domingo, 15 de março de 2026

Semana 4: Domingo - Uma Vida Oculta em Deus (I)

Semana 4: Domingo

Uma Vida Oculta em Deus (I)



 *“Você morreu e sua vida está escondida com Cristo em Deus. Quando*

 *Cristo, que é a nossa vida, aparecer, vocês também aparecerão com ele*

 *na glória” (Cl 3:3-4).*

 *Você morreu: para quê?* _Para o pecado._ Você morreu para ele pelo

 batismo, pelo arrependimento e pela procissão de uma vida cristã . Você

 morreu para o pecado, mas como então *“nós, que morremos para o*

 *pecado, ainda podemos viver nele?”* (Romanos 6:2). Devemos morrer

 para ele de uma vez por todas.

 Para morrer completamente para o pecado, é necessário que

 morramos para todas as nossas *más inclinações,* para tudo o que

 *lisonjeia nossos sentidos e para o orgulho.* A todas estas coisas as

 Escrituras chamam pecado, porque procedem do pecado, porque

 inclinam para o pecado e porque não nos permitem ficar totalmente

 livres do pecado.

 *"Você morreu." Quando essas palavras de São Paulo se cumprirão em*

 *nós? Em que momento abençoado de nossas vidas? Quando estaremos*

 *sem pecado?* Nunca durante esta vida. A quem, então, São Paulo está

 falando quando diz: “Você morreu”? E para as almas dos justos? Eles

 estão mortos? Eles não estão, ao contrário, na terra dos vivos? Não

 pode ser para eles que São Paulo fala; é para nós. A concupiscência do

 mal permanece em nós, e devemos lutar contra ela durante toda a

 nossa vida. *Mas nós o seguramos com firmeza, presos ao chão.* Nós o

 seguramos, mas o vencemos? Deverı́amos. Podemos, com a graça de

 Deus. E se durante a luta nos causar algum dano, não cessaremos de

 gemer, nem de nos humilhar, dizendo com São Paulo: *“Quem me livrará*

 *deste corpo de morte?”* (Romanos 7:24). Você foi liberto, alma cristã:

 você foi liberto na esperança.

 “E sua vida está escondida.” Nossa morte, então, não é total. São

 Paulo explica: “Se Cristo está em vocês, embora seus corpos estejam

 mortos por causa do pecado”, isto é, o pecado que uma vez reinou neles

 e que deixou suas marcas, “seus espı́ritos estão vivos por causa da

 justiça”, a justiça que a caridade derrama em nossos corações (Rom.

 8:10). E com relação à vida de retidão cristã que São Paulo diz: “e sua

 vida está escondida”. Libertados do julgamento humano, devemos

 considerar verdadeiro apenas o que Deus vê em nós, o que ele sabe e o

 que ele julga. *Deus não julga como o homem.* O homem vê apenas o

 semblante, apenas o exterior. *Deus penetra no mais profundo de nossos*

 *corações.* Deus não muda como o homem. Seu julgamento não é de

 forma alguma inconstante. Ele é o único em quem devemos confiar.

 Quão felizes somos então, e quão pacificos! *Não somos mais*

*deslumbrados pelas aparências, nem estimulados por opiniões;*

*estamos unidos à verdade e dependemos somente dela.*

 *sou elogiado, censurado, tratado com indiferença, desdenhado,*

 *ignorado ou esquecido; nada disso pode me tocar. Não serei menos do*

 *que sou.* Homens e mulheres querem brincar de ser criadores. Eles

 querem me dar existência em sua opinião, mas essa existência que eles

 querem me dar é nada. E uma ilusão, uma sombra, uma aparência, ou

 seja, no fundo, o nada. O que é essa sombra, sempre me seguindo, atrás

 de mim, ao meu lado? Sou eu ou algo que me pertence? Não. No

 entanto, essa sombra não parece se mover comigo? Não importa: não

 sou eu. Assim é com os julgamentos dos homens: eles me seguiriam por

 toda parte, me pintariam, me esboçariam, me fariam mover de acordo

 com seus caprichos e, no final, me dariam algum tipo de existência. Mas,

 no fundo, eu sei bem: é apenas uma luz bruxuleante que me leva de um

 lado para o outro, que alonga, encurta, incha ou encolhe a sombra que

 me segue, que a faz aparecer de várias maneiras e desaparecer sem que

 eu ganhe ou perca nada de mim mesmo. E o que é essa imagem de mim

 mesmo que vejo refletida na correnteza? Ele borra e apaga a si mesmo;

