domingo, 14 de fevereiro de 2016

A gula


A gula muitas vezes é tratada como um “pecadinho”, um pecado venial, que a maioria das vezes não é confessado, por ser identificado como um pecado comum.
Assim estimamos a Gula, e por conseqüência muitos os outros pecados que se deriva deste. São João Clímaco chega a dizer que a Gula é porta para todos os pecados, – isto é questionado por outros Santos Padres – e enumera uma lista de filhas destes pecados. O primeiro e a fornicação (Luxuria), segundo a dureza de coração, e ai vão, maus pensamentos, preguiça, fofoca, familiaridade excessiva (famoso abelhudo), vontade de fazer rir, brincadeira jocosidade, contestação, obstinação, desobediência, soberba, etc.
Gula não necessariamente significa comer demais, existem dois tipos de gula, que são nomeadas como Gastrimargia e Laimargia. Margia que dizer em grego loucura, gastri estomago, portando a Gastrimargia é a loucura do estomago, que se dá no consumir o alimento se preocupando com a quantidade. Enquanto a Laimargia quer dizer loucura da boca, que se dá em consumir o alimento só se preocupando com o saborear.
Portanto a Gula é uma atitude doentia diante da comida, mesmo que se coma pouco. Para ser mais claro, a gula é toda vez que se aproximamos do alimento esquecendo que este é dom de Deus para nossa vida. 
Santo Agostinho usa uma comparação, dizendo que muitas vezes somos como uma noiva que ganha um presente (um anel de brilhante) do seu noivo, se apaixona pelo presente e esquece-se do noivo.
Vivemos uma paixão intensa pelo alimento que temos, e deixamos de perceber que o alimento é um Sacramento de Amor de Deus para nós. E nem se quer agradecemos, e quando agradecemos dizemos “Obrigado Senhor pelo alimento de hoje.” E deixamos Deus de lado como se tivéssemos cumprindo um quesito. Não é por ai! A refeição tem que ser ação de graças e a oração tem que ser constante durante toda a refeição de forma contemplativa, apreciando em cada sabor o Dom de Deus.

Mas a gula está presente no homem desde sua criação. Não é fácil tomar um copo de água com uma tremenda sede, e antes olhar para ele e dizer “Como Deus é bom, está na água que mata a minha sede” e enxergar na água o sacramento do Amor Divino. Tomamos água com tanta voracidade, que é como se fosse encontrar a felicidade no fundo do copo, apenas saciamos um prazer do nosso corpo.
Isso não quer dizer que Deus abomina o prazer, se fosse assim não nos daria um paladar tão apurado. O paladar também é um Dom Deus, de forma que temos que usá-lo para darmos Graças ao saborear um alimento.
Na carta de São Paulo aos Filipenses capitulo 3 diz: ”Há muitos entre vós que se tornaram inimigos da cruz de Cristo... O Deus deles é o ventre”. São Paulo diz que o que acontece conosco é que vivemos para comer e não comemos para viver.
O Jejum é uma ferramenta para nós controlarmos esse espírito de consumismo pelo prazer de comer, e deve ser feito como uma prática de louvor e gratidão que abstende dos prazeres do corpo para uma real felicidade da alma. O sentido do jejum é fugir da lógica, de que a comida e fonte de alegria.
Portanto este pode ser de diversas formas, deixarem de lado comidas corriqueiras, ou comidas que despertam certos prazeres (doces, certos temperos...), não é necessário que o jejum seja total, mas sim que seja real, com um valor espiritual de contemplação.
Jejuar não é se punir ou punir o corpo, e sim quietá-lo, diante das vontades prazerosas. Quando se fala em jejum é possível ouvir os tremores e as inquietações do corpo, isto quer dizer que ainda o prazer pelo comer fala mais alto dentro de si, assim pode se dizer que está precisando do jejum.
São João Cassiano (360-435) diz: “Não devemos comer até a saciedade”, isto quer dizer que devemos levantar da mesa com um pouco de fome, este conselho espiritual hoje é confirmado pela medicina que diz que o estomago demora um certo tempo para enviar a mensagem de saciedade para o nosso cérebro. Por este atrasado de informação, na hora que pensamos que estamos saciados, quer dizer que já estávamos saciados há certo tempo atrás, e logo em seguida vem o sentido de estarmos empanturrados.
temperança que é elencada como a virtude para a gula, deve ser preservada conosco, pois ela permite que controlemos no limite de saciedade. E nos coloca de acordo com o verdadeiro sentido da alimentação e bem estar: o comer pela utilidade e não pelo prazer proporcionado. Escolher os alimentos de acordo com seus valores nutritivos e não pelo prazer. O alimento deve ser meio e não finalidade.
A finalidade de comer é a nutrição, mas gera uma conseqüência agradável que é o prazer e a saciedade. Na Gula há uma inversão onde a conseqüência se torna finalidade e vice-versa. O prazer e a saciedade é a primeira busca e por conseqüência vem à nutrição, e muitas vezes não.
E este mal também é encontrado na sexualidade do mundo atual.
Outro contemplativo da alimentação é verificar a historicidade do alimento que está à mesa. Antes de chegar até a mesa, ele teve que passar por ricos processos, alguém o plantou alguém o colheu. Quanto tempo ela passou num descanso? Quanto tempo ele percorreu para chegar até a mesa? Quanto tempo ele demorou a ser preparado? Quantas pessoas tiveram acesso a ele? Quantas histórias ele fez parte? E por ai vai.
E finalizo ressaltando: o alimento é fonte do Amor de Deus! Contemple Deus na alimentação.

Subsidio oficial elaborado por Rafael Costa para o Seminário sobre os pecados capitais realizado em Março de 2010.

http://fernandomontanheiro.blogspot.com.br/2010/03/gula.html

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