sexta-feira, 26 de maio de 2017

De budista a tomista


O inspirador - e esclarecedor - relato de uma conversão

Paul Williams, catedrático de filosofia budista e professor de religiões da Índia na Universidade de Bristol, foi durante mais de 30 anos uma das principais autoridades acadêmicas sobre budismo no Reino Unido. Também era um budista convencido, intelectual e praticante. Porém em 1999 surpreendeu os seus alunos, companheiros e familiares quando anunciou que se convertia ao cristianismo, mais ainda ao catolicismo mais ortodoxo. Em 2002 publicou um livro com o seu testemunho de conversão e as suas reflexões.
Na revista budista inglesa Dharmalife não escondiam sua perplexidade:
“Williams é um dos principais estudiosos britânicos do budismo e um budista praticante de muitos anos. O seu livro ‘O Budismo Mahayana’ é uma jóia de claridade e visão. Que surpreendente foi saber há dois anos que tinha decidido ser católico. […] Catolicismo! Tinha tendência a acreditar que enquanto o budismo é uma opção vital e espiritual para as pessoas modernas, o catolicismo pertence a um passado problemático. A minha visão do catolicismo é influenciada pelos testemunhos de amigos ex-católicos, sobre os efeitos debilitadores da culpa, a sua busca de bases emocionais saudáveis para suas vidas… Como poderia uma pessoa inteligente e bem informada tomar tal opção?”
Williams explicou tudo no seu livro “Unexpected Way“, e em algumas entrevistas e testemunhos escritos.

Juventude anglicana tíbia

Paul Williams nasceu em 1950. A família da sua mãe não era religiosa, mas depois da sua conversão descobriu que teve uma bisavó católica. A família do seu pai era tipicamente anglicana. Sendo muito jovem, Paul juntou-se ao coro da paróquia anglicana, porque gostava de cantar. Foi crismado na sua adolescência pelo bispo anglicano de Dover, e com 18 anos recorda que ia comungar algumas vezes. Mas não tinha uma relação próxima com Cristo nem recebeu formação.
O seu irmão trouxe da biblioteca um livro sobre yoga, e com ele Williams afeiçoou-se à cultura oriental nos muito alternativos anos 60.
“Estive implicado no estilo de vida e nas coisas que os adolescentes fazem. Ao aproximarem-