sexta-feira, 6 de março de 2020

SANTIFICAR-SE COM O TRABALHO


Resultado de imagem para trabalho braçal

Uma escada de amor

Ponto de luz«O cristão não pode ser superficial. Plenamente mergulhado no seu trabalho diário entre os demais homens, seus iguais, atarefado, ocupado, em tensão, o cristão tem que estar ao mesmo tempo totalmente mergulhado em Deus, porque é filho de Deus» (É Cristo que passa, n. 65).

No começo do capítulo anterior, lembrávamos – com palavras de são Josemaria – que o trabalho é «meio e caminho de santidade, realidade santificável e santificadora».

Como santificar-nos a nós mesmos com o trabalho? Para entendê-lo bem, recordemos de novo que a fé nos ensina que a santidade é a plenitude do amor. A caridade (o amor) – diz são Paulo –, é o vínculo da perfeição. E afirma que ser um cristão perfeito consiste em progredir no amor  (cf. Col 3,14 e Ef 5,2).

É claro que a santificação pessoal no trabalho não é automática. Pressupõe pedir humildemente a ajuda da graça de Deus, e esforçar-nos por não perdê-lo de vista. «Vivemos como se o Senhor estivesse lá longe, onde brilham as estrelas, e não consideramos que também está sempre ao nosso lado.
E está como um Pai amoroso – quer mais a cada um de nós do que todas as mães do mundo podem querer a seus filhos –, ajudando-nos, inspirando-nos, abençoando… e perdoando»[1].

No meio do trabalho, precisamos rezar mentalmente orações muito breves que mantenham o «aquecimento do amor», como pequenos gravetos que se lançam nas brasas de uma lareira.  Basta dizer jaculatórias simples, como por exemplo: «Jesus, eu te amo!», ou «Ofereço-te esta hora de trabalho pela conversão do meu filho»…

Amor e virtudes

Esse clima espiritual, cultivado habitualmente, nos fará crescer na santidade. Como é que isso se notará? Eu lhe diria que, sobretudo, pelo amadurecimento das virtudes: mais fé, mais otimismo, mais compreensão, etc[2].

Completemos esta meditação fazendo-nos umas poucas perguntas práticas sobre as virtudes. Começaremos pelas virtudes «cardeais» (prudência, justiça, fortaleza e temperança); e, a seguir, examinaremos as  «teologais» (fé, esperança e caridade).

Exame sobre as virtudes cardeais 

  • Prudência:
– Tenho o hábito de refletir e, em muitos casos, de estudar a fundo, sem precipitação, antes de agir?
– Tenho a humildade de confrontar a minha opinião com a de outros colegas, e valorizo as sugestões recebidas?
– Quando, no trabalho, já fica definida uma solução, procuro levá-la logo à prática com decisão, sem demora?

  • Justiça:

– Sabendo que o trabalho de outras pessoas depende do meu, procuro ser diligente e pontual, para não prejudicá-los?
– Exijo dos subordinados horários abusivos de trabalho, que os impedem de atender decentemente aos deveres familiares?
– Sem uma estrita e urgente necessidade, protelo, nem que seja por uma hora, o pagamento de salários?

  • Fortaleza:

– Enfrento as dificuldades do trabalho com coragem, sem cair no desânimo nem em reclamações inúteis?
– Venço a moleza, a lentidão e o descuido nas diversas tarefas, mesmo que ninguém me cobre nada?
– Quando devo corrigir colegas ou subordinados, faço-o com clareza e delicadeza, sem cair na ira nem na prepotência?

  • Temperança:
– Venço a curiosidade desordenada na internet; evito perder o tempo com conversas inúteis ou indecentes?
– Ao terminar o trabalho, na “happy hour” ou no final de semana, abuso da bebida?
– Queixo-me com frequência do calor, do frio ou de qualquer moléstia física?

Perguntas sobre as virtudes teologais

  • :
– Procuro realizar bem o meu trabalho, com a consciência de estar assim cumprindo a vontade de Deus? Ofereço o trabalho a Deus? Rezo, pedindo a Deus que me mostre o que espera de mim naquela tarefa?
– Procuro na oração e na Eucaristia as forças necessárias para trabalhar como um bom cristão?
–Nas dificuldades e sofrimentos do trabalho, vejo Jesus que me pede, ajudá-lo a carregar a Cruz como um bom Cireneu?

