sábado, 7 de dezembro de 2019

Breve “Guia das 4 Atitudes Pessoais no Advento”, semana por semana

SUNSET

Sugestões para viver melhor este período litúrgico de espera confiante na vinda de Jesus

Apalavra advento significa “chegada” e, no caso do presente tempo litúrgico, é um convite da Igreja a vivermos a espera da vinda de Jesus em atitude de vigilância, diligência, penitência, oração, esperança e gratidão Àquele que, sendo Deus, se fez homem e nasceu por amor a nós!
Há preciosas tradições que nos ajudam a aproveitar com intensidade espiritual este precioso tempo de preparação para o Natal. Uma delas é a Coroa do Advento:


E há também, é claro, o chamado do Espírito Santo a prepararmos a nossa alma, em recolhimento pessoal diante de Deus e da nossa própria consciência. É para essa preparação que sugerimos o seguinte “guia” – que não é nada formal, nem constitui nenhuma tradição específica da Igreja. São meras sugestões para vivermos de modo mais intenso o Advento em nosso cotidiano!

Primeira Semana: Limpeza

Viva a virtude da pureza, do perdão, da retidão das intenções. Asseie o seu interior com espírito vigilante e varra de si mesmo tudo aquilo que não deixa você olhar com clareza para a Magnificência de Deus!
Limpe a sua alma com um exame de consciência profundo, pensando nas coisas que separam você de Deus. Depois faça uma boa confissão, pedindo-Lhe perdão.
Ah, e você também precisa perdoar. Tire do seu coração aquilo que impede você de experimentar em profundidade o amor de Deus, o mesmo amor que você deseja viver e transmitir plenamente aos seus semelhantes. Você pode fazer, por exemplo, alguma oração parecida com esta:
Pai, eu Te suplico humildemente: dá-me tudo o que eu não soube Te pedir e tira de mim tudo aquilo que eu não soube Te entregar. Tira de mim tudo aquilo que me afasta de Ti e nunca permitas que nenhum amor humano, nenhum bem material, nenhuma circunstância da vida me separe de Ti, do Teu coração, pois eu desejo ser só Teu, meu Senhor! Completamente Teu!

Segunda Semana: Reorganização

Depois da limpeza, vem a recolocação de tudo em ordem. A verdadeira paz está relacionada com a ordem da alma, que nos ajuda a viver a vida com as prioridades certas. A máxima prioridade é Deus, que é a plenitude do Ser, a plenitude do Amor, a plenitude do Bem, a plenitude da Beleza, a plenitude da Verdade, a plenitude da Felicidade.
Organize os seus afetos recolocando Deus no primeiro lugar. Siga o que Ele pede. Assim, você experimentará a ordem interior e, portanto, a verdadeira paz – a mesma paz que você vai retransmitir ao mundo, já que os outros vão dizer: “Eu também quero viver como você!”.
Mas lembre-se: paz não significa ausência de problemas; ela é fruto da certeza de que, por trás de todo acontecimento, por mais doloroso que seja, Deus tem um plano perfeito que poderá levar você à sua plenitude – se você deixar.

Terceira semana: Caridade

Nesta semana, foque na caridade e na misericórdia para com os seus irmãos em Cristo. Com todos. O serviço ao próximo, que é fruto do sacrifício e do amor autêntico, se torna alimento para a alma, motor para a vida e veículo do amor de Deus para os demais.
Lembre-se: é dando que se recebe. Amar e servir a quem você ama é fácil; amar e servir a quem mais custa é prática real de misericórdia e caridade.

Quarta semana: Alegria!

