terça-feira, 2 de junho de 2015

A falsa paz espiritual



Quem se acusa a si mesmo, por mais que lhe venham importunações, danos, opróbrios, afrontas da parte de quem quer que seja, tudo recebe com serenidade e, julgando-se merecedor de tudo isso, sem que possa perturbar-se de modo algum. Quem mais tranquilo do que este homem?
            Talvez haja quem objete: “E se, quando um irmão me aflige, procuro e não vejo ter-lhe dado motivo para isto, por que então hei de me acusar?”
            Na verdade, se alguém com temor de Deus se examina com cuidado, nunca se julgará, de todo, inocente e verá que o motivo está em algum ato seu, palavra ou gesto. Se em nada se achou culpado, talvez em outra ocasião o tenha aborrecido em coisa parecida ou diferente. Ou ainda, quem sabe, maltratou outro irmão. Com razão deve sofrer por isto ou por outros pecados, tão numerosos, que cometeu. Perguntará alguém por que se acusar quando, quieto e sossegado, é molestado por palavras ou gestos ofensivos de um irmão. Não podendo suportar nada disso, julga-se com direito de se irritar. Pecaria, se porventura não se desse esse encontro e essa palavra?
            Isto é ridículo e é claro que não se apoia em motivo algum. Não foi por ter dito uma palavra qualquer que se lhe suscitou a paixão da cólera, mas, antes, revelou a paixão oculta que o minava; dela, se quiser, faça penitência. Este tal se fez semelhante a um pão branco, belo e todo limpo, que, ao ser cortado, mostra estar sujo por dentro.
            Do mesmo modo, se alguém se julga quieto e pacífico, tem, no entanto, uma paixão que não vê. Chega um irmão, lança uma palavra desagradável e imediatamente lhe jorra de dentro o pus e a sujeira oculta. Se quiser alcançar a misericórdia, faça penitência, purifique-se, esforce-se por progredir e reconheça que, em vez de retrucar à injúria, deveria agradecer ao irmão ocasião de tão grande utilidade. Depois disso, não se afligirá tanto com as tentações, pois quanto mais progredir, tanto mais lhe parecerão leves. A alma se fortalece à medida em que caminha, faz-se mais corajosa em suportar todas as coisas duras que lhe advêm.

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domingo, 31 de maio de 2015

É possível falar de Deus ao mundo moderno? - Parte 2 -

O conceito cristão de verdade

A Igreja não é alheia aos esforços que os pensadores, inseridos nas diversas culturas, empreenderam sobre o tema da verdade. Ela mesma compreende-se responsável por este caminho de pesquisa e reflexão, em prol da humanidade, do bem comum. Sobre isto, nos recorda o Papa João Paulo II: “Como em épocas precedentes, também hoje — e talvez mais ainda — os teólogos e todos os homens de ciência na Igreja são chamados a unirem a fé com a ciência e a sapiência, a fim de contribuírem para uma recíproca compenetração das mesmas (...). Este interesse ampliou-se enormemente nos dias de hoje, dado o progresso da ciência humana, dos seus métodos e das suas conquistas no conhecimento do mundo e do homem. E isto diz respeito tanto às chamadas ciências exatas, quanto igualmente às ciências humanas, bem como à Filosofia, cujos ligames estreitos com a Teologia foram recordados pelo II Concílio do Vaticano.” 

A Igreja sempre entendeu que sua missão é de constituição divina e, portanto, pela natureza mesma de tal vocação, ela deveria anunciar a todos os homens o que de Deus mesmo recebeu. As escrituras do Novo Testamento já atestam isto: “a Igreja de Deus vivo, coluna e sustentáculo da verdade” (1 Tm 3,15b), e ainda, na oração sacerdotal de Cristo, Ele assim ora ao Pai: “Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17,17). O pensamento neo-testamentário compreende a “Palavra” encarnada como portadora da Verdade: “o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1,14). Portanto, a Sabedoria divina, o filho de Deus encarnado, Jesus Cristo, é a expressão última da verdade desconhecida até então pelo homem. Cristo profere as palavras de Deus (cf. Jo 3,34), aquilo que viu e ouviu de seu Pai (cf. Jo 8,38). Deus é ser absoluto e irrevogável em seus pensamentos. Ele não pode contradizer-se, pois é todo verdade, ato único e contínuo, por isto, tudo aquilo que Ele comunica, só pode ser verdade, pois o pai da mentira é o diabo (cf. Jo 8,44). Assim se expressa o Concílio do Vaticano II: “Esta ‘economia’ da revelação realiza-se por meio de ações e palavras intimamente relacionadas entre si, de tal maneira que as obras, realizadas por Deus na história da salvação, manifestam e confirmam a doutrina e as realidades significadas pelas palavras; e as palavras, por sua vez, declaram as obras e esclarecem o mistério nelas contido.” 

Cristo, a verdade última revelada aos homens, se imposta como mensageiro daquela verdade há tanto buscada pelos homens. É Ele quem dá a última e plena resposta sobre as perguntas fundamentais colocadas pelo ser humano. É por isto que, pela revelação feita por Jesus Cristo, a fé cristã entende que existe uma verdade universal e válida para todas as culturas. Nesta perspectiva, o relativismo pregado pelo cientificismo moderno não tem espaço, uma vez que a verdade reside em tudo aquilo que é essencialmente humano. Portanto, se a cultura estiver enraizada no que é profundamente humano, revelará em si aquela verdade única e universal, que a fé cristã entende por Deus.