  • Esperança:
– Estou convencido de que o trabalho feito de olhos postos em Deus nunca é inútil no Senhor, como dizia são Paulo [3]?
– Peço com confiança a ajuda de Deus nos trabalhos mais difíceis?
– Lembro-me de que Cristo disse: De que adianta ganhar o mundo inteiro, se acabas perdendo a tua alma[4]?

  • Caridade:
– Vejo os colegas como amigos e companheiros, não como rivais?
– Esforço-me por compreender os outros, evitando críticas negativas? Caio em mexericos?
– Evito comentários que impliquem desprezo ou ofensa de superiores e colegas?
– Rezo pelos outros e lhes faço o bem que posso no meu ambiente profissional?
[Capítulo do nosso livro Deus na vida cotidiana]
—-

[1] Caminho, n. 267
[2] Sobre esse tema, pode ser útil o nosso livro A conquista das virtudes, Ed. Cultor de Livros, São Paulo 2014.
[3] 1 Cor 15,58
[4] Mt 16,26

segunda-feira, 2 de março de 2020

QUARESMA: 1- O SACRIFÍCIO VOLUNTÁRIO


Resultado de imagem para quaresma semana santa


1 – O SACRIFÍCIO VOLUNTÁRIO


 Se alguém quiser
Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me (Mat 16,24). Ao dirigir essas palavras aos discípulos, Jesus fala de algo que depende de nós. Algo que podemos fazer ou não -Se alguém quiser…-, algo que pertence, portanto, à nossa livre iniciativa.
Sempre a Cruz – a mortificação pequena ou grande – deve ser tomada livremente: só se nós queremos, é que sacrificamos um fim de semana para dar assistência aos pobres; se nós queremos, deixamos de ir ao cinema para visitar um doente; se nós queremos, assumimos em casa os trabalhos mais sacrificados; se nós queremos, mortificamos a curiosidade, a gula, a destemperança no falar, etc.
Sacrifícios voluntários? Mortificação? Meter na nossa vida mais “cruzes”, quando a vida já traz tantas sem procurá-las? Por quê?
O Espírito Santo  nos responderá pela boca de São Paulo.
Este Apóstolo usa com frequência de uma comparação: a imagem dos dois homens que estão sempre brigando dentro de nós: o homem velho e o homem novo. Poderíamos traduzir por “homem modelado pelos parâmetros mundanos, pagãos” e “homem modelado – conforme a imagem de Cristo – pelo amor, pela graça do Espírito Santo”.
Assim, escrevendo aos Efésios, São Paulo pede-lhes: Não persistais em viver como os pagãos, que andam à mercê das suas ideias frívolas […]. Renunciai à vida passada, despojai-vos do homem velho, corrompido pelas concupiscências enganadoras. Renovai sem cessar o sentimento da vossa alma, e revesti-vos do homem novo, criado à imagem de Deus, em justiça e santidade verdadeiras (Ef 4,17.22-24). É claro que lhes está propondo uma luta constante, mediante a qual deverão arrancar – como se arrancam no jardim as ervas daninhas – o homem velho, para revestir-se do homem novo.
As mesmas ideias, mais sinteticamente expostas, encontramo-las na Carta aos Colossenses: Vós vos despistes do homem velho com os seus vícios, e vos revestistes do novo, que se vai restaurando constantemente à imagem dAquele que o criou (Cl 3,9-10).
Um terceiro texto, dirigido aos Gálatas, completa os anteriores: Os que são de Jesus Cristo crucificaram a carne, com as suas paixões e concupiscências (Gl 5,24). Para entender o que quer dizer, é preciso ter presente que, na mesma carta, havia explicado o que é a carne e as suas concupiscências (palavra que literalmente significa maus desejos), mostrando que por carne entende – como é comum em textos bíblicos – a vida egoísta, afastada da graça de Deus e mergulhada no materialismo, cujo deus é o ventre […] e só tem prazer no que é terreno (Fil 3,19).
Característica típica do homem velho é a de se deixar dominar pelos desejos da carne, que – como explica detalhadamente o Apóstolo – são fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, superstição, inimizades, brigas, ciúmes, ódio, ambição, discórdia, bandos, invejas, bebedeiras, orgias e outras coisas semelhantes (Gál 5,19,21).
Esta é a carne que deve ser crucificada, ou seja, mortificada, dominada e vencida com a renúncia, com a luta, com a Cruz.
Purificação voluntária
A mortificação voluntária – que faz parte essencial da luta do cristão – é um meio necessário de purificação.
Santo Agostinho tem um pensamento muito profundo a esse respeito. Lembra que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, e que o pecado “deformou” essa imagem e apagou a semelhança. A graça de Deus, recebida no Batismo, fez-nos renascer para uma vida nova, dando-nos a graça. É tarefa nossa colaborar com a graça para limpar os males que nos deformam; só assim a graça nos devolverá à “forma” primeira, que é a imagem do ser de Deus [1], a autêntica personalidade dos filhos de Deus.
Como é sugestiva essa ideia, para nos ajudar a compreender que a formação cristã não se limita ao conhecimento da verdade, da doutrina – a ler, estudar, aprender- , mas exige um trabalho de purificação –de limpar, de extirpar, de endireitar, de podar o que procede do egoísmo–, para podermos “arrancar a triste máscara que forjamos com as nossas misérias[2]”, e estarmos em condições de ir reproduzindo fielmente em nós os traços do nosso modelo, Jesus Cristo.
Pensemos seriamente, nestes dias, qual é o nosso homem velho, quais são as nossas paixões e concupiscências, para assim podermos descobrir as mortificações que precisamos fazer para arrancar de nós as máscaras deformantes. Não é muito difícil adivinhar. Difícil é concretizar… e fazer.
Na realidade, todos notamos em nós mesmos defeitos que nos prejudicam, hábitos, vícios de diversas espécies, que nos dominam; falhas de caráter que atrapalham o nosso trabalho; atitudes desagradáveis ou omissões no nosso relacionamento com os outros… Pois bem, aí é que deve entrar a nossa cruz, ou seja, os sacrifícios necessários para corrigir tais defeitos e revestir-nos do homem novo.
Adaptação de um trecho do livro de F.Faus, A sabedoria da Cruz
=====
Ano da Misericórdia:
Quantas páginas da Sagrada Escritura – diz o Papa Francisco – se podem meditar, nas semanas da Quaresma, para redescobrir o rosto misericordioso do Pai! […]. As páginas do profeta Isaías poderão ser meditadas, de forma mais concreta, neste tempo de oração, jejum e caridade. «O jejum que me agrada é este: libertar os que foram presos injustamente …, repartir o teu pão com os esfomeados, dar abrigo aos infelizes sem casa, atender e vestir os nus e não desprezar o teu irmão. Então, a tua luz surgirá como a aurora, e as tuas feridas não tardarão a cicatrizar-se. […]