O Natal já está às portas! Esta é a grande semana! Desfrute-a com a felicidade de uma alma cheia de esperança, alegria, certeza do Amor de Deus! Reconheça realmente quem você é e viva com dignidade, honrando a sua verdadeira natureza: você é ninguém menos que FILHO DE DEUS, redimido por Cristo!

https://pt.aleteia.org/2018/12/04/breve-guia-das-4-atitudes-pessoais-no-advento-semana-por-semana/

Advento: tempo de faxina interior


Neste tempo do Advento, a faxina da espera deve remover as teias de aranha dos sentimentos que estacionaram em nossa alma

As estações da natureza nos ensinam a reconciliar, em nosso coração, o tempo dos mistérios que abraçam nossa fé. Advento é tempo da espera. Ainda não é Natal, mas antecipa-se a alegria dessa festa. Viver cada tempo litúrgico com o coração é um jeito nobre de não adiantar um tempo que ainda não chegou. Na sobriedade que este tempo litúrgico exige, vamos tecendo a colcha das alegrias do Cristo que vem ao nosso encontro.
Esperar é uma alegria antecipada de algo que ainda não chegou. A mulher grávida vive na alma a felicidade antecipada pela vida que, em seu ventre, vai sendo gerada no tempo que lhe cabe. A natureza cumpre o ritual das estações para que cada tempo seja único. Os casais apaixonados esperam o momento do encontro. As famílias organizam a casa no cuidado da espera dos parentes que vão chegar. Esperar é uma metáfora do cotidiano da vida. No contexto do Advento, a espera ganha tonalidades alegres e sóbrias.
Casa mal arrumada não é adequada para acolher os amigos e familiares que vão chegar. Jardim sujo não pode se tornar um canteiro para novas sementes. Esperar é também tempo de cuidado e organização. No tempo da espera, o tempo do cuidado na vida espiritual. Chegando ao fim de mais um ano, muitos corações se encontram totalmente bagunçados. Raivas armazenadas nos potes da prepotência, mágoas guardadas nas gavetas do rancor, amizades sendo consumidas pelo microondas da inveja, tristezas crescendo no jardim da infelicidade, violência sendo gerada no silêncio do coração.

No Advento da vida

Enquanto as lojas fazem o balanço [de seu patrimônio], somos convidados a fazer o balanço de nossa situação emocional. No balancete da vida, o amor deve sempre ser o saldo positivo que nos impulsiona a sermos mais humanos a cada dia.
Casa mal arrumada não é local adequado para receber quem nos visita. Coração bagunçado dificilmente tem espaço para acolher quem chega. Neste tempo do Advento, a faxina da espera deve remover as teias de aranha dos sentimentos que estacionaram em nossa alma. O pó que asfixia o amor deve ser varrido. Tempo novo exige coração novo. Jesus, com Seu amor sem limites, adentrava o coração de cada pessoa e fazia uma faxina de amor; abria as janelas da vida, que impediam cada pessoa de ver a luz de um novo tempo chegar; devolvia às flores, já secas pelas dores e tristezas, as alegrias da ressurreição; semeava nos sertões sem vida as sementes do amor e da paz.
No Advento da vida, as estações do coração se tornam tempo propício para limpar os quartos da alma à espera do Cristo que vem. Se o jardim do coração estiver sendo cuidado, as sementes da esperança vão germinar no tempo que lhes cabe, e o Amor nascerá nas alegrias da chegada.
Por Pe. Flávio Sobreiro, via Canção Nova

