quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

A cor púrpura da quaresma

É Quaresma. Um novo jeito de ser, de entender, de crer. De que a fé nasce da dúvida, disto estou certo. Agora, saber como vivenciar os desertos áridos do meu seco interior é o que me preocupa. Para evidenciar o invisível de nosso interior quaresmal, a Igreja nos veste de roxo. Os paramentos, as toalhas, os véus, as capas: tudo na liturgia deste período penitencial nos fala do sofrimento, propriamente da paixão, das dores. Noutro dia, ao entrar na Igreja, fui impactado pelo vazio do templo e uma coisa me chamou a atenção: a cor púrpura. Logo me veio à mente, estremecendo meu coração, o filme de Spielberg, “A cor púrpura”. Então me pus a meditar sobre este ‘insight’ (ou seria mesmo inspiração?).

Esta película, de 1985, é uma adaptação do livro amônimo de Alice Walker. A história se passa na Geórgia preconceituosa e desumana de 1909. A personagem Celie, protagonista, é estuprada pelo próprio pai, de quem tem dois filhos. É “comprada” por Mister (sinhô), que a trata simultaneamente como escrava e companheira. Separada ainda nova de sua melhor amiga e protetora, sua irmã Nettie, Celie fica muito solitária e compartilha sua tristeza em cartas (a única forma de manter a sanidade em um mundo onde poucos a ouvem), primeiramente com Deus e depois com a irmã.

Celie nos ensina a compreender o eterno na finitude e na dor do instante. Para ela: “A vida é curta. O Paraíso é que é eterno”. Creio que este período da Quaresma nos propõe justamente a experiência da transcendência; enxergar suas próprias dores e as dores do outro como uma janela para o céu. A vida passa, e isto é bom! Quebra a nossa indiferença. Se sei que algo bom, que me apraz, está fadado a terminar, à exemplo que um show, uma peça teatral, um balett, então tento absorve-lo ao máximo, tendo extrair o maravilhoso que me é oferecido. Ora, a vida com tudo o que nela há passa, inclusive minhas involuções, meus pecados, minha liquidez. A Quaresma tem esse poder de me fazer compreender que meu deserto e tentações não vão durar para sempre... e é por isto mesmo que presto-lhe devotada atenção. 

  A trama revela o tempo todo, a orfandade de Celie. Ela é mãe órfã, irmã órfã, mulher órfã, pessoa órfã de si. Celie aprende com a solidão que lhe é imposta a desconstruir, construir e reconstruir sua identidade e amor próprio. Muitas pessoas passam por nossas vidas e nos levam de nós. Colocam-nos em suas masmorras, seus calabouços mais secretos e ardis, e nos sufocam. Triste de tudo é quando não percebemos que no fundo, fomos nós quem nos entregamos ao raptador. Não foi tanto o nosso pecado que nos fez pecadores, nem o diabo que nos diabolizou, muito menos o traidor que nos fez sucumbir, mas fui eu, foi você, exatamente e friamente fomos nós que unimos nossas vozes a de Celie e nos deferimos a sentença: “Eles não gostam de gente muito livre. (...) Sei como é querer cantar e levar uma surra por isso”. Esse tempo quaresmal me invade de uma lucidez púrpura e me permite entender que não preciso ficar acorrentado ao passado, ao que vivi até hoje, ao que pensava até agora, ao modo de vida como tenho vivido. Deus me fez para a liberdade! Ele quer me comunicar que é meu Pai e não preciso duvidar disto. Ele me diz: “Tu é meu filho muito amado em quem ponho todo meu amor!” (Mc 1,11). É uma tentação pavorosa o fato de tendermos a não acreditar nesta verdade e insistirmos em mendigar amor por aí. Parece que ouvimos mais a insistente voz do mundo que nos força a provarmos aos outros que merecemos ser amados, do que a amorosa voz do Pai. Será que ainda falta muito para cantarmos para o Senhor o refrão de Fábio Júnior: “E eu vou esquecer de tudo, das dores do mundo. Não quero saber quem fui mas sim quem sou. E vou esquecer de tudo, das dores do mundo. Só quero saber do seu do nosso amor” ?...

O tempo quaresmal nos faz questionar: Por que tenho apanhado tanto da vida? Por que tenho sofrido? Onde devo chegar? Estou quase convencido de que a raiz de tanta angústia, de tanto pecado, está no fato de nos compararmos. Adão e Eva se compararam a Deus e quiseram ser como Ele. Caim se comparou e se achou mais importante que seu irmão Abel. O inferno começa no se comparar! Foi isto que a personagem principal do filme me ensinou. Em um diálogo com a amante do marido, Celie abre seu coração: “Ele me bate porque eu não sou você. Nunca me pergunta como eu me sinto. Nunca me pergunta sobre eu mesma”. Nisto Sartre tinha razão: “O inferno são os outros”. Aqui vai minha confissão de Quaresma: espanco meu irmão por ele não ser eu. Eu infernizo sua vida porque não consigo me interessar despretensiosamente por ele. Projeto meus demônios interiores nele, e para mim, é ele quem não presta e me faz pecar... Meu Deus! Quanta crueldade! Eu acabo fazendo a profecia de Clarice Lispector cumprir-se: “O que de pior um ser pode fazer a outro ser é adulterar-lhe a essência a fim de usá-lo”. E mais, utilizar as suas vulnerabilidades para meu prazer. Isto é que é impor a alguém a Quaresma! Quaresma forçosa. Quaresma das dores. Quaresma da alma!