»Se retirares da tua vida toda a opressão, o gesto ameaçador e o falar ofensivo, se repartires o teu pão com o faminto e matares a fome ao pobre, a tua luz brilhará na escuridão, e as tuas trevas tornar-se-ão como o meio-dia. O Senhor te guiará constantemente, saciará a tua alma no árido deserto, dará vigor aos teus ossos. Serás como um jardim bem regado, como uma fonte de águas inesgotáveis » (cf. 58, 6-11).
(Bula Misericordiae vultus, sobre o Jubileu da Misericórdia, n. 17).


[1] Cfr. Sermão 125,4. Patrologia Latina 38,962.
[2] Cfr. Josemaría Escrivá: Via Sacra, sexta estação

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

O FAROL DO FALSO ALMIRANTE


 Resultado de imagem para falso farol

São muitas as luzes falsas que tiram a consciência dos trilhos e falsificam a bondade das nossas ações. Jesus nos alerta: Se o teu olho – o olho da alma  – estiver são, ficarás todo cheio de luz. Mas se teu olho for ruim, ficarás todo em trevas (Mt 6, 22-23).
Vem-me ao pensamento um conto de Chesterton, O fim dos Pendragon, que trata de um “pseudoalmirante” louco, que morava num velho casarão nas costas rochosas da Cornualha, no sudoeste da Inglaterra. Construiu uma torre em cujo cimo podia acender uma grande fogueira, e assim simulava de longe um farol marítimo. Com essa luz falsa, enganava navegantes rivais ou inimigos que queria eliminar e os induzia a naufragar e morrer no labirinto das rochas.
Você não tem receio dos falsos faróis, das luzes intelectuais e morais falsas que hoje atraem milhões de pessoas? Se não quiser naufragar, cuide com muito empenho de adquirir uma profunda formação cristã, e sinta a responsabilidade de transmiti-la aos que quer bem.