Vencendo as tempestades | Pregação - Frei Gilson

MEU CORAÇÃO ESTÁ PRONTO

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─ Meu coração está pronto, ó Deus, meu coração está pronto (Salmo 57,8).
O salmista recorre a Deus num momento em que sofre uma dura perseguição. Sente-se como que cercado entre leões que devoram a gente: seus dentes são lanças e flechas; sua língua espada afiada. Mas, apesar disso, não se abala, não perde a confiança no Deus que me faz o bem.  Junto do Senhor e contando com ele, seu coração se mantém pronto para superar qualquer tribulação e continuar a fazer com alegria o que Deus espera dele: Eu te louvarei entre os povos…porque tua bondade é grande até o céu, e tua fidelidade até as nuvens (Sl 57,5.3.10-11).
Todo aquele que quiser viver o ideal cristão terá que enfrentar, com confiança em Deus, oposições, resistências, medos, cansaços e tentações: obstáculos que podem anular o ânimo e a energia. A covardia que inibe é a  autodefesa do fraco, que nela se refugia para não enfrentar as dificuldades que o cumprimento da vontade de Deus exige.
  • Meu coração está pronto para quê? Infelizmente, muitos parece que só têm o coração pronto para duas coisas:
– para reclamar do que os contraria
– para dizer, mesmo sem palavras: Eu confiarei em Deus desde que ele faça a minha vontade, desde que me conceda o que eu quero e elimine o que não quero.
Um coração assim “não está pronto” para nada que valha a pena. Refugiou-se dentro da bolha do seu egoísmo, onde a confiança em Deus e a sua graça não têm espaço.
O Evangelho simboliza esses corações que não estão prontos na figura dos convidados da parábola que apresenta o Senhor como um homem que preparou um grande banquete e convidou muitos: Vinde, tudo está preparado! Mas todos, um a um, começaram a dar desculpas. Todos colocaram seus interesses (preocupação por um campo, por umas parelhas de bois…) acima do chamado de Deus. A parábola termina com palavras duras: Eu vos digo: nenhum daqueles que foram convidados provará do meu banquete (Lc 14,16-24).
  • A alegria dos corações prontos. Quer ver o que é um coração pronto? Estou escrevendo este capítulo, que é o último deste livro, nos dias de preparação do Natal, e a resposta me surge imediata: – Contemple as figuras do Presépio! Cada uma delas é um “coração pronto”.
– Maria, em primeiro lugar. No dia da Anunciação, a mensagem do anjo Gabriel a deixou perturbadaConceberás e darás à luz um filho… Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo… e o seu reino não terá fim (cf. Lc 1,29-33).
Era para tremer de medo. Maria, uma menina muito nova, com planos de vida simples já traçados, vê tudo modificado por Deus. No entanto, assim que capta o que Deus lhe fala, ela se dispõe a trocar seus sonhos pelos de Deus. Só pergunta como poderá realizá-los: Como se fará isso? O anjo a esclarece, mostrando-lhe que para Deus nada é impossível e que o milagre de conceber sem alterar sua consagração virginal se realizará por intervenção direta do Espírito Santo.
A sua resposta consiste em dizer logo “sim”, meu coração está pronto. E o faz com palavras que nunca meditaremos suficientemente: Eis aqui a escrava do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1,28-39-38).
– José. Você sabe quanto sofreu diante do enigma da concepção virginal de Maria! Mas Deus não o abandonou à sua angústia. Um anjo lhe falou em sonhos: José, filho de Davi, não tenhas receio de receber Maria, tua esposa; o que nela foi gerado vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, e tu lhe porás o nome de Jesus, pois ele vai salvar o seu povo dos seus pecados.
José respondeu “meu coração está pronto”, não com palavras, mas com obras. Após receber a mensagem, imediatamente, sem esperar um só dia, acolheu Maria sua esposa, com infinito amor e veneração, e assumiu a custódia da mãe e do filho com uma fidelidade que durou até a sua morte Não hesitou, não discutiu, não reclamou. Disse “sim”, e basta. Quando acordou, José fez  conforme o anjo do Senhor tinha mandado (Mt 1,19-24).
Comove pensar que José “sempre” fez assim. Veja uma amostra da sua “biografia”. Quando estourou a perseguição de Herodes contra Jesus menino, o anjo de Senhor apareceu em sonho a José e lhe disse: “Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito”… Ele se levantou durante a noite, tomou o menino e a mãe, e partiu para o Egito (Mt 2,13-14). Como da outra vez, no mesmo instante em que  conheceu o que Deus queria, se dispôs a cumprir a vontade de Deus de todo o coração.
  • Os pastores. Também a eles um anjo do Senhor anunciou-lhes o nascimento de Cristo. Eu vos anuncio uma grande alegria, que será para todo o povo: hoje, na cidade de Davi [em Belém], nasceu para vós o Salvador, que é o Cristo Senhor.
O anjo deu-lhes um sinal que não parecia nada condizente com a grandeza do Messias, do Rei de Israel: Isto vos servirá de sinal: encontrareis um recém-nascido, envolto em faixas e deitado numa manjedoura.
Teria sido lógico que perante esse estranho anúncio, lhes viessem dúvidas, e surgissem debates, divisão de opiniões… O Evangelho não fala nada disso, mostra apenas a beleza dos corações prontosVamos a Belém, para ver o que aconteceu e que o Senhor nos comunicou. E encontraram Maria e José, e o recém-nascido deitado na manjedoura. Viram, adoraram e regressaram louvando e glorificando a Deus  (Lc 2,9-20).

