sexta-feira, 31 de maio de 2013

O Corpo doado e o sangue vertido



"A Palavra do Deus vivo,
transformou o vinho e o pão
no seu sangue e no seu corpo
para nossa salvação."
(Hino das I Vésperas de Corpus Christi)
Uma mesa com uma toalha, uma toalha branca. Branca como a transparente pessoa do Mestre e a limpidez dos corações retos. Uma cruz que evoca a cruz do Gólgota. Sobre uma mesa, ao lado, uma cesta de pães e uma vaso com o vinho rubro. Nesse quadro fazemos a memória do Senhor. Anunciamos sua paixão, proclamamos a sua morte e ressurreição, esperando a sua vinda. Eucaristia, ação de graças, mesa da comunhão, comunhão de irmãos, oferenda do Corpo doado e do sangue vertido.

Era a noitinha, a noitinha da véspera da Paixão. O Mestre, com roupas bonitas, aguardava os seus íntimos. Depois de lhes lavar os pés tomou o pão e o vinho, seu corpo e seu sangue dados na véspera. No dia seguinte, na hora das horas, na aridez do sofrimento, fora dos muros da cidade, ele haveria de ver seu corpo triturado pelo sofrimento. Corpo, pão, trigo. Já, na véspera, ele havia tomado o pão, segurando firmemente em suas mãos e distribuído como um pai de família para os seus. Ali, no alto da cruz, o pão era cozido na fidelidade do Filho e no forno do sofrimento. “Isto é o meu corpo é dado por vós”. Misturam-se o vinho rubro do vaso ou no cálice e o sangue do esposo que dá a vida pela esposa no alto da cruz, no tálamo nupcial. “Este é o cálice do meu sangue derramado por vós e por todos para o perdão dos pecados”. E ele pedia ou ordenava que aquilo fosse feito para celebrar a sua memória.


Uma mesa com uma toalha, uma toalha branca… Na capela das irmãs, de manhãzinha, na catedral, na igreja do bairro bem pobre… a mesa da toalha branca… O Senhor se fez pão e vinho, seu corpo, seu sangue gloriosos. E chegam os comensais… Eles chegam com as vestes da contrição e do serviço, como o Mestre. Assentam-se, fazem silêncio em seu interior. Os que chegam do mundo, de suas casas, dos trabalhos, chegam alegres ou preocupados, mas acorrem pressurosos. Querem ouvir a Palavra do Amado, querem escutá-la com os seus ouvidos e ajudados pelo Espírito que desobstrui sua audição interior. Elevam com o celebrante a patena e, na hora da consagração, o corpo de Cristo que se entrega, é seu corpo também…. Há uma só oblação. Todos os que se acercam da mesa da toalha branca entram em comunhão. Eles passam a ser um só corpo e uma só carne.

Quando deixam o templo, rezamos com São Francisco: “Nós vos adoramos, Santíssimo Senhor Jesus Cristo, aqui e em todas as vossas igreja que estão pelo mundo inteiro porque pela vossa santa cruz remistes o mundo!” T

terça-feira, 28 de maio de 2013

A experiência de Deus Pai em São Francisco de Assis


Por Frei José Carlos Corrêa Pedroso, OFMCap.
“Observemos, portanto, as palavras, a vida e a doutrina, o Santo Evangelho daquele que se dignou rogar por nós a seu Pai e manifestar-nos o seu nome”. (RnB 22,41)
Francisco descobre o Pai ouvindo Jesus

São Francisco viveu uma profunda experiência espiritual de Deus Pai porque, acima de tudo, viveu Jesus Cristo. No seu tempo, era comum as pessoas chamarem a Deus de Pai, mas pensando na figura de Jesus Cristo. O que havia era uma ideia ampla de Deus, chamado de Pai, mas reconhecido na figura de Jesus (1).

No relativamente demorado processo de conversão de Francisco, são fatos marcantes o desencanto com as carreiras de comerciante e cavaleiro e, como ele mesmo afirma no Testamento, o encontro com os leprosos, de onde saiu transformado.

A experiência dos leprosos

Parece-me fundamental notar que a transformação que aconteceu na experiência com os leprosos está ligada a uma experiência de Deus Pai. Francisco disse que “com eles fiz misericórdia e, por isso, o que antes para mim era amargo, tornou-se doce” (Test 3). Misericórdia, a "hesed hahamin" da Bíblia, é o amor que só Deus tem. No Novo Testamento, Jesus a atribui ao Pai. São Francisco amou os leprosos com o amor que é de Deus, foi transformado pela presença do Pai. E a presença sensível do Pai é sempre a pessoa do Filho. E não acontece sem a presença abrasadora do Espírito Santo, que é o amor entre o Pai e o Filho. Foi por esta razão que Francisco disse: “Assim, o Senhor me deu de começar a fazer penitência”; ele começou a mudar, a se transformar, a ter consciência da ação da Trindade nele quando se abriu para servir os leprosos.

A partir do encontro com os leprosos, Francisco sabe que tem que fazer um “nossos”, um caminho de volta para o Pai. Sua vida de conversão é iluminada pela parábola de conversão do Filho Pródigo, em que Jesus mostra o que aconteceu e o que ainda deve acontecer conosco. Saímos de casa, pensando que o importante era só levar o dinheiro do Pai, porque o mundo tinha tudo de bom com que poderíamos sonhar.

Voltamos, porque percebemos que o importante é estar com o Pai. Mais ainda: o importante é continuar o caminho que o Pai está fazendo, porque ele não terminou a criação. Ainda tem uma parte enorme, a ser feita conosco.

Faço notar que a linguagem neotestamentária e patrística nos habituou a falar em Deus “Pai”. Na sensibilidade de hoje, poderíamos dizer, como João Paulo I, que é “Deus Mãe”. O que importa é que toda a nossa vida flui a partir de Deus, Pai ou Mãe, pois é quem gera Jesus, o Filho.

A experiência da cripta de São Damião

É interessante observar que tanto a Primeira Vida de Celano quanto a Legenda dos Três Companheiros colocam logo em seguida à experiência com os leprosos um fato que me parece notável para toda a sua experiência posterior da Santíssima Trindade. Contam que ele convenceu um rapaz de sua idade de que tinha encontrado um tesouro. Dizem que os dois iam com freqüência a uma caverna, que o rapaz ficava esperando fora, mas Francisco entrava e orava profundamente. Cito do texto da Legenda dos Três Companheiros:
“Francisco o levava muitas vezes a uma caverna perto de Assis, e, entrando sozinho, deixava do lado de fora o companheiro, desejoso de possuir o tesouro; e assim, tomado de novo e singular espírito, orava ao Pai, às escondidas, cuidando que ninguém soubesse o que estava fazendo lá dentro a não ser Deus” (LTC 12). O texto correspondente de Celano diz: “O homem de Deus, que já estava santificado pelo santo propósito, entrava na gruta enquanto o companheiro ficava esperando do lado de fora e, tomado pelo novo e especial espírito, orava a seu Pai na solidão” (1Cel 6).
Em primeiro lugar, gostaria de chamar a atenção do leitor para uma observação de Frei Marino Bigaroni(2) de que, em latim, tanto o texto de 1Cel quanto o da LTC não falam em caverna ou gruta, mas em uma “crypta”. É verdade que foi dessa palavra grega (que quer dizer “lugar escondido”) que veio a nossa “gruta”, mas o termo é usado há muito tempo para designar um espaço subterrâneo reservado para sepultar os mortos nas igrejas. Bigaroni argumenta que este local era a cripta que ficava embaixo do altar da Igreja de São Damião antes da grande reforma que Francisco nela fez para preparar o Mosteiro de Santa Clara.

Mais importante é lembrar que o texto é uma evidente lembrança da passagem bíblica: “Ao contrário, quando você rezar, entre no seu quarto, feche a porta, e reze ao seu Pai ocultamente; o seu Pai, que vê no escondido, recompensará você” (Mt 6,6).

Ressalto, então, que Francisco estava aprendendo a tratar com o Pai revelado por Jesus Cristo e que era levado a isso pela intervenção do Espírito Santo, sem a qual ninguém é capaz de rezar, ninguém é capaz de reconhecer o Senhor.

Também chamo a atenção para o fato de que, se a oração era feita na cripta de São Damião, Francisco já tinha tido o seu famoso encontro com Jesus Crucificado, que foi omitido na Primeira Vida de Celano, certamente porque se tratava de um segredo até então só conhecido por Santa Clara ou Frei Leão. Talvez seja melhor pensar que os encontros foram múltiplos, seguidos, constantes, produzindo aos poucos a oração mais antiga de Francisco que chegou a nós:
“Altíssimo e glorioso Deus, iluminai as trevas do meu coração e dai-me uma fé direita, esperança certa, caridade perfeita, bom senso e conhecimento, Senhor, para que faça vosso santo e verdadeiro mandamento. Amém”.
Com muitos dos autores mais recentes, podemos ver nesta oração um dos pontos fundamentais da espiritualidade de São Francisco: ele quer cumprir o mandamento, isto é, obedecer a Deus Pai como Jesus crucificado obedeceu. Ora, fazer a vontade do Pai, que é “todo o Bem”, implica tanto uma volta para Deus quanto um comprometimento com a construção da utopia.

