repreende nesta parábola.

Depois de todos os profetas, “ele enviou seu filho”, o próprio Cristo,

dizendo: “Eles respeitarão meu filho” (Mt 21:37). Ele tinha o que

precisava para se fazer respeitar: sua admirável doutrina e seus

milagres. No entanto, eles o arrastaram da vinha, de Jerusalém, para o

Calvário, e o mataram brutalmente pelos romanos.

*Devemos nos maravilhar com a maneira como Jesus os desmaia*

*corajosamente com esta parábola, revelando seus planos, o que eles*

*realizarão em apenas dois dias.* Eles não deveriam ter sido movidos por

seu discurso? E ainda mais porque o Salvador colocou seu próprio

crime tão claramente diante de seus olhos, de modo que, quando lhes

perguntou o que o chefe de famı́lia faria nesse caso, eles foram

constrangidos a responder: “Ele fará com que aqueles miseráveis

tenham uma morte miserável e arrendar a vinha a outros lavradores”

(Mateus 21:41). *O que ele então passou a explicar, dizendo: “O reino de*

*Deus vos será tirado e será dado a uma nação que produza os seus*

*frutos” (Mateus 21:43).* Isto é, de fato, o que logo aconteceu, como os

Apóstolos lhes disseram: “Era necessário que a palavra de Deus fosse

anunciada primeiro a vocês. Já que vocês a expulsaram e se julgam

indignos da vida eterna, eis que nos voltamos para os gentios. Pois

assim nos ordenou o Senhor, dizendo: 'Eu te constituı́ para luz dos

gentios'” (Atos 13:46-7; cf. Isaı́as 49:6).

Não vamos confundir os propósitos de nosso Salvador: uma vez que

somos a nação que ele escolheu para produzir o fruto de sua palavra,

sejamos frutı́feros em boas obras. *“O fruto do Espı́rito é amor, alegria,*

*paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão, domı́nio*

*próprio” (Gálatas 5:22).* Estes são os frutos que devemos dar, e não as*

obras da carne que dão o fruto da morte, que são “imoralidade,

impureza, inimizades, contendas, embriaguez, orgias” e os outros que

São Paulo enumera no mesmo lugar ( Gl 5:19-21). Caso contrário, o

reino de Deus será tirado de nós como foi tirado dos judeus, e outro

“apoderará-se da nossa coroa” (cf. Ap 3,11). “Porque, se Deus não

poupou” os judeus, que eram “os ramos naturais, também não vos

poupará” (Rm 11:21). Esta foi a grande tristeza dos judeus: ver a coroa

que lhes estava destinada colocada nas mãos dos gentios, quando, como

disse o Salvador, “muitos virão do oriente e do ocidente e se sentarão à

mesa com Abraão, Isaque, e Jacó no reino dos céus, enquanto os filhos

do reino serão lançados nas trevas exteriores; ali os homens chorarão e

rangerão os dentes” (Mateus 8:11-12). Pois eles verão o lugar que

deveriam ter tido, a coroa que deveriam ter usado, e verão seu lugar

preenchido por outros e sua coroa em outras cabeças. *Então chorarão*

*lágrimas inúteis e ficarão furiosos a ponto de ranger os dentes. Ouça,*

*cristão! Leia o seu destino no dos judeus, mas leia-o e ouça em seu*

*coração, e não permita que uma parábola tão clara seja ignorada.*

Oh meu Deus! Você destinou esta coroa para mim. Deixe-me arrancá

lo rapidamente de suas mãos: não perecerá , pois você sabe a quem o

deu, conhece seus eleitos e o número deles será completo. Coloque-me

entre o número daqueles que não perderão sua coroa.


Jacques-Benigne Bossuet

Meditações para a Quaresma


quinta-feira, 5 de março de 2026

Semana 2: Quinta-feira - Jeremias: Um Tipo de Cristo

 *Semana 2: Quinta-feira*

*Jeremias: Um Tipo de Cristo*


As lágrimas de Jeremias eram uma intercessão contínua por seu povo.