 desaparece quando a água é agitada, mas o que perdi? Nada além de

 uma diversão inútil. Assim é com as opiniões e julgamentos que os

 homens formam de acordo com suas luzes. Infelizmente, não apenas

 me divirto com eles como com um jogo; Paro, e os tomo por algo sério e

 verdadeiro, e essa sombra, essa imagem frágil me incomoda e me

 inquieta, e acredito estar perdendo alguma coisa. Mas estou desiludido

 com esse erro. *Estou contente com uma vida escondida.* Como é

 tranquilo! Se vivo verdadeiramente esta vida cristã de que fala São

 Paulo, não sei, nem posso saber com certeza. *Mas espero que sim, e*

 *confio na bondade de Deus para me ajudar.*



Jacques-Benigne Bossuet 

Meditações para a Quaresma




sábado, 14 de março de 2026

Semana 3: Sábado - Por Cristo Nosso Senhor

 Semana 3: Sábado

Por Cristo Nosso Senhor


 *“Se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em*

 *vós, pedireis o que quiserdes, e vos será feito”* (João 15:7). Quem quiser

 orar deve levar a sério estas palavras: *“Sem mim nada podeis fazer”*

 (João 15:5). *Nada. Nada mesmo.* Rezamos, imploramos, porque nada

 temos e consequentemente nada podemos fazer, ou, para dizer tudo

 numa só palavra, porque nada somos. Portanto, devemos orar, sabendo

 que somos ouvidos apenas em nome de Jesus, mas também que em seu

 nome podemos obter tudo.

 *Aqui estão duas verdades sobre a oração. A primeira é que não*

 *somos ouvidos por nós mesmos, mas em nome de Jesus Cristo.* A

 segunda é que não podemos nem devemos orar por nosso próprio

 espı́rito, mas pelo Espı́rito de Jesus Cristo. Não apenas devemos orar da

 maneira que Jesus nos ensinou e pedindo apenas o que ele quer que

 peçamos, mas ainda mais devemos reconhecer *que é ele mesmo quem*

 *forma nossa oração em nós por meio de seu Espı́rito. Sem ele não*

 *podemos rezar, como explica São Paulo: «O Espı́rito ajuda-nos na nossa*

 *fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o próprio*

 *Espı́rito intercede por nós com suspiros inexprimı́veis” (Rm 8:26).*

 Mesmo quando mantemos diante de nós esta primeira verdade 

“sem mim nada podeis fazer” – devemos também atender a esta outra:

 “Tudo posso naquele que me fortalece” (Fp 4:13). *Não posso fazer nada*

 *sem Jesus Cristo e posso fazer tudo com Jesus Cristo e em seu nome.* E

 por isso que sempre ouvimos as orações da Igreja terminarem com

 estas palavras tão humildes quanto consoladoras: “por Cristo, nosso

 Senhor”. *Confessando nossa impotência, essas palavras nos humilham;*

 *revelando a fonte de nossa força, eles consolam.* São a conclusão

 necessária também quando rezamos pela intercessão de Nossa Senhora

 e dos santos, que não têm mérito, nem dignidade, nem glória senão por

 Jesus Cristo e seu nome.

 Devemos ter cuidado para não imaginar que basta apenas repetir as

 palavras “por Cristo, nosso Senhor”. Devemos dizê-las do fundo do

 coração, permanecendo em Cristo e Cristo permanecendo em nós. *Quer*

 *dizer, apegando-nos a ele de todo o coração, com uma fé viva e firme, e*

 *permanecendo em nós, pela sua palavra impressa no nosso coração, e*

 *pelo seu Espı́rito impulsionando e animando a nossa oração.* Pois ele

 não habita em nós sem agir, como disse São Paulo: *“Ele não é fraco em*

 *lidar com você, mas é poderoso em você” (2 Cor. 13:3).*

 Então, é assim que rezamos verdadeiramente em nome de Cristo:

 quando permanecemos nele e ele em nós, deixando-nos conduzir a ele,

 silenciando, escutando o que ele diz em nós, para que possamos

 pratique verdadeira e intimamente o que ele diz: “Se você permanecer

em mim, e a minha palavra” — não apenas a palavra dita externamente,

 mas aquela que ouço no fundo do meu coração — “permanecer em

 você”. Então obteremos o que desejamos.