Adaptação de um trecho do nosso  livro A arte de decidir bem: a virtude da prudência

MINHA ALMA SUSPIRA PELOS ÁTRIOS DO SENHOR

Galeria de Paróquia San Norberto / Carlos Campuzano Castelló - 8
 Como são amáveis, Senhor tuas moradas… Minha alma desfalece e suspira pelos átrios do Senhor… Até o passarinho encontra casa e a andorinha ninho junto aos teus altares (Salmo 84,2-4). Fiquei alegre, quando me disseram: “Vamos à casa do Senhor!” (Salmo 122,1).
O salmista peregrino que se aproxima de Jerusalém suspira, ardendo no desejo de chegar ao Templo, “a casa do Senhor”, onde é tão próxima a presença do Deus de Israel. E inveja santamente a andorinha que deixa confiante o seu ninho junto do altar.
A nossa alma cristã é sempre peregrina, rumo ao altar onde Deus se faz presente, acessível, próximo.
Qual é esse altar? Sem dúvida, a “máxima” proximidade de Deus é a Eucaristia. No altar da Santa Missa, Jesus, Deus e Homem verdadeiro, se faz presente, vem a nós na santa Comunhão, e, depois, fica no Sacrário à espera da nossa companhia e a nossa oração.
Mas eu não queria meditar agora nessa proximidade inefável do Senhor na Eucaristia. Queria meditar em outra presença.
  • O altar do coração. Já nos primeiros séculos, os santos Padres falavam de outro altar, o “altar do coração”. «Altare Dei est cor nostrum – dizia, por exemplo, santo Ambrósio −, altar de Deus é o nosso coração». E dizia-o com a alegria de quem conhece a verdade de que falava são Paulo: Não sabeis que sois um templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? …O templo de Deus é santo e esse templo sois vós (1 Cor 3, 16-17).
É isso o que descobriu santo Agostinho, após anos de procura: «Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei!… Eis que estavas dentro de mim, e eu fora… Tu estavas comigo, e eu não estava contigo»[1].
Lembro bem como me ficou gravado o que ouvi da boca de são Josemaria em 1954, em Roma: «Meus filhos, eu a Deus o busco em mim, no meu coração, e vocês devem procurá-lo também no centro da sua alma em graça»[2].
Essa “peregrinação” até o altar do nosso coração, para ter lá um encontro íntimo com Deus, pode ser feita, deveria ser feita, em qualquer momento da nossa vida. Em casa, na rua, no trabalho, nos meios de transporte, na alegria, na dor…, sempre podemos procurar Deus e encontrá-lo no íntimo do coração.
Você já se acostumou a falar com Deus no seu coração, a compartilhar com ele as menores coisas da sua vida? Assim deveríamos viver, e então compreenderíamos por que são Paulo animava assim os tessalonicenses: Ficai sempre alegres, orai sem cessar  (1 Ts 5,16-17). Com isso, ele lembrava um ensinamento de Cristo: É preciso orar sempre sem jamais esmorecer (Lc 18,1). Isso é possível? Sim, aprendendo a viver a prática da “presença de Deus”.
  • Viver na presença e Deus. Para começar, «é preciso convencer-se de que Deus está junto de nós continuamente. – Vivemos como se o Senhor estivesse lá longe, onde brilham as estrelas, e não consideramos que também está sempre ao nosso lado. E está como um Pai amoroso – quer mais a cada um de nós do que todas as mães do mundo podem querer a seus filhos -, ajudando-nos, inspirando-nos, abençoando… e perdoando… Necessário é que nos embebamos, que nos saturemos de que Pai e muito Pai nosso é o Senhor que está junto de nós e nos Céus»[3].
Sabemos “ativar” essa fé? É um exercício espiritual que deveríamos cultivar todos os dias. Começar o dia com um ato espontâneo de fé e de amor a Deus, oferecer-lhe com carinho tudo o que naquele dia vamos fazer, pedir-lhe que nos abençoe e nos acompanhe em cada passo. Depois, desfrutar dessa sua companhia, dirigindo-nos a ele muitas vezes com o coração.
O salmo 145 nos anima: O Senhor está perto de todos os que o invocam, os que o invocam de coração sincero. Satisfaz o desejo dos que o temem, escuta o seu clamor e os salva. O Senhor protege todos os que  amam (Salmo 145,18-20).
− Invocar é agradecer: “Obrigado, meu Deus, por ter ouvido o despertador, eu que tenho sono pesado e sempre me atraso!” “Obrigado meu Deus: acabo de beijar meu filho pequeno, e não sei como te agradecer esse dom”. “Obrigado pelo carinho com que a mãe, ou a esposa, ou o marido madrugador preparou o café”…
− Invocar é oferecer: “Eu te ofereço, Senhor, essa dor nas costas como penitência pelos meus pecados” “Ofereço-te esse trabalho que estou começando, e te peço ajuda para terminá-lo com perfeição” “Ofereço essa oração para que meu ex colega encontre um emprego” ”Ofereço o choro do meu bebê para que me ajuda e ser uma mãe mais paciente”…
− Invocar é pedir: “Peço-te por cada um dos meus filhos, guarda-os no dia de hoje” “Peço-te que me ajudes a socorrer essa mendiga” “Peço-te que me faças vencer a tentação de ficar perdendo tempo com o celular quando não deveria”, “Peço-te que me ajudes a dar alegria à minha sogra que anda muito deprimida”…
− Invocar é desagravar. “Jesus, aceita esse terço que vou rezar como reparação pelos que não amam nem veneram a tua Mãe Santíssima” “Senhor, ajuda-me a fazer hoje uma mortificação mais exigente da gula, para reparar pelos pecados que se cometem pelo abuso do sexo e do álcool, e pelo uso das drogas”…
Você vê como, com boa vontade, e sempre com a ajuda da graça de Deus, é possível viver a vida toda em diálogo Deus e, assim, com toda a naturalidade, morar na casa do Senhor todos os dias da minha vida, e poder gozar da suavidade do Senhor  (Salmo 27,4).
Do nosso livro O espelho dos salmos, Quadrante 2019
[1] Confissões, 10, 27,38
[2] F.F.  São Josemaria Escrivá no Brasil, 3ª edição. Quadrante 2017, p. 41
[3] Caminho, n. 267