O conceito cristão de verdade parte da categoria ‘Revelação’. Tal categoria é plenamente válida, como já havíamos apontado, uma vez que, sendo realidade suprassensível, ela está elencada dentre aqueles métodos refutados pelos pensadores cartesianos. Prova da validade da Revelação cristã é o fato de filósofos e mesmo pensadores ateus, sem vínculo com fé alguma, atestarem uma abertura metafísica-transcendental da alma humana.  O pressuposto da verdade está na possibilidade do homem progredir. Ele nunca é estático, passivo, mas, no dinamismo do ser humano, as culturas, que, por isto mesmo, também se apresentam dinâmicas, têm a capacidade de ascenderem, isto significa estarem abertas à Revelação, a qual é um dado universal que se apresenta a cima do tempo e do espaço.

As pesquisas efetuadas pela história das religiões e pensamentos religiosos têm demonstrado a Revelação como critério válido para a questão da verdade. Mircea Eliade, historiador das religiões, assim se expressa: “o sagrado é um elemento na estrutura da consciência, e não uma fase na história dessa consciência. Nos mais arcaicos níveis de cultura, viver como ser humano é em si um ato religioso, pois a alimentação, a vida sexual e o trabalho têm um valor sacramental. Em outras palavras, ser – ou, antes, tornar-se – um homem significa ser ‘religioso’.” 

Eliade trabalha com o conceito de “unidade da história espiritual da humanidade”, o qual, segundo ele, é uma descoberta recente, ainda pouco assimilada. Isto quer dizer que há uma realidade supra-histórica-cultural comum a todas as pessoas. A contribuição das ciências históricas é apresentar os dados fenomênicos desta unidade espiritual da humanidade, mas a questão do valor da espiritualidade, de Deus e das coisas religiosas ainda soa como novidade e é encarada como pseudo-conhecimento, algo completamente dispensável e estrito a religiosos. O próprio M. Eliade explica esta realidade. Para ele, os mestres do reducionismo, tais como Marx e Nietzche até Freud, provocaram as crises religiosas ao colocarem a religião como inimiga da evolução humana. Destarte, o mundo ocidental moderno encontra-se em uma derradeira etapa de dessacralização, o que intriga os historiadores da religião, a antropologia e a fenomenologia, pelo fato de tal processo ilustrar, na verdade, a perfeita camuflagem do “sagrado”, mais precisamente sua identificação ao “profano”. 

Fica evidente que, ainda que a ditadura positivista queira impor a fé e a Revelação cristã como não-científicas, é irrefutável a relevância de tais realidades para o crescimento e superação do ser humano. A verdade para a fé cristã não está encarcerada no relativismo. De uma vez por todas, Cristo, Verbo feito carne revelou a verdade sobre o homem e sobre Deus. Portanto, o objeto principal da revelação divina não são verdades abstratas sobre o mundo e o homem: seu núcleo substancial é o oferecimento por parte de Deus do mistério de sua vida pessoal e o convite para tomarmos parte nela. Assim, para que o homem chegue ao conhecimento da verdade, é mister investigá-la através do viés da criação e da salvação, conteúdos essenciais da Revelação divina.

A criação e a salvação como meios de aproximação da verdade


A finalidade última da Revelação divina é, não outra coisa, atingirmos o ser de Deus. O Magistério da Igreja aponta que no bojo da Revelação de Deus está a salvação do homem: “quis Deus manifestar e comunicar-se a Si mesmo e os decretos eternos da Sua vontade a respeito da salvação dos homens, ‘para fazê-los participar dos bens divinos, que superam absolutamente a capacidade da inteligência humana’”. Pode-se notar que o conhecimento das verdades reveladas por Deus encaminha os homens a uma comunhão plena com o Senhor.

A comunhão íntima com Deus fora estabelecida desde a Criação do mundo, como nos relata o Antigo Testamento. Deus, por amor e no amor cria, do nada, todas as coisas materiais e imateriais, dando-lhes existência, e, ao fim de sua obra criadora, fez o homem e a mulher à sua imagem e semelhança (Gn 1—2). A cena antropomórfica de Deus caminhando à tarde, no Éden, com Adão e Eva (Gn 3,8), corrobora e sintetiza a idéia da amizade e comunhão entre criatura e criador, desfazendo o errôneo pensamento de dominação tirânica de Deus sobre o homem. O ser humano, criado por Deus e para Ele, tem sempre o desejo, mesmo que inconsciente, de busca-lo, o que se expressa pelo desejo da verdade última das coisas. A Igreja compreende que: “A razão mais sublime da dignidade humana consiste na sua vocação à comunhão com Deus. Desde o começo da sua existência, o homem é convidado a dialogar com Deus: pois se existe, é só porque, criado por Deus por amor, é por Ele, e por amor, constantemente conservado: nem pode viver plenamente segundo a verdade, se não reconhecer livremente esse amor e não se entregar ao seu Criador.” 

