sexta-feira, 24 de maio de 2013

O "santo do cotidiano"


Há uma doutrina cristã maravilhosa, que São Josemaría Escrivá, como instrumento de Deus, proclamou com uma clareza e uma força tão grandes, que acendeu chamas de alegria e de amor em milhares de pessoas comuns – cristãos “vulgares” – em todo o mundo. A missão que Deus lhe confiou consistia em contribuir para que os cristãos comuns, que vivem no meio do mundo, compreendessem “que a sua vida, tal como é, pode vir a ser ocasião de encontro com Cristo: quer dizer, que é um caminho de santidade e de apostolado. Cristo está presente em qualquer tarefa humana honesta: a vida de um simples cristão – que talvez a alguns pareça vulgar e acanhada – pode e deve ser uma vida santa e santificante”.


E como conseguir viver esse ideal? São Josemaría mostrava o caminho: “Fazei tudo por amor –dizia -. Assim não há coisas pequenas: tudo é grande. – A perseverança nas pequenas coisas, por Amor, é heroísmo”. E aplicava esta doutrina – que é inspirada no Evangelho e em São Paulo ( se não tiver amor, nada me aproveita...: 1 Cor,13,3) – a todas as coisas cotidianas boas e normais: podemos sorrir, por amor, quando não temos vontade mas os outros precisam de “caras sorridentes”; podemos acabar, por amor, um trabalho que gostaríamos de interromper por cansaço; podemos colocar a roupa no seu lugar, oferecendo esse sacrifício a Deus, em vez de jogá-la em cima da cama ou no chão; podemos rezar as orações que nos propusemos, ainda que nos custe concentrar-nos, porque não queremos furtar a Deus, com desculpas de cansaço (que não teríamos para um jogo de futebol ou para assistir à telenovela) esses momentos que são para Ele... São Josemaria Escrivá, quando estava nesta terra, ajudava as pessoas – e também agora continua a ajudá-las lá do Céu– a converter, com a graça de Deus, todos os momentos e circunstâncias da vida em ocasião de amar e de servir, com alegria e com simplicidade, e iluminar assim os caminhos da terra com o resplendor da fé e do amor.

 Para os que se propõem seriamente viver assim, a rotina é impossível. O amor e o desejo de servir fazem ver tudo como uma oportunidade única, inédita, de dar (amar é dar) algo a Deus e aos nossos irmãos. Feito com carinho, tudo se faz “novo”...

Lembro-me agora de um episódio de faz muitos anos. Fui certa vez comprar figuras de presépio a um artesão – um artista de verdade –, e lhe pedi uma figura igual a outra que ele tinha lá numa prateleira do ateliê. Disse-me rotundamente que não. Perguntei: "Mas não conserva o molde?" Ao ouvir essas palavras, levantou-se indignado, como se eu o houvesse ofendido, e gritou: “Molde! ...Molde!.. Eu não tenho molde. Cada figura é única e irrepetível”... Se cada dia nosso fosse assim, sem “molde” rotineiro, sem ser uma “peça em série” , que maravilha...!

Neste sentido é que Mons. Escrivá dizia: -“Não esqueçam nunca: há algo de santo, de divino, escondido nas situações mais comuns, algo que a cada um de nós compete descobrir... Deus espera-nos cada dia: no laboratório, na sala de operações de um hospital, no quartel, na cátedra universitária, na fábrica, na oficina, no campo, no seio do lar e em todo o imenso panorama do trabalho”. “A vocação cristã consiste em transformar em poesia heróica a prosa de cada dia”.

E, ao falar disso, insistia com especial ênfase na santificação do trabalho. Incutia nas almas o ideal de realizar o trabalho por amor a Deus e com o empenho de servir ao próximo: trabalho bem feito, acabado, caprichado nos detalhes, digno de ser colocado no altar do coração e oferecido juntamente com Jesus-Hóstia na Santa Missa. Toda a vida do cristão se converteria assim numa Missa. É a isso que todos nós deveríamos aspirar.

Já imaginou como tudo mudaria se, ao terminar cada um dos nossos dias e fazer a nossa oração da noite, pudéssemos dizer: – «Amanhã vou começar um outro dia, uma nova etapa da minha “vida diária”. Mas agora já não vou encará-lo aborrecido, suspirando e dizendo: “mais um”. Não! Ajudado por Deus, vou entrar nele com a luz que Jesus acendeu no meu coração, e direi, com alegria: “Hoje começa mais um dia, novinho em folha, por estrear. Hoje se me apresenta mais uma ocasião de amar e de servir. Vou me esforçar – rezando, mantendo o mais possível a presença de Deus – por conseguir que o meu amor introduza belas novidades, atitudes renovadoras, na minha rotina de todos os dias”.

Pe. Franciscus Faus - Meditação sobre a ressurreição

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