 Ora, esta palavra que há de permanecer em nós deve ser

 principalmente a palavra da Cruz, que é a que este discurso tem em

 vista. Pois Jesus ia para a Cruz, e para lá levava consigo os seus

 discípulos, como revela o que se segue no Evangelho. Devemos

 entender que permanecer em Cristo é permanecer na palavra de sua

 Cruz, e que a palavra de sua Cruz permaneça em nós, e que rezar em

 nome de Jesus Cristo é fazer súplica por meio de seu sangue e de seus

 sofrimentos, amando-os e participando deles.



Jacques-Benigne Bossuet 

Meditações para a Quaresma




sexta-feira, 13 de março de 2026

Semana 3: Sexta-feira - O Grande Mandamento

Semana 3: Sexta-feira

O Grande Mandamento



 “Mestre, qual é o grande mandamento da lei?” (Mateus 22:36). Jesus,

 que é a própria verdade, sempre procedeu diretamente ao primeiro

 princı́pio. Ficou claro que o maior mandamento deveria ter a ver com

 Deus, por isso ele escolheu esta passagem para sua resposta: *“Ouve, ó*

 *Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor”* (Dt 6:4). Aqui se

 proclama a grandeza de Deus na sua perfeita unidade, donde se conclui

 que devemos consagrar-lhe o nosso amor, fazendo-o reinar nos nossos

 corações. O amor que devemos dar a um ser tão perfeito também deve

 ser perfeito. É por isso que o Salvador respondeu à pergunta referindo

se à passagem da Escritura que ordena a perfeita união de todos os

 nossos desejos em Deus. No entanto, por medo de que uma pessoa

 ignorante pudesse suspeitar que unir todo o nosso amor em nosso

 amor a Deus não deixaria nada para o nosso próximo, ele acrescentou o

 segundo preceito ao primeiro, levando o amor ao próximo à sua

 perfeição, mostrando novamente que o a lei ordena que “amemos o

 próximo como a nós mesmos” e usando a palavra próximo em vez da

 palavra amigo que está na lei (cf. Lev. 19:18 no Douay-Rheims), porque

 a palavra mais geral vizinho estende nossa caridade a todos aqueles que

 compartilham nossa natureza comum, como já havia explicado o Filho

 de Deus na parábola do Bom Samaritano (Lucas 10:29).