Ora, como já foi indicado anteriormente, a criação, ou seja, o mundo e o próprio homem são vias efetivas de acesso a Deus. São Paulo ensinava isto ao afirmar: “Desde a criação do mundo, a perfeições invisíveis de Deus, o seu poder eterno e a sua divindade tornam-se pelas suas obras, visíveis à inteligência.” (Rm1,20). Ao contemplar a beleza e harmonia das coisas criadas, o homem sempre intuiu uma mente geradora, universal e organizadora de tudo isto. As mais diversas tradições religiosas e culturais denominaram e ainda continuam a chamar este princípio gerador com diversos nomes que no fundo corresponde ao Deus bíblico, o Criador dos céus e da terra.

O ser humano, imagem e semelhança de Deus, tem o poder de melhor expressar e revelar a face de Deus invisível. Através da abertura de sua alma para o Belo, o Bem e o Bom, o homem a Ele se refere: “O homem é um ser sacramental; no nível religioso, exprime suas relações com Deus num conjunto de sinais e símbolos; Deus igualmente os utiliza quando se comunica com os homens. Toda a criação é, de certa forma, sacramento de Deus, porque no-lo revela (cf. Rm 1,19).” 

No entanto, o homem e a natureza entraram em desequilíbrio desarmônico com seu Deus. Ao invés daquela comunhão tão profunda e querida pelo Senhor Deus, o homem rompe, em um gesto de desobediência, com a Lei divina. O Gênesis ilustra este rompimento narrando a queda dos primeiros pais em forma de crônica. O livro apresenta a serpente como figura do mal e do tentador e o ato de comer do fruto proibido como síntese da rebelião do ser humano contra Deus. O desfeche desta narrativa se dá com as palavras condenatórias de Deus dirigidas à serpente, à mulher e ao homem, culminando com a expulsão de Adão e Eva do jardim do Éden. Esta sessão é identificada pelos estudiosos como proto-evangelho, pois o hagiógrafo deixa entrever no meio da cena a possibilidade de uma remissão futura ao colocar na boca de Deus as seguintes palavras: “Porei ódio entre ti (a serpente) e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.” (Gn 3,15). 

O cumprimento da promessa da liquidação total da serpente (o pisar-lhe a cabeça) foi realizado definitivamente em Cristo Jesus, centro do cósmo e da história. O descendente da mulher vence o mal e a morte, reestabelecendo, assim, a ordem natural e espiritual da criação divina. A morte e ressureição de Cristo trazem em si este poder redentor, o de recriar o mundo que fora criado em perfeição por Deus Pai: “Em Jesus Cristo, o mundo visível, criado por Deus para o homem (aquele mundo que, entrando nele o pecado, foi submetido à caducidade) readquire novamente o vínculo originário com a mesma fonte divina da Sapiência e do Amor”. 

A salvação oferecida por Cristo é ambivalente. Ela se concretiza nas realidades intra e pós-mundanas. Ponto comum do pensamento da coletividade, a salvação se dá na vida eterna. Logo se pensa na eternidade ao lado de Deus, junto aos anjos e santos, ao que se denomina céu. Contudo, o céu começa na terra. Cristo salvou o gênero humano ainda para esta vida, que, por consequência, define a vida pós-morte. O homem é salvo ou não já neste mundo. “Não podemos, pois, perguntar-nos apenas quem vai para o céu e desentender-nos simultaneamente da questão do céu. É necessário perguntar o que é o céu e como vem à terra. A salvação do além deve refletir-se numa forma de vida que torne o homem humano no aquém, isto é, neste mundo, e portanto conforme com a vontade de Deus. (...) Eu diria, pois, que a salvação começa com a vida reta e justa do homem neste mundo, que abarca sempre dois pólos: o indivíduo e a comunidade.” 

O homem, ao levar uma vida reta e justa, está aderindo ao grande projeto salvífico de Deus. Estas duas qualidade morais levam ao assentimento da fé, de maneira livre e incondicional, até aquele momento em se chega à uma certa unidade interior, quando se unem as realidades do bem, do verdadeiro, de Deus e do homem. Esta unidade interior do homem é a consciência. É neste organismo que se desenvolvem as decisões e juízos de dentro do ser humano. É neste sacrário inviolável que se desenrola a trama da fé e da adesão da mente humana à verdade revelada. É neste núcleo interior e secreto, onde Deus faz morada, que o ser humano dá a melhor resposta a Ele, através da obediência da fé (cf. Rm 1,5; 16,26; 2 Cor 10, 5s). Com ela o homem se entrega livremente e totalmente a Deus, bem como pode aderir firmemente à verdade revelada em Cristo, tomando para si seus ensinamentos e salvação.

Ora, dar o assentimento pela fé a Deus, significa mesmo chegar à plenitude máxima possível pela Revelação. Segundo Tomás, todas as verdades conhecidas pela mente humana, na realidade são expressão daquela Verdade única que dá a subsistência às demais verdades naturais e sobrenaturais conquistadas pelo homem. Segundo o aquinate:  “A verdade sob cuja luz a inteligência humana tudo julga é a Verdade Primeira. Pois, assim como da verdade da mente divina derivam para a inteligência dos anjos as imagens infusas das coisas, a cuja luz os anjos compreendem tudo o que compreendem, da mesma forma deriva da verdade do intelecto de Deus, à guisa de modelo, a verdade dos primeiros princípios, à luz dos quais a nossa inteligência formula os seus juízos sobre tudo. E uma vez que só podemos formular os nossos juízos a partir da verdade dos referidos princípios, na medida em que tal verdade constitui um espelho da Verdade Primeira, dizemos que julgamos tudo a partir da Verdade Primeira.” 