A Quaresma tinha mesmo que ser da cor púrpura. A púrpura, ou roxo, foi o corante de maior renome e mais caro de todos os corantes da antiguidade pela dificuldade na sua obtenção. Era um símbolo de riqueza e distinção. Na Roma antiga só o imperador tinha o direito de usá-la. Nero chegou a punir com a morte o seu uso. Por séculos a cor púrpura era obtida através de algumas espécies de molusco nativas do Mar Mediterrâneo, o que causou extinção de algumas delas. A secreção do molusco está contida dentro de uma pequena veia ou cisto que, quando partida, expele um fluido branco. Os tecidos eram banhados neste fluido branco e postos para secar ao sol que "revela" a tintura púrpura brilhante. E não é difícil encarar o roxeado que as pancadas da vida deixam na gente? Acho que ainda não consigo deixar o meu passado passar pelo meu presente e ir-se embora de vez... Cada cicatriz interior, cada soco de falsos amigos, cada tapa da família incompreensível e exigente, cada pontapé que a humilhação de não ser tratado como filho de Deus, pessoa humana me desferiu... O mais belo da Quaresma da vida, é saber que o brilho do Sol que nos veio visitar, numa explosão de luz, vai fazer revelar nas púrpuras de minha alma a claridade e o fulgor da vitória escondida. A Quaresma só tem sentido por causa da Páscoa. A penitência só será proveitosa se transforma tudo o que em nós há de mal.

Descobri que pecado tem cor. Não, não é preto. Ele é púrpuro: “Se vossos pecados forem escarlates, tornar-se-ão brancos como a neve! Se forem vermelhos como a púrpura, ficarão brancos como a lã!” (Is 1,18).  Só Deus pode fazer que algo volte ao nada de onde veio! Se do visgo branco, ao sol, se obtinha a púrpura, nossos púrpuros pecados podem ser perdoados ao passarem pela forte Luz pascal de Cristo! Foi com este lindo diálogo que descobri o porquê de Deus gostar tanto do roxo a ponto de inspirar a sua Igreja, esposa de Cristo, a se ornar toda de púrpura enquanto espera Sua vinda gloriosa: 

“- Mais que tudo, Deus adora a contemplação.
- Deus é vaidoso?
- Vaidoso, não.
- Só gosta que admirem sua beleza.
- Deus deve ficar furioso quando você passa pela cor púrpura no campo, e nem se dá conta.
- Está dizendo que Ele só quer ser amado, como diz a Bíblia? 
- É, Celie. Tudo no mundo quer ser amado. A gente canta e dança e grita porque quer ser amada. Olha as árvores. Elas fazem tudo que a gente faz pra chamar a atenção... menos andar”.

Eu e você queremos ser amados, aceitos e compreendidos... acho que é por isso mesmo que nossa alma vai ficando roxinha, roxinha... só assim atraímos a atenção de Deus e Ele a nossa. Como é triste passar pelas dores do mundo, pelos sofrimentos que batem a nossa porta e nem dar atenção. É Deus que quer se mostrar a nós! Nem sempre é no monte Tabor, em meio a luzes translúcidas. Na ‘via crucis’ do mundo, nosso corpo é a montanha na qual Deus quer se comunicar. Já percebeu que as histórias mais bonitas e cheias de vida é a de quem mais sofreu? De quem mais traz em seu corpo dolorido as púrpuras da vida? Essa pessoa só pode ser sacramento da riqueza e distinção de Deus para com ela e o mundo. Acho que é uma forma de Deus nos atrair até Ele. Minha penitência, toda ascese que pratico e toda minha orfandade é uma forma de fazer com que o Senhor Deus volte seu compassivo olhar para mim. E se sou surpreendido pela morte, pela injustiça, pela deslealdade, pela hipocrisia é porque Deus está querendo que eu veja a vida, a mim e aos meus irmãos com outros olhos, e apesar de tudo, contemple Sua beleza em meio às mazelas do mundo. É na eucaristia do mundo que comungo do púrpuro corpo de Cristo crucificado. 

Minha Quaresma, definitivamente, é da cor púrpura. No fundo, a vida é desta mesma cor, já que é uma verdadeira e permanente Quaresma enquanto somos peregrinos neste mundo. Nossa Páscoa definitiva, a verdadeira libertação, só mesmo quando Cristo, nossa Luz, resplandecer eternamente na pátria definitiva, a Jerusalém celeste (Ap 21). “E quando amanhecer, o dia eterno, a plena visão, ressurgiremos por crer, nesta via escondida no Pão!”

PROMESSA DE CONSOLAÇÃO: “Vós sereis amamentados e ao colo carregados e afagados com carícias; como a mãe consola o filho, em Sião vou consolar-vos. Tudo isso vós vereis, e os vossos corações de alegria pulsarão; vossos membros, como plantas, tomarão novo vigor”. (Is 66, 12b-14a) 

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