“Deixe meus olhos correrem com lágrimas noite e dia, e não deixe que

eles parem, pois a filha virgem do meu povo foi ferida com uma grande

ferida, com um golpe muito doloroso. Se eu sair ao campo, eis os

mortos à espada! E se eu entrar na cidade, eis que as doenças da fome!

Você rejeitou Judá totalmente? Tua alma odeia Sião? Por que nos feriu

de modo que não há cura para nós? Procuramos paz, mas nada de bom

veio; por um tempo de cura, mas eis que terror. Reconhecemos a nossa

maldade, Senhor, e a iniquidade de nossos pais, porque pecamos contra

ti. Não nos rejeites, por amor do teu nome; não desonres o teu trono

glorioso” (cf. Jer. 14:17-21). *“Embora as nossas iniquidades*

*testemunhem contra nós,” e se oponham à misericórdia que te*

*imploramos, todavia “age, ó Senhor, por amor do teu nome” (cf. Jer.*

14:7). “Lembre-se e não quebre a sua aliança conosco” (cf. Jer. 14:21).

Ai, ó Senhor, encontraremos um Deus como tu entre os povos que nos

cercam em nosso exı́lio? “Existe algum entre os falsos deuses das

nações que pode trazer chuva? Ou os céus podem dar chuvas? Não és

tu, ó Senhor nosso Deus? Em ti pusemos a nossa esperança, porque tu

fazes todas estas coisas” (cf. Jer. 14:22).

Assim orou Jeremias dia e noite, com lágrimas e gemidos, por um

povo que não cessava de feri-lo e de buscar sua morte. *Ele era um tipo*

*de Cristo, nosso grande sumo sacerdote, que “nos dias de sua carne”, de

*sua fraqueza, sofrimento e vida mortal, “ofereceu orações e súplicas,*

*com grande clamor e lágrimas” a seu Pai, e “foi ouvido por seu temor*

*piedoso” (Hb 5:7),* até que finalmente, na cruz na qual seu próprio povo

o havia pregado, ele clamou: *“Pai, perdoa-lhes; porque não sabem o que*

*fazem” (Lucas 23:34).*

Deus capacitou Jeremias a fazer o que Jesus Cristo um dia ordenaria:

“Orai pelos que vos perseguem” (Mateus 5:44). *“O mal é uma*

*recompensa pelo bem?”* (Jeremias 18:20), ele perguntou. Por que eles

“cavaram um buraco para a minha vida”; não tenho trabalhado

incansavelmente para o bem deles? “Lembra-te, Senhor, de como me

apresentei diante de ti, para falar bem por eles, para desviar deles a tua

cólera” (Jeremias 18:20). Na verdade, esse discurso de Jeremias parece

ter sido seguido por terrı́veis imprecações contra o povo; mas sabemos

que, de acordo com o estilo dos profetas, mesmo isso, sob a figura da

imprecação, é apenas uma maneira de prever os males que acontecerão

a esses ingratos no futuro. E por isso que vemos que o mesmo profeta,

quando vê acontecerem os males que predisse, está longe de ficar

alegre - como teria ficado se desejasse que eles sofressem - mas, ao

contrário, é levado às lágrimas ao ver de seu desastre, e termina suas

lamentações com esta oração: “Lembra-te, ó Senhor, do que nos

aconteceu; eis, e vede a nossa desgraça! Por que nos esqueces para

sempre, por que tanto nos abandonas? Restaura-nos a ti mesmo, ó

Senhor, para que possamos ser restaurados! Renove nossos dias como

antigamente! Ou você nos rejeitou totalmente? Estás extremamente

zangado conosco?” (cf. Lam. 5:1, 20-22).