Todas as possibilidades de verdade, portanto, são de certa forma, criadas, conjecturadas, no sentido de serem construções humanas para expressar o ser das coisas. Deus, Verdade Única e Primeira, criador de tudo, sustenta sua criação com o seu Ser. Esta realidade é que concede às criaturas, sejam visíveis ou invisíveis, sua entidade, isto é, sua verdade ontológica. Deus é a Verdade imutável. É esta imutabilidade de Deus que valida a Sua Revelação e sustenta os diversos fragmentos de verdades buscadas e conhecidos pelas diversas ciências. 

É a esta Verdade Incriada e Imutável que os homens têm procurado avidamente, na qual possam repousar e sentirem-se saciados, deleitados. Esta estupenda verdade, imperceptível aos meros sentidos do intelecto humano, pode sim ser conhecido por conta da Revelação cristã. Em Jesus temos acesso pleno e definitivo Àquela verdade última, justamente porque o conteúdo revelatório é a pessoa do próprio Deus, O qual oferece uma nova e eterna Aliança aos homens, reconstruindo o mundo em Cristo Jesus. Uma vez que o mundo e o homem revelam a Deus de forma insuficiente, as palavras e gestos de Cristo no-Lo revela. É através da adesão voluntária e racional, mediante o dado da fé, que se abre a real possibilidade de acessar a verdade, pois, “a fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de O conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio (cf. Ex 33, 18; Sal 27 (26), 8-9; 63 (62), 2-3; Jo 14, 8; 1 Jo 3, 2).” 

Cabe-nos agora refletir como se atualiza na concretude da vida, aquele chamado do homem à comunhão divina. Como a revelação têm encontrado espaço e adesão no mundo moderno, e como entender a Igreja e o anúncio do Evangelho como verdades válidas universalmente, mesmo em meio às tantas e conflitantes culturas.


JOÃO PAULO II. Encíclica ‘Redemptor hominis’. São Paulo: Paulinas, 1979, n° 19.
Concílio Ecumênico do Vaticano II, Constituição Dogmática ‘Dei Verbum’. Petrópolis: Vozes, 1998. n. 2.
ELIADE, Mircea. História das crenças e das idéias religiosas I. Rio de Janeiro: Zahar, 2010, p. 13.
Cf. ELIADE, 2010. p.16.
Concílio Ecumênico do Vaticano II, Constituição Dogmática ‘Dei Verbum’. Petrópolis: Vozes, 1998. n. 6.
Catecismo da Igreja Católica, n° 27. São Paulo: Loyola, 1999.
Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano. Conclusões da Conferência de Puebla. São Paulo: Paulinas, 1979, n. 920.
JOÃO PAULO II. Encíclica ‘Redemptor hominis’. São Paulo: Paulinas, 1979, n° 8.
RATZINGER, Joseph. Fé, verdade e tolerância: o cristianismo e as grandes religiões do mundo. São Paulo: IBFC “Raimundo Lúlio”, 2007.
TOMÁS. Questões disputadas sobre a verdade. Col. Os pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1988.
JOÃO PAULO II. Introdução da Encíclica ‘Fides et ratio’. São Paulo: Paulinas, 1998.

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É possível falar de Deus ao mundo moderno? - Parte 1

Autor: Prof. VICTOR HUGO NASCIMENTO
Filósofo e Teólogo.
Professor das Escolas de fé e catequese Luz e Vida e Mater Ecclesiae - RJ
Contato: victorbento.30@globomail.com - See more at: http://www.catequisar.com.br/texto/colunas/victor/006.htm#sthash.K9zeQp4u.dpuf

O homem sempre buscou chegar ao conhecimento da verdade. Ele tem empreendido esforços no longo caminho de procura do que é e como chegar a um consenso definitivo sobre a verdade. Desde filósofos, amantes da sabedoria e portadores da verdade, até os grandes santos, passando pelo homem mais humilde, todos, sem exceção, nas mais diversas realidades e culturas têm ansiado encontrar respostas absolutas sobre a existência do homem e do cosmo. Por não haver, nesta aventura da busca, um consenso entre filósofos e acadêmicos, várias teorias e visões a cerca da verdade existem e continuam sendo debatidas. O problema reside na postura da modernidade, a qual retardou e mesmo interrompeu o processo de acesso à verdade ao abandonar e invalidar o método clássico, o da metafísica. Como aponta o Cardeal Ratzinger: “Não é moderno perguntar pela verdade. (...) há uma atitude apriorística ante a realidade, que nos diz: não faz sentido perguntar sobre o que é, só podemos perguntar-nos sobre o que podemos fazer com as coisas”. Deste modo, a verdade tem sido tratada como relativa, como que impossibilitada de ser reconhecida unanimemente, posto que cada povo e cultura, em seu “modus vivendi”, percebe cada qual uma verdade, muitas vezes contrárias entre si. Esta realidade desafia o discurso religioso e missionário, onde a fé encontra dificuldades de penetrar, frente à desconfiança natural do homem, especialmente o do pós-iluminismo. Ainda assim é possível falar de Deus como realidade e verdade válidas a todo homem, uma vez que os princípios de busca meramente racionais mostram-se insuficientes. A metodologia eficaz apresenta-se no passar das realidades visíveis para as invisíveis; isto quer dizer, através da contemplação das coisas criadas e naturais, analogamente se pode chegar à interpretação do mundo cifrado, sendo possível decifrá-lo através da Revelação divina, que é em si, a verdade. O homem deseja conhecer a verdade Ao percorrermos as páginas da história da Filosofia, nelas encontramos os pensamentos da humanidade, sintetizados naquilo que é próprio, inerente à natureza humana. O fio condutor dos questionamentos e das reflexões humanas é a busca pela verdade. A filosofia estuda a verdade de diversos ângulos. A metafísica se ocupa da natureza da verdade. A lógica se ocupa da preservação da verdade. A epistemologia se ocupa do conhecimento da verdade. A filosofia aristotélica, inclusive a tomista, destacam-se pelo uso do método correspondentista, ou seja, compreendem a verdade como a adequação daquilo que se dá na realidade e aquilo que se dá na mente. O estagirita já apontara no livro I sobre a metafísica que “todos os homens têm, por natureza, desejo de conhecer: uma prova disto é o prazer das sensações, pois fora até da sua utilidade, elas nos agradam por si mesmas e, mais que todas as outras, as visuais.” Ora, para a filosofia é muito clara sua função, a de pôr as questões fundamentais sobre o princípio e a finalidade da vida; buscar a verdade última de cada coisa. Esta é verificada, ao menos no método clássico-aristotélico, através do prazer proporcionado quando a mente concorda e repousa ao encontrar o “em-si” do que fora buscado. Assim, a verdade não se abriga meramente na linguagem ou no discurso sobre o objeto, pois algo não é, só por ser afirmado como tal, mas se afirma como verdade que é na coisa mesma.