Deve ter sido nesses incontáveis tempos de oração em São Damião, na cripta ou diante do Crucifixo, que Francisco aprendeu a rezar como a Igreja sempre tinha feito em sua liturgia desde os primeiros séculos: dirigindo-se ao Pai através da Palavra de Jesus Cristo, com o qual podemos nos unir graças à atuação do Espírito Santo. Uma oração exemplar, nesse sentido, é a que São Francisco colocou no fim de sua Carta a toda Ordem:
“Onipotente, eterno, justo e misericordioso Deus, dai a nós, miseráveis, fazer, por vós mesmo, o que sabemos que vós quereis, e sempre querer o que vos apraz, para que, interiormente purificados, interiormente iluminados e acesos no fogo do santo espírito, possamos seguir os vestígios do vosso dileto Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, e chegar só por vossa graça a vós, Altíssimo, que na Trindade perfeita e na Unidade simples viveis e reinais e sois glorificado, Deus onipotente, por todos os séculos dos séculos. Amém”.
A experiência do Pai-nosso 

Os primeiros biógrafos viram em Francisco um outro Cristo. Uma das coisas que mais os impressionou foi o fato de Francisco ter os estigmas, como Jesus crucificado. Na realidade, os estigmas foram apenas um sinal exterior: Francisco foi um outro Cristo porque realizou profundamente a sua vocação humana e porque ouviu Jesus para rezar com ele. Foi ouvindo Jesus Cristo que ele aprendeu a conhecer o Pai.

Em todas as suas orações, ele procura rezar ao Pai com Jesus Cristo. Ele tenta entrar na oração de Jesus. Vamos tomar como um ponto alto o seu “Comentário ao Pai-nosso”. Fazemos notar que a oração, ensinada por Jesus, é toda dirigida ao Pai criador. Ora, Deus Pai não foi criador, ele é, continua a ser criador. Ainda está construindo o seu Reino. Nós estamos fora desse processo de criação pelo pecado e precisamos voltar para a casa paterna se quisermos ter parte na construção do Reino. Mas Jesus, em sua oração, fala primeiro do Reino, que é a nossa esperança, para depois falar da volta, que está baseada na memória do nosso pecado e na memória da misericórdia de Deus.
Nosso trabalho 

Vamos desenvolver este nosso estudo sobre a experiência de Deus Pai vivida por Francisco dividindo-o em duas grandes partes. Na primeira, que tem o subtítulo ”Venha a nós o vosso Reino”, vamos falar da incessante obra criadora de Deus Pai, que continua a ser feita. Poder tomar parte nela é a nossa grandeza e é também o nosso sonho. Vamos ver como Jesus a ensinou e como Francisco a viveu. Na segunda, que tem o subtítulo “Perdoai as nossas ofensas”, vamos considerar que deixamos de tomar parte na obra criadora do Pai porque nos afastamos dele. Como o filho pródigo, temos que voltar para o Pai.

1. “Venha a nós o vosso Reino”

Viver a Bíblia como um povo é caminhar no sentido da Esperança. Esta parte é um aprofundamento da “esperança” que marca a meta da história. Acredito que Jesus nos inculcou profundamente o seu sentido quando nos ensinou a primeira parte do Pai-nosso. Francisco demonstra ter compreendido muito bem a lição, como podemos ler no seu “Comentário ao Pai-nosso”, como podemos considerar em toda a sua vida de oração e no seu sonho de ver Deus, com uma clareza cada vez maior.

Quando chegamos a viver Deus Pai, somos criadores com Ele e como Ele. Nossa criatividade encontra seu verdadeiro sentido e nos traz a mais profunda realização como pessoas e como povo.
Francisco inverte a nossa posição de céu

Pensamos, habitualmente, no céu como um lugar imenso, a casa de Deus, onde vamos todos estar com Ele. No seu Comentário, Francisco diz:
“Que estais nos céus: nos anjos e nos santos, iluminando-os para o conhecimento, porque vós, Senhor, sois luz: inflamando-os para o amor, porque vós, Senhor, sois amor; morando neles e plenificando-os para a bem-aventurança, porque vós, Senhor, sois o sumo Bem, eterno Bem, do qual nos vem todo bem, sem o qual não há nenhum bem”.
Não estamos dentro do céu, mas o céu estará dentro de nós na medida em que descobrirmos Deus em nós.

Deus Pai é essencialmente criador. Nunca deixa de ser criador

O atributo de Deus Pai é a criação. Ele é sempre criador e isso se manifesta em nossa criatividade. Já usamos muito mal a criatividade no mundo que estamos construindo através dos séculos. Temos que aprender a usá-la construindo o Reino de Deus.

Deus Pai está construindo a nossa utopia: o seu Reino

O Reino de Deus não é o mundo que criamos à nossa imagem e semelhança trabalhando segundo o “espírito da carne”. É o mundo que criamos com Deus quando trabalhamos segundo o “espírito do Senhor”.

É impossível compreender as posições concretas de Francisco se não percebermos que todas se fundamentam nessa opção pelo “espírito do Senhor” e não pelo “espírito da carne”. Ele repete isso muitas vezes e de muitas formas, mas acredito que o texto fundamental é o que está no capítulo 17 da Regra não-bulada, que afirma:
“Guardemo-nos da sabedoria deste mundo e da prudência da carne. Pois o espírito da carne tem grande interesse em fazer muito em palavras e pouco em obras, nem procura a piedade e santidade interior de espírito, mas antes visa e deseja uma piedade e santidade que apareça por fora diante dos homens … Porém, o espírito do Senhor exige que a nossa carne seja mortificada e desprezada, vil, abjeta e desprezível; e ele procura a humildade e a paciência e a pura, simples e verdadeira paz do espírito; e acima de tudo deseja sempre o temor de Deus, a sabedoria de Deus e o divino amor do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (RnB 17,11-16).
O “espírito da carne”, expressão já usada por São João e São Paulo, mas fundamentada no uso clássico da palavra “corpo” ou “carne” na literatura grega, expressa o que nós somos sem Deus ou por oposição a Deus: isto é, refere-se ao nosso egoísmo e ao mundo que construímos à nossa imagem e semelhança depois de nos termos afastado de Deus. Conseqüentemente, o “espírito do Senhor” é aquele impulso interior que nos faz enxergar as coisas como Deus enxerga e realizá-las como Deus as realiza. Quem tem o “espírito do Senhor” não fica em palavras e exterioridades e também não constrói castelos de areia, porque é criador com Deus Pai.

No seu Reino, estamos no “não lugar” e no “não tempo”

Se nós passamos para o Reino de Deus, saímos do nosso lugar. Francisco disse que “saiu do século”. Ele ficou no mundo (do pecado) sem ser do mundo. Ficou como um agente do mundo de Deus no “mundo dos homens”. Sair do século, além de nos libertar do “nosso” espaço fazendo-nos estar no espaço de Deus, liberta-nos do “nosso” tempo, fazendo-nos entrar, desde agora, no “tempo” de Deus, que é a eternidade.

A palavra “utopia”, usada por S. Tomás More, é altamente significativa. Quer dizer “não-lugar”. E a situação em que fica, diante do mundo criado pelos homens à sua imagem e semelhança, quem passa para o mundo criado por Deus à imagem e semelhança de Deus.

Quem já reconheceu Deus como Pai passa a ser um contemplativo. Isto é, é capaz de enxergar com nitidez, no meio de tantas obras dos homens sem Deus, o que foi feito por Deus, sozinho ou com os humanos.

O seu reino não terá fim

Continuando a sua “Paráfrase ao Pai-nosso”, Francisco deseja que o Nome de Deus seja santificado. Nosso desejo mais profundo é conhecer Deus. É vê-lo face a face. É isso que Deus continua a criar.

A expressão “nome” é devida ao respeito que o povo judeu sempre teve por Deus. Até hoje, eles não dizem “Bendito seja Deus!”, mas “Bendito seja o nome!”, a fim de “não tomar o nome de Deus em vão”.