*```Jacques-Benigne Bossuet*

*Meditações para a Quaresma```*


quarta-feira, 4 de março de 2026

 


Semana 2: quarta-feira - Não ser servido

 *Semana 2: quarta-feira*

*Não ser servido*


A hora de Jesus se aproxima. Ele sobe voluntariamente a Jerusalém,

sabendo que ali morrerá , e assim o diz aos seus Apóstolos.

“Então a mãe dos filhos de Zebedeu aproximou-se dele, com seus

filhos, e ajoelhou-se diante dele . . . ela lhe disse: 'Manda que estes meus

dois filhos se assentem, um à tua direita e outro à tua esquerda, no teu

reino'” (Mateus 20:20-21). Ao relatar o mesmo episódio, São Marcos diz

claramente que não foi apenas a mãe deles, mas os próprios dois

irmãos, isto é, os santos. Tiago e João, que fizeram o pedido (Marcos

10:35-37). Isso nos mostra que a mãe agia por instigação dos filhos, que

parecem ter aderido abertamente à demanda. E é por isso que o

Salvador dirigiu sua resposta a eles: “Você pode beber o cálice que eu

devo beber?” (Mateus 20:22).

Essa troca nos mostra como foi difı́cil para os apóstolos ouvir sobre a

cruz. Jesus acaba de falar claramente (Mateus 20:19), e longe de ouvi-lo,

Sts. Tiago e João — lı́deres entre os Apóstolos — acabaram de lhe falar

de sua glória e da distinção que esperam obter dele.

Vamos pesar estas palavras de Jesus: “Você não sabe o que está

pedindo” (Mt 20:22). Você fala de glória e não está pensando no que

deve ser sofrido para ganhá-la. Então ele explica esses sofrimentos a

eles por duas metáforas, pela do cálice amargo que deve ser bebido e

pelo batismo sangrento que deve ser aceito. Engolir todo tipo de

amargura, sofrer a ponto de ter o corpo submerso, como no batismo:

este é o preço da glória.

*Os ambiciosos apóstolos se oferecem por tudo isso, mas Jesus, vendo*

*que eles se oferecem apenas para sofrer por ambição, não escolhe*

*satisfazê-los.* Ele concede o pedido deles no que diz respeito à cruz, mas

quanto à glória, ele os refere aos decretos eternos e à sabedoria oculta

de seu Pai. Ele poderia ter dito a eles o que depois disse a todos os

Apóstolos: *“Assim como meu Pai designou um reino para mim, também*

*eu designo um para vocês” (cf. Lucas 22:29).* Mas aqueles que estão

dispostos a sofrer apenas por ambição ainda não eram dignos de ouvir

esta promessa. Assim, para prendê-los à Cruz, cujo poder eles ainda não

compreendiam, Jesus deixa ao Pai o que pertence à glória e aqui se

permite apenas prever e distribuir as lições.

Tudo isto se realizou com a profunda economia tantas vezes

praticada no Evangelho, onde, por várias razões, se atribui coisas

diversas ao Pai e ao Filho. No entanto, devemos sempre lembrar que o

que está por baixo como fundamento é o que o Salvador disse a seu Pai:

*“Tudo o que tenho é teu e o que tens é meu”* (cf. Jo 17, 10).

Os outros apóstolos “ficaram indignados” com o pedido dos dois

irmãos (Mt 20:24). Cegos, eles não perceberam que estavam todos

possuı́dos pelos mesmos sentimentos que condenavam nos dois, visto

que tanto antes quanto depois Jesus os surpreendeu em uma disputa

sobre “qual deles era o maior” (Lucas 9:46; 22). :24). Assim é que não

podemos suportar nos outros o vı́cio que temos em nós mesmos: *somos*

*perspicazes o suficiente para impor reprovação, mas cegos demais para

*o autoconhecimento e a autocorreção.*

Devemos observar a admirável mudança que as instruções do

Salvador e a efusão do Espı́rito Santo efetuaram nos Apóstolos. Esses

homens, que nunca paravam de discutir entre si sobre quem era o

maior, cederam sem esforço a honra a São Pedro. Eles o deixam falar em

todos os lugares. Ele presidiu todos os seus conselhos e assembléias.