 Aqui, então, vemos toda a lei resumida em seus dois princı́pios mais

 gerais. *O homem fica assim perfeitamente instruı́do sobre todos os seus*

 *deveres, pois vê num piscar de olhos o que deve a Deus, seu Criador, e*

 *aos homens, seus iguais.* Aqui está todo o Decálogo: a primeira tábua

 está contida no preceito de amar a Deus, e a segunda no amor ao

 próximo. Não apenas o Decálogo está contido nesses dois preceitos,

 mas também “toda a lei e os profetas” (Mateus 22:40), pois Deus aqui

 nos ensina não apenas nossos deveres exteriores, mas também o

 princı́pio interior pelo qual devemos agir, que é o amor. Aquele que

 ama não tem falta de nada para com aquele que ama. *E ele nos instrui*

 *gentilmente, não nos obrigando a ler e entender toda a lei – o que os*

 *fracos e ignorantes não seriam capazes de fazer – mas reduzindo o todo*

 *a seis linhas.* Além disso, para que nossa atenção não se desvie

 considerando cada um de nossos deveres em particular, ele os inclui

 todos no único princípio de um amor sincero, dizendo que devemos

 *“amar o Senhor, seu Deus, de todo o coração . . . e ao teu próximo como*

 *a ti mesmo” (Mateus 22:37-39).*

 Adoremos a verdade eterna nesta admirável abreviação da lei. Como

 sou grato a ti, ó Senhor, que me dá toda a substância da lei em apenas

 algumas palavras! Quando, para dar à minha mente o exercício

 adequado, eu ler o restante de suas Escrituras, esses dois preceitos

serão o fio que me guiará por todas as dificuldades desse livro

 profundo. Eles resolverão e desvendarão todas as dificuldades. Ó Deus,

 eu te louvo! Ó Jesus, seja abençoado! *Ó Jesus, dedicar-me-ei a meditar*

 *neste admirável resumo da doutrina celeste. Desejo meditar nestas*

 *palavras tão cheias de luz, para que eu possa sentir seu poder e me*

 *encher delas.* Ó Jesus, dai-me esta graça! Ó Jesus, enche a minha alma

 com o teu Espı́rito Santo, que é o amor eterno e subsistente do teu Pai e

 de ti mesmo, para que ele me ensine a amar a ambos e a amar convosco,

 como um só e o mesmo Deus, o Espı́rito que procede de vocês dois.



Jacques-Benigne Bossuet 

Meditações para a Quaresma


quinta-feira, 12 de março de 2026

Semana 3: Quinta-feira - Sacerdote, Profeta e Rei

Semana 3: Quinta-feira

Sacerdote, Profeta e Rei



 Embora o que devemos a Jesus esteja incluído no mandamento de amar

 a Deus, vale a pena considerar o que devemos a ele como o Cristo, isto

 é, como mediador e vı́nculo do amor de Deus por nós e do nosso por

 ele. Para fazer isso, devemos olhar para a própria explicação de Cristo

 da famosa profecia de seu reinado proferida por Davi, seu antepassado.

 Como é bom que o Cristo tenha sido visto por seus pais! Por Abraão,

 que viu seu dia e se alegrou com ele (João 8:56), e por Davi, que ficou

 maravilhado com sua grandeza e chamou de “meu Senhor” (Sl 110:1)

 aquele que seria seu próprio filho.

 Assim como Deus deu a Abraão a promessa da multiplicação dos

 fiéis, também deu a Davi a de seu reino eterno, de um trono que duraria

 mais que o sol e a lua (Sl 89:35-7). Assim, convinha que Davi — a quem

 a promessa foi feita como figura de Jesus Cristo — fosse o primeiro a

 reconhecer o Cristo, chamando-o de seu Senhor. “O Senhor disse ao

 meu Senhor” (Sl 110:1); é como se ele tivesse dito: “Parece que Deus

 me prometeu um império sem fim, mas, na verdade, é para você, meu

 filho e também meu Senhor, a quem será dado. E venho em espı́rito, o

 primeiro de todos os seus súditos, para prestar-lhe homenagem em seu

 trono, à direita de seu Pai, como ao meu soberano Senhor”.

 “Se Davi assim o chama de Senhor, como ele é seu filho?” (Mateus

 22:45). Com esta pergunta, Jesus desejava elevar seus olhos para o

 nascimento superior do Cristo, que não era apenas o Filho de Davi, mas

 o Filho unigênito de Deus. Tudo o que eles tiveram que fazer para

 aprender sobre esse nascimento eterno foi continuar o salmo, pois o

 próprio Deus diz a seguir: *“No brilho dos santos; desde o ventre antes*

 *do amanhecer eu te gerei”* (Salmos 109:3, Douay-Rheims [RSV = Salmos

 110:3]).

 *Antes do amanhecer, antes que começasse a aparecer aquela luz que*

 *se põe e nasce todos os dias, havia uma luz eterna que fazia a felicidade*

 *dos santos: é nessa luz eterna que eu te gerei.*

 Eu vos adoro, ó Jesus, meu Senhor, nesta imensa e eterna luz. Eu te

 adoro como a luz que “ilumina todo homem” (João 1:9): *Deus de Deus,*

*luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro.*

 Que alegria é ver o próprio Jesus Cristo explicando as profecias que

 se referem a ele e assim nos ensinando como devemos entender todas

 as outras. Tudo o que devemos a Jesus nos é mostrado neste salmo. Nós

 o vemos primeiro como Deus e dizemos: *este é o nosso Deus e não há*

 *outro. Porque, se foi gerado, é o Filho; se é o Filho, é da mesma natureza*

 do Pai; se ele é da mesma natureza que seu Pai, ele é Deus, e um só

 Deus com seu Pai, pois nada é mais essencial para Deus do que sua

 unidade.