  • Os magos. São mais um exemplo comovedor de coração pronto. Homens da corte real que estudavam os astros, um dia viram brilhar uma estrela singular, inexplicável. Indagaram, estudaram, consultaram livros e sábios, e chegaram à conclusão de que só podia ser a estrela profetizada havia séculos para anunciar o nascimento de um Salvador, rei de Israel[1].

Com uma simplicidade semelhante à de Maria e de José, eles sentiram-se chamados por Deus, e não hesitaram. Lançaram-se à procura do Salvador enfrentando longos dias, semanas e meses, dificuldades, hostilidade e fadiga, mas não permitiram que nada nem ninguém os afastasse do “sim” pronunciado por seu coração pronto.

Após perigos e vicissitudes sem conta, o fulgor da estrela reapareceu e assinalou o lugar onde Jesus se achava. Ao observarem a estrela, os magos sentiram uma enorme alegria. Quando entraram na casa, viram o menino com Maria sua mãe. Ajoelharam-se diante dele e o adoraram. Depois abriram seus cofres e lhes ofereceram presentes: ouro, incenso e mirra (cf. Mt 2,1-16)[2].

Esses exemplos relacionados com o nascimento do Salvador têm um denominador comum. Todos os protagonistas – os personagens do presépio – precisaram de fé e coragem, pois as suas decisões e atitudes não foram nada fáceis. Ao mesmo tempo, esses corações confiantes ficaram cheios de paz. Na realidade, a mensagem dos anjos aos pastores fala deles – e dos que são como eles – quando proclama Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens de boa vontade  (Lc 2,14).

Quem são esses homens e mulheres de boa vontade? Bento XVI, na homilia da noite de Natal de 2005 respondia: são almas que «estavam dispostas a ouvir a palavra de Deus… Sua vida não estava fechada em si mesma; tinham um coração aberto. De algum modo, no mais íntimo do ser, estavam esperando algo. Tinham disponibilidade para escutar e disponibilidade para começar a caminhar; era uma espera da luz que lhes indicasse o caminho».

Você percebe que o coração que se fecha em si mesmo é aquele que  não espera algo que ilumine a vida. Pobre coração trancado no seu quarto escuro! Com quanta clareza Bento XVI caracteriza as almas abertas, os corações prontos, dizendo que são como Maria, José, os pastores e os magos: têm disponibilidade para ouvir a Deus, e começar logo a caminhar. Nisso consiste a “boa vontade”.

Dante Alighieri, na Divina Comédia, tem um verso maravilhoso. Fala de Deus e diz: «E’n la sua volontade è nostra pace» ─ «Na sua vontade está a nossa paz».

Todos os santos e homens de Deus descobriram essa verdade, e acharam nela a sua paz e a sua alegria. Permita-me encerrar este último capítulo com citações de um Papa ainda vivo e de um santo canonizado, que oferecem matéria para muita meditação:

– Bento XVI: «A história do amor entre Deus e o homem consiste precisamente no fato de que esta comunhão de vontade cresce em comunhão de pensamento e de sentimento e, assim, o nosso querer e a vontade de Deus coincidem cada vez mais: a vontade de Deus deixa de ser para mim uma vontade estranha que me impõem de fora os mandamentos, mas é a minha própria vontade, baseada na experiência de que realmente Deus é mais íntimo a mim mesmo de quanto o seja eu próprio. Cresce então o abandono em Deus, e Deus torna-se a nossa alegria»[3].