São João, que acabava de pedir o primeiro lugar, espera São Pedro junto

ao túmulo do Salvador para que entre primeiro, e a pressa em ver os

sinais da Ressurreição do seu Mestre não o impediu de pagar o honra

que ele devia ao prı́ncipe dos Apóstolos.

Consideremos bem as palavras de São Mateus com as quais Jesus

derruba toda ambição com seu exemplo:

Você sabe que os governantes dos gentios dominam sobre eles, e

seus grandes homens exercem autoridade sobre eles. Não será

assim entre vós; mas quem quiser ser grande entre vós deverá ser

vosso servo, e quem quiser ser o primeiro entre vós deverá ser

vosso escravo, assim como o Filho do homem não veio para ser

servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.

(Mateus 20:25-28)

Não seja ambicioso, ó cristão! Não queiras mandar nem ter vantagem

entre os homens, porque és discı́pulo *Daquele que, embora Senhor de*

*todos, se fez servo e colocou toda a sua glória na redenção dos seus*

eleitos com a perda da sua vida. Redimidos pela humildade e pela Cruz

do teu Salvador, não sonhes em elevar-te, nem em insular de maneira

alguma o teu coração.

*Consideremos também o quanto as nossas paixões nos cegam,*

*especialmente a ambição, e gritemos, como os dois cegos e como*

Bartimeu: “Senhor, que se abram os nossos olhos” (Mt 20,33; Mc 10,46,*

51; Lucas 18:41).* Ajude-nos a conhecer nossas falhas. A reprovação dos

homens nunca deve nos impedir de clamar a Jesus para implorar a

ajuda de sua graça. *Deixemos para trás nossos hábitos, corramos para*

*ele, abramos nossos olhos, glorifiquemos a Deus e nunca nos gloriemos*

*em nós mesmos.*


*Jacques-Benigne Bossuet*

*Meditações para a Quaresma*

terça-feira, 3 de março de 2026

Semana 2: terça-feira - Soar sem trompete

 *Semana 2: terça-feira*

*Soar sem trompete*



Tendo elevado a justiça cristã à máxima perfeição — *até ao ponto de*

*nos dar o próprio Deus por modelo*— Jesus vê que o homem, *inclinado*

*à vaidade,* desejará gloriar-se nas práticas exteriores desta justiça

perfeita, razão pela qual nos dá este preceito: “Acautelai-vos de praticar

a vossa piedade diante dos homens, a fim de serdes vistos por eles”

(Mateus 6:1). Ele não proíbe a prática da justiça cristã em todos os

nossos encontros, para que nosso próximo seja edificado pelo exemplo.

Pelo contrário, ele disse: “Assim brilhe a vossa luz diante dos homens,

para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está

nos céus” (Mateus 5:16). *No entanto, devemos tomar cuidado para não*

*fazê-los “para sermos vistos” pelos homens, pois então “não teremos*

*recompensa”* (Mateus 6:1). Se pedes glória aos homens e mulheres para

quem trabalhas, não deves esperar de Deus senão o castigo reservado

aos hipócritas.

Toda vez que você for elogiado, você deve temer estas palavras do

Senhor: *“Em verdade vos digo que eles já receberam a sua recompensa”*

(Mateus 6:2). Esse ensinamento é tão importante que Jesus o repete a

cada novo assunto no mesmo capítulo: “Seu Pai, que vê em secreto, o

recompensará” (Mt 6:18).