LÂMPADA PARA OS MEUS PASSOS



─ Senhor, tu acendes minha lâmpada; meu Deus, ilumina minhas trevas (Salmo 18,29). Mostra-me, Senhor, os teus caminhos, ensina-me tuas veredas, faz-me caminhar na tua verdade (Salmo 25,4-5).
O salmista pede a Deus a sua luz, porque tem a experiência de que, sem ela, a vida é triste, é como se a pessoa girasse nas trevas à volta e si mesma, perdendo-se num túnel sem saída. Só Deus é luz (1 Jo 1,5). E quando nós lhe suplicamos que nos conceda a fé – envia a tua luz e a tua verdade! (Sl 43,3) –, experimentamos com alegria que lâmpada para meus passos é a tua palavra e luz no meu caminho (Sl 119,105). Saímos, então, do túnel e podemos maravilhar-nos com «o esplendor e a segurança e o calor do sol da fé»[1].
Um escritor inglês converso, Evelyn Waugh, expressava assim a sua descoberta da luz: «É como sair de um mundo de espelhos, onde tudo é uma caricatura absurda, para entrar no autêntico mundo criado por Deus; a partir de então é que começa o delicioso processo de explorar o mundo sem limites».
  • O caminho dos mandamentos. Um rumo: isso é o que pedia aquele homem jovem que procurou Jesus no meio do caminho. Queria um roteiro para chegar à vida eterna. Bom Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna? Jesus começou mostrando-lhe o básico – cumpre os mandamentos [os dez Mandamentos]  –, e, a seguir, indicou-lhe o caminho da plenitude que podemos viver andando com ele nesta terra: Deixa tudo e segue-me. Aquele homem não teve coragem (tinha muitas posses), deu meia volta, abaixou a cabeça e retirou-se triste (cf. Mc 10,17-22).
Você se lembra de que, no começo da sua pregação, Jesus disse: Não penseis que vim revogar a Lei e os profetas. Não vim revogá-los mas dar-lhes pleno cumprimento (Mt 5,17). Esse pleno cumprimento consiste em elevar os dez mandamentos ao nível do amor, de um amor semelhante ao de Cristo.
Assim, por exemplo, ao mandamento de «não matar», Jesus acrescentou os de «não se irritar» nem «insultar» o próximo. O sexto e o nono mandamentos,  referem-se a atos que se cometem: aos pecados de «fornicação» e «adultério»; Jesus elevou-os um nível alto de amor: não só abster-se de cometer atos, mas cortar pela raiz o olhar infiel e o mau desejo (ver capítulo 5 do Evangelho de São Mateus).