Pedir que o “nome” de Deus seja santificado é pedir que compreendamos e vivamos tudo o que for possível da santidade de Deus. Francisco disse:
“Santificado seja o vosso nome: fique clara em nós a vossa notícia, para que conheçamos qual é a largura de vossos benefícios, a extensão de vossas promessas, a sublimidade da majestade e a profundidade dos juízos” (EPN 4).
Francisco parece ter gostado da maneira de falar de São Paulo: ”Vocês se tornarão capazes de compreender, com todos os cristãos, qual é a largura e o comprimento, a altura e a profundidade … para que fiquem repletos de toda plenitude de Deus” (Ef 3,18-19). Mas ainda falou em: a) largura dos benefícios, b) extensão das promessas, c) sublimidade da majestade e d) profundidade dos juízos. Ele quis mostrar que Deus não tem fim em nenhuma direção. Projetou uma figura infinita em todos os sentidos para dar-nos uma ideia do Reino que ainda podemos construir unindo nossa criatividade a todo o poder do Pai criador pelos séculos sem fim.

Orar com Jesus, pedindo que o Reino venha

Em seu sentido mais frequente, as orações que Francisco faz para rezar com Jesus acompanham a primeira parte do Pai-nosso e pedem que o Reino venha. Mas eu vou destacar, aqui, dois pontos principais: as orações de ação de graças e o uso da oração sacerdotal do evangelista João (cap. 17).

a) São Francisco e a ação de graças

A maior parte das orações de São Francisco que chegaram até nós tem um profundo sentido de ação de graças. São “eucarísticas”. É fácil perceber que ele está sempre dando graças ao Pai por tudo o que vai descobrindo, porque aprendeu a rezar com Jesus que disse: “Pai, eu vos dou graças porque escondestes estas coisas aos sábios e aos prudentes e as revelastes aos pequeninos” (Lc 10,21).

Chamo a atenção para o Cântico de Frei Sol, mas também para algumas outras orações, como a Exortação ao Louvor de Deus, os Louvores a serem ditos em todas as Horas, os Louvores a Deus Altíssimo e mesmo a Saudação às Virtudes e a Saudação à Bem-Aventurada Virgem Maria, que podem ser vistas como preparações para o Cântico de Frei Sol. Mas um destaque especial merece a Oração a Deus Pai Criador que está no capítulo 23 da Regra não-Bulada. É um capítulo que deveríamos rezar com frequência, embora não me seja dado, aqui, mais do que citar o começo:
“Onipotente, altíssimo, santíssimo e sumo Deus, Pai santo e justo, Senhor e Rei dos céus e da terra, damo-vos graças por causa de vós mesmo, porque por vossa santa vontade e pelo vosso único filho criastes do Espírito Santo todos os seres espirituais e corporais, nos fizestes à vossa imagem e semelhança e nos colocastes no paraíso … ” (RnB 23,1-3).
Creio que é fundamental percebermos o seu sentido profundo: ao dar graças, Francisco está pedindo ao Pai que o seu Reino venha. Ele está descobrindo com os seus “olhos do espírito” como o Pai constrói o seu mundo e, reconhecido, louva como se estivesse aplaudindo ou “animando” Deus Pai a continuar essa obra tão maravilhosa.

Francisco, que iniciou suas orações pedindo a iluminação das trevas interiores, sempre procurou a luz, porque viu na luz o maior símbolo de Deus. Jesus é luz porque veio revelar a luz que é o Pai. Francisco tem a maior celebração da luz no Cântico de Frei Sol, quando, cego nos olhos do corpo, só enxerga com os “olhos do espírito”.

b) São Francisco e a oração sacerdotal

Francisco reza ao Pai com Jesus três vezes seguindo a “oração sacerdotal”, que encontramos no capítulo 17 do Evangelho de São João. Nas três vezes, ele a usa livremente, selecionando trechos, saltando e mudando a ordem. Na Carta aos Fiéis (lCtFi e 2CtFi) é mais curto do que na Regra não-Bulada (22,39-50). Alguns trechos coincidem. Tudo isso demonstra que ele deve ter rezado muitas vezes essa oração de Jesus de cor, adaptando-a às circunstâncias. Também podemos ver, especialmente nestas duas passagens de seus escritos, possíveis trechos de sermões que ele costumava fazer ao povo.

Mas o mais importante é que essa e outras orações de Jesus foram formando Francisco como um filho verdadeiro do Pai eterno.

Nessa grande oração do final de sua vida, Jesus fala com o Pai sobre a glória a que todos nós estamos destinados. Nós precisamos estar com Ele onde Ele estiver, isto é, junto do Pai e do Espírito Santo. Não somos tirados do mundo, mas já não somos do mundo. Só ficamos nele para ajudar o Pai a continuar a sua obra criadora.

Francisco colocou os frades e os irmãos penitentes nessa mesma perspectiva trinitária em que já tinha colocado as clarissas quando lhes deu a Forma de Vida para Santa Clara. Algo que ele lembrava pelo menos quatorze vezes por dia ao rezar a Antífona a Nossa Senhora que está no Ofício da Paixão.

É claro que, para Francisco, nós estamos fazendo a vontade de Deus aqui na terra como vamos fazê-la um dia com todos lá no céu. Nós somos criadores com o Pai.

2. Perdoai as nossas ofensas

Viver a Bíblia como um povo é também ter uma ampla memória histórica. Esta seção do nosso trabalho é um aprofundamento da “memória” como ponto de partida da história. Jesus deixou-a para a segunda parte do seu Pai-nosso e nos deu uma excelente lição quando contou a parábola do filho pródigo. Francisco viveu isso tudo na sua penitência e na sua oração, ensinando-nos a nos libertar do pecado que nos deixou órfãos do Pai.

Temos que fazer um “nostos” – somos o filho pródigo

Jesus nos deixou um parâmetro para esta parte do Pai-nosso quando contou a parábola do filho pródigo. Nós somos pecadores e estamos sempre na volta para a casa do Pai. É interessante observar, na literatura universal, como a humanidade sempre sentiu um desejo profundo e inexplicável de voltar. Mesmo sem saber direito para onde tinha que voltar. Foi Jesus que veio mostrar com clareza que nossa volta é para os braços do Pai.

Em português, temos uma palavra nossa muito característica e original: “saudades”. A nossa lírica sempre encontrou um de seus grandes temas nas saudades. Ora, essa palavra é substituída nas outras línguas ocidentais por “nostalgia”, e em todas as línguas por alguma expressão semelhante. Em grego, ao pé da letra, “nostalgia” quer dizer “dor da volta”. “Nostos” é volta, e “algos” é dor. Quem não sentiu esta dor profunda com o desejo de voltar: voltar a algum lugar, a uma situação, aos braços de alguma pessoa?

A segunda parte do Pai-nosso é dominada por essa dor da volta. Temos que voltar ao paraíso, quando o Pai ainda passeava amigavelmente conosco naquelas tardes gostosas, porque não tínhamos resolvido sair de casa para construir o nosso mundo, um mundo em que pudéssemos ser deuses sem nos lembrar de que há um outro Deus tão grande.

Na realidade, como lembra São Francisco, nós nos tornamos tantas vezes “miseráveis” ou míseros, isto é, pessoas que precisam da compaixão que só Deus pode ter, porque só Ele sabe o que é a “hesed hahamim”, a misericórdia, pois só Ele tem aquelas entranhas maternas capazes de sentir e de fazer voltar os filhos ausentes.

Como fazer misericórdia

Na sua Paráfrase ao Pai-nosso, Francisco diz:
“E perdoai-nos as nossas ofensas por vossa inefável misericórdia, pela força da Paixão de vosso dileto Filho e pelos méritos e intercessão da beatíssima Virgem Maria e de todos os vossos eleitos. Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido: e o que nós não perdoamos totalmente, fazei vós, ó Senhor, que perdoemos plenamente, para que por vós amemos de verdade os nossos inimigos e intercedamos por eles devotamente diante de vós, a ninguém pagando o mal com o mal e em tudo procuremos ser proveitosos em vós” (EPN 9-10).
Para nos reconhecermos filhos do Pai eterno, é fundamental reconhecermos: a) que somos pecadores, b) que somos perdoados e c) que também temos que perdoar.

a) Somos pecadores. São João diz muito claramente: “Se dizemos que não temos pecado, enganamos a nós mesmos, e a verdade não está em nós. Se reconhecemos os nossos pecados, Deus que é fiel e justo perdoará nossos pecados e nos purificará de toda injustiça. Se dizemos que nunca pecamos, estaremos afirmando que Deus é mentiroso e a sua palavra não estará em nós” (lJo 1,8-10).

b) Somos perdoados. Em vez de ser uma pessoa triste e desconsolada porque não está conseguindo ter tantas coisas que desejaria, todo cristão deveria ser uma fonte transbordante de alegria por saber que foi perdoado: que estava longe e foi recebido em festa na casa paterna. Era essa a alegria constante de Francisco. Ele sabia que, para ele, já tinham sido movidas a “inefável misericórdia do Pai”, a “força da Paixão do Filho”, os “méritos e a intercessão da beatíssima Virgem Maria e de todos os eleitos”.