Lembre-se do que ele disse sobre o homem rico mau: que ele recebeu

seus bens em sua vida (Lucas 16:25). Lembre-se também de sua

advertência sobre as festas: “Não convides teus amigos, nem teus

irmãos, nem teus parentes, nem vizinhos ricos;

Felizes, então, são aqueles cuja “vida está escondida com Cristo em

Deus” (Colossenses 3:3), a quem o mundo não conhece, que vivem no

segredo de Deus, contentando-se com sua consideração, por que erro e

loucura não é contentar-se com tal espectador! Eles são “como

desconhecidos” (2 Coríntios 6:9), diz São Paulo, pois não são objetos

dos vãos discursos dos homens. “No entanto, bem conhecidos” eles são

(2 Coríntios 6:9), pois Deus olha para eles muito mais do que qualquer

pessoa pensa neles. *Felizes, felizes são eles! “Se eu ainda estivesse*

*agradando aos homens”, disse o mesmo apóstolo, “não seria servo de*

*Cristo” (Gálatas 1:10).*

Devemos, porém, resguardar-nos de uma indiferença que nos leve a

negligenciar as ações exteriores que edificam o próximo — como se

dissesse: “Que me importa o que ele pensa?” eram equivalentes a “O

que importa para mim se ele está escandalizado?” Deus me livre! *Em*

*nossas ações exteriores, devemos edificar o próximo. Tudo o que*

*fazemos deve ser bem ordenado, até o piscar dos olhos. No entanto,*

*devemos fazer tudo naturalmente e sem afetação, e devemos deixar que*

*a glória seja de Deus.*

Guardai-vos também para não vos contentardes apenas com a ordem

exterior: porque também a Deus é devido algo a contemplar em

segredo, que é um coração que o busca.

“Não deixe a sua mão esquerda saber o que a sua mão direita está

fazendo” (Mateus 6:3). *Esconda sua esmola de seus amigos mais*

*íntimos e, se possível, não deixe que os próprios pobres o conheçam.*

*Seria melhor se você pudesse esconder de si mesmo o bem que faz.*

Pelo menos esconda seu mérito de seus olhos. *Sempre acredite que*

*você faz pouco, que não faz nada, que é um servo inútil.* Sempre tema

que sua intenção em suas boas obras não seja suficientemente pura e

desapegada da consideração do mundo. *Faça o bem sem esperar*

*retorno.* Ocupe-se tão completamente com o bom trabalho em si que

você nunca pense sobre o que virá para você a partir dele. Deixe tudo

para o julgamento de Deus, para que só ele o veja, enquanto você se

esconde de si mesmo.

“Não toques trombeta diante de ti” (Mateus 6:2), como aqueles que

falam sem parar sobre o que fazem e dizem. Eles mesmos são sua

própria trombeta, tanto temem não serem vistos pelos homens.


*Jacques-Benigne Bossuet*

*Meditações para a Quaresma*



segunda-feira, 2 de março de 2026

Semana 2: Segunda-feira - E Você Será Perdoado

Semana 2: segunda-feira

E Você Será Perdoado

 

Há boas razões para se surpreender com o fato de os homens pecarem

com tanta ousadia à vista do céu e da terra e mostrarem tão pouco

temor do Deus Altíssimo. *No entanto, é uma causa muito maior de*

*espanto que, embora multipliquemos nossas iniquidades além das*

*areias do mar* e indulgente, sejamos, no entanto, tão exigentes conosco.

Quanta indignidade e quanta injustiça! Queremos que Deus sofra tudo

de nós, e não podemos sofrer nada de ninguém. Exageramos além da

medida as faltas cometidas contra nós; vermes que somos, tomamos a

menor pressão exercida sobre nós como um enorme ataque. Enquanto

isso, contamos como nada o que empreendemos orgulhosamente

contra a soberana majestade de Deus e os direitos de seu império!