  • Seguir a Cristo. Você já descobriu essas belas luzes do caminho cristão? Já compreendeu o apelo de Jesus, que nos diz: Eu sou a luz do mundo; aquele que me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida (Jo 8,12).
Na Jornada Mundial da Juventude de 2013, no Rio de Janeiro, o Papa Francisco dizia aos jovens, comentando a parábola do semeador: «Quando aceitamos a Palavra de Deus, então somos o “Campo da fé”. Por favor, deixem que Cristo e sua Palavra entrem em sua vida, deixem entrar a semente da Palavra de Deus, deixem que germine, deixem que cresça. Deus faz tudo, mas vocês deixem-no fazer, deixem que Ele trabalhe nesse crescimento»[2] .
– «Deixem que Cristo e sua Palavra entrem em sua vida». Você o deixa entrar, abrindo-lhe o coração e a mente? Você – jovem ou menos jovem – lê e medita todos os dias algum trecho do Evangelho, do Novo Testamento? Todos sabemos da enorme ignorância do Cristianismo que há hoje na maioria dos ambientes. Não nos instalemos cegamente nessas sombras! Procuremos sair para a luz.
– «Deixem que germine a Palavra de Deus», acrescentava o Papa. “Germina” quando aprofundamos nela – estudando, meditando –, e nos esforçamos por encarná-la na prática cotidiana. Sabe quando se nota que a Palavra germina em nós? Quando não só proporciona doutrina, mas nos faz ouvir a voz de Deus que atinge diretamente o coração. Deste modo, captamos por experiência a sua beleza, e ficamos cada vez mais com mais fome de conhecê-la.
«A fé – dizia Bento XVI – é um amor que cativa o homem e lhe mostra o caminho a seguir, mesmo que essa fé seja cansativa, uma escalada que parece loucura…; mas que se mostra o único caminho possível, que não trocaríamos por conforto nenhum, nós que estamos engajados na aventura»[3].
«Deixem que a Palavra de Deus cresça», pedia ainda o Papa. Cresce em nós quando a alimentamos, como semente plantada na alma. De que modo?  –Com os Sacramentos: a Confissão e a Eucaristia; – Com a oração:  mental e vocal; – Com o cumprimento dos nossos deveres cotidianos (no lar, no trabalho, no convívio social), praticados com perfeição, por amor a Deus e ao próximo.


[1] Caminho, n. 575
[2] Palavras do Papa Francisco no Brasil, Ed. Paulinas, São Paulo 2013, pág. 113
[3] Da entrevista O sal da terra. Em Dag Tessore: Bento XVI. Questões de fé, ética e pensamento na obra e Joseph Ratzinger. Ed. Claridade, São Paulo 2005, pág. 51

DEUS NÃO RETIROU DE MIM A ORAÇÃO


Bautista mujer


─ Deus me ouviu, prestou atenção à minha súplica. Bendito seja Deus que não rejeitou [não removeu de mim] a minha oração (Salmo 66,20)

O texto original desses versículos, como mostra a tradução literal da Nova Vulgata, agradece a Deus que, além de ouvi-lo, não lhe tenha tirado, não tenha “removido” dele, a sua oração (non amovit orationem meam a me).

Privar da oração, tirar de alguém a capacidade de orar, é como matar-lhe a alma. É lógico que seja assim. A oração é um dom que a graça do Espírito Santo deposita no fundo do nosso coração [1]. Pois bem, desprezar essa graça é uma forma de expulsar, de entristecer o Espírito Santo de Deus (Ef 4,30).

Sem essa graça, nós nunca seriamos capazes de ter a felicidade de estabelecer um contacto direto com Deus, orando a qualquer hora, em qualquer lugar e em qualquer circunstância. «A meu ver – dizia santa Teresa de Ávila –, a oração … é apenas um relacionamento íntimo de amizade em que conversamos muitas vezes a sós com esse Deus por quem nos sabemos amados»[2].

Deus oferece o dom da oração a todos, desde os maiores santos até os maiores pecadores. Só nós, só você e eu, podemos bloquear esse dom e tornar-nos impermeáveis a ele. A nossa alma, então, privada da oração por culpa nossa, torna-se um deserto de solidão, aridez e amargura.

Talvez nos perguntemos: – “Se nem sequer o pior pecado pode nos privar da oração, o que é que a pode bloquear?” O Catecismo da Igreja nos dá uma resposta inspirada na Palavra de Deus: «Duas tentações frequentes ameaçam a oração: a falta de fé e a acídia [indiferença, tédio pelas coisas espirituais], que é uma forma de depressão devida a relaxamento do esforço espiritual, e que leva ao desânimo»[3].

Sem a fé, falar com Deus seria uma farsa; e seria uma hipocrisia falar com ele sem estar dispostos a fazer o que nos pede: Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim (Is 29,13 e Mc 7,6); rezar assim é inutilizar a graça da oração. Ora, graça desprezada, graça removida.