Neste sentido, o papa João Paulo II, conclama aos filósofos e cientistas a retomarem tal tarefa, pois a mesma vem sendo esquecida e assim a busca da verdade tem sida negligenciada na modernidade: “Variados são os recursos que o homem possui para progredir no conhecimento da verdade, tornando assim cada vez mais humana a sua existência. De entre eles sobressai a filosofia, cujo contributo específico é colocar a questão do sentido da vida e esboçar a resposta: constitui, pois, uma das tarefas mais nobres da humanidade.” No fundo, os filósofos e pesquisadores têm deixado esta função primordial de questionar a origem do mundo e do homem por não mais acreditarem na possibilidade de uma verdade universal. Tem-se preferido, segundo o modelo moderno, buscar fragmentos de verdades (que se encontrados, de fato são verdadeiros e válidos), mas de forma obtusa e, portanto, plural e arbitrária. Com o abandono da metafísica e da teologia, o critério de verdade cristalizou-se naquilo que a maioria dos positivistas classificou como absoluto. O método científico universalmente aceito como paradigma, se imposta como único e irrefutável meio de se chegar à verdade. Vivemos uma verdadeira “ditadura do conjuntural convertido em absoluto.” Na verdade cada objeto deve ser pesquisado de acordo com sua natureza. O método cartesiano vai bem para avaliar o empírico, coisas concretas, no entanto, não é o melhor para a busca da essência dos entes, ou seja, para a busca metafísica e teológica da verdade. Portanto, a filosofia, com sua pioneira potência na busca das causas primeiras, não pode estar presa à metodologias pré-estabelecidas, por simplesmente serem legitimadas por campos dominantes do saber. Tal insistência destrói a essência e tarefa tão próprias da filosofia. Ela deve gozar de liberdade. Tem de continuar (ou mesmo retomar) no seu caminho de ir além da linguagem que gira em si mesma, quase que falaciosamente, sobre a qual se sustenta a idade moderna. A teologia, como em um círculo, atrelada à filosofia, tem a tarefa de contribuir na árdua empreitada na questão da verdade. Isto porque ambas se mantêm fiéis à sua finalidade e intenção: a de conhecer o que é o Bom, o Belo e o Verdadeiro. As duas ainda procuram responder àquelas questões basilares da humanidade, às quais angustiam e interpelam desde sempre a toda a humanidade: a verdade sobre o mundo, sobre o início e fim do homem, sobre Deus e a possibilidade de uma vida além-mundo. 

Certamente tais questionamentos podem ser respondidos, ainda que parcialmente, pelo esforço da razão humana. A Igreja assim ensina, de forma explícita desde o Concílio Vaticano I, com a Constituição dogmática “Dei Filius”, e reafirma tal compreensão no Concílio do Vaticano II, com a Constituição dogmática “Dei Verbum”: “A Santa Igreja, nossa Mãe, atesta e ensina que Deus, princípio e fim de todas as coisas, pode ser conhecido, com certeza, pela luz natural da razão humana, a partir das coisas criadas.” Cabe-nos agora nos perguntar o que a teologia e, portanto a fé cristã católica entende por verdade, uma vez que a Igreja afirma como critério de fé, ser ela mesma portadora e sustentáculo da verdade revelada. Como ela recebeu tal verdade? Qual a natureza de tal verdade? Como entender o discurso religioso salvífico em meio ao pluralismo e absolutismo categórico modernos?