Nós estamos muito mal acostumados a pensar que todas as nossas grosserias podem ser lavadas com um simples pedido de desculpas e não compreendemos que, para podermos fazer o caminho de volta à casa do Pai, foi preciso que se movimentasse tudo isso, inclusive que o Filho de Deus se encarnasse e morresse na cruz.

Precisamos gritar ao mundo: “Nós somos perdoados”. Já deveria ser uma razão mais do que suficiente para movimentarmos todos os povos para que se convertessem à boa-nova do Evangelho.

c) Temos que perdoar, como o Pai perdoa. Segundo o testemunho de São Lucas, Jesus ensinou: “Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso. Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados: perdoai e sereis perdoados” (Lc 6,36-37). No Evangelho de São Mateus, Jesus disse algo até mais incisivo: “Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, vosso Pai celeste também vos perdoará. Mas se não perdoardes aos homens, tampouco vosso Pai vos perdoará” (Mt 6,14-15). A “hesed hahamin” é característica do Deus do Antigo Testamento, revelado por Jesus, como o Pai.

Na Carta a um Ministro, São Francisco deu uma das melhores demonstrações de como entendia a prática da misericórdia:

“E nisto reconhecerei que amas realmente o Senhor e a mim, servo dele e teu, se fizeres o seguinte: não haja irmão no mundo, mesmo que tenha pecado a não poder mais, que, após ver os teus olhos, se sinta obrigado a sair de tua presença sem obter misericórdia, se misericórdia buscou. E se não buscar misericórdia, pergunta-lhe se não a quer. E se, depois disso, ele se apresentar ainda mil vezes diante de teus olhos, ama-o mais do que a mim, procurando conquistá-lo para o Senhor. E tem sempre piedade de tais irmãos” (CtMi 5-7).

Francisco devia estar muito consciente de toda a misericórdia que já tinha recebido pessoalmente de Deus quando teve a oportunidade de partilhá-la com os outros. Por isso, quando ele “fez misericórdia” com os leprosos, sua vida mudou. Ele até precisou “sair do mundo”. Na Carta a um Ministro, ele também disse que tudo o que acontece conosco é graça: Deus está nos ajudando a voltar para a casa do Pai.

Por isso, acredito que o fato de Francisco e Clara terem mandado seus irmãos e irmãs rezarem tantos Pai-nossos como um Ofício alternativo não deve ser devido só a um costume que já existia antes deles e em outros grupos religiosos. Eles tinham consciência de que era preciso estar recordando o dia inteiro que o Pai é misericordioso e nós temos que ser misericordiosos com Ele (3).

Orar com Jesus pedindo misericórdia – o Ofício da Paixão

Francisco já reconheceu que precisava da misericórdia do Pai quando rezou diante do Crucifixo de São Damião pedindo que o Senhor “iluminasse as trevas do seu coração”, e soube reconhecê-lo até o fim, quando insistiu na oração que conclui a Carta a toda Ordem: ” … misericordioso Deus, … dai a nós, miseráveis … “. Aliás, ele sempre esteve querendo sair das trevas do pecado para a luz da misericórdia do Pai.

No Ofício da Paixão, temos o melhor exemplo de como São Francisco procurava rezar com Jesus Cristo ao Pai, pedindo misericórdia ou celebrando o fato de ter recebido misericórdia. Ele compôs todos os seus salmos como se estivessem sendo rezados pelo próprio Jesus: com orações do Antigo Testamento, entremeadas por expressões que só o Filho de Deus veio revelar no Novo Testamento. Creio que é importante examinar os passos mais significativos dessa oração ao Pai que Francisco e Clara rezavam todos os dias.

Na Antífona de Nossa Senhora, o Pai é chamado de “Altíssimo sumo Rei Pai Celeste, e Nossa Senhora é saudada como sua “filha e serva”.

No Salmo 1, versículo 5, Francisco e Jesus rezam assim: “Santo Pai meu, rei do céu e da terra, não vos afasteis de mim porque a tribulação está perto e não há quem me ajude”. E no versículo 9 insistem: “Pai santo, não afasteis de mim o vosso auxílio; Deus meu, vinde me socorrer”.

No Salmo 2, versículos 11 e 12, rezam assim: “Vós sois o meu Pai santíssimo, meu Rei e Deus meu. Vinde em meu auxílio, Senhor Deus de minha salvação”. O Salmo 3, que começa pedindo: ”Tende compaixão de mim, ó Deus, tende compaixão … “, continua no versículo 3: “Clamarei ao meu santíssimo Pai altíssimo; ao Senhor 1ue me encheu de benefícios”.

No Salmo 4, versículo 9, rezam assim: “Pai santo, não afasteis de mim a vossa ajuda, cuidai da minha defesa”. No Salmo 5 , reconhecem-se na posição de pecadores quando, no versículo 9, dizem: “Pai santo, o zelo de vossa casa me devorou, e os insultos dos que vos ofendem caíram em cima de mim … “. E mais à frente, nos versículos 15 e 16, vão completar: ”Vós sois o meu Pai santíssimo, meu Rei e meu Deus. Vinde depressa me ajudar, Senhor Deus de minha salvação”.

No Salmo 6, depois de reconhecer que “reduziram-me ao pó da morte, e aumentaram a dor de minhas chagas” (v. 10), voltam-se com confiança para dizer ao Pai: “Fui dormir e me levantei, e meu Pai santíssimo me recebeu com glória. Pai santo, vós me tomastes pela mão direita e me guiastes em vossa vontade e me acolhestes com honra” (vv. 11-12).

O Salmo 7 reconhece o pecado de toda a terra, mas proclama: “Porque o santíssimo Pai do céu, nosso Rei antes do começo do mundo, enviou lá do alto seu Filho amado e realizou a salvação em toda a terra” (v. 3). No tempo da Ascensão, Francisco acrescentava: “Subiu aos céus e está sentado à direita do santíssimo Pai celestial” (v. 10).

O Salmo 9 é cheio de alegria pela ressurreição de Jesus, mas lembra que foi preciso sacrificar o Filho de Deus: “A seu Filho amado sacrificou a sua destra e seu santo braço” (v. 2).

O Salmo 11 canta a misericórdia de Deus diante dos pecadores, pois celebra: “Agora, eu reconheci que o Senhor enviou Jesus Cristo, seu Filho, e ele julgará o universo com justiça” (v. 6).

O Salmo 14 já reza assim no primeiro versículo: “Eu vos dou graças, Senhor, Pai santíssimo, Rei do céu e da terra, porque me consolastes”. E, finalmente, o Salmo 15, que celebra o Natal, proclama no versículo 3: “Pois o santíssimo Pai do céu, Rei nosso antes de todos os séculos, mandou do alto seu amado Filho e nasceu da bem-aventurada Virgem Santa Maria”, concluindo no versículo 5: “Naquele dia concedeu o Senhor a sua misericórdia”.

É fácil perceber que todo o Ofício da Paixão é um pedido de misericórdia feito ao Pai e cheio de esperança-certeza.

Conclusões

Clara, que a família franciscana e clariana está começando a redescobrir, ilumina fortemente a espiritualidade que partilhou com Francisco, porque sabe expressá-la de uma maneira quase sempre muito original e muito livre. É interessante observarmos, mais do que ela diz sobre Deus Pai, sua práxis constante de viver com Jesus no caminho que leva ao Pai.

Celano apresentou Francisco como um “homem novo”, justamente porque o viu como alguém que retornara à casa do Pai e estava colaborando com a nova criação, já tinha observado isso quando afirmou, na Legenda de Santa Clara:
“Quando ouviu falar do então famoso Francisco que, como homem novo, renovava com novas virtudes o caminho da perfeição, tão apagado no mundo, quis logo vê-lo e ouvi-lo, movido pelo Pai dos espíritos, de quem um e outra, embora de modo diferente, tinham recebido os primeiros impulsos” (LSC 5).
É claro que foi esse “Pai dos espíritos” que se tornou a meta de Clara na sua vocação, que ela mesma descreve como um dos maiores benefícios recebidos do Pai, que nos dá Jesus como o caminho e o espelho para chegar até ele:
“Entre outros benefícios que temos recebido e ainda recebemos diariamente da generosidade do Pai de toda a misericórdia e pelos quais temos que agradecer ao glorioso Pai de Cristo, está a nossa vocação que, quanto maior e mais perfeita, mais a Ele é devida” (TestC 2-4).
É empolgante ler o Processo de Canonização e ir percebendo como Clara conseguiu passar para suas irmãs a sua convicção viva de que toda a nossa vida é um constante voltar para a casa paterna e um empenhativo compromisso de continuar com o Pai a obra da criação até a consumação dos séculos.