Lembre quais são as principais condições da boa oração:

  • Humildade: Jesus louva a oração do publicano no Templo: Mantendo-se a distância, não ousava sequer levantar os olhos para o céu, mas batia no peito dizendo“Meu Deus, tem piedade de mim, pecador!”. Eu vos digo que este desceu para casa justificado (Lc 18,13-14).

«O pedido de perdão é a condição prévia de uma oração justa e pura», diz o Catecismo[4]. Basta o pedido confiante de misericórdia, como o do bom ladrão (Lc 23,42) ou as lágrimas silenciosas da mulher pecadora (Lc 7,44), ou o tremor contrito da adúltera (Jo 9-11) para que se estabeleça a ponte do perdão e da paz entre o coração arrependido e o coração amoroso de Jesus.

  • Sinceridade: Para fazer oração – diz também o Catecismo – é preciso «despertar a fé, para entrar na presença daquele que nos espera, fazer cair as nossas máscaras e voltar nosso coração para o Senhor que nos ama, a fim de nos entregarmos a Ele como uma oferenda que precisa ser purificada e transformada»[5].

Como podemos orar bem se andamos “mascarados”? Máscara é, por exemplo, achar-nos bons como o fariseu (Lc 18,11-12), não ver os nossos defeitos, não reconhecer que somos pecadores; ou então tapar com a máscara dos bons sentimentos a má vontade em relação aos deveres que nos custa cumprir: Nem todo o que me diz “Senhor, Senhor!” entrará no Reino dos Céus, mas sim o que pratica a vontade de meu Pai que está nos Céus  (Mt 7,21).

  • Confiança filial. Quando os apóstolos pediram a Jesus ensina-nos a orar, o Senhor respondeu: Quando orardes dizei: “Pai, santificado seja o teu nome…” (Lc 11,2). O Pai-nosso. Com certeza Jesus usou, para designar o Pai, uma palavra aramaica que atingia o coração dos ouvintes, pois todos eles, desde a infância, a tinham usado para se dirigir com carinho ao pai da terra: Abá (cf. Mc 14,36).
Desde o começo de sua pregação, Jesus quis infundir essa confiança ilimitada no coração de todos: Vosso Pai sabe do que tendes necessidade antes de lho pedirdes… Vosso Pai vê, vosso Pai sabe… (Mt 6, 8.27 ss).

Orai sem cessar (1Ts 5,17). Para “conviver” assim, filialmente, com Deus não precisamos de discursos, de retórica. Como já víamos, para fazer oração basta muitas vezes uma invocação afetuosa a Deus, a Jesus, a Maria, aos nossos irmãos os santos. Basta um olhar, um suspiro, uma lágrima, um gemido, um sorriso, uma lembrança, uma breve jaculatória: ”Meu Deus, eu te amo, ajuda-me!”.

É claro que esse clima de serena intimidade com Deus precisa ser aquecido por momentos diários e semanais bem mais longos e intensos: a Santa Missa, a meditação, as leituras espirituais, o Terço… [6]. O que não podemos fazer é descurar a oração.

Penso que nos pode ajudar, para encerrar este capítulo, ler e meditar duas frases de dois grandes santos.

  • Santo Afonso Maria de Ligório, entre suas inúmeras obras, tem um livrinho sobre «A Oração»[7], que é uma verdadeira joia. Nele coloca uma frase que o a Igreja assumiu no seu Catecismo: «Quem reza certamente se salva, quem não reza certamente se condena» (n. 2744).

  • São João Maria Vianney, o santo Cura d’Ars, dizia em suas Catequeses: «Deus não tem necessidade de nós: se ele nos pede que rezemos é porque deseja a nossa felicidade, e essa felicidade só pode ser encontrada na oração… A oração é toda a felicidade do homem. Quanto mais se reza, mais se quer rezar».
Experimente, e verá.
[1] cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 2725
[2] Livro da vida, cap. 8º.
[3] cf. n. 2755
[4] cf. Catecismo, n. 2631
[5] Ibidem, n. 2711
[6] Sobre este tema ver as nossa obra Para estar com Deus, Ed. Cultor de Livros e Cleófas, S~Cao Paulo 2012
[7] Editora Santuário, Aparecida.

