sábado, 27 de janeiro de 2018

Compreender, desculpar e esperar


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O amor exige compreensão

É impossível ter amor sem compreensão; e é impossível existir verdadeira compreensão sem a disposição de desculpar.
Todas as vezes que julgamos uma pessoa e concluímos, como quem dita uma sentença: “Ela é assim”, “é insuportável”, “é maçante”, “é preguiçoso”, etc., estamos a condená-la. Ao fazer tais juízos, colocamos nos outros uma etiqueta, como se faz num frasco ou num inseto colecionado, e os fechamos nessa definição. Dizer de uma pessoa: “Ela é assim” equivale a perder a esperança de que venha a mudar. Como se partíssemos da base de que vai ser assim para sempre e de que o máximo de bondade que lhe podemos dedicar é apenas sermos pacientes, suportando-a tal como é.
Mas essa apreciação é falsa, está viciada na raiz, porque todo o ser humano tem na alma “sementes de bondade”, latentes mas reais, que podem ser desenvolvidas. Nenhuma pessoa consiste apenas nos defeitos que denota exteriormente. Todas têm infinitas possibilidades de bem que – com a graça de Deus, o seu esforço e a nossa ajuda – um dia podem vir a ser belas realidades. Por isso, Cristo nos manda não condenar ninguém (cfr. Lc 6,37), como se já estivesse “acabado”.
O contrário de condenar é desculpar e esperar. O coração do homem bom está sempre inclinado a desculpar. Ao julgar os outros, evita usar o verbo “ser” – Fulano é assim –, e prefere empregar o verbo “ter”: essa pessoa, que – como todos os filhos de Deus – é potencialmente santa, agora, por uma série de circunstâncias, tem tal ou qual defeito, mas isso não quer dizer que sempre deva tê-lo. É muito provável que uma série de dificuldades a levem a comportar-se assim. É justo tê-las em conta. Talvez seja grosseira porque não recebeu uma educação esmerada, ou arrogante porque foi humilhada e sente necessidade de se afirmar, ou impaciente porque lhe dói o fígado… Sempre há uma desculpa, afetuosa, que os “bons olhos” da caridade detectam, uma desculpa com fundamento objetivo, real, que impede que julguemos esta ou aquela pessoa com dureza e, ainda mais, que a desclassifiquemos.
Certamente os outros têm defeitos, como nós os temos, mas felizmente não estão acorrentados por eles como um sentenciado a prisão perpétua. Está nas nossas mãos – está nas mãos da nossa bondade – desamarrar-lhes esses grilhões. Esta é uma das mais delicadas tarefas do amor benigno (cf. 1 Cor 13,4): não deixar ninguém de lado por impossível, antes dar-lhe a mão, ajudá-lo incansavelmente – com infinita compreensão e paciência – a soltar um a um os elos dos defeitos que compõem essas suas correntes.
Naturalmente, isto pressupõe que saibamos confiar na capacidade de bondade das pessoas, e portanto na sua possibilidade de mudar. Já foi dito alguma vez que perder a confiança em alguém é matá-lo. Também é verdadeira a afirmação contrária: confiar em alguém é dar-lhe a vida.
É claro que essa confiança não se confunde com a credulidade ingênua, que fecha os olhos e julga que, afinal, todo o mundo é bom. A verdadeira confiança é outra coisa. O homem bom não é cego nem insensível aos valores. Não deixa de ver o mal, em toda a sua dimensão perniciosa, e chama erro ao erro, e pecado ao pecado. Mas, ao mesmo tempo, acredita com todas as suas forças que as “sementes de bondade” que –colocadas por Deus – dormem em cada coração humano podem ser ativadas, podem ser cultivadas. Por isso, arregaça as mangas e, sem reclamar dos espinhos dos outros, trabalha para que neles desabrochem as rosas.
A bondade cultiva o bem
A pessoa que tem vida cristã e amor verdadeiro faz bem aos outros somente com a sua presença, pela força atraente das virtudes. Mas o seu influxo benéfico não se limita a isso. Acabamos de ver que tem a disposição de trabalhar, de fazer alguma coisa para que o bem desabroche nos outros. Vive, para dizê-lo em poucas palavras, a serviço do bem dos outros.
Não há dúvida de que este é um belo ideal de vida. Quem não almeja passar pelo mundo deixando, como Cristo, uma esteira de bondade, fazendo o bem (At 10, 38)? “Que a tua vida – lê-se em Caminho – não seja uma vida estéril. – Sê útil. – Deixa rasto. – Ilumina com o resplendor da tua fé e do teu amor” (n. 1). Estas palavras são todo um empolgante programa de bondade.
A este propósito, lembro-me de um livro que me causou impressão. Intitulava-se “Viveu para ninguém”, e era o romance de um homem medíocre, vulgar, que passou pelo mundo sem deixar rasto algum. Dele se poderia dizer, como um triste epitáfio, que teria dado na mesma se nunca tivesse existido. Seria penoso que um tal epitáfio se pudesse aplicar a nós.
Pois bem, é hora de nos perguntarmos sinceramente o que nós deixamos de bom nos corações e nas vidas dos que vivem e trabalham conosco. Como estamos contribuindo para o seu bem?
Comecemos por convencer-nos de que a primeira ajuda que devemos prestar-lhes consiste em não lhes criar dificuldades. Porque, infelizmente, com freqüência somos mais obstáculo do que auxílio. E o pior é que não nos apercebemos disso. Se nos dissessem: “A sua esposa, o seu filho, o seu colega, o seu pai, têm tais e tais problemas, tais e tais defeitos, e você é a causa deles”, levaríamos uma surpresa. “Como assim?”, retrucaríamos. “Eu, que tenho que sofrer esses defeitos, ainda por cima sou culpado deles?” Pois sim, muitas vezes o somos.