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sexta-feira, 29 de maio de 2015

A espiritualidade punida


O episódio da figueira tem, à primeira vista, um quê de inexplicável. A maldição lançada sobre ela, por Jesus, parece não se justificar. Se não era tempo de figos, como ele esperava encontrar frutos? Estaria pretendendo que o ciclo natural daquela planta se adaptasse às suas exigências? Teria Jesus dado vazão a uma agressividade infantil?
Estas questões são irrelevantes, diante do valor parabólico do relato. A figueira simboliza o povo de Israel. Jesus, o Filho enviado, contava com os frutos produzidos por este povo predileto de Deus. Encontrou-o, ao invés, na mais completa esterilidade. Foi o que também ficou patente, quando, certa vez, Jesus entrou no Templo. Aí se deparou com uma religião transformada em comércio, em exploração, sem nenhuma preocupação com a prática da misericórdia e da justiça. A casa de Deus fora profanada de maneira flagrante, e ninguém se levantava para pôr um basta nesta situação. Era possível esperar grandes coisas de um povo que agia desta maneira? E o que teria sentido Deus diante desta situação?
Na teologia de Israel, a infidelidade era sempre punida. Fazer a figueira secar até à raiz apontava para o castigo a ser infligido ao Israel infiel, incapaz de dar os frutos esperados por Deus.
Não foi Jesus o primeiro a tocar neste assunto. Antes dele, já os profetas haviam alertado o povo infiel para o castigo que lhe estava reservado.


http://domtotal.com/religiao/eucaristia/liturgia_diaria.php

segunda-feira, 25 de maio de 2015

A experiência espiritual e a atenção ao mistério de Deus



Certo é que todos os homens, de todos os tempos e lugares fizeram e fazem a experiência do transcendental. Ele é um ser aberto ao totalmente Outro, o qual é realidade ao mesmo tempo externa a este mundo, e interna ao homem. Há uma vivência fundadora do pensamento religioso no ser humano, sem intermédio de uma ordem externa, confessional, ou teológica. 


Em termos psicológicos, a experiência religiosa é, desde sempre, uma dimensão intrínseca de nosso psiquismo, isto é, da alma humana na medida em que ela experimenta uma realidade sagrada, ou seja, uma comoção perturbadora que funda a realidade como sagrada. Tais realidades humanas, sejam as boas e aprazíveis, mas principalmente as mais difíceis, como as tragédias e a morte de um membro da família, são carregadas de sacralidade, da presença de Deus.

Em meio a um mundo confuso, onde as experiências interiores não são mais valorizadas, encontra-se um ser humano fragmentado em busca de um sentido para a vida, para a sua própria existência e a do mundo a sua volta. Ainda que traga os traços do criador, e sua alma clame por uma realidade superior que o oriente e sirva de sentido, o homem moderno traz uma desconfiança a respeito do divino e da possibilidade de fazer uma verdadeira experiência de Deus e das coisas sagradas. Para muitas religiões e pensamentos religiosos, tal encontro só é possível por mediações religiosas, interseccionado por ritos e representantes religiosos. Esta realidade não é ilegítima ou descabida, no entanto é momento segundo no processo de experiência espiritual.

O conceito de experiência espiritual de K. Rahner nos conduz para uma realidade transcendental que se deixa entrever no concreto da vida cotidiana de todo homem. Talvez a consciência religiosa coletiva não consiga abarcar, com facilidade, a possibilidade de uma experiência direta de Deus por causa de centenas de anos de catequese puramente sacramental e institucional. Rahner não nega a religião ou religiosidade como caminho, mas em sua teologia espiritual, acena para uma realidade primordial, a da categoria da experiência imediata, a qual o homem comum, sem ser um místico aos moldes de Francisco e Tereza, faz nas coisas mais triviais do seu dia. Se é verdade que todo homem é aberto ao mistério sagrado e absoluto de Deus, então deve haver um instrumental pré-existente nele, não externo, que o possibilite ter acesso às realidades espirituais. 

Neste ponto para Kal Rahner a chave de leitura são os dramas e perguntas mais profundas da pessoa, através de sua inteligência e livre vontade. Trata-se de uma mística ou espiritualidade encarnada, uma mística “natural”, na qual o mundo ao redor e, sobretudo, o mundo interior, gritam a presença e a ação de Deus. Seja o nome que for: graça, inabitação, efusão, êxtase, etc. o que realmente ocorre com todas as pessoas é uma experiência do mistério do infinito que há nele; ele sabe que as respostas últimas e soluções para as crises não é ele, mas Outro.

Com a experiência de autotranscendência, o ser humano necessariamente se abre a Deus e busca Nele nutrir-se. Deus se oferta a alma humana e se faz a ela presente. Ao perceber tal presença em sua vida, o homem faz experiência da graça divina que se antecipou a ele, possibilitando a abertura e docilidade interiores. E é exatamente aqui que se problematiza a questão da experiência divina. Parece que necessária e absolutamente o indivíduo só pode fazer experiência mediada de Deus, ou seja, através de alguém ou alguma coisa. Ora, nossa pastoral tem tido práticas que reforçam essa inverdade. 

Temos inculcado em nossos fiéis a necessidade de ter algum ministro para rezar por ele, ou para conduzir um momento de oração, quando na verdade ele mesmo é capaz de orar e num diálogo afetuoso com o Pai do céu descobrir os tesouros celestes. Ou ainda a prática de novenas e instrumentalização da fé, como promessas e orações “sentimentais” feitas em ambientes pentecostais, as quais levam a uma experiência falsa, ou senão, opaca de Deus. 