*Mortais cegos e miseráveis: seremos sempre tão sensíveis e*

*delicados?* Nunca abriremos os olhos para a verdade? Será que nunca

compreenderemos que aquele que nos injuria é sempre muito mais

digno de pena do que nós que recebemos a injúria? *Que ele perfura seu*

*próprio coração enquanto apenas roça nossa pele,* e que, no final,

nossos inimigos são loucos; querendo nos fazer beber todo o veneno de

seu ódio, eles mesmos o fazem primeiro, engolindo o próprio veneno

que prepararam? Já que aqueles que nos fazem mal não têm mente

saudável, por que os amargamos com nossa cruel vingança? Por que

não procuramos trazê-los de volta à razão com nossa paciência e

brandura?

No entanto, estamos muito longe dessas disposições de caridade.

Longe de fazer o esforço de autocontrole que nos permitiria suportar

uma lesão, pensamos que nos rebaixamos se não nos orgulhamos de

ser delicados em questões de honra. Até pensamos bem de nós mesmos

pela nossa extrema sensibilidade. E carregamos nosso ressentimento

além de toda medida, exercendo uma vingança impiedosa contra

aqueles que nos irritam, ou nos consolando em sobrecarregá-los,

exibindo nossa paciência ou fingindo tranquilidade para insultá-los

ainda mais. Somos inimigos tão cruéis e vingadores implacáveis que até

transformamos a paciência e a piedade em armas de nossa raiva! No

entanto, esses não são nossos piores excessos, pois nem sempre

esperamos por ferimentos reais para nos irritarmos. Sombras, ciúmes e

oposições ocultas bastam para nos armar uns contra os outros. Muitas

vezes passamos a odiar pela única razão de acreditar que somos

odiados. A ansiedade toma conta de nós. Tememos as injúrias antes que

venham e, levados por nossas suspeitas, vingamos o que ainda não

aconteceu.

Tudo isso devemos parar. Devemos cuidar como falamos do nosso

próximo. Essa palavrinha, o dardo lançado casualmente, a história

maliciosa que dá origem a tantos pensamentos errantes por sua

obliquidade afetada: nada disso cairá por terra. “Nenhuma palavra

secreta é sem resultado” (Sab. 1:11). Devemos cuidar do que dizemos e

refrear nossa raiva maliciosa e línguas indisciplinadas. Pois há um Deus

no céu que nos disse que exigirá um ajuste de contas de nossas

“palavras descuidadas” (Mateus 12:36): que recompensa ele exigirá por

aqueles que são prejudiciais e maliciosos? Devemos, portanto,

reverenciar seus olhos e sua presença. Reflitamos sobre o fato de que

ele nos julgará como julgamos nosso próximo. Se perdoarmos, ele nos

perdoará; se vingarmos nossas injúrias, “sofreremos a vingança do

Senhor” (Eclesiástico 28:1). Sua vingança nos perseguirá na vida e na

morte, e não teremos descanso nem neste mundo nem no próximo.

Não esperemos, pois, a hora da morte para perdoar os nossos

inimigos, mas pratiquemos o que ensina São Paulo: *“Não se ponha o sol*

*sobre a tua cólera”* (Ef 4,26). O coração terno e paternal do apóstolo não

podia compreender que um cristão - um filho de paz - pudesse dormir

em paz com um coração ulcerado e amargurado para com seu irmão,

nem que ele pudesse desfrutar de qualquer descanso enquanto deseja o

mal ao próximo, cujos interesses Deus tomou em mãos. A luz diminui, o

sol se põe: o apóstolo não lhe dá tempo a perder. Você mal tem tempo

para obedecê-lo. Não devemos mais atrasar esse trabalho necessário.

Apressemo-nos a entregar nosso ressentimento a Deus. Se reservarmos

todos os negócios de nossa salvação até o dia de nossa morte, será um

dia muito ocupado. *Comecemos agora a preparar-nos para as graças de*

*que então necessitaremos e, perdoando a quem nos feriu, asseguremos*

*nos da eterna misericórdia do Pai, e do Filho, e do Espirito Santo.*

Amém.

 

Jacques-Benigne Bossuet

Meditações para a Quaresma