– São Josemaria Escrivá: «O abandono à Vontade de Deus é o segredo para sermos felizes na terra… Jesus, o que tu quiseres, eu o amo »[4]. E, falando da Virgem Maria: «Isso é o que explica a vida de Maria: o seu amor. Um amor levado até ao extremo, até ao esquecimento completo de si mesma, feliz de estar onde Deus a quer, cumprindo com esmero a vontade divina. Isso é o que faz com que o menor de seus gestos não seja nunca banal, mas cheio de conteúdo. Maria, nossa Mãe, é para nós exemplo e caminho»[5].

Que ela nos ensine a dizer, no mesmo diapasão dela: Meu coração está pronto, ó Deus, meu coração está pronto! (Salmo 57,8).
[1] cf. Nm 24,5-17
[2] Ver o livro de F. Faus Procurar, encontrar e amar a Cristo, Ed. Cultor de Livros, São Paulo  2018, págs.17-56
[3] Encíclica Deus caritas est, n.17
[4] CaminhoI, n. 766 e 773
[5] É risto que passa, n. 148

A PONTE DE CATARINA

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Creio que nos nossos dias é mais válida do que nunca a imagem simbólica de Santa Catarina de Sena, a donzela frágil e forte, toda chama de amor e coragem, que iluminou a Igreja no século XIV.
No seu célebre livro O Diálogo, compara o mundo “dos mundanos”, dos que vivem afastados de Cristo (o “mundo” que hoje encontramos por todos os cantos e ambientes), a um rio poluído, mas que atrai fortemente os desorientados. Aqueles que, seguindo a corrente, mergulharam nesse rio vão chamando os outros que ainda estão na margem com voz e cânticos engrolados pelo álcool e as drogas. Muitos dos que escutam o apelo, acabam por atirar-se às águas, como que atraídos por um ímã maligno, e se deixam arrastar pela correnteza, como se isso fosse a alegria de viver. Todos acabam afogados na imundície e perdidos no lodo talvez para sempre.
Há uma única ponte que permite atravessar por cima do rio e salvar-se: Cristo, o “pontífice”, é o fazedor da única ponte que leva da terra para o céu: – Eu sou o caminho, a verdade e a vida (Jo 14, 6).
Não aduzi essa imagem gratuitamente. Todos, mas especialmente a nossa juventude, estão mergulhando nesse rio com uma facilidade excessiva (egoísmo hedonista, desordem dos caprichos banais e do consumismo, droga, sexo doentio, alcoolismo, agressividade, até mesmo satanismo e retorno arrepiante a rituais pagãos …).
Disso falava, com outras palavras, o cardeal Ratzinger, em 18 de abril de 2005, na homilia da Missa inaugural do Conclave que iria elegê-lo como o Papa Bento XVI:
«Em que consiste ser crianças (pessoas imaturas) na fé? Responde São Paulo: significa ser batidos pelas ondas e levados ao sabor de qualquer vento de doutrina… (Ef 4, 14). Uma descrição muito atual. Quantos ventos de doutrina conhecemos nestes últimos decênios, quantas correntes ideológicas, quantos modos de pensamento… A pequena barca do pensamento de muitos cristãos foi não raro agitada por estas ondas – lançada dum extremo ao outro: do marxismo ao liberalismo, até ao ponto de chegar à libertinagem; do coletivismo ao individualismo radical; do ateísmo a um vago misticismo religioso; do agnosticismo ao sincretismo e por aí adiante».
O cardeal terminava esse trecho dizendo: «Não é “adulta” uma fé que segue as ondas da moda e a última novidade; adulta e madura é antes uma fé profundamente enraizada na amizade com Cristo. É essa amizade que se abre a tudo aquilo que é bom e que nos dá o critério para discernir entre o que é verdadeiro e o que é falso, entre engano e verdade. Devemos amadurecer essa fé adulta».