SALMOS: A ESTRADA QUE EU DEVO SEGUIR

Cross with bible and candle on a old oak wooden table | Premium Photo #Freepik #photo #vintage #gold #book #wood

A ESTRADA QUE EU DEVO SEGUIR

─ Senhor, ouve a minha oração, sê atento à minha súplica… Indica-me a estrada que devo seguir, porque a ti elevo a minha alma (Salmo 143,1.8). Todas as veredas do Senhor são amor e verdade (Salmo 25,10).
Na meditação anterior considerávamos a estrada régia do cristão, que todos somos chamados a percorrer.  Mantendo-nos na via clara dos mandamentos, devemos avançar no amor, seguindo as pegadas de Cristo. Progredi no amor – escrevia são Paulo –, como Cristo também nos amou e se entregou a Deus por nós como oferenda e sacrifício de suave odor  (Ef  5,2).
O caminho cristão é um só para todos. O próprio Cristo é o nosso caminho, com seu exemplo, com sua graça, com sua palavra: Eu sou o caminho, a verdade e a vida (Jo 14,6).
É um único caminho, mas não é um caminho uniforme: nele se manifesta a variedade das insondáveis riquezas de Cristo (Ef  3,8): A meta do Amor pode-se alcançar por diversas sendas (todas elas dentro do Caminho), conforme a vocação particular que Deus der a cada um.
  • Vocação para a santidade. Esta é a vocação primordial, básica, de todos os batizados. Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação, dizia são Paulo aos primeiros cristãos (1 Ts 4,3).
Todo batizado é chamado por Deus à santidade. Eis uma verdade, por muitos esquecida, que o Concílio Vaticano II quis proclamar com vigor em 1964,
«A chamada universal à santidade»[1], e que o Papa Francisco voltou a recordar na sua Exortação apostólica Gaudete et exsultate de 19/03/2018.
Na época contemporânea, Deus serviu-se especialmente de são Josemaria Escrivá, desde 1928, para erguer como um estandarte esse apelo geral à santidade que Cristo dirigiu a todos: Deveis ser perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito (Mt 5,48).
Por ocasião da canonização de são Josemaria, em 6 de outubro de 2002,  são João Paulo II dizia: «São Josemaria foi escolhido pelo Senhor para anunciar a chamada universal à santidade e mostrar que as atividades correntes que compõem a vida e todos os dias são caminho de santificação… Estava convencido de que, para quem vive sob a ótica da fé, tudo é ocasião de um encontro com Deus, tudo se torna um estímulo para a oração. Vista desta forma,a vida diária revela uma grandeza insuspeitada. A santidade apresenta-se verdadeiramente ao alcance de todos»[2]
Cada caminhante siga seu caminho. Ao mostrar-nos o leque da santidade aberto para todos, Deus faz-nos compreender que o caminho da santificação não é apenas o das vocações para o sacerdócio, para a vida monástica, para o convento, para as missões, etc.; são igualmente os variadíssimos caminhos honestos dos homens e mulheres que vivem, lutam e trabalham no meio do mundo.
A esses dizia são Josemaria: «Devem compreender que Deus os chama a servi-lo em a partir das tarefas civis, materiais, seculares da vida humana. Deus nos espera cada dia: no laboratório, na sala de operações de um hospital, no quartel, na cátedra universitária, na fábrica, na oficina, no campo, no seio do lar e em todo o imenso panorama do trabalho. Não esqueçamos nunca: há “algo” de santo, de divino, escondido nas situações mais comuns, algo que a cada um de nós compete descobrir». Esse “algo” é uma chamada de Deus que nos diz: “Dá-te mais, ama mais, faz melhor, reza mais, trabalha mais um pouco, ajuda mais…”.
E acrescentava: «Não há outro caminho, meus filhos: ou sabemos encontrar o Senhor na nossa vida de todos os dias, ou não o encontraremos nunca»[3].
Para buscar a santidade na vida cotidiana, não existe uma única trilha. Há muitos caminhos que a Igreja aprova e abençoa. Cada caminhante deve descobrir o seu, o que Deus quer, o que Deus preparou para ele, a missão que Deus lhe reservou desde toda a eternidade. O que não podemos fazer é ficar no acostamento, sem empreender nenhum caminho.
Não podemos diluir-nos numa multidão anônima. Você e eu temos nome único e missão pessoal aos olhos de Deus. Perguntemos-lhe: «Senhor, que queres que eu faça?».
Será uma boa oração para fazer todos os dias, assim que acordamos. Nosso Senhor ficará do nosso lado, nos mostrará em que ponto ele nos espera, e nos dirá: Segue-me, apontando para a “nossa” trilha particular naquele dia.

[1] Constituição dogmática Lumen gentium, capítulo V
[2] Discurso após a Missa de Ação de Graças pela Canonização de são Josemaria, 7/10/2002
[3] Homilia Amar o mundo apaixonadamente, Ed. Quadrante