Nossa pastoral deve dar mais autonomia ao fiel cristão que busca fazer uma experiência de Deus. Devemos possibilitar que se tenha mais atenção ao mistério que nos envolve e perpassa, liberando essa ruim conjunção de experiência de fé com as práticas religiosas institucionalizadas. Não que a igreja e sua doutrina sejam desnecessárias, mas que a pastoral faça cada um perceber seus próprios caminhos, ou seja, as vias pessoais pelas quais Deus fala ao indivíduo de modo único e particular. É preciso educar para a mística. 

Que a religião cumpra seu papel de religar a Deus e não ser o fim último como tem ocorrido em nossas instituições. Precisamos reeducar o nosso povo a ter olhos espirituais que vejam as pegadas, os traços de Deus em sua própria história de vida. O perigo que se corre nesse ultrapassado modelo pastoral é manter-nos num emaranhado de relações meramente humanas nas igrejas, sem profundidade e com uma sempre maior alienação; alienados de nós mesmos, alienados dos outros e lamentavelmente, alienados de Deus. Com a instrumentalização religiosa, o crente ficou preso às experiências de outros, que não a dele mesma, e às dos irmãos de fé. É mais uma religião social que espiritual, no sentido de mística, ligada ao transcendente.

De fato, a prática religiosa é a linguagem concreta pela qual tentamos expressar aquela experiência íntima que fizemos de Deus. No entanto, precisamos encontrar tempo para a interioridade, para o silêncio, para um encontro tranquilo e amoroso com a causa fundante de nossa existência. Posso ir à missa, posso rezar o terço e as novenas, mas elas são tão somente formas de externar o que vai no meu interior, o que foi fecundado e colhido pelo Espírito de Deus em mim. Se nossa prática pastoral inverte os momentos, gera-se uma imagem confusa de Deus e se sombreia a religião.

Fomentar a vida interior, ou vida espiritual é consagra-se a ser investigador do mundo, tanto o exterior quanto o interior, e com o auxílio da luneta da fé encontrar o amor profundo e incondicional de Deus. É conseguir enxergar em nós e no mundo a presença velada e revelada de Deus que sempre nos atrai e se apresenta maior que nós, maior que o mundo.

Essa experiência espiritual se dá, na prática, quando, por exemplo, olhamos com os olhos de Deus a senhorinha quase cega que lhe visita por simplesmente se sentir bem em sua casa; ali ela faz experiência da acolhida e nós a de hóspedes do próprio Deus que nos revela a fragilidade e doçura de seu coração. Ou então, quando todos se voltam contra você e em momento de vulnerabilidade, alguém lhe lança um olhar compassivo, lhe acolhe e diz: estou contigo, nunca se esqueça disto! Aquele abraço forte lhe dá, ainda que sem palavras, garantias que tudo está bem, que Deus não te condena mesmo quando todos teriam razões para isso.

Quanto mais criamos a capacidade de ver a manifestação de Deus nas realidades intramundanas, mais é diminuída a dicotomia sagrado x profano. O sagrado e o profano constituem dois modos de ser no mundo, duas situações assumidas ao longo da história religiosa. 

O homem toma consciência do sagrado porque este se manifesta, como outra coisa absolutamente diferente do profano, do usual, do cotidiano. Qualquer ação com um significado vital, como nascimento e morte, fome e alimentação, plantio e colheita, etc. participa de certo modo do mundo sagrado, ou seja, é vital porque é parte do sagrado, vem de um Outro. Exemplo primordial para nós cristãos é a encarnação do Verbo, no qual se encontram harmoniosamente integradas as duas categorias, a sagrada ou divina e a humana, ou profana. 

A partir da humanização do Verbo divino, nenhuma coisa ou pessoa lhe escapa, pois, em si, já fazem parte do sagrado, porque foram assumidas como realidades espirituais no ‘coração’ de Deus. Jesus Cristo é a manifestação da integração perfeita das realidades terrestres e espirituais, e mostra que não são dicotômicas entre si, mas locais da manifestação de Deus. Portanto, toda ação é sagrada, pois a vida vem Dele e para Ele há de voltar. Encontrando-se, o ser humano encontra a Deus. Amando o outro, a Deus ele está a amar. Assim descobrimos que viver é sagrado, e quanto mais vivemos, integrando-nos no mundo, mais encontraremos rastros do sagrado que nele habita. No fim de tudo só Ele restará! 



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domingo, 24 de maio de 2015

Hóspede misterioso e discreto

Pentecostes conclui o ciclo da Páscoa. Nesta solenidade de Pentecostes recordamos: a descida do Espírito Santo sobre a Virgem Maria e os Apóstolos no Cenáculo; a primeira pregação do Evangelho em Jerusalém; a formação da primeira comunidade cristã; o nascimento da Igreja de nosso Senhor Jesus Cristo.

O protagonista invisível de todos esses acontecimentos foi e é o Espírito Santo. Ele operava então e opera também hoje na sua Igreja. E se dermos espaço em nossa vida, opera também em nós.

Pentecostes quer dizer cinqüenta dias depois da Páscoa. Os hebreus tinham uma festa agrícola da colheita, com o mesmo nome. Nós cristãos recordamos o fato acontecido depois da Páscoa: o Espírito Santo dado por Jesus à sua Igreja pousando sobre Maria e os Apóstolos.

