terça-feira, 21 de maio de 2013

A ousadia de deixar se conduzir pelo Espírito Santo




Vivemos numa situação de crise e, entre surpresos e perplexos, constatamos um processo de profundas transformações. Muitas são as indagações que brotam da experiência dos homens e das mulheres do nosso tempo. Inúmeras, as sementes de vida e de esperança entranhadas no nosso cotidiano que, ansiosamente, atendem o momento propício da germinação. Estamos convencidos de que o projeto evangélico de Francisco de Assis goza de uma atualidade surpreendente. Ele tem despertado em todas as culturas e épocas fascínio e acolhida. Seremos capazes, também nós, de encarnar o projeto evangélico de Francisco? Estamos dispostos a oferecer-lhe aquela concreção singular capaz de contagiar alma e corpo, vida e palavra, atitudes pessoais e relacionais?


O Vaticano II convocou-nos à recuperação do nosso carisma inspiracional. Desde então, temos nos empenhado em redescobrir nossa identidade franciscana, mediante o estudo das “Fontes Franciscanas”, e em repropô-la em nossas legislações e documentos recentes. Nossa maior dificuldade, todavia, tem sido encarnar de maneira significativa aqueles valores nos quais cremos e que publicamente professamos. Precisamos estabelecer com a nossa mais genuína tradição uma relação de “fidelidade criativa”. Não basta se debruçar sobre os textos franciscanos. Eles surgiram como fruto da experiência concreta de Francisco e de seus primeiros companheiros. Testemunham o esforço deles em encarnar o evangelho em meio à realidade desafiante dos inícios do século XIII.

Celano escreve que Francisco “fez do seu corpo uma língua” (1Cel 97). Pois compreender é bem mais do que simplesmente explicar. Não que a explicação se oponha à reta compreensão. No entanto, muitas de nossas explicações, ao invés de conduzir-nos à aplicação, nos detêm numa prazerosa “masturbação intelectual”, responsável por situações de perniciosa estagnação. Importa recuperar o princípio evangélico de que é pelo fruto que se conhece a árvore. Não se trata, portanto, de condicionar o ser ao fazer quanto de perceber que o ser se revela e se verifica no fazer.

Não estamos imunes à onda do pragmatismo e do eficientismo. Preocupamo-nos demasiadamente com a visibilidade e, não raras vezes, assumimos atitudes triunfalistas e prepotentes. Francisco recorda que somos chamados a ser irmãos e menores e que nisto consiste propriamente nossa missão evangelizadora. Importa recuperar a gratuidade fundamental da nossa existência, expressão do dom livre e desinteressado de Deus. Discernir em cada situação a presença discreta de Deus que nos desafia e interpela.

Ver as diferenças não como ameaça à unidade, nem como sintoma de uma comunhão perdida. Acolhê-las, ao contrário, como expressão da multiforme e fecunda graça de Deus. Não apenas suportá-las, numa atitude de indiferença, por vezes, reveladora de uma tácita cumplicidade. Mas assumi-las como ocasião propícia para se deixar surpreender pelo Deus de Jesus. Isso só é possível para aqueles que, sabiamente, aprenderam a suspeitar de si mesmos e dos próprios projetos. E perceberam que a diferença do outro, muitas vezes, pode se tornar oportunidade privilegiada de enriquecimento e de amadurecimento.

Para tanto, é necessário que nos proponhamos a reconstruir nossa identidade interior. Resgatar o mistério da própria vocação mediante a escuta silenciosa da Palavra de Deus e a participação devota à Eucaristia. Redescobrir, através da leitura atenta e da meditação da Palavra de Deus, que Ele irrompe na nossa vida cotidiana de formas e modos cada vez novos e que nos interpela a realizar sua vontade.
Celebrar a Eucaristia como memória do Mistério pascal de Cristo que se recria na vida de cada um de nós e das nossas fraternidades. Somente em tal caso a Eucaristia será experimentada como aquele alimento que nos revigora no esforço em “fazer o que sabemos que Ele quer e de querer sempre o que lhe agrada” (Carta a toda a Ordem, 50). Somente enquanto alicerçados sobre uma formação espiritual sólida, seremos capazes de reconciliar as diversidades presentes em nossas fraternidades e províncias.

Somos chamados, hoje mais do que nunca, a recuperar os votos na sua força libertadora. Não são, em primeiro lugar, sinais de uma carência que deve ser abraçada numa atitude de ascetismo heróico. São, na verdade, expressão de um amor maduro, desinteressado, generosamente predisposto a suportar todo e qualquer sacrifício. Não devemos, portanto, nos comportar como pessoas castradas na sua humanidade. Os votos, quando vividos na sua integralidade, deixam transparecer aquela humanidade mais genuína que, como germe, se esconde no âmago de cada um. Eles testemunham uma sadia experiência de êxodo: libertam-nos da idolatria do poder, do ter e do prazer egocêntricos e nos propiciam o encontro com o outro na sua irredutível diferença.

Olhando para a realidade das nossas províncias, surge quase espontaneamente a pergunta: “Será mesmo necessário agir sozinho para poder ser criativo?”. O que fazer para não nos deixarmos sucumbir face à tentação sedutora da estagnação ou da estéril repetição do passado? Somos suficientemente contemplativos a ponto de discernir em cada acontecimento uma senda que conduz a Deus e de acolher com generosidade os inúmeros apelos que Ele nos lança em meio a tantas situações que constituem o nosso cotidiano mais ordinário? O que fizemos daquela ousadia que nos fez abraçar a vida franciscana? Por que nossas fraternidades se deixam contaminar pelo vírus de um uniformismo que amesquinha e asfixia?

Entre tantos desafios que nos são colocados, talvez o maior de todos seja justamente o de restituir credibilidade ao nosso projeto de vida. E isto requer ousadia. Não podemos nos omitir nem mesmo postergar esta incumbência às gerações futuras. É fundamental que assumamos uma atitude de diálogo com nossos reais interlocutores. Que estejamos dispostos a ouvi-los com respeito e caridade, conscientes de que temos tanto a aprender deles. Que saibamos discernir, a exemplo dos nossos pais na fé, “as sementes do Verbo”, a secreta presença de Deus no mundo moderno e nas demais religiões e culturas. Que estejamos abertos a promover, juntamente com todos os seres humanos de boa vontade, relações mais justas e fraternas, no respeito pela liberdade e dignidade de cada pessoa.

Esta atitude dialógica assume feições muito concretas no relacionamento com os jovens que pedem para serem admitidos à nossa experiência de vida. Não há dúvida de que cabe a nós propor-lhes a riqueza da nossa tradição cristã e franciscana. É preciso, todavia, respeitar e valorizar a “recepção criativa” testemunhada por eles ao encarnar o carisma franciscano nas concretas situações em que vivem e segundo desafios e indagações inusitados. Não tem sido esta a dinâmica do processo histórico de constituição da nossa mais genuína tradição franciscana?

Estamos imersos num mundo em constante transformação. Precisamos vencer o medo e a inércia que paralisa nosso caminhar. Para estarmos à altura dos inúmeros desafios do tempo presente é preciso, em primeiro lugar, alargar nossos horizontes para além das preocupações com a própria sobrevivência e com a eficiência antropocêntrica. Necessário se faz, portanto, rever nossos critérios e projetos. Somos convocados a fazer memória do nosso passado, deixando Cristo irromper em nossa vida através do Seu Espírito Vivificante. Francisco dizia que o Ministro Geral da Ordem era o Espírito Santo. A razão de tal escolha não residiria propriamente no fato de ser Ele aquele que “faz novas todas as coisas”? T

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