SALMOS: OS SEGREDOS DO CORAÇÃO

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DEUS CONHECE OS SEGREDOS DO CORAÇÃO
─ Deus conhece os segredos do coração (Salmo 44,22)… ─ Senhor, tu me examinas e me conheces…, penetras de longe meus pensamentos…, sabes todas as minhas trilhas… As trevas não são escuras para ti…, Examina-me, ó Deus, e conhece meu coração (Salmo 139,1-2.12.23).
Quando o profeta Samuel, por ordem de Deus, foi à casa de Isaí, para ungir como rei de Israel um de seus filhos, não prestou atenção às qualidades dos filhos mais velhos, que o pai gabava. Derramou a unção régia sobre o menor, Davi, o escolhido de Deus, e dizia: O homem vê a aparência, Deus vê o coração (1 Sm 16,7).
Não são as “aparências” que interessam a Deus. Para Deus só tem valor o que há no “coração”.
Na linguagem bíblica, o “coração” é o mais íntimo da pessoa humana, aquele fundo da alma onde se encontra a raiz e a verdade dos nossos pensamentos, desejos, sentimentos, intenções e decisões. É exatamente sobre isso – dizia São Paulo – que Deus julgará a nossa vida: Não julgueis antes do tempo, até que venha o Senhor. Ele porá às claras o que está escondido nas trevas e manifestará as intenções dos corações (1 Cor 4,5).
As intenções do coração. Se nos víssemos a nós mesmos com transparência, descobriríamos que, dentro do nosso coração, há pelo menos quatro tipos de intenções.
  • Há intenções boas. Quando é o amor que as guia: o amor a Deus, o amor à verdade, o amor ao próximo.
Essas intenções predominam, com a graça do Espírito Santo, nos corações dos que se esforçam sinceramente em seguir o caminho que traça são Paulo aos Romanos: Não vos identifiqueis com este mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa maneira de pensar e julgar, para que possais distinguir o que é da vontade de Deus, a saber, o que é bom, o que lhe agrada, o que é perfeito (Rm 12,2).
Na medida em que o amor vai impregnando até as menores das nossas intenções e ações, nessa mesma medida vamos amadurecendo, chegando, espiritualmente, ao estado de adultos, à estatura de Cristo (Ef 4,13).
O teste da autenticidade desse amor é a Cruz. Ama mesmo quem sabe tomar a cruz, quem sabe fazer o que contraria, para agradar Deus e fazer o bem aos outros.
  • Há intenções boas “estragadas”. O que mais prejudica as intenções, mesmo sendo em si boas, é a vaidade e o interesse.
Jesus ensina a fazer o bem sem procurar elogios, nem agradecimentos,  nem recompensas: fazer caridade, sem que a nossa mão esquerda saiba o que faz a direita; orar sem ostentação, ou seja, sem buscar ser vistos e admirados por isso; jejuar e, em geral, fazer sacrifícios sem que se note, sorrindo (cf. Mt 6,1-18).
Da mesma forma, devemos evitar fazer “pose” (praticar fora do lar virtudes que não vivemos em casa) para causar boa impressão social, com o fim de subir na estima dos outros e obter vantagens (“como ele é bom, amável, responsável, excelente cristão!”).
  • Há intenções más. Evidentemente não é boa a intenção que nos leva a humilhar outra pessoa, a querer prevalecer sobre os demais, a enganar, a prejudicar, a vingar-nos…
O que sai do coração – dizia Jesus – é o que mancha o homem (cf. Mt 15,18).
A nossa alma, comentava santo Ambrósio, é como uma terra ocupada pelo inimigo, que, aos poucos, deve ser reconquistada e transformada em Reino de Deus: o “Reino da verdade, do amor e da paz” [1]. Mas, para isso, é preciso enfrentar e derrotar outros “reis” que a dominam, ou seja, as nossas más paixões: o orgulho, o egoísmo, a inveja, a raiva, o desprezo, o ódio…
A vitória, com a graça de Deus, depende da nossa humildade, da sinceridade do nosso arrependimento e da confissão das nossas faltas, a começar pela limpeza dos nossos pecados interiores (maus pensamentos, maus desejos, maus juízos, raivas acumuladas…). Assim, poderemos abrir a alma, já purificada, às luzes e ao calor do Evangelho, da palavra e do exemplo de Jesus, que nos fará endireitar os caminhos do coração (cf. Mc 1,3).
  • Há, finalmente, intenções “ausentes”. Por falta de ideais, há pessoas que vão tocando o barco da vida na maior rotina, por mera inércia. Como não têm intenções grandes e boas que os estimulem, não se propõem metas concretas de mudança e crescimento nas virtudes. Deste modo, cada vez fazem as coisas pior. “Estragam” a vida em família, que fica tediosa, vazia, monótona; “estragam” o trabalho, que cai cada vez mais na mediocridade; “estragam” a fé, limitando-se a “cumprir” os deveres religiosos mais básicos, sem vida nem alma, sem luta e, portanto, sem progresso espiritual, apenas com um declínio cada vez maior.
Tudo isso empobrece o “coração” e deprime a alma. É a doença grave da falta de amor, que confirma o que diz são Paulo: Se não tivesse amor, eu nada seria (I1 Cor 13,2).
Se notarmos alguns desses sintomas, pelo amor der Deus, procuremos reagir logo, acordar da modorra. Lancemo-nos a essa corrida de Amor que é a verdadeira vida cristã (cf. Fl 3,13-14).

Do livro Os Salmos, nosso espelho, Quadrante 2019
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[1] cf. Prefácio da Missa da solenidade de Cristo Rei.

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