Ele é rei. Onde está o seu trono? A direita de Deus. Poderia ser

 colocado mais alto? Tudo depende deste trono, tudo o que depende de

 Deus e o reino dos céus é submetido a ele: aqui está o seu reinado.

 Este império é sagrado, um sacerdócio e um sacerdócio estabelecido

 por um juramento. Deus quis, por meio de uma declaração mais

 particular de sua vontade, marcar este sacerdócio como único: “O

 Senhor jurou e não se arrependerá”. O sacerdócio de Jesus Cristo é

 eterno: “Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de

 Melquisedeque” (Sl 110:4). *Você não tem começo nem fim.* Este não é

 um sacerdócio que veio de seus antepassados, nem que passará para

 seus descendentes. Seu sacerdócio não passará para outras mãos:

 haverá sacerdotes que sacrificarão sob seu comando, mas serão seus

 vigários e não seus sucessores.

 Você celebra um ofício eterno para nós à direita de seu Pai. Conservas

 continuamente as marcas das chagas que o apaziguaram e nos salvas.

 Você oferece a ele nossas orações. Você intercede por nossas faltas. Tu

 nos abençoas e nos consagras. Das alturas do Céu você batiza seus

 filhos. Você transforma dons terrenos em seu Corpo e Sangue. Você tira

 nossos pecados. Você envia seu Espı́rito Santo, consagra seus ministros

 e realiza tudo o que eles realizam em seu nome. Quando nascemos,

 você nos lava com água celestial; quando morremos, tu nos sustentas

 com o conforto da tua unção, e nossos sofrimentos se tornam nossos

 remédios, nossa morte uma passagem para a verdadeira vida. Ó Deus! Ó

 Rei! Ó Sumo Sacerdote! Eu me uno a você em todas essas qualidades e

 me submeto à sua divindade, seu governo e seu sacerdócio, que honro

 com humildade e fé na pessoa daqueles por quem você se compraz em

 exercê-lo na terra.



Jacques-Benigne Bossuet 

Meditações para a Quaresma


quarta-feira, 11 de março de 2026

Semana 3 - Quarta-feira Nem um iota

Semana 3: Quarta-feira

Nem um iota


 A vida cristã exige extrema precisão. Devemos observar

 cuidadosamente até os menores preceitos e não desprezar nenhum

 deles. *Quando relaxamos nas pequenas coisas, caímos em males*

 *maiores. “Aquele que despreza as pequenas coisas, pouco a pouco cairá”*

 (Sir. 19:1).*

 Para estabelecer o alto ideal de justiça cristã, Jesus estabelece este

 principio admirável: “Até que o céu e a terra passem, nem um iota, nem

 um ponto passará da lei até que tudo seja cumprido” (Mateus 5:18).

 Ele tem em vista aqui o que foi predito sobre ele na Lei e nos

 profetas, e é por isso que ele diz: “Eu vim . . . para cumpri-los” (Mateus

 5:17). Quanto ao que foi predito na lei, eis os pontos principais: o

 nascimento de Cristo de uma virgem, seu sofrimento, sua cruz, sua

 ressurreição, a conversão do mundo e dos gentios e a reprovação e

 justo castigo dos judeus . Esses são os pontos principais, mas não todos,

 *pois também há o iota, ou seja, cada ponto menor.* Estes também devem

 ser realizados. Era necessário que suas vestes fossem divididas e que os

 soldados jogassem por sua túnica.