Adaptação de um trecho do livro A força do exemplo

UM DIPLOMA QUEIMADO

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João foi o melhor aluno da melhor faculdade do país. Fez Pós-Graduação com a máxima qualificação. Mestrado e doutorado em Harvard. Volta à sua cidade com essas credenciais e logo consegue emprego numa grande firma. Mas já no segundo mês, diretores, gerentes e colegas começam a sentir-se mal junto dele. A sua arrogância humilha. Companheirismo, zero. Seu desprezo pelas opiniões dos colegas e auxiliares torna o trabalho um inferno. Convencido da sua importância, sente-se no direito de irar-se, vive dando broncas, ofende e de produz contínuos conflitos, que acabam explodindo na diretoria. Não precisa dizer que, se não se corrige, não haverá empresa que o aguente, e os pomposos títulos só servirão para serem pendurados na parede do seu quarto como decoração.
Esse caso pode servir para fazer-nos compreender que nem as qualificações acadêmicas, nem as capacitações técnicas, nem um alto grau de especialização e experiência setorial definem o “valor humano” de uma pessoa. Ela poderá até chegar ao pináculo da sua “especialidade”, mas fracassará  na “vida” como ser humano: no casamento, na amizade, no trabalho. Sem amor e sem virtudes, todos os diplomas ardem.

Adaptação de um trecho do livro A arte de decidir bem: a virtude da prudência

SÍMBOLOS: O CORDEIRO E O DRAGÃO

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O CORDEIRO E O DRAGÃO

Desde o início do seu pontificado – e também antes, por ocasião das exéquias do Papa João Paulo II e do novo Conclave –, Bento XVI ajudou os católicos a contemplar o exemplo da vida santa de São João Paulo II, especialmente o exemplo da sua esperança, do seu santo otimismo. Eu queria reproduzir aqui apenas dois dos seus comentários.
O primeiro foi feito no discurso natalino à Cúria romana pronunciado em 22 de dezembro de 2005. Nesse discurso, o Papa citou o seguinte trecho do livro Memória e identidade de autoria de João Paulo II, referente ao “poder do mal” no século que findou: «Não foi um mal de pequenas dimensões… Foi um mal de proporções gigantescas, um mal que se valeu das estruturas estatais para realizar uma obra nefasta, um mal edificado como sistema». Referia-se ao flagelo do nazismo e o comunismo. Bento XVI glosava:
«O mal é porventura invencível? É a última verdadeira potência da história? Por causa da experiência do mal, para o Papa Wojtyla a questão da Redenção tornou-se a interrogação essencial e central da sua vida e do seu pensar como cristão. Existe um limite contra o qual o poder do mal se despedaça? Sim, existe, responde o Papa João Paulo nesse seu livro, como também na sua Encíclica sobre a Redenção. O poder que põe um limite ao mal é a misericórdia divina. À violência, à ostentação do mal, opõe-se na história a misericórdia divina, como ”o totalmente outro” de Deus, como o próprio poder de Deus. O cordeiro é mais forte do que o dragão, poderíamos dizer com o Apocalipse».
O outro comentário é um trecho da homilia pronunciada por Bento XVI no dia em que iniciou o seu pontificado, 24 de abril de 2005:
«Neste momento, a minha recordação volta ao dia 22 de outubro de 1978, quando o Papa João Paulo II deu início ao seu ministério aqui na Praça de São Pedro. Ainda, e continuamente, ressoam aos meus ouvidos as suas palavras de então: “Não tenhais medo, abri de par em par as portas a Cristo!” O Papa dirigia-se aos fortes, aos poderosos do mundo, os quais tinham medo de que Cristo pudesse tirar algo ao seu poder, se o deixassem entrar e concedessem liberdade à fé. Sim, ele ter-lhes-ia certamente tirado algo: o domínio da corrupção, da perturbação do direito, do arbítrio. Mas não teria tirado nada do que pertence à liberdade do homem, à sua dignidade, à edificação de uma sociedade justa»”.
Adaptação de um trecho do livro Otimismo cristão, hoje