Tomemos por exemplo um honesto pai de família, trabalhador abnegado, daqueles que “só vivem para a família”. Trabalha em dois empregos e volta cansado ao lar. Ao mesmo tempo, tem um temperamento fechado, não é homem de muitas palavras. Os familiares vêem-no soturno e calado, e não se atrevem a interferir no seu aparente mau humor. Caso lhe perguntem: “Está aborrecido? Acontece-lhe alguma coisa?”, responderá, com olhar de surpresa, que não lhe acontece nada. Talvez acrescente: “Sou assim mesmo, é o meu jeito”.
Ora, acontece que esse “jeito” é uma barreira. Bloqueia o diálogo com a esposa e os filhos. A mulher, sentindo-se cada vez mais isolada, sem poder compartilhar as suas fadigas com o marido, irá ficando cada vez mais nervosa e multiplicará as faltas de paciência com as crianças. O marido lamentará que os nervos da mulher estejam criando um ambiente pesado no lar. Mas nem lhe passará pela cabeça que foi ele quem o provocou, com a sua cômoda abstenção. Se tivesse aprendido a chegar ao lar sorrindo, acolhendo, interessando-se pelos problemas da mulher e dos filhos, teria criado condições para um diálogo amável. Teria facilitado um clima cordial, em que os nervos dos outros se dissolveriam. E haveria paz.
De modo análogo, podemos pensar no chefe de um escritório que reclama da falta de iniciativa de um dos seus subordinados: acha que é um homem sem garra no trabalho, que lhe falta entusiasmo e realiza as suas tarefas de modo rotineiro e como que a contragosto. Certamente, este não é o estado de ânimo ideal para um trabalho dinâmico e criativo. Mas de quem é a culpa? Pode muito bem suceder que semelhante inibição e falta de eficiência do empregado tenha sido provocada por esse mesmo superior, que nunca soube incentivá-lo, nem teve paciência para ensiná-lo, nem lhe ofereceu o estímulo de uma palavra positiva, que fizesse o outro sentir-se valorizado. Só soube cobrar e criticar. A culpa, sem dúvida nenhuma, é do chefe.
Isto é dificultar o bem dos outros com os nossos defeitos e as nossas omissões. Aí não há bondade, porque não lhes fazemos bem.
Modos de amar
Conta-se de um velho almirante da reserva que, quando queria pintar a fachada da sua casa – vivia numa cidade onde era costume pintá-las pela primavera –, mandava o pintor à casa do vizinho que morava em frente, para lhe perguntar de que cor gostaria que a pintasse. O bom velhinho explicava esse seu modo de proceder dizendo: “Afinal, ele, o vizinho, é quem ficará vendo a fachada todos os dias; é natural que eu a pinte ao gosto dele”. É uma delicada transparência do coração do homem bom, que vive sempre voltado para o bem e para a alegria dos outros, e nisso encontra a sua maior satisfação.
Isto faz pensar nas nossas atitudes e, concretamente, na facilidade com que incorremos num erro de perspectiva: com a melhor das boas vontades, dedicamo-nos a amar os outros “ao nosso modo”, mas esquecemo-nos de amá-los “ao modo deles”, o que seria muito melhor.
Entendamo-nos. Não basta dizer, quando nos preocupamos em ajudar os outros: “Faço isto pelo seu bem”. É necessário ter uma fina intuição para fazer “isto” do “modo” que contribua mais eficazmente para o seu bem.
Um pai que corrige o filho, imediata e energicamente, todas as vezes que depara com uma desobediência ou uma irresponsabilidade, pode estar intimamente convencido de que atua “apenas e tão somente” pelo bem desse filho. E, caso o garoto se lhe torne revoltado, mentiroso e desleal, sentir-se-á profundamente magoado, ao mesmo tempo que se lamenta: “Depois de tantos desvelos, de tanta dedicação para educá-lo…”
Esse pai, por mais que se sinta magoado e recrimine a ingratidão do filho, não está com a razão. E não está precisamente porque não foi capaz de amá-lo “ao modo dele”, isto é, procurando o “modo” mais fecundo de lhe fazer o bem.
Com isto, já estamos esclarecendo que, quando dizemos “ao modo dele”, não pensamos que o amor paterno deva acomodar-se a todos os caprichos e vontades do filho. Se fizesse isso, esse pai cairia naquela “bondosidade mole” que mais destrói do que edifica. A expressão “ao modo dele” significa, neste caso, o esforço da mente e do coração por acertar com a maneira realmente eficaz de ajudar o filho a ser melhor.
Podemos dar por certo que esse mesmo pai, se tivesse atuado com mais paciência e, sobretudo, se tivesse dedicado mais tempo a fazer-se amigo do filho, conseguiria que as suas correções fossem construtivas. É muito fácil “cair em cima” e dizer “eu tenho razão”. Já foi lembrado por alguém que, por ter razão, até agora ninguém foi para o céu. É muito mais profícuo guardar a razão, ao menos provisoriamente, no bolso, e pensar seriamente: “Como posso mesmo ajudá-lo a melhorar?”
Não tenhamos dúvida de que o pai em foco ajudaria imenso se gastasse mais algum tempo no fim do dia, e nos fins de semana, a sair, jogar bola, discutir música e conversar com o filho, tornando-se assim o seu melhor amigo. Nesse clima de amizade confiante, poderia orientá-lo e corrigi-lo, quando fosse o caso, com palavras cheias de credibilidade, já que o filho perceberia que, se o pai o contraria, não é por ser um maníaco perfeccionista nem por estar irritado, mas porque gosta dele e o quer ajudar. É a isto que chamamos amar “ao modo” dos outros. Uma arte extremamente necessária e certamente nada fácil. Só o amor generoso é capaz de aprendê-la.


(Adaptado de um trecho do livro de F. Faus: O homem bom. Via Pe. Faus)

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Jesus sofrendo em teu lugar


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1. A santidade e a justiça de Deus pressupõe um extremo ódio ao pecado. No próprio Filho de Deus, que assumiu a forma do homem pecador, a santidade divina procurou a satisfação. Persegue-o lá no berço, sujeitando-o à pobreza, ao frio, à humilhação; fá-lo fugir até longínquo país. trabalhar em pobre casebre; cobre-o de chagas, de sangue, de ignomínias; tira-lhe o sangue das veias e fá-lo morrer na cruz após martírios inauditos; tudo isto porque Jesus se responsabilizou pelos nossos pecados.

Que mal não deve ser o pecado e quanto Deus não deve odiá-lo, se assim o persegue no Filho inocente!
2. Quanto não transluz da incarnação, da vida e da morte de Jesus, sua infinita misericórdia! Deus era ofendido e é Ele que satisfaz pela ofensa. Ele se faz vítima em nosso lugar. Ele sofre o castigo que era a nós devido. A misericórdia apressa-se, para dar o ósculo da paz à própria justiça. Ambas, em aliança inefável, obrigam a confessar, em êxtases de fé, a infinita perfeição de Deus. Como pagarás a quem tanto te perdoou, e a quem tanto te ama?
http://rumoasantidade.com.br/misterio-natal/jesus-sofrendo-em-teu-lugar/

sábado, 20 de janeiro de 2018

Coisas que você não deve fazer na Missa e talvez não saiba


Pequenos detalhes que fazem a diferença e unem a Igreja

  1. Não chegar atrasado. Lembre-se de que Deus está esperando você para enchê-lo com o seu amor, dar o seu perdão e um abraço, falar ao seu ouvido, e dizer o que o você precisa ouvir. Ele separou um lugar na mesa para você. Não o deixe esperando;
  2. Não usar roupas provocantes. Não use vestuário que possa chamar a atenção ou provocar (decote, minissaia e shorts);
  3. Não entre na igreja sem saudar o Senhor. Ao chegar, faça o sinal da cruz. Ele está lá, feliz por ver você. Agradeça-o, pois ele o convidou;
  4. Não tenha preguiça de fazer a reverência ou a genuflexão. Se você passar em frente ao altar, que representa Cristo, faça a reverência. Se passar pelo Sacrário, onde está Cristo, faça a genuflexão (tocar o chão com o joelho);
  5. Não masque chiclete nem coma ou beba. Só é permitida água e em caso de necessidade e por questão de saúde;
  6. Não cruze as pernas. O ato de cruzar as pernas é considerado pouco respeitoso. O seu corpo deve expressar a sua devoção;
  7. A mesma pessoa não deve fazer a Leitura e o Salmo. Se você vir um só leitor ou leitora, ofereça-se para ler, pois as Leituras e o Salmo devem ser proclamados por leitores diferentes (dois no meio da semana e três aos domingos ou dias festivos, quando há a Segunda Leitura);
  8. Não adicione frases quando for fazer as Leituras e o Salmo. Não leia as letrinhas vermelhas nem diga: “Primeira Leitura” ou “Salmo Responsorial”;
  9. Nunca recite o Aleluia antecipadamente. Não se adiante para dizer “Aleluia, Aleluia”. Espere alguns segundos, pois, certamente, alguém o cantará. Se nem o padre nem ninguém cantar, omita-o, mas nunca o recite;
  10. Não faça o sinal da cruz na proclamação do Evangelho. Você só deve fazer três cruzes pequenas: uma na fronte, outra nos lábios e a última no peito;
  11. Não responda no plural quando Credo é feito em forma de perguntas. Quem preside a Missa pode perguntar: “Creem em Deus Pai Todo Poderoso?” Neste caso, não responda “sim, cremos”, pois a fé é pessoal. Responda: “sim, creio”.
  12. Não recolha a oferta durante a Oração Universal. A oferta deve ser recolhida durante a apresentação dos dons, quando todos estão sentados e o padre agradece a Deus pelo pão e o vinho e purifica as mãos;
  13. Não se levante durante a apresentação dos dons. Às vezes, alguém se levanta e, por impulso, outros também ficam de pé. Talvez, ao ver o padre levantar o cálice e a hóstia, as pessoas pensam que já é a Consagração. Mas não é;
  14. Não se ajoelhe logo depois do “Santo”. É preciso esperar que o padre peça que o Espírito Santo transforme o pão e o vinho em Corpo e Sangue de Cristo. É neste momento que se deve ajoelhar-se (se houver sino, ajoelhe-se quando ele soar);
  15. Não ficar sentado durante a Consagração. Se você não consegue se ajoelhar, fique de pé, mas nunca se sente, a menos que seja por alguma doença. É falta de respeito com Cristo, que se faz presente no altar;
  16. Não dizer nada em voz alta durante a Consagração. Tem gente que, durante a Consagração, diz em voz alta: “Meu Senhor, Meu Deus”. Mas isso distrai quem está fazendo uma oração pessoal em silêncio;
  17. Não diga em voz alta: “Por Cristo, com Cristo, em Cristo…”. Só quem deve dizer isso é quem preside a Missa;
  18. Não saia do seu lugar para ir dar a Paz. Você só deve cumprimentar quem está perto de você, não outras pessoas, em outros bancos. Tampouco deve aproveitar para ir felicitar alguém ou dar pêsames;
  19. Se você não estiver preparado, não comungue. Você deve ter guardado o jejum eucarístico (não ter comido nem bebido nada uma hora antes de comungar) e não ter pecado grave;
  20. Não fazer somente uma fila de Comunhão (a do padre). Jesus está presente na Hóstia Consagrada, não importa se é a hóstia segurada pelo padre ou por um Ministro Extraordinário da Eucaristia, que é uma pessoa preparada e autorizada pela Igreja para distribuir a Comunhão na Missa e levá-la aos idosos e enfermos;
  21. Depois de comungar, não converse com os outros. Volte ao seu lugar e fale com o Senhor. Se você não comungou, faça uma comunhão espiritual e converse com Ele;
  22. Quando terminar a distribuição da Comunhão, não continuar cantando. O canto da Comunhão deve terminar quando a última pessoa receber a hóstia, para que haja um silêncio sagrado, em que cada pessoa entra em diálogo com Deus;
  23. Desligue o celular. Não fique mandando mensagens ou falando ao celular durante a Missa, pois isso distrai você e os outros. Dedique sua atenção ao Senhor, que está dedicando a atenção Dele a você;
  24. Não perca as crianças de vista. Ensine-as a aproveitar a casa do Pai e a se comportar na Missa;
  25. Não saia antes que a Missa termine. Não perca a bênção fina, através da qual o padre o envia ao mundo para dar testemunho em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Saia da Igreja com um propósito novo, que tenha sido inspirado no Senhor, para edificar o mundo, seu Reino de amor.

Artigo originalmente publicado por Desde la fe, traduzido e adaptado ao português por Aleteia. 

“O Cristo de Charles de Foucauld”

O fiel católico crê, firmemente, que Deus se revelou a nós, de diversos modos, desde a criação do mundo

O título acima é o de um livro escrito pelo Pe. Leonardo de Salles, da Diocese de Lins (SP), e publicado pela Editora Palavra e Prece, em 2010, com 96 páginas.
O cerne da obra está no capítulo 2, que vai da página 39 à 54, e é bem delimitado, como o próprio autor deixa claro ao dar a essa parte o seguinte título: A Cristologia em alguns escritos de Charles de Foucauld, ainda que não cite nenhuma obra original dele, mas se valha, em grande parte, do excelente livro Charles de Foucauld: nos passos de Jesus de Nazaré (Cidade Nova, 2004). Eis alguns pontos do livro, a nosso ver, merecedores de maior atenção.
Na página 20, afirma que Foucauld “passou no Mosteiro de Nossa Senhora das Neves seis anos e meio”. Na realidade, esta é uma informação deficiente, pois ele ingressou, realmente, em Nossa Senhora das Neves, em 1890, mas daí se mudou, logo, para Akbès e, depois, ainda, para a Trapa de Staueli, perto de Alger, de onde foi enviado a Roma, em 1896.
À página 27, se lê que a oração de Foucauld “é a de um pobre. Nada de ofício canônico que possa afastar os que não sabem latim”.
Realmente, o “eremita do Saara” desejava para o povo de Deus uma oração mais acessível. Contudo, ele mesmo foi muito fiel ao Ofício Divino, até quando estava em viagem, conforme constatamos na seguinte passagem da longa carta, de 13 de julho de 1905, ao Pe. Huvelin, seu diretor espiritual: “uma coisa me aflige… gostaria de recitar o breviário, ter as horas de oração, de meditação, as pequenas leituras da Santa Escritura, como quando não estou em viagem, ao menos sob certa medida” (Antoine Chatelard. Charles de Foucauld: o caminho rumo a Tamanrasset. São Paulo: Paulinas, 2009, p. 227). Hoje, o Ofício Divino é rezado na língua de cada povo.
Afirma que Cristo era “leigo” (p. 46). O que é sério, pois assegurar que Jesus não usou, por circunstâncias históricas, o título de sacerdote ou de sumo sacerdote – que lhe pertencem (cf. Hb 6-10) – é correto. Isso, todavia, jamais quer dizer que Ele era um leigo como conhecemos hoje. É de fé que Jesus Cristo é o verdadeiro e único Sumo Sacerdote da Nova Aliança. Desse sacerdócio participam os demais sacerdotes.
Aparecem também afirmações que, levadas ao pé da letra, beiram o relativismo. Com efeito, o autor do livro em análise escreve que a espiritualidade de Foucauld não é a “católico romana”, pois ele venceu as “barreiras doutrinais” (p. 57). Mais: “Foucauld está certo que a melhor religião não é esta ou aquela, mas a que nos faz melhor” (p. 63).
Em resposta, notamos que não há como vencer as barreiras doutrinais de cada credo sem cair no relativismo ou mesmo em um sincretismo. Quem decidisse misturar pontos de duas religiões – a católica e a budista, por exemplo – não prestaria nenhum serviço relevante à humanidade, mas, ao contrário, acabaria por fundar uma nova religião que não seria nem a católica nem a budista. Isso, certamente, Foucauld não fez.
Ademais, a melhor religião é, de forma objetiva, aquela revelada por Deus. O próprio termo vem, aliás de religo, are, do latim, que significa a união do ser humano ao Criador (transcendente) e não algo meramente humano (imanente). O fiel católico crê, firmemente, que Deus se revelou a nós, de diversos modos, desde a criação do mundo, e, de forma plena, em Jesus Cristo. O depósito dessa revelação está confiado à Igreja para a autêntica interpretação (cf. Catecismo da Igreja Católica n. 51-67 e 84-85).
Na página 71, ao tratar da Mística poderia ter dito, em termos muito gerais, que por ela se entende a vida de íntima união com Deus a transbordar em caridade para com o próximo. Pode ser, ou não, acompanhada por fenômenos como levitação, estigmas, dom de cura etc.
Na página 84, há a afirmação de que Foucauld soube “amar a Igreja e ao mesmo tempo relativizá-la”. Ora, na vida, ou se ama ou não se ama. Algo não pode ser e não ser ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto. Isso é elementar em Lógica clássica.
Eis algumas observações ao livro O Cristo de Charles de Foucauld.

Vanderlei de Lima é eremita na Diocese de Amparo.

https://pt.aleteia.org/2018/01/19/o-cristo-de-charles-de-foucauld/?utm_campaign=NL_pt&utm_source=daily_newsletter&utm_medium=mail&utm_content=NL_pt

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Reunião com os Anjos?



Conta-se que, no século XVIII, ingressou na Ordem dos dominicanos um jovem muito fervoroso, que nos fulgores das graças primaveris era constantemente assistido por seu superior. Qualquer função que devesse desempenhar, ou qualquer dificuldade que encontrasse, estava ali seu encarregado para auxiliá-lo ou ensinar-lhe os pontos da regra.


Certa vez, porém, o superior entrou em retiro, ficando o pobre noviço obrigado a passar um longo período sem a ajuda de seu protetor.


Passados alguns dias, as graças iniciais que costumavam inundá-lo começaram a rarear, as provações e tentações comuns da vida religiosa passaram a visitá-lo com mais frequência. Atordoado e inexperiente em meio ao desconhecido mundo espiritual, pensava haver perdido a vocação, ter sido abandonado pela Providência, ou mesmo ter cometido algum pecado grave… No entanto, pedir auxílio ao encarregado ser-lhe-ia impossível até o término do retiro.


O que fazer? Como resolver tamanho impasse?


Os dias foram correndo, e chegou um momento em que o noviço já não aguentava mais: decidiu pedir um conselho ao superior. Acabado o último ato em conjunto do dia, o cântico da Salve Rainha, dirigiu-se rapidamente à cela do religioso e bateu à porta, um tanto aflito. O superior porém, sem sequer abrir a porta respondeu:


– Agora não! Estou ocupado!


Um encarregado ocupado, durante um recolhimento? O que estaria acontecendo? Teria o jovem se enganado, atribuindo ao seu protetor virtudes que na verdade não possuía? Sua necessidade de um apoio espiritual, porém, era muito grande; optou por insistir mais uma vez:não desistiria facilmente, viu-se obrigado a atendê-lo. Abriu um pouquinho a porta e, por uma fresta, perguntou-lhe o que desejava.


– Perdão, mas… preciso da ajuda do senhor! Estou passando por uma dificuldade assim…


– Não se preocupe – interrompeu-o o superior – Quero que veja uma coisa.


Abriu, então, por inteiro a porta da sua cela e o noviço não pôde acreditar no que estava vendo: inúmeros Anjos ao redor da mesa onde trabalhava o superior. Este, notando a perplexidade do jovem, explicou-lhe:


— Estes são os Anjos da guarda de todos os meus subalternos. Eles me comunicam as provações e necessidades espirituais de cada um para que eu tome alguma providência, lhes escreva uma carta ou os chame para uma conversa e, assim, os ajude no que for preciso. E não por acaso, está também aqui no meio deles, o seu Anjo da guarda que acaba de narrar-me as dificuldades que lhe atormentam…


Diante de tão grande santidade de seu superior e de um tão sublime milagre, dissipou-se na alma do noviço toda e qualquer sombra da provação que lhe afligia, e ele pode, assim, seguir sua vocação religiosa, rezando aos santos Anjos da guarda sempre que as dificuldades e dúvidas se lhe apresentavam.

Vemos nesse belo fato a importância da devoção aos nossos celestes Protetores que não hesitam em nos auxiliar sempre, especialmente quando invocamos sua ajuda.


http://www.arautos.org/secoes/artigos/doutrina/anjos/reuniao-com-os-anjos-196463

domingo, 14 de janeiro de 2018

Você está deprimido ou triste? Reze esta oração do Padre Pio


Se você está afundando na escuridão, é fundamental “levantar a mão” e pedir ajuda

Um pequeno texto anônimo diz: “Erga a mão o mais alto possível e Deus vai completar a distância que os separa”. É a frase à que eu recorro durante aqueles momentos em que sinto chegar certa escuridão emocional: a depressão. Para muitos de nós, essa escuridão é um velho e indesejado amigo, o “cão negro” mencionado por Winston Churchill – também chamado de transtorno afetivo sazonal.
O Manual de diagnóstico dos transtornos mentais (DSM) contém definições clínicas para a depressão. Também podemos recorrer à explicação sobre a escuridão espiritual que são João da Cruz escreve em A noite escura da alma. Seja qual for a maneira pela qual você chegou a um estado depressivo ou qual foi a história que o levou até a doença, a chave nestes momentos é estender a mão e buscar o contato.
O estado de depressão não é um vazio. É um espaço cheio de conhecimento diante do qual estamos momentaneamente cegos. Quando tentamos alcançar esse conhecimento sozinhos, geralmente ficamos cansados para continuar aprofundando. Por isso, sucumbimos às ondas de desespero.
Buscar o contato não é um movimento intuitivo quando estamos debilitados psicológica e espiritualmente. Embora tenham nos ensinado que perder a esperança é virar as costas para Deus, o que é pecado, há outro elemento do desespero que é negligenciado. Vem da Regra de São Bento: “Em tudo Deus seja glorificado”.
Em uma recente confissão, estando eu em uma época de depressão, o padre me deu uma penitência bem concreta. Eu deveria ler sobre Jesus caminhando sobre o mar tempestuoso e sobre o medo de Pedro (em Mateus, 14). Depois, teria que refletir especificamente sobre o momento em que Pedro se desespera e busca a ajuda de Nosso Senhor, naquele segundo antes de Jesus tomar a mão dele.
Foi um momento cheio de dúvidas para Pedro, cuja fé havia fraquejado. Também foi uma resposta intuitiva para uma pessoa que estava se afogando fisicamente: estender a mão, tentar se agarrar a qualquer coisa para salvar a própria vida.
O padre me sugeriu essa imagem para que eu refletisse; uma metáfora para que eu voltasse a estender a mão para Cristo – psicológica e espiritualmente. Eu fiquei surpresa com a rapidez com que o instinto de sobreviver espiritualmente se emparelha ao desejo de viver fisicamente quando se está esgotado e em águas profundas.
Na tranquilidade por saber que o Senhor tomou a minha mão e que eu não afundarei, costumo ler esta oração. Às vezes, leio-a até três vezes seguidas:
Permanece comigo, Senhor, pois eu preciso que estejas presente para que eu não me esqueça de ti. Tu já sabes como é fácil para mim te esquecer.
Permanece comigo, Senhor, pois sou fraco e preciso da tua força para não cair tão frequentemente.
Permanece comigo, Senhor, pois tu és a minha vida, e, sem ti, não tenho fervor.
Permanece comigo, Senhor, pois tu és a minha luz, e, sem ti, sou trevas.
Permanece comigo, Senhor, para me mostrar a tua vontade.
Permanece comigo, Senhor, para que eu ouça a tua voz e te siga.
Permanece comigo, Senhor, pois eu quero te amar muito e estar sempre em tua companhia.
Permanece comigo, Senhor, se desejas que eu seja fiel a ti.
Permanece comigo, Senhor, pois, por mais pobre que seja a minha alma, quero que ela seja um lugar de consolo para ti, um ninho de amor.
Amém.
(São Pio de Pietrelcina – Oração para depois da Comunhão)
A depressão é uma batalha e, para muitos de nós, uma cruz para carregar por toda a vida. Ao carregá-la da melhor forma possível, podemos, ao mesmo tempo em que pedimos ajuda, ser conduzidos a uma maturidade mais profunda na fé. Algo que, como a maioria das virtudes, não é tão simples de conquistar.

https://pt.aleteia.org/2018/01/12/voce-esta-deprimido-ou-triste-reze-esta-oracao-do-padre-pio/?utm_campaign=NL_pt&utm_source=weekly_newsletter&utm_medium=mail&utm_content=NL_pt

Caráter e as virtudes

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É um fato patente que hoje se observa em muitas pessoas – adolescentes, jovens e velhos – uma espécie de incapacidade de dominar os defeitos do seu temperamento, as suas tendências, inclinações e instintos desordenados, bem como os maus hábitos já contraídos. Isso lhes prejudica a perfeição do trabalho, o relacionamento com os outros, a capacidade de amar, a prática serena e profunda da religião…, e, afinal, a eficácia, a paz e a alegria. É notável como tais pessoas se mostram incapazes de autodomínio e perseverança, ou seja, de domínio da vontade e, portanto, de caráter, desse caráter bem formado que constitui a verdadeira personalidade.
Em muitos ambientes atuais, julga-se que ter caráter é ser “independente” de todos e de tudo, também de qualquer norma moral. Quer-se uma absoluta liberdade para que cada qual crie, estabeleça e defenda os “seus valores” (não “os valores”, porque não se acredita em valores absolutos e universais: tudo é relativo). Todos percebemos, infelizmente, qual é o resultado disso. Desastroso. Substitui-se a vontade pelos sentimentos e pelos gostos. Faz-se só o que se sente e o que se gosta, não o que é bom, porque, para essas pobres criaturas sem caráter só é bom o que “me dá prazer”, o que eu “gosto de fazer, …o egoísmo; só isso seria “autêntico”.
Ora, sentimentos, gostos e prazer: nenhuma dessas três coisas é mão para o volante da vida. Deixe-se guiar por elas (desprezando a formação do caráter e as virtudes) e contribuirá para fazer da sociedade atual um imenso redemoinho de egoísmo, que devora as pessoas, as afunda no seu funil assassino e as cospe depois, deprimidas e inúteis, para fora. Quando só existem “apetites” e “ambições”, não existe um caráter que possa ser firme ou alicerçar qualquer coisa.
A vontade – que está na raiz do caráter – é uma potência, uma energia da alma, que pode estar abafada ou liberada. Na situação concreta das nossas vidas, ninguém tem a vontade suficientemente “livre”. Tem que travar-se, em cada um de nós, uma batalha para conseguir desatrelar a vontade das fraquezas, egoísmos, miragens, paixões, maus hábitos e enganos, e torná-la no que deve ser: a grande força serena, a “executiva” racional da conduta humana.
Isso exige uma luta, seriamente orientada e apoiada no auxílio da oração, dirigida a conquistar as virtudes humanas, que são os pilares do caráter.
Com muita precisão, o Catecismo da Igreja Católica explica: “As virtudes humanas são atitudes firmes, disposições estáveis, perfeições habituais da inteligência e da vontade que regulam nossos atos, ordenando nossas paixões e guiando-nos segundo a razão e a fé. Propiciam, assim, facilidade, domínio e alegria para levar uma vida moralmente boa. Pessoa virtuosa é aquela que livremente pratica o bem” (n. 1804). Todas as virtudes humanas, que são muitas, giram à volta das quatro virtudes cardeais: – o que significa “virtudes-eixo” –, da prudência, justiça, fortaleza e temperança (nn. 1805-1809).
Ossos de vidro e asa quebrada
Um homem ou uma mulher ganham personalidade e consistência de caráter na medida em que adquirem essas virtudes humanas. Elas – diz o Catecismo – “com o auxílio de Deus, forjam o caráter e facilitam a prática do bem” (n. 1810).
Sem virtudes humanas solidamente adquiridas, as pessoas – pensemos especialmente nos adolescentes e jovens – crescem como uma criança doente do mal dos “ossos de vidro”, que tivesse tido a desgraça de cair nas mãos de pais irresponsáveis. Poderia estar sendo alimentada com capricho, vestida com o bom e o melhor, educada com os melhores mestres. Mas, se os pais não cuidam de amparar e “escorar”, com as soluções médicas e tecnicamente mais eficazes, a fragilidade do filho, virá uma fratura atrás da outra e, afinal, a incapacitação ou a morte
Há pais que parecem criar filhos para que, muito cedo, acabem reduzidos a cacos. Dão-lhes (assim o julgam) o melhor possível em tudo, menos na formação humana e moral. Não cultivam neles, desde a primeira infância, virtudes sérias, com o incentivo do seu exemplo constante e com o acompanhamento de um “adestramento” prático,boa vontade e de bons sentimentos, ainda que não tenham virtudes (nem fortaleza, nem constância, nem desprendimento, nem altruísmo, nem responsabilidade…), e, assim, os deixam abandonados aos seus caprichos, molezas e desordens, com “ossos de vidro” na alma, desde que tirem notas boas ou aceitáveis, não apanhem doenças nem vícios maiores com os seus desregramentos, e não criem encrencas por aí… paciente, pedagogicamente acertado, incansável. Contentam-se com ver que são “bons meninos”, cheios de
A boa vontade e os bons sentimentos, sem virtudes, são como um pássaro de asa quebrada. Uma das estórias mais lindas de Guimarães Rosa fala de um casal de garças alvíssimas, que apareciam, ano após ano, junto do riachinho Sirimim. Uma delas, atacada por um bicho do mato, foi achada um bom dia, enroscada em folhagens e cipós, com uma asa estraçalhada. “Durou dois dias. Morreu muito branca. Murchou” 1 Eu não gostaria que esse fosse o epitáfio do filho de ninguém. Mas muitos pais, com o seu desleixo e a sua inconsciência, o estão preparando.
Os dois testes das virtudes
As nossas virtudes precisam sempre de duas condições ou, melhor, têm que passar por dois testes de autenticidade: o teste da “prova” e o teste da “unidade de vida”. Vou explicar a seguir.
De uma maneira surpreendente, o apóstolo São Tiago começa a sua Carta, que é palavra de Deus incluída no Novo Testamento, dizendo: “Considerai uma grande alegria, meus irmãos, quando tiverdes de passar por diversas provações”. Na realidade, nós desejaríamos que as provações fossem as menos possíveis. Mas São Tiago não pensa assim, porque sabe que as dificuldades que nos põem a prova e nos fazem sofrer podem derrubar-nos, mas – e isso é o que interessa – podem também ser o meio de temperar, de consolidar e fortalecer as nossas virtudes. E, por isso, acrescenta que a prova “produz em vós a constância; e a constância deve levar a uma obra perfeita ” (Tiag 1, 2-4).
São Paulo é do mesmo parecer: “Sabemos que a tribulação gera a constância, a constância leva a uma virtude provada e a virtude provada desabrocha em esperança” (Rom 5, 3-4) 2.
Há coisa mais maravilhosa do que uma mãe sempre serena, com uma serenidade sorridente e ativa, que atravessa problemas financeiros, tribulações de saúde, preocupações com o marido e os filhos, sem mostrar abalo, infundindo sempre neles paz, segurança e uma visão esperançosa do futuro? Todos nós conhecemos e admiramos mães assim, forjadas na dificuldade como ouro testado no fogo (I Pedr 1, 7); generosas sem alarde, heróicas, cuja lembrança nos arranca lágrimas dos olhos. Vimo-las, por vezes, chegar ao extremo, à hora da morte, após longa e sofrida doença, derramando a mesma serenidade de sempre sobre os corações dos seus, esquecidas de si mesmas, consolando e animando a todos, e deixando atrás de si uma esteira de luz. Isto é que é “esplendor da virtude”! Isto é que são virtudes “provadas”!
Não há virtudes fáceis. Não são verdadeiras as virtudes que aparecem nos momentos fáceis e desaparecem nos difíceis.Mas também não há virtudes “especializadas”, só para certos ambientes, e determinadas ocasiões. Aí temos que enfrentar-nos com o segundo teste, o da unidade de vida. Infelizmente, não é raro que muitos cristãos, quando estão com os amigos, os colegas de clube e as relações profissionais, pratiquem admiravelmente as virtudes da convivência. São amáveis, conversadores bem-humorados, prestativos, disponíveis. Chegam, porém, em casa, e parece que o mesmo homem virou “lobisomem”: seco, taciturno, antipático, mal-humorado, reclamando de tudo, isolado no seu jornal, na tv ou na Internet, incapaz de uma palavra ou de um gesto de carinho cálido. Que aconteceu? Que as “virtudes” exibidas em ambientes sociais eram isso, sociais, fachada inautêntica.
Pequena reflexão sobre as virtudes cardeais
Penso que, como simples amostra – dirigida agora especificamente aos pais – , podem-nos ajudar algumas pinceladas sobre as quatro virtudes cardeais. Serão rápidas, impressionistas, e mostrarão apenas umas poucas moedas do tesouro riquíssimo que guarda cada uma delas 3.
Prudência. Como ajuda e enche de segurança ter um pai que seja alegre, sensato e reflexivo. Que não improvise. Que não dê decepções a toda a hora. Que não mude de planos sem mais nem menos. Que não dê sustos por ter-se esquecido de controlar as contas bancárias, ou os prazos disso ou daquilo, que não precise ouvir aquelas palavras do Paraíso de Dante: “Siate, cristiani, a muovervi più gravi: non siate come penna ad ogni vento…” (“Cristãos, caminhai com mais ponderação: não sejais qual pena movida por qualquer vento…”) 4.
Justiça. Como faz bem aos filhos ter um pai e uma mãe que cumprem o que prometem. Que não se desdizem, porque fica mais difícil aquele passeio com os filhos e estão cansados e são comodistas. Que não tratam os filhos como números, com ordens genéricas, iguais para todos, como se o lar fosse um depósito de robôs, mas, como pede a justiça, tratam desigualmente os filhos desiguais, logicamente não por diferenças motivadas por mimos ou preferências injustas. Que, se fazem uma repreensão justa e prometem um pequeno ou médio castigo (castigo grande quase nunca se justifica), não amolecem, mas cumprem, sem deixar de cercar o filho punido da certeza de que é muito amado e só se quer o seu bem.
E também fazem bem aos filhos outras “justiças” menores do cotidiano. Por exemplo, saber que os pais não se aproveitam nunca de um troco errado (devolvem ao caixa a diferença), nem dão jeitos para enganar e deixar de pagar uma entrada, que qualquer pessoa honesta paga.
Fortaleza. Bastaria lembrar da mãe que admirávamos há pouco. Mas é também um exemplo maravilhoso viver num clima familiar em que não se ouvem queixas nem reclamações, nem gemidos. Em que ninguém se julga mártir ou vítima. Em que o pai, exausto, é capaz de ficar brincando com os filhos, interessando-se pelas suas pequenas problemáticas ou pelos seu sonhos e alegrias, e tudo isso, sabendo oferecer a todos um sorriso carinhoso, no meio da pena ou do esgotamento. Pais que sempre projetam a bela luz da paciência e da constância.
Temperança. Que grande exemplo dão os pais que nunca são vistos, nem dentro nem fora de casa, nem nos dias de trabalho nem aos domingos e feriados, abusando da comida e da bebida. Que não se iludem, achando que vão enganar os filhos dizendo-lhes que se trata só de um “aperitivo” ou uma “cervejinha”, de que precisam muito porque andam fatigados e faz bem para a saúde (quando os filhos os vêem claramente “altos”, com a voz gosmenta e as pernas bambeando por excesso de álcool). Pelo contrário, como toca o coração ver uma mãe que habitualmente “gosta” do pedaço de carne que tem mais nervos e gorduras, ou ver o pai que “gosta” do cinema que a mãe adora…, mesmo em dias em que seu time joga.
E a temperança na questão de TV e de Internet? Acham que os filhos são tolos? Em matéria de informática, quase sempre dão um solene “chapéu” nos pais, e descobrem muito facilmente (pois ainda não aprenderam a viver a virtude da discrição e a controlar a curiosidade) a quantidade de sites inconvenientes que o pai visitou, como se fosse um adolescente com obsessão sexual neurótica.
E em matéria de humildade, que São Tomás de Aquino situa dentro do âmbito da temperança? Como se nota a falta de humildade e como faz mal! Por isso, é tão formativo que os filhos percebam que os pais não se deixam arrastar por mesquinharias de susceptibilidade, por mágoas persistentes, por rancores e incapacidade de perdoar. Que nunca vejam os pais virando o rosto para ninguém, nem dominados por espírito de revide e vingança, nem falando com ódio do cunhado que fez isso ou da tia que fez aquilo…
Virtudes humanas! São tantas as que deveríamos cultivar! Cultivar e ensinar é um empreendimento árduo, mas é decisivo, e, por isso, deve ser enfrentado e levado a termo incansavelmente, com a graça de Deus.


(Adaptação de trechos dos livros de F. Faus: Autodomínio e A força do exemplo)
1 João Guimarães Rosa: Ave, Palavra, Liv. José Olympio, Rio de Janeiro 1070, págs. 270-274
2 Cfr. F. Faus; O valor das dificuldades, Ed. Quadrante, São Paulo, 1989
3 Cfr. Catecismo da Igreja Católica, nn. 1803 a 1811 e seu Compêndio, nn. 377 a 383
4 Dante Alighieri: Commedia, Paradiso, V, 73-74.