 Veja a grande precisão em um ponto tão sutil: este é o iota, a menor

 letra. Ele será vendido - talvez seja um grande ponto - mas que seja por

 trinta moedas de prata, que o campo do oleiro seja comprado com ele:

 estes são o iota, a menor letra, e não deve ser esquecido. O mesmo

 aconteceu com a exigência de que ele tivesse sede e que fosse saciado

 com vinagre. Ele sofreria: esse é o ponto principal. Mas que isso

 aconteça fora da cidade: isso é o iota. Ele será sacrificado como o

 cordeiro pascal, mas seus ossos não serão mais quebrados na cruz do

 que os do cordeiro: novamente, o iota.

 Jesus quer dizer que tudo o que é dito como prenúncio na Lei se

 cumprirá em verdade no Evangelho, mesmo nas menores

 circunstâncias. *Tudo na Lei, até o mínimo detalhe, é significativo, e*

 *tudo, até o mínimo detalhe, será realizado no Evangelho.* “Não atarás a

 boca ao boi quando ele trilha o grão” (Deuteronômio 25:4). São Paulo

 aplica isso aos pregadores (1 Tm 5:18). E o mesmo com outros

 assuntos. “Não cozerás o cabrito no leite de sua mãe” (Dt 14:21). “Se

 você se deparar com um ninho de pássaro. . . não tomarás a mãe com os

 filhos; você deixará a mãe ir, mas os filhotes você pode levar. E “não

 vestirás uma mistura de lã e linho. Porás franjas nas quatro pontas do

 teu manto” (Deuteronômio 22:6-7, 11-12). *Cada um desses pequenos*

 *assuntos tem grande significado como encorajamento para os cristãos*

 *praticarem brandura, moderação, simplicidade, retidão e todas as*

 *outras virtudes.*

A conclusão que Jesus tira é que não devemos esquecer nem os

 mínimos preceitos. Se tudo o que Deus predisse sobre seu Filho foi

 cumprido até a menor letra, então devemos sempre cumprir tudo o que

 foi predito para nós.

 Considere até que ponto isso é verdade: *“Passará o céu e a terra, mas*

 *as minhas palavras não passarão” (Mateus 24:35).* Se o sol

 desaparecesse de repente, e a lâmpada do mundo se apagasse no meio

 do dia, se a terra cedesse diante de nossos pés, e o outrora sólido

 fundamento fosse reduzido a pó, o que a miséria seria nossa! Tudo

 estaria perdido. Mas quão maior é o mal se o menor dos mandamentos

 de Jesus Cristo for ignorado.

 O sofrimento restaura a ordem. A punição pelo pecado é a regra. Você

 chega à ordem através do sofrimento, assim como se desvia ao pecar. O

 pecado sem punição seria a pior desordem, como a desordem não do

 homem que peca, mas do Deus que não castiga. Essa desordem nunca

 acontecerá , entretanto, porque Deus, que é a própria regra, não pode

 ser ilegal.

 *Como esta regra é perfeita, perfeitamente reta e sem a menor*

 *curvatura, qualquer coisa que não se conforme a ela se quebra sobre ela*

 *e sentirá sua retidão invencível e imutável.*

 Mas se as ameaças devem ser cumpridas, as promessas também

 serão. *Vá para o seu crucifixo: olhe para ele e veja todas as previsões*

 *realizadas, mesmo as menores. Diga a si mesmo: tudo se cumprirá e a*

 *felicidade que me foi prometida não falhará.* Verei a Deus, o amarei, o

 louvarei para todo o sempre, *e todos os meus desejos serão realizados,*

 *todas as minhas esperanças realizadas. Amém. Amém.*



Jacques-Benigne Bossuet 

Meditações para a Quaresma


terça-feira, 10 de março de 2026

Semana 3: terça-feira - Reconciliação

Semana 3: terça-feira

Reconciliação


 Podemos aprender o quanto Deus ama a paz com o belo preceito que

 nos ordena a reconciliar-nos com nosso irmão antes de adorá-lo, para

 que não nos aproximemos da oblação oferecida a ele com o coração

 ressentido e as mãos voltadas para a vingança.

 Devemos estar muito atentos a estas palavras: *“Se você estiver*

 *apresentando sua oferta no altar, e ali se lembrar de que seu irmão tem*

 *algo contra você, deixe sua oferta ali diante do altar e vá; reconcilia-te*

 *primeiro com teu irmão, e depois vem e apresenta a tua oferta” (Mateus*

 *5:23-24).* E devemos buscar a reconciliação não apenas quando

 realmente ofendemos nosso irmão, mas mesmo se ele se ofendeu por

 engano. Devemos buscar uma resolução caridosa por medo de que

 possamos odiá-lo, se descobrirmos que ele já nos odeia. O primeiro

 dom a oferecer a Deus é um coração purificado de toda frieza e de toda

 inimizade para com o irmão.

 Não devemos esperar pelo domingo, quer estejamos todos juntos ou

 sozinhos na Santa Missa. *O Dia do Senhor deve ser precedido pela*

 *reconciliação.*

 Devemos levar ainda mais longe nosso amor pela paz. São Paulo diz:

 “Não deixe o sol se pôr sobre a sua ira” (Ef 4:26). As sombras só fazem

 aumentar nosso aborrecimento. *Nossa raiva voltará e nos despertará à*

 *noite, e terá se tornado amarga.* As emoções sombrias e dolorosas 

entre as quais o ódio, o desejo de vingança e o ciúme - tornam-se mais

 dolorosas durante a noite, da mesma forma que as feridas, as febres e

 as doenças.

 Nas brigas, processos e disputas, cada um convoca o outro perante

 um juiz, porque a ofensa é mútua. Em vez disso, ambas as partes devem

 buscar um acordo voluntário e mútuo, em vez de chegar a um

 julgamento que só aumentará a amargura de todos. Esta é a verdade

 que devemos considerar.

 Santo Agostinho disse que o inimigo com o qual devemos nos

 reconciliar enquanto caminhamos aqui embaixo não é outro senão a

 verdade, que nos condena nesta vida e na próxima nos leva ao carrasco

 que nos obrigará a pagar ao último centavo, ou seja, permanecer para

 sempre naquela terrı́vel prisão, pois nunca poderemos saldar a dívida

 de nossos crimes.

 “Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos

 nossos devedores” (Mateus 6:12, Douay-Rheims). É algo digno de nossa

 reflexão que Deus fez depender o perdão que esperamos dele do

 perdão que ele nos ordena dar àqueles que nos ofenderam. Não

 contente em ter constantemente inculcado esta obrigação, ele a colocou

 em nossas próprias bocas em nossa oração diária, de modo que, se

falharmos em perdoar, ele nos dirá o que disse ao servo mau: *“Eu te*

 *condeno por tua causa da própria boca!”* (cf. Lucas 19:22). Você me pediu

 perdão, prometendo perdoar em troca. Você pronunciou sua própria

 sentença quando se recusou a perdoar seu irmão. Vá para aquele lugar

 infeliz onde não há perdão nem misericórdia.



Jacques-Benigne Bossuet 

 Meditações para a Quaresma



segunda-feira, 9 de março de 2026

Semana 3: segunda-feira - O Silêncio de Cristo

 *Semana 3: segunda-feira*

*O Silêncio de Cristo*


 Consideremos que o silêncio da paciência na aflição, no sofrimento e na

 contradição é uma das partes mais difíceis de praticar na moral cristã .

 Poucas pessoas gostam de sofrer, e de sofrer em silêncio somente à

 vista de Deus. E se é raro encontrar quem goste de sofrer, mais raro

 ainda é encontrar quem sofra sem tentar contar ao mundo. *E o silêncio,*

 *porém, que santifica nossas cruzes e nossas aflições e aumenta muito*

 *seus méritos.* Se você acha difícil sofrer suas cruzes e derrotas, lembre

se de Jesus. Em meio a um número infinito de perseguições e tristezas

 que ele suportou na presença de seus juízes perversos, diante dos quais

 ele foi tão falsamente acusado e caluniado, ele não respondeu de forma

 alguma: “Jesus estava calado” (Mateus 26:63). Seu silêncio profundo e

 paciência invencível surpreenderam Pôncio Pilatos: “o governador se

 admirou muito” (Mt 27:14). Jesus suportou mil injúrias, insultos e

 indignidades de todos os tipos de pessoas. Ele foi falsamente acusado

 por seus cruéis inimigos, os escribas e fariseus. Disseram que ele era

 um blasfemador, um rebelde, um transgressor da lei e um perturbador

 da paz, que desprezava os impostos romanos e, finalmente, que estava

 enganando o povo com sua nova doutrina. Seus ouvidos sagrados

 ressoaram com esses clamores e calúnias, mas Jesus não disse uma

 única palavra para justificar ou defender-se contra esses cães raivosos

 que estavam destruindo sua reputação de forma tão escandalosa. E

 naquela noite escura em que este querido Salvador sofreu uma

 infinidade de injúrias, afrontas e crueldades: o que disse este manso

 cordeiro? Infelizmente! Nem a palavra menos impaciente.

 Então, naquela sangrenta e dolorosa flagelação, quando ele foi

 cortado e esquartejado pelo chicote, que fez o sangue escorrer de suas

 veias sagradas: que paciência e silêncio esse doce Jesus mostrou então!

 Ele sofreu tudo isso sem dizer uma palavra. Ele nem sequer abriu a

 boca para reclamar da crueldade de seus orgulhosos carrascos, que

 ainda não estavam contentes com a desumanidade que haviam feito

 com ele.

 Então eles pegaram uma coroa afiada de espinhos e o perfuraram no

 crânio. Jesus suportou este tormento como os outros, com um silêncio

 inquebrantável. Ele foi levado a Herodes, que muito desejou vê-lo e se

 alegrou. Mas nosso Senhor constantemente perseverou em manter um

 silêncio profundo. Embora soubesse muito bem que Herodes tinha o

 poder de entregá-lo aos seus inimigos, ele não disse uma palavra em

 sua presença: uma maravilha. *Foi com razão que um dos padres o*

 *chamou de vitima do silêncio;* Jesus consagrou o silêncio pela paciência

 que demonstrou na sua Paixão.

*Devemos admirar e imitar seu exemplo. É assim que devemos nos*

 *comportar quando somos acusados e perseguidos injustamente. Em*

 *qualquer condição que Deus permita que você esteja e em meio a*

 *qualquer dor que ele permita, aprenda a permanecer com ele sem*

 *buscar consolo nas criaturas. Faz a parte do silêncio e fecha-te dentro*

 *de ti, para que Nosso Senhor te dê força interior para sofreres virtuosa*

 *e merecidamente.* É nessas ocasiões que devemos dizer com Davi:

 “Minha alma recusou ser consolada".

 E aqui que a nossa alma é provada e maravilhosamente melhorada

 quando, por uma generosidade verdadeiramente cristã , somos capazes

 de nos erguer acima de tudo o que nos incomoda e nos opõe e, como

 Jesus, guardamos um profundo silêncio, mesmo quando há algo a falar,

 seja para nossa justificação contra uma acusação injusta, ou em meio a

 uma tempestade furiosa de problemas. *Uma alma verdadeiramente*

 *generosa deve defender-se com o silêncio, que será a sua calma e paz*

 *no meio da tempestade.* Jesus enviará uma doçura interior ao mais

 profundo dos corações daqueles que, por um pouco de coragem,

 rejeitam e abandonam a ajuda das criaturas por causa do seu amor.

 Em nossos sofrimentos e contradições, não procuremos causas

 secundárias. Não devemos ceder ao nosso amor-próprio com uma

 busca vã de alguém para culpar por nossos sofrimentos. *Em vez disso,*

 *devemos erguer nossos olhos para o céu, para ver que é o próprio Deus*

 *quem permitiu que essas coisas acontecessem conosco, e que elas serão*

 *para o bem de nossa salvação se soubermos como lucrar com elas.* Em

 todas as ocorrências mais vexatórias, uma alma verdadeiramente cristã

 deve dizer a Deus das profundezas: *“Meu coração está pronto, ó Deus,*

 *meu coração está pronto”* (Sl. 107:2, Douay-Rheims [RSV = Sl. 108:1]).

 Estou pronto para fazer a sua vontade, aconteça o que acontecer.


Jacques-Benigne Bossuet 

Meditações para a Quaresma