Conseqüências desse místico acontecimento são os apóstolos, plenos do Espírito Santo, dando testemunho publicamente do Senhor, e os primeiros ouvintes crentes reunidos em torno deles. Naquele dia começou a história da Igreja. É justo fazer festa desse início divino da Igreja.

Festa do Espírito Santo, o protagonista daquele dia, misterioso, que trabalha invisivelmente. Hoje, quase nos esquecemos deste hóspede misterioso e discreto, que também está presente em nós. É espírito, por isso não é percebido pelos sentidos. Estamos no mistério de Deus, e sentimos que as nossas palavras são como velas no escuro: acendemos uma pequenina, que dura pouco e depois se apaga. Mas nos encorajamos.

A Bíblia o apresenta como poder de Deus que opera no universo. Poder muitas vezes imperceptível, silencioso, discreto, sempre respeitoso da liberdade humana. Ao mesmo tempo, porém, irresistível ao realizar os desígnios de Deus.

A Bíblia se expressa recorrendo a imagens sugestivas: o vento, o sopro, o gosto, o respiro. Uma imagem muito conhecida, a da pomba, representada em tantos quadros. Imagens como terremoto, trovão, línguas de fogo.

Desde o início, o Espírito aparece como protagonista já na criação. No segundo versículo do Gênesis se lê: “Deus criou o céu e a terra. O Espírito de Deus pairava sobre as águas”. Poucas páginas adiante, relatando a criação do homem, a Bíblia diz que Deus soprou nele “o sopro da vida”, imagem do Espírito.

O Espírito aparece também como protagonista na história do povo eleito. Lemos nos vários livros do Antigo Testamento que o Espírito, pousava sobre os reis sábios de Israel, sobre Davi, sobre Salomão. Inspirava os profetas mandados como guias espirituais ao povo. Inspirava os autores dos livros da Bíblia. Por isso falamos de autores e de livros inspirados.

O Espírito aparece como protagonista junto a Jesus na sua vida terrena. Já no seu nascimento, Maria perturbada pela palavra do Anjo pediu explicações, foi dito: “O Espírito do Senhor descerá sobre ti, e estenderá a sua sombra, o poder do Altíssimo”. Depois o Espírito se faz presente no batismo de Jesus.

Nos milagres que Jesus operava: “Dele saia uma força”, diz o evangelho. As multidões diante dos prodígios exclamavam: “Aqui tem o dedo de Deus”, outra imagem curiosa, mas expressiva.
Também o Espírito foi a grande promessa feita por Jesus aos discípulos. Os apóstolos, sabendo que Jesus estava para deixá-los, ficaram tristes. Jesus promete o envio do Espírito Santo, consolador e defensor.

Na festa de hoje nos apresenta o Espírito Santo sobre os apóstolos em Pentecostes. Os apóstolos receberam no Cenáculo o dom das línguas, isto é a capacidade de fazer-se compreender por todos provenientes de outros países. Saíram do cenáculo, dirigiram-se ao Templo de Jerusalém. O templo naquele dia de festa estava repleto de gente, e os apóstolos falaram à gente. Nos dias precedentes os mesmos estavam medrosos e escondidos, temerosos de se fazer ver. Mas naquele dia apresentaram-se sem temor, “cheios do Espírito Santo” e começaram a anunciar o Evangelho a israelitas, a estrangeiros, a todos.

O Espírito Santo também hoje é protagonista no meio de nós para que os cristãos fiéis possam testemunhar Cristo ao mundo. E o Espírito assiste o Papa em modo especial, os bispos, os sacerdotes e cada cristão. Está presente e operante em nossos encontros, ilumina nossas mentes, fortalece a nossa boa vontade, sugere os propósitos do bem.
Cardeal Geraldo Majella Agnelo

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O que é Pentecostes?

Era para os judeus uma festa de grande alegria, pois era a festa das colheitas. Ação de graças pela colheita do trigo. Vinha gente de toda a parte: judeus saudosos que voltavam a Jerusalém, trazendo também pagãos amigos e prosélitos. Eram oferecidas as primícias das colheitas no templo. Era também chamada festa das sete semanas por ser celebrada sete semanas depois da festa da páscoa, no quinquagésimo dia. Daí o nome Pentecostes, que significa "quinquagésimo dia". 

No primeiro pentecostes, depois da morte de Jesus, cinqüenta dias depois da páscoa, o Espírito Santo desceu sobre a comunidade cristã de Jerusalém na forma de línguas de fogo; todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas (At 2,1-4). As primícias da colheita aconteceram naquele dia, pois foram muitos os que se converteram e foram recolhidos para o Reino.

Quem é o Espírito Santo? 

O prometido por Jesus: "...ordenou-lhes que não se afastassem de Jerusalém, mas que esperassem a realização da promessa do Pai a qual, disse Ele, ouvistes da minha boca: João batizou com água; vós, porém, sereis batizados com o Espírito Santo dentro de poucos dias" (At 1,4-5).

Espírito que procede do Pai e do Filho: "quando vier o Paráclito, que vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da Verdade que vem do Pai, ele dará testemunho de mim e vós também dareis testemunho..." (Jo 15 26-27). O Espírito Santo é Deus com o Pai e com o Filho. Sua presença traz consigo o Filho e o Pai. Por Ele somos filhos no Filho e estamos em comunhão com o Pai.


http://www.catequisar.com.br/texto/materia/celebracoes/pentecostes/e_02.htm