Quem tem um Pai no céu é pobre

Uma das primeiras conclusões práticas que podemos tirar da descoberta de Deus como Pai é que podemos ser pobres e livres. As próprias pessoas divinas são essencialmente pobres porque dão tudo de si sem precisar segurar nada. Têm a liberdade de dar tudo sem precisar guardar nada para nenhuma eventualidade, pois não pode acontecer nenhum imprevisto para quem só vive o Amor. Tudo o que pode acontecer é só um dar-se sem restrições.

Por isso, Clara e Francisco só podiam ser pobres e livres. Quem está vivendo o Pai-nosso só pode ser pobre e livre porque não precisa se apropriar de nada, não precisa mandar em ninguém e não precisa ter importância reconhecida pelos outros.

Quem é filho de Deus sempre vai ter tudo o que precisar, sempre vai ter o melhor relacionamento possível com todas as pessoas sem ter que coagi-Ias a nada, sempre vai ter o melhor reconhecimento possível por parte de quem melhor sabe fazê-lo: Deus.

Estamos seguindo os passos de Jesus crucificado 

Outra conclusão prática e concreta é que não precisamos nos preocupar com nada. Sabemos que, no fim da caminhada, o que vamos encontrar é a plenitude do que estamos descobrindo aos pouquinhos cada dia: o Pai. Para isso, Francisco ensinou que basta “seguir os passos de Jesus crucificado”. Podemos ir até como cegos que deram a mão e confiam no seu guia.

Quando lemos os jornais ou escutamos os noticiários, somos invadidos pelo terrível sofrimento do mundo. De um mundo de órfãos que, não reconhecendo que têm um Pai nos céus, têm que passar a vida brigando por coisinhas e se matando por idéias que são mais efêmeras do que as moscas. Será que este mundo não está precisando da segurança que deveria brotar e jorrar de nossa confiança viva no Pai?

Vivemos a esperança da utopia 

Mas os filhos do Pai das misericórdias não são omissos. Estão na luta da construção do Reino, e o Reino é uma utopia que só virá com muito trabalho. Muita gente já trabalhou por ele no passado, muita gente ainda vai trabalhar no futuro, e nós somos os trabalhadores do presente. Jesus disse que até o Pai trabalha e que ele também não pára de trabalhar.

Francisco falou na “graça do trabalho”. É a graça de poder transformar o sonho em realidade. Homem que “tinha sido transformado na própria oração”, ele insiste muito mais na necessidade de agir. Achava que não era verdadeira oração de quem não tornava realidade as obras do Pai.

Só consegue transformar o sonho em realidade quem vive cultivando o sonho do Pai, quem tem toda a força dele para transportar montanhas. Foi isso que o pobrezinho Francisco aprendeu com Jesus e nos ensinou. T


1. Sobre isso, nada melhor que ler a primeira parte do livro de Nguyen Van Kahnah, Gesu Cristo nel pensiero di San Francesco secondo i suoi scritti. 
2. “San Damiano – Assisi: La prima Chiesa di San Francesco”, em Atti Accademia Properziana del Subasio, ser. VI, 7 (1983) 49-87. 
3. Sobre o perdão em São Francisco e Santa Clara, há um capítulo interessante no livro de Adriano Parenti, La scuola di preghiera da Francesco e Chiara d’Assisi, p. 85-89

Frei José Carlos Corrêa Pedroso, OFMCap é diretor do Centro Franciscano de Espiritualidade de Piracicaba. É autor de vários livros de espiritualidade e franciscanismo. É historiador e pesquisador na área fransciscana, profundo conhecedor da vida e obra de São Francisco de Assis e Santa Clara.
Este texto foi publicado nos “Cadernos Franciscanos”, da FFB e Editora Vozes.

As traições sentimentais

Os falsos bons, na realidade, passam a vida alimentando com ramos odoríferos a caldeira do nosso egoísmo, sem reparar que, querendo deixar-nos felizes com a sua brandura, nos fazem deslizar cada vez mais para o abismo da nossa infelicidade. É um fato que só o amor e a verdade nos realizam, e o egoísmo nos destrói.
Por sua vez, o bondoso sentimental é ele próprio um egoísta. A sua máxima aspiração é “ficar bem”, “ser agradável”, “ser simpático”. E, em troca de granjear o nosso apreço, não hesita em abençoar a mentira e acobertar o mal.
O filho ou um amigo estão à beira de desmanchar o casamento por motivos fúteis? Jamais passará pela mente do “bonachão” estender-lhes a mão com sacrifício, ajudá-los a reagir, passar um mau bocado para tentar que reconsiderem o mau passo que estão prestes a dar e enfrentem o dever.
Preferirá observar tudo “sem interferir”, e achará por bem comentar docemente: “Deixa, ele tem o direito de ser feliz”. Uma vez consumada a catástrofe, que pode ter conseqüências irreversíveis – especialmente para os inocentes, para os filhos –, o nosso homem “bom” limitar-se-á a sacudir a cabeça e a comentar: “Vamos torcer para que dê tudo certo”.
É o mesmo que, enganando miseravelmente a sua consciência, deixará passivamente que a filha se envolva com amizades bem pouco recomendáveis, porque não quer atritos e – além do mais – é muito incômodo carregar a etiqueta de “pai antiquado e tirânico”. Por isso, não será nem tirano – no que fará bem – nem pai – no que fará pessimamente. E quando estourarem as conseqüências lamentáveis da sua omissão, chorará lágrimas mansas e se consolará dizendo: “A juventude atual é difícil, é diferente da juventude dos meus tempos”. Mas a filha já estará moralmente aniquilada.
Os bons sentimentais e vazios são os protagonistas constantes do que poderíamos chamar a “anti-parábola” do bom samaritano.
Na parábola evangélica relatada por São Lucas (Lc 10, 25-37), o bom samaritano encontra estendido na estrada um judeu que acaba de ser assaltado por ladrões e que está ferido e meio morto. Que fazer? O judeu é seu inimigo – pois, como é sabido, judeus e samaritanos se odiavam –, e portanto o problema não parece ser da sua conta. Vencendo, contudo, essas barreiras, decide-se a atendê-lo. E faz tudo para assisti-lo e curá-lo. Primeiro, limpa-lhe as feridas, suavizando-as com óleo e purificando-as com vinho; depois, carrega-o na sua montaria e instala-o numa estalagem, adiantando o dinheiro necessário para que tratem dele. As suas ocupações obrigam-no a afastar-se por umas horas, mas logo volta à hospedaria para certificar-se de que não faltou ao enfermo
nenhuma assistência. Cuidou dele em tudo, resume Cristo. Por isso, o bom samaritano fica no Evangelho como a imagem perfeita da bondade movida pelo amor.
Pois bem. Imaginemos – caricaturizando a cena – o que teria feito um samaritano
“bonachão”. Não é difícil descrever a “anti-parábola”, pensando em tantos homens “bons” que infelizmente andam pelo mundo. Chega ao pé do ferido e sente-se impressionado. “Coitado!”,
exclama, e acrescenta: “Neste mundo acontece cada coisa!” Acocora-se junto dele, dirige-lhe um olhar terno e limita-se a “consolá-lo”: “Dói muito? Vai ver, não há de ser nada”. Nem cogita de intervir no caso: se pegar nele para cuidá-lo, pode “machucá-lo” ou pode “comprometer-se”.
Limita-se, por isso, a dar-lhe uma afetuosa palmadinha, a colocar-lhe um pano bem almofadado debaixo da cabeça e a afastar-se comovido com os seus próprios sentimentos, ao mesmo tempo que murmura baixinho: “Acho que assim vai sentir-se melhor”. Naturalmente o ferido, envolto em tanta “bondade”, morrerá poucas horas depois. É possível que o “bondoso” deixe ainda alguma esmolinha para o enterro.
Ironias à parte, qualquer pessoa lúcida é capaz de compreender que isto é o que fazem conosco os bonachões de que estamos falando.

Pe. Francisco Faus - O homem de bem

domingo, 26 de maio de 2013

A festa da comunhão

A solenidade da Santíssima Trindade é ocasião para celebrarmos a comunhão que existe em Deus, bem como a união que construímos na comunidade de fé.
No evangelho, Jesus havia acabado de falar aos discípulos sobre sua partida. Eles ficaram tristes, pois não tinham compreendido o sentido dessa partida. Jesus se entrega até a morte, para deixar com seus seguidores o Espírito da verdade.
É esse Espírito, presente no Filho e em nós, que nos permite continuar hoje a missão de Jesus. Mas o que significa dizer que o Espírito é verdade? A palavra "verdade" na Bíblia tem o sentido de "fidelidade". Isso quer dizer que somos verdadeiros ou falsos à medida que somos fiéis ou infiéis. Mas fiéis a quem e ao quê?
Fiéis ao próprio Jesus e à missão que ele veio revelar, revelando assim o próprio Deus.
Somente o Espírito da verdade, diz-nos Jesus, pode nos conduzir à plena verdade. Pois Deus, na comunhão e no amor de suas três pessoas, é um mistério que não conseguimos compreender plenamente. Dia a dia, animados pelo Espírito, construindo e vivendo relações de amor e fraternidade, podemos ir experimentando e compreendendo o amor de Deus, sendo fiéis àquele que nos mostrou plenamente o que significa amar.
O Espírito da fidelidade, portanto, permite-nos recordar hoje as palavras e ações de Jesus, de modo que também nós possamos falar e agir segundo o mesmo amor revelado pelo Filho. Pois o Espírito, sopro de Deus em nós, é movimento e transformação. E se o Espírito nos anima, a questão é como estamos sendo fiéis ao Deus que é comunhão de amor. Em outras palavras, como estamos construindo comunhão entre nós, ajudando os que estão na miséria e no esquecimento, acolhendo os que estão afastados ou excluídos. Afinal, nosso louvor ao Deus Trindade tem o tamanho exato da comunhão que nosso amor constrói.

Pe. Paulo Bazaglia, ssp

sexta-feira, 24 de maio de 2013

O "santo do cotidiano"


Há uma doutrina cristã maravilhosa, que São Josemaría Escrivá, como instrumento de Deus, proclamou com uma clareza e uma força tão grandes, que acendeu chamas de alegria e de amor em milhares de pessoas comuns – cristãos “vulgares” – em todo o mundo. A missão que Deus lhe confiou consistia em contribuir para que os cristãos comuns, que vivem no meio do mundo, compreendessem “que a sua vida, tal como é, pode vir a ser ocasião de encontro com Cristo: quer dizer, que é um caminho de santidade e de apostolado. Cristo está presente em qualquer tarefa humana honesta: a vida de um simples cristão – que talvez a alguns pareça vulgar e acanhada – pode e deve ser uma vida santa e santificante”.


E como conseguir viver esse ideal? São Josemaría mostrava o caminho: “Fazei tudo por amor –dizia -. Assim não há coisas pequenas: tudo é grande. – A perseverança nas pequenas coisas, por Amor, é heroísmo”. E aplicava esta doutrina – que é inspirada no Evangelho e em São Paulo ( se não tiver amor, nada me aproveita...: 1 Cor,13,3) – a todas as coisas cotidianas boas e normais: podemos sorrir, por amor, quando não temos vontade mas os outros precisam de “caras sorridentes”; podemos acabar, por amor, um trabalho que gostaríamos de interromper por cansaço; podemos colocar a roupa no seu lugar, oferecendo esse sacrifício a Deus, em vez de jogá-la em cima da cama ou no chão; podemos rezar as orações que nos propusemos, ainda que nos custe concentrar-nos, porque não queremos furtar a Deus, com desculpas de cansaço (que não teríamos para um jogo de futebol ou para assistir à telenovela) esses momentos que são para Ele... São Josemaria Escrivá, quando estava nesta terra, ajudava as pessoas – e também agora continua a ajudá-las lá do Céu– a converter, com a graça de Deus, todos os momentos e circunstâncias da vida em ocasião de amar e de servir, com alegria e com simplicidade, e iluminar assim os caminhos da terra com o resplendor da fé e do amor.

 Para os que se propõem seriamente viver assim, a rotina é impossível. O amor e o desejo de servir fazem ver tudo como uma oportunidade única, inédita, de dar (amar é dar) algo a Deus e aos nossos irmãos. Feito com carinho, tudo se faz “novo”...

Lembro-me agora de um episódio de faz muitos anos. Fui certa vez comprar figuras de presépio a um artesão – um artista de verdade –, e lhe pedi uma figura igual a outra que ele tinha lá numa prateleira do ateliê. Disse-me rotundamente que não. Perguntei: "Mas não conserva o molde?" Ao ouvir essas palavras, levantou-se indignado, como se eu o houvesse ofendido, e gritou: “Molde! ...Molde!.. Eu não tenho molde. Cada figura é única e irrepetível”... Se cada dia nosso fosse assim, sem “molde” rotineiro, sem ser uma “peça em série” , que maravilha...!

Neste sentido é que Mons. Escrivá dizia: -“Não esqueçam nunca: há algo de santo, de divino, escondido nas situações mais comuns, algo que a cada um de nós compete descobrir... Deus espera-nos cada dia: no laboratório, na sala de operações de um hospital, no quartel, na cátedra universitária, na fábrica, na oficina, no campo, no seio do lar e em todo o imenso panorama do trabalho”. “A vocação cristã consiste em transformar em poesia heróica a prosa de cada dia”.

E, ao falar disso, insistia com especial ênfase na santificação do trabalho. Incutia nas almas o ideal de realizar o trabalho por amor a Deus e com o empenho de servir ao próximo: trabalho bem feito, acabado, caprichado nos detalhes, digno de ser colocado no altar do coração e oferecido juntamente com Jesus-Hóstia na Santa Missa. Toda a vida do cristão se converteria assim numa Missa. É a isso que todos nós deveríamos aspirar.

Já imaginou como tudo mudaria se, ao terminar cada um dos nossos dias e fazer a nossa oração da noite, pudéssemos dizer: – «Amanhã vou começar um outro dia, uma nova etapa da minha “vida diária”. Mas agora já não vou encará-lo aborrecido, suspirando e dizendo: “mais um”. Não! Ajudado por Deus, vou entrar nele com a luz que Jesus acendeu no meu coração, e direi, com alegria: “Hoje começa mais um dia, novinho em folha, por estrear. Hoje se me apresenta mais uma ocasião de amar e de servir. Vou me esforçar – rezando, mantendo o mais possível a presença de Deus – por conseguir que o meu amor introduza belas novidades, atitudes renovadoras, na minha rotina de todos os dias”.

Pe. Franciscus Faus - Meditação sobre a ressurreição

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Pe. Gabriele Amorth - Alerta quanto ao importante avanço do demônio

Pe. Gabriele Amorth, famoso exorcista

Exorcista da diocese de Roma: alerta quanto ao importante avanço do demônio
            O Revmo. Pe. Gabriele Amorth, da Pia Sociedade de São Paulo, muito apreciado na Itália por seus livros sobre Nossa Senhora e sua atividade jornalística - seu programa na Radio Maria peninsular conta com 1.700.000 ouvintes -, tornou-se mundialmente conhecido com o lançamento de sua obra Um exorcista conta-nos, em 1990. Tal obra alcançou notável êxito editorial na Itália, tendo sua tradução portuguesa obtido várias edições. A partir de então, a mídia internacional vem focalizando a atuação desse sacerdote, nomeado Presidente da Associação Internacional dos Exorcistas.
            Solicitadíssimo por inúmeras pessoas necessitadas de amparo contra as insídias diabólicas, o Pe. Amorth exerce intenso e extenuante trabalho apostólico. Mesmo assim, marcou um horário para receber nosso enviado especial, Sr. Nestor Fonseca, a quem acolheu amavelmente, juntamente com o fotógrafo, Sr. Kenneth Drake, na Casa-Mãe da Pia Sociedade de São Paulo, na Cidade Eterna, no dia 26 de junho último. E durante aproximadamente duas horas foi respondendo, com a segurança de um zeloso e experimentado exorcista, às múltiplas e complexas questões que lhe foram sendo apresentadas. Abaixo transcrevemos partes da substanciosa entrevista.
Catolicismo - Todas as pessoas sofrem as insídias e as tentações diabólicas, acontecendo de uma mesma tentação voltar a se repetir muitas vezes. Podemos dizer que tal tentação torna-se um estado de perseguição do demônio?
Pe. Amorth - Devemos distinguir a ação ordinária da ação extraordinária do demônio. A ação ordinária é a de tentar-nos. Por conseguinte, todo o campo das tentações pertence à ação ordinária diabólica à qual todos somos sujeitos e o seremos até a morte. A tal ponto somos sujeitos a essas tentações, que Jesus Cristo, fazendo-se Homem, aceitou ser tentado por Satanás, não apenas nas três tentações do deserto, mas durante toda a sua vida, como também ocorreu com Maria Santíssima. Isto porque a tentação faz parte da condição humana. Esta é a ação ordinária do demônio, como dizia o Catecismo de São Pio X, “por ódio a Deus, [o demônio] tenta o homem ao mal”. Ou seja, por ódio a Deus, o demônio gostaria de arrastar-nos todos para o inferno.
A ação extraordinária, por sua vez, é uma ação rara. É aquela na qual o demônio causa distúrbios particulares. Portanto, não se trata de simples tentação. Distúrbios particulares que podem chegar  à possessão diabólica.
Catolicismo  -  Que tipos de distúrbios podem ocorrer? V. Revma. poderia classificá-los e, ao mesmo tempo, dar as razões da existência de tais distúrbios?
Pe. Amorth - Não existem dois casos iguais. Já fiz mais de 40 mil exorcismos. Entendamo-nos. Não a 40 mil pessoas, pois em muitas delas eu fiz centenas e centenas de exorcismos. Pois livrar uma pessoa do demônio, geralmente, constitui um trabalho MUITO lento.
Como escrevi em meu livro Um exorcista conta-nos, fico bastante contente quando uma pessoa se livra do demônio, após quatro ou cinco anos de exorcismos, com a média de um exorcismo por semana. Conheço pessoas que ficaram livres do demônio após 12 ou 14 anos de exorcismos seguidos. Portanto, muitos exorcismos feitos à mesma pessoa.
Uma pessoa pode levar vida normal com sofrimentos, de maneira que aqueles com os quais convive nem se dêem conta de que está possessa. Apenas quando sobrevêm os momentos de crise, então ela se comporta de uma maneira inteiramente anormal, não podendo cumprir seus deveres de trabalho, de família, sem excessiva dificuldade. Em alguns casos, a pessoa pode ser assaltada pelo demônio, digamos, 24 horas ao dia. Em tal caso, a pessoa não pode fazer nada. Mas são casos raríssimos.
Normalmente o demônio apenas em certos momentos investe contra a pessoa e se manifesta, sobretudo quando é obrigado a fazê-lo durante o exorcismo.

Catolicismo  - E qual é a causa para que o demônio permaneça mais ou menos tempo na mesma pessoa?

Pe. Amorth - A expulsão do demônio depende de uma intervenção extraordinária de Deus. Ou seja, cada expulsão do demônio constitui um verdadeiro milagre. E Deus pode praticá-lo a qualquer momento. Nós, exorcistas, podemos prever, através de algo que nos oriente, quanto tempo ser-nos-á necessário para expulsar o demônio de uma pessoa. Por exemplo, uma criança. É mais fácil expulsar o diabo de uma criança que de um adulto. O mesmo passa-se em relação a uma pessoa que nos procura logo após ter sido possuída, uma vez que o demônio ainda não teve tempo de deitar raízes naquela pessoa. O primeiro exorcismo fala em “erradicar e expulsar o demônio”.
Ao contrário, torna-se muito mais difícil quando sou procurado por pessoas de 50, 60 anos, e ao fazer-lhes exorcismos falando com o demônio - pois eu falo diretamente com o demônio quando a pessoa está endemoninhada -, descubro que às vezes a pessoa era criança ou ainda se encontrava no próprio seio materno quando sofreu os primeiros ataques do Maligno.

Catolicismo -  V. Revma., há pouco, referindo-se à expulsão do demônio de um possesso, disse que ela constitui sempre uma intervenção extraordinária de Deus...
Pe. Amorth - Certo. A libertação de uma pessoa da ação do demônio constitui sempre uma intervenção extraordinária de Deus. Aliás, tenho disso um exemplo, ocorrido na semana passada. Um caso muito difícil de possessão diabólica e eu tinha razões suficientes que levavam a prever muitos anos de exorcismos para se libertar aquela alma das garras do demônio.
Acontece que tal pessoa foi ao Santuário de Lourdes, na França, tomou banho na piscina, acompanhou a procissão do Santíssimo Sacramento, rezou muito. Resultado: um milagre! Voltou para casa completamente livre da possessão.
Catolicismo  - V. Revma. poderia dar uma explicação a nossos leitores, ainda que sucinta, da necessidade do exorcismo e dos exorcistas?
Pe. Amorth - O exorcismo é constituído de várias orações oficiais feitas em nome da Igreja, e Deus ouve essas orações. Com efeito, existem tantas razões para isso! O exorcismo depende muito das causas que determinaram a possessão diabólica, uma vez que estas exercem muita influência sobre o possesso. Dou-lhe um exemplo simples.
Se uma pessoa se consagrou a Satanás e fez o pacto de sangue com ele, é fácil entender que ela praticou um ato voluntário de doação de si mesma ao Maligno. Então, libertar tal pessoa torna-se muito mais difícil, faz-se necessário muito mais tempo do que o empregado para libertar um inocente, que foi vítima de um malefício causado por outra pessoa.
Catolicismo - Pelo que V. Revma. afirmou acima, o exorcismo não constitui o único modo de uma pessoa fazer cessar a possessão. Haveria outras?  Porque com a atual dificuldade em encontrar exorcistas…
Pe. Amorth - Pode-se libertar da possessão com o exorcismo, que é uma oração oficial da Igreja, mas reservada aos exorcistas - pouquíssimos, quase inencontráveis. Outra forma, aberta a todos,  são as orações de libertação. No final de meus livros eu acrescento orações de libertação que sugiro. As orações mais eficazes são as de louvor, glória a Deus. Assim nós também muitas vezes, nos próprios exorcismos, recitamos o Credo, o Glória, o Magnificat, Salmos, trechos da Bíblia, o Evangelho em que Jesus liberta os endemoninhados. Elas têm grande eficácia.
Catolicismo - Os demônios têm nomes?
Pe. Amorth - Quando constringidos pelo exorcista a dizer seus nomes, costumam apresentá-los. Os que têm nomes bíblicos ou de tradição bíblica, são demônios fortes e é muito mais trabalhoso exorcizá-los. Continuamente dão nomes como Satanás, Asmodeu, Lilite, denominações igualmente importantes. O nome Lúcifer é de tradição bíblica e não um nome bíblico. Ou seja, nós o atribuímos à Bíblia, mas esta não cita Lúcifer. Encontramos freqüentemente um demônio de nome Zabulom. O nome Zabulom, encontramo-lo na Bíblia, mas nunca como demônio. Zabulom é uma das 12 tribos de Israel. Há um demônio, porém, que tomou posse desse nome e é um demônio fortíssimo.
Encontramos nas Sagradas Escrituras o demônio Asmodeu. Deparo-me muitíssimas vezes com ele, porque é o demônio que destrói  os casamentos. Ele rompe os matrimônios ou os impede. É tremendo!  
  Uma pessoa possuída ou possessa, in genere, pode estar dominada por muitos demônios. Temos um exemplo no Evangelho, quando Nosso Senhor interroga os endemoninhados de Gerasara e  pergunta: “Como te chamas?” E o demônio responde: “legião”, porque são muitos.
  Lembro o caso de um demônio fortíssimo que possuía uma freira, uma possessão tremenda (às vezes, são vítimas que se oferecem pela conversão dos pecadores e sofrem esta espécie de possessão). Quando eu lhe perguntava o número, respondia-me: “Milhares!” “Milhares!” “Milhares!”
Catolicismo - A TV, de um modo geral, com programas incentivadores de práticas de magia e espiritismo, bem como desagregadores das tradições cristãs e da família, têm colaborado ponderavelmente para o incremento do satanismo? E o rock satânico, tem concorrido para a disseminação do poder do demônio?
Pe. Amorth - Quando foi inventada a televisão, o Padre Pio ficou furioso. E a quem lhe dizia que se tratava de uma magnífica invenção, ele respondia: “Verá que uso farão dela!” Com efeito, a TV é corrupção da juventude e igualmente dos velhos! Ouso acrescentar: é também a corrupção dos padres, dos sacerdotes e das freiras. Com os espetáculos contínuos de sexo, de horror, de violência... A Internet é ainda pior, a Internet é ainda pior, repito.
  Certa vez, ao fazer um exorcismo, falando com o demônio, ele dizia: “A televisão, fui eu que a inventei!” Eu afirmava: “Não! Tu és um mentiroso! A televisão é uma grandíssima invenção do homem. Tu inventaste o mau uso dela, a fim de corromper as pessoas”.
Todos sabemos que existe o nudismo. Todos sabemos que haverá [já houve, em Roma], dentro de alguns dias, uma manifestação de homossexuais! Uma demonstração do vício, o pecado que isso representa! Ali está, não há dúvida, a ação do demônio.
  No caso acima, existe a atividade ordinária do demônio de tentar o homem, mas também a atividade extraordinária do demônio, que se serve da ocasião para possuir as pessoas que promovem essas coisas.
  Quanto ao rock satânico, é tremendo. Pode conduzir à possessão diabólica porque ensina o culto a Satanás. E pouco a pouco, através do culto a Satanás, chega-se a ser possuído por ele. Satanás é esperto, introduz-se sem nunca fazer-se sentir. Pode-se começar com simples jogos de cartas, de tarôs, e, através dos jogos, saber se vai ganhar na loteria, adivinhar acontecimentos, doenças de amigos. E, pouco a pouco, vai-se sendo possuído pelo demônio. O diabo age assim: atua sem se fazer sentir
Catolicismo - As doutrinas marxistas e sua aplicação concreta contribuem, de modo considerável, para a difusão do satanismo na sociedade contemporânea?

Pe. Amorth - Sim. Tenhamos presente que assim como o demônio pode  possuir uma pessoa, pode igualmente possuir uma classe de pessoas,  pode assumir o governo de uma nação.
  Exemplifico. Estou convicto de que Hitler, Stalin, eram possuídos pelo demônio e que o nazismo - em massa - era possuído pelo Maligno. Auschwitz, Dachau: não podem ser explicadas as atrocidades cometidas nesses lugares sem se cogitar numa perfídia verdadeiramente diabólica. E não há nenhuma dúvida de que o demônio influiu muitíssimo no mundo cultural. O demônio quer distanciar o homem de Deus.
  Por outro lado, tivemos pela primeira vez na História um fenômeno profetizado em Fátima - 1917, 13 de julho -, a aparição mais importante de Nossa Senhora em Fátima, aquela na qual encontram-se os segredos e em que Nossa Senhora fez ver o inferno. Nessa ocasião, entre outras coisas, profetizou: “Se não obedecerem minhas palavras, a Rússia espalhará seus erros pelo mundo”. Nunca aconteceu que o povo tivesse sido instruído para o ateísmo. Em Moscou, entretanto, existia uma Universidade do ateísmo, na qual se formavam os participantes do Partido e se ensinava como atuar para destruir a religião em uma nação religiosa. Jamais, no passado da humanidade, ensinou-se o ateísmo. Foi uma novidade de nosso século, devido ao comunismo que espalhou o ateísmo por todo o mundo.
Catolicismo  - A falta de fé seria a principal e mais profunda causa do aumento do poder satânico no mundo atual?
Pe. Amorth - Sempre. É matemático. Examinando toda a história do Antigo Testamento, a história de Israel, quando esta abandona Deus, entrega-se à idolatria. É matemático, quando se abandona a Fé, entregamo-nos à superstição. Isto aplica-se, em nossos dias, a todos nós do mundo ocidental.          
  Tomem as velhas nações da Cristandade medieval. A católica Itália, a França, a Espanha, a Áustria, a Irlanda, que uma vez foram nações cujo catolicismo era forte. Agora o catolicismo tornou-se fraquíssimo. Na Itália, de 12 a 14 milhões de italianos freqüentam atualmente sessões de bruxaria e cartomantes. Há no país aproximadamente 65.000 bruxos e cartomantes, muito mais que o número de sacerdotes.
Existem também na Itália de 600 a 700 seitas satânicas. E 37% da juventude italiana participaram algumas vezes de sessões espíritas, acreditando ser um mero jogo...
  Um movimento dirigido por um sacerdote ensina aos pais como falar com seus filhos falecidos... Isto é espiritismo puro. Em outros tempos o espiritismo exercia-se através de um médium em estado de transe, e o médium evocava a pessoa.
O espiritismo consiste em evocar um defunto para interrogá-lo e obter dele respostas. Agora não é mais necessária a presença do médium, pois pratica-se o espiritismo através do gravador, do televisor e da Internet... Os dois meios mais usados são gravadores e escritura automática. A página mais lida dos jornais é o horóscopo... e os quotidianos não são comprados pelos analfabetos. São os industriais, os políticos, que não tomam decisões sem antes ouvir um bruxo. Ou seja, sempre que diminui a Fé, aumenta a superstição.
  Por exemplo, faz-se um referendum na Itália para a defesa da família, vence o divórcio; faz-se um referendum em defesa da vida, vence o aborto. E isto na católica Itália... Não nos espantemos, Satanás é poderoso. Nosso Senhor o chama por duas vezes “Príncipe deste Mundo”.  São Paulo o chama “Deus deste mundo”. São João diz: “Todo mundo jaz sob o poder do Maligno”. E quando o demônio tenta Nosso Senhor, leva-O ao alto do monte, fá-Lo ver os reinos da Terra, e diz: “São meus, e os dou a quem quero e se tu te ajoelhares diante de mim...” . Jesus não lhe responde: “Tu és um mentiroso, todos os reinos são de meu Pai. É Ele quem dá a quem quiser”. Não, não. A Escritura diz: “Tu ajoelhar-te-ás somente ante teu Deus”. Nosso Senhor não contradiz o demônio.
  Hoje tantos ajoelham-se diante de Satanás para obter sucesso, prazer, riquezas - as três grandes paixões do homem! E o demônio oferece o sucesso, o prazer, a riqueza, mas sempre unidos a terríveis sofrimentos.  Vemos o sucesso, vemos o dinheiro. Imaginamos que aquela pessoa é feliz. Não é verdade, pois o demônio só pode praticar o mal. Por conseguinte, as pessoas que se entregam ao demônio têm o inferno nesta vida e na outra. Aqui um inferno dourado, mascarado de sucesso, e depois... o fogo eterno!
Catolicismo -  Qual a influência do chamado progressismo católico nessa decadência da virtude teologal da fé?
Pe. Amorth -  Hoje, infelizmente, existem teólogos e exegetas que negam até mesmo os exorcismos de Nosso Senhor. No meu último livro - Exorcismos e Psiquiatras - dedico um  capítulo aos exorcistas franceses; apenas cinco de um total de 105 crêem e fazem exorcismos, os outros... não crêem neles. Em um de seus congressos, convidaram para falar exegetas que negam os exorcismos de Nosso Senhor. Afirmam eles tratar-se de uma linguagem apenas cultural e que o Redentor adaptava-se à mentalidade da época, mas que, na verdade, aquelas pessoas eram apenas loucas e não possessas.
  Essas prédicas de exegetas influíram nos espíritos dos Bispos, dos padres etc.
Catolicismo - Quais as razões que levam Bispos católicos a se desinteressarem inteiramente da temática demônio, abandonando assim os fiéis à ação preternatural, crescente nos dias atuais?
Pe. Amorth  -- Não há razão para se impressionar com minha resposta. No Evangelho, Nosso Senhor diz: “O demônio é fortíssimo”. Isto está muito claro. É fortíssimo e conseguiu, com sua habilidade, fazer-nos crer que [ele] não existe, coisa que mais lhe agrada. Porque pôde realizar isso nestes séculos - pois já faz três séculos que faltam exorcistas. E isso explica meu combate aos Bispos, aos padres que não crêem na ação do demônio. Eu os critico fortemente.
  Julgo que 90% dos padres e dos Bispos não crêem na ação extraordinária do demônio. Talvez existam alguns! TALVEZ, TALVEZ. No Concílio Vaticano II, alguns Bispos já afirmavam que não existia!...  Durante o Concílio, hein! Diante da Assembléia Conciliar! Repito: tenho por certo que 90% dos Bispos e sacerdotes não crêem na ação extraordinária do demônio.
  Razão pela qual há três séculos, na Igreja latina, verifica-se uma escassez espantosa de exorcistas. Na Alemanha, nenhum! Na Áustria, nenhum! Na Suíça, nenhum! Na Espanha, nenhum! Em Portugal, nenhum! Quando eu digo “nenhum”, não estou afirmando que não existam um, dois, mas de tal maneira não são encontrados, que os considero como inexistentes.
Em uma cidade européia, importante centro de peregrinação, temos uma livraria Paulina.  Quando lá estive, dei-me conta, através de um livreiro amigo, que dispunham de meu livro na livraria, mas escondido. “Os Bispos disseram-nos para tê-lo escondido, e não expô-lo! De não expô-lo!”
  Por outro lado, há muitos Bispos que não nomearam exorcistas. Um Prelado famoso - o Cardeal Todini, que foi Arcebispo de Ravena -, numa transmissão televisiva jactou-se de nunca ter nomeado exorcistas! Esta, infelizmente, é a situação na qual nos encontramos.
Catolicismo - V. Revma. baseia-se em alguma escola espiritual, em algum Santo, para tomar uma posição tão louvável quanto destemida?
Pe. Amorth - Eu procuro seguir a linha iniciada por um santo espanhol, o Beato Francisco Palau, carmelitano, que já em 1870 veio a Roma falar sobre o exorcismo com o Papa Pio IX. Voltou depois a Roma durante as sessões do Concílio Vaticano I, para que se tratasse da necessidade de exorcistas. Com a interrupção daquele Concílio em razão da tomada de Roma, o assunto sequer foi levantado.
Catolicismo - Pe. Amorth, que conselho V. Revma. poderia dar-nos  e a  nossos caros leitores para nos precavermos contra eventuais malefícios (macumbas, por exemplo) que se queiram fazer para nos prejudicar?
Pe. Amorth - O conselho número um consiste em ter fé. Depois, viver na graça de Deus. Se se vive em estado de graça,  está-se protegido, é mais difícil que a macumba nos atinja. Porém, se se é realmente atingido, é necessário recorrer-se aos exorcismos, a muitas orações, a muitos sacramentos e, com a graça de Deus, se é libertado. Mas pode ser que Deus permita que se continue no estado de possessão, para o bem espiritual da própria pessoa. Assim, São João Crisóstomo afirma que o demônio, malgrado ele próprio, é o grande santificador das almas…

FONTE: Internet

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