sexta-feira, 24 de agosto de 2012

"AS MULHERES QUE CHORAM"


Jesus chega penosamente à porta Judiciária. Atualmente é um vão de paredes muito

espessas que expande, nas sombras dessa espessura, a sua ogiva esbelta. Do outro lado,

são as ruas sinuosas e movimentadas dos bazares.

No tempo de Jesus, a porta dava para as valas que margeavam as muralhas e para a

planície rochosa onde se erguia o Calvário. De ordinário o cortejo parava nessa porta; a

multidão apinhava-se formigante e curiosa, e lia-se uma última vez a sentença ao

condenado. Quando Jesus desembocou na plena luz da planície, tendo à esquerda, não

longe, o sinistro perfil do Calvário, ergueu os olhos e viu todas as caras hostis da plebe.

Comprime-se esta, acotovela-se, quer ouvir, sobretudo quer ver o rosto e as impressões

do condenado.

Todos os olhares fixam-se com efeito no Cristo: analiza-se-Lhe a palidez, o terror; há

uma curiosidade malsã da multidão que a si própria se convida para o espetáculo do

último suspiro de um condenado. É o que os Atos dos Apóstolos chamarão, a propósito

de São Pedro,

de expectatio plebis: essa espera cruel de todo o povo ante o qual, como

 

em derradeira cena, se produz, se exibe a Vítima.

“Este – clama em voz alta o arauto – é Jesus de Nazaré, agitador e sedutor do povo, e

que se disse Rei dos Judeus. Seus compatriotas, os sacerdotes e os anciãos, entregaramnO

à justiça para ser crucificado

. Ide, lictores, e preparai a cruz”.

Ela está pronta, esmaga já os ombros do paciente. A multidão esbraveja. Jesus vê tudo e

ouve tudo.

Entretanto o cortejo se põe novamente em marcha e dobra à esquerda. Alguns passos

mais, e é a suprema subida de onde já se não torna a descer. Nesse momento

inopinadamente, Jesus fraqueja: será a comoção nova da sentença, o horror natural da

morte, o peso da Cruz que durante a simples parada da leitura pesou mais

esmagadoramente nos ombros curvados? Cai Ele humilhantemente, e desta vez o

levantar é mais custoso.

Já não há Simão Cirineu! A grande multidão que O cerca sente-se burlada: contava com

uma exibição, e vê só um infeliz que treme e desfalece a cada passo; murmura então.

As mulheres são mais compassivas. No ponto em que a estrada dobra para o Calvário,

agruparam-se elas, grupo comovido e que se lamenta. Jesus percebe o som sincero dos

corações partidos, através das blasfêmias de todo um mundo: pára. Ele que nada disse a

Sua Mãe, nada a Simão, nada a Verônica, tem uma palavras de consolação para aquela

piedosa simpatia: “Não choreis por Mim, diz com voz sumida, chorai antes por vós: dia

virá em que direis: Felizes nós se não houvéramos gerado. Está próximo esse dia,

porque se deste modo se trata a lenha verde, pergunto-vos Eu, que se fará da lenha

seca?” (Luc. 23, 31).

Os soldados deixaram-nO dizer: porque Jesus queria falar, Ele é o Mestre quando

cumpre o que seja.

Assim, quem é para lastimar não é o Messias amesquinhado, desfeito e agonizante,

segundo foi escrito e decidido,

Filius Hominis vadit, o Filho do Homem vai: ai, porém,

daqueles que atraiçoam e abandonam o Cristo a morrer por nós.

Deus orienta assim com uma palavra a piedade dos homens. Deve ela ir não às vítimas,

porém aos algozes; não aos perseguidos, mas aos perseguidores; não aos que sobem o

Calvário, mas aos que os fazem subi-lo. São os grandes miseráveis porque, se Deus

permite que assim se trate a lenha verde, a que tem a seiva da Graça, que produz frutos e

que gera os Seus eleitos, que se vai fazer de vós, opressores dos justos, mortos à Graça,

lenha seca e sem vida? Em verdade, Eu vo-lo digo, vós prestais é para o fogo eterno.

Lenha seca e eternamente árida, haveis de ser o pasto eterno de um fogo lento, vingador

e divino, que arderá enquanto tiver um alimento... Ora, vós sois imortais!

Esta palavra do

Cristo consola todas as opressões deste mundo. Delas está o mundo

cheio, e Deus se cala.

Este silêncio de Deus deveria amedrontar os opressores: virá uma hora em que essa

palha seca fugirá louca diante da cólera divina, e esta cólera lhe há de apanhar a menor

felpa, ainda que se fosse esconder no fim do mundo.

Que é a grandeza do mundo diante do poder de Deus? Esses pecadores ambiciosos que

quiseram encher este mundo, quando viviam, hão de mendigar então – e com que

angústia – um buraco nas montanhas para se esconderem: e não o hão de ter.

Assim, até nos últimos abaixamentos Jesus deixa escapar os clarões longínquos da Sua

Justiça derradeira.

Vereis o Filho do Homem, mais tarde, em todo o esplendor de Sua Majestade, dissera

menos autoridade: “Então eles hão de clamar: Montanhas, cai sobre nós. Porque se

deste modo se trata a lenha verde, que se fará com a lenha seca?...”

O lado do Calvário que olha para Jerusalém é muito abrupto. O cortejo teve pois que

contornar à direita a rocha escarpada, onde a rampa era mais suave.

O esforço que fizera Jesus para falar às filhas de Jerusalém esgotara-Lhe o resto de

forças e, no momento de galgar o outeiro, uma terceira, uma última vez Ele cai de rosto

no chão.

Evidente se fazia que quase já só arrastavam um cadáver. Era de recear que talvez Ele

não tivesse sequer alento bastante para chegar ao cimo, deitar-se na Cruz e sentir os

cravos enfiarem-se-Lhe brutalmente na carne morta. A todo custo, cumpria que fosse

alçado vivo na Cruz.

O texto sagrado deixa-nos adivinhar que os soldados tiveram que amparar, quase que

carregar a Vítima até em cima. Era o último instrumento de suplício, antes da

crucifixão. Vivamente o sentiu Jesus; sentiram-no também os que O cercavam e por isto

ainda mais o devem ter desprezado, pois acham que Ele não é corajoso.

[Voluntariamente] não tem aquela energia, aquele arrojo que concederá mais tarde aos

Seus Mártires.

Vai ao suplício a tremer, e esta aparência ou realidade de delíquio são tanto mais

humilhantes quanto Ele se disse o Messias, o Filho de Deus, aquele que existia “antes

que Abraão fosse...”, o restaurador de Israel, o filho de David!

Que amarga irrisão! Como todas estas coisas devem acudir ao pensamento dos

espectadores! ‘Nós esperávamos, dirão os discípulos de Emaús, nós esperávamos nEle:

sim, ontem, porém hoje! Que fim lastimável! Que mísero epílogo àquela vida estranha,

semeada toda de milagres e prodígios! Se era assim que Ele devia acabar, era oportuno

erigir-se em fundador de uma religião nova? Que crédito conferir a um homem que,

depois de ter avançado tanto, morre frouxamente e sem brilho?’

Este caráter da Paixão é inteiramente divino e reservado. Só o comunica Jesus a mui

raros e mui fiéis amigos, aos que já não sabem o que seja a glória deles, mas só vêem a

de Deus.

A humilhação do sofrimento, a fraqueza, o abatimento dos últimos instantes, não ser e

não parecer vigoroso no suplício a fim de que os homens, tão desejosos de honras, nos

desprezem um pouco mais ainda! Em verdade, em verdade, que aquele só a quem tal

seja dado o compreenda se puder, e o ame ardentemente.

 

Qui potest capere, capiat

.

 

Se o cálice me for posto aos lábios, ó Jesus, e os lábios me tremerem; se essa Cruz me

for posta nos braços e os meus braços penderem; se essa amargura me for vertida no

coração e o coração a deixar vasar como dum vaso partido e sem preço, eu bendirei, no

segredo desse coração desprezado de todos, a adorável bondade que terá me feito unirme

Ele perante o Tribunal. No momento de galgar o Calvário, diz com mais tristeza e não 

ainda mais a Vós na ríspida subida do Calvário. Assim seja.


 

Padre Luís Perroy. S. J.
Editora Vozes
1957
IMPRIMATUR
Por comissão especial do Exmo. e Revmo. Sr. Dom Manuel Pedro da Cunha Cintra,
Bispo de Petrópolis, Frei Desidério Kalver-Kamp, O.F.M Petrópolis, 19-11-1957.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

"Reflexão sobre o esforço exagerado e a ganância"

Filho, que tua atividade não esteja em muitas coisas: se te apressares, não estarás isento
de delito; se perseguires, não alcançarás e, se correres, não escaparás.
Há quem se esforça, apressa-se e sofre, e tanto mais fica desprovido.
Há outro, fraco, precisando de ajuda, mais carente de força e rico só em miséria:
o Senhor o observa com benevolência e o reergue de sua humilhação, levantando-lhe a
cabeça, a ponto de muitos ficarem admirados.
Bens e males, vida e morte, pobreza e riqueza, tudo vem de Deus.
A sabedoria, a ciência e o conhecimento da Lei vêm do Senhor; estão junto a ele o amor e
a conduta dos bons.
O erro e as trevas foram criados para os pecadores; os que se comprazem nas más ações,
O dom de Deus permanece com os justos e sua benevolência produzirá bons frutos para
sempre.
Há quem se enriqueça por avareza, mas esta será a sua recompensa:
quando disser: “Agora posso descansar, agora vou desfrutar, sozinho, dos meus bens”,
ele não tem consciência de que o tempo vai passar, a morte vai se aproximar, e ele
morrerá, deixando tudo para outros.
Permanece firme na tua tarefa, ocupa-te bem dela e envelhece cumprindo teus deveres.
Não admires as obras dos pecadores, mas confia em Deus e permanece em teu trabalho.
Pois é fácil, aos olhos de Deus, enriquecer o pobre, num instante.
A bênção de Deus está na recompensa imediata do justo: num instante ela faz aparecer o
seu sucesso.
 Não digas: “Do que é que eu preciso?” e ainda: “Que bens me advirão daqui?”
Não digas: “Basto-me a mim mesmo; de agora em diante, que desgraça me poderá
atingir?”
No dia feliz não te esqueças dos males, e no dia infeliz não te esqueças dos bens.
Pois é fácil para Deus, no dia da morte, retribuir a cada um segundo os seus atos.
O tempo da desventura faz esquecer a imensa riqueza, mas é no fim que as obras são
reveladas
Antes da morte não louves pessoa alguma, pois no seu fim é que se conhece a pessoa.

ECLESIÁTICO 11, 10-20

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

"A santa obediência confunde todos os desejos sensuais e carnais"


Elogio das Virtudes
Salve, rainha sabedoria,
o Senhor te guarde por tua santa Irmã, a pura simplicidade!
Senhora santa pobreza,
o Senhor te guarde por tua santa Irmã, a humildade!
Senhora santa caridade,
o Senhor te guarde por tua santa Irmã, a obediência!
Santíssimas virtudes todas,
guarde-vos o Senhor, de quem procedeis e vindes a nós!
Não existe no mundo inteiro homem algum em condições de possuir uma de vós,
sem que ele morra primeiro.
Quem possuir uma de vós e não ofender as demais, a todas possui;
e quem a uma ofender, nenhuma possui e a todas ofende.
E cada uma por si destrói os vícios e pecados.
A santa sabedoria confunde a Satanás e todas as suas astúcias.
A pura e santa simplicidade confunde toda a sabedoria deste mundo e a prudência da
carne.
A santa pobreza confunde toda a cobiça
e avareza e solicitudes deste século.
A santa humildade confunde o orgulho
e todos os homens deste mundo e tudo quanto há no mundo.
A santa caridade confunde todas as tentações do demônio
e da carne e todos os temores carnais.
A santa obediência confunde todos os desejos sensuais e carnais
e mantém o corpo mortificado para obedecer ao espírito e obedecer a seu Irmão,
e torna o homem submisso a todos os homens deste mundo,
e nem só aos homens, senão também a todas as feras
e animais irracionais,
para que dele possam dispor a seu talante, até o ponto que lho for permitido do alto pelo
Senhor (cf. Jo 19,11).

ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS

ORAÇÃO DA RESTITUIÇÃO


Senhor Jesus, o único Santo,
abra nosso coração à plenitude de teu Amor,
coloca-nos no caminho das Bem-Aventuranças,
dá-nos a graça de restituirmos ao mundo uma
Pessoa Humana Melhor!
Senhor Jesus, bom Mestre, ensina-nos o caminho a seguir neste novo tempo; encha nosso coração de agradecimento por todo o bem que tem feito em nossa família, em nossas atividades e em nós mesmos,
ensina-nos a fazer festa, encantados por teu amor e por tuas maravilhas.
Senhor Jesus, verdadeiro amigo,
dá-nos olhos penetrantes, para esquadrinhar a noite,
dá-nos sabedoria que nasce de tua amizade, para saber discernir o que vem de ti, dá-nos valentia para testemunhar diante da humanidade,
a beleza de seguir os valores do Evangelho.
Senhor Jesus, nosso Irmão, vem em socorro da nossa fragilidade, para que não nos desanimemos nos momentos difíceis,
dá-nos a simplicidade da pomba, para ir entre os povos, e a astúcia da serpente para não sermos subornados pelo mundo consumista e materialista.
Olha-nos com amor, também quando Te esquecemos.
Altíssimo, Onipotente e Bom Senhor,
Te damos graças porque nos pensou,criou e chamouà inspiração franciscana para iluminar as nossas práticas;
te bendizemos porque mantém vivo em nós o propósito de dar um acabamento melhor ao mundo, seguindo os exemplos de Francisco de Assis.
Te louvamos porque, como Francisco, nos tem dado a graça de te descobrir como verdadeiro tesouro de nossa vida. A Ti o louvor, a bênção e toda a honra.
Amém


ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS

"Da imitação de Cristo e desprezo de todas as vaidades do mundo"

Quem me segue não anda nas trevas, diz o Senhor (Jo 8,12). São estas as palavras de Cristo, pelas quais somos advertidos que imitemos sua vida e seus costumes, se verdadeiramente queremos ser iluminados e livres de toda cegueira de coração. Seja, pois, o nosso principal empenho meditar sobre a vida de Jesus Cristo.
2. A doutrina de Cristo é mais excelente que a de todos os santos, e quem tiver seu espírito encontrará nela um maná escondido. Sucede, porém, que muitos, embora ouçam frequentemente o Evangelho, sentem nele pouco enlevo: é que não possuem o espírito de Cristo. Quem quiser compreender e saborear plenamente as palavras de Cristo é-lhe preciso que procure conformar à dele toda a sua vida.
3. Que te aproveita discutires sabiamente sobre a SS. Trindade, se não és humilde, desagradando, assim, a essa mesma Trindade? Na verdade, não são palavras elevadas que fazem o homem justo; mas é a vida virtuosa que o torna agradável a Deus. Prefiro sentir a contrição dentro de minha alma, a saber defini-la. Se soubesses de cor toda a Bíblia e as sentenças de todos os filósofos, de que te serviria tudo isso sem a caridade e a graça de Deus? Vaidade das vaidades, e tudo é vaidade (Ecle 1,2), senão amar a Deus e só a ele servir. A suprema sabedoria é esta: pelo desprezo do mundo tender ao reino dos céus.
4. Vaidade é, pois, buscar riquezas perecedoras e confiar nelas. Vaidade é também ambicionar honras e desejar posição elevada. Vaidade, seguir os apetites da carne e desejar aquilo pelo que, depois, serás gravemente castigado. Vaidade, desejar longa vida e, entretanto, descuidar-se de que seja boa. Vaidade, só atender à vida presente sem providenciar para a futura. Vaidade, amar o que passa tão rapidamente, e não buscar, pressuroso, a felicidade que sempre dura.
5. Lembra-te a miúdo do provérbio: Os olhos não se fartam de ver, nem os ouvidos de ouvir (Ecle 1,8). Portanto, procura desapegar teu coração do amor às coisas visíveis e afeiçoá-lo às invisíveis: pois aqueles que satisfazem seus apetites sensuais mancham a consciência e perdem a graça de Deus.

FONTE: Imitação de Cristo

"AS PERFEIÇÕES DE DEUS"



           
 Que és, portanto, ó meu Deus? Que és, repito, senão o Senhor Deus? Ó Deus sumo, excelente, poderosíssimo, onipotentíssimo, misericordiosíssimo e justíssimo.
            Tão oculto e tão presente, formosíssimo e fortíssimo, estável e incompreensível; imutável, mudando todas as coisas; nunca novo e nunca velho; renovador de todas as coisas, conduzindo à ruína os soberbos sem que eles o saibam; sempre agindo e sempre repouso; sempre sustentando, enchendo e protegendo; sempre criando, nutrindo e aperfeiçoando, sempre buscando, ainda que nada te falte.
            Amas sem paixão; tens zelos, e estás tranqüilo; te arrependes, e não tens dor; te iras, e continuas calmo; mudas de obra, mas não de resolução; recebes o que encontras, e nunca perdeste nada; não és avaro, e exiges lucro. A ti oferecemos tudo, para que sejas nosso devedor; porém, quem terá algo que não seja teu, pois, pagas dívidas que a ninguém deves, e perdoas dívidas sem que nada percas com isso?
            E que é o que até aqui dissemos, meu Deus, minha vida, minha doçura santa, ou que poderá alguém dizer quando fala de ti? Mas ai dos que nada dizem de ti, pois, embora seu muito falar, não passam de mudos charlatães. 
Do Livro: CONFISSÕES 

 sAnTo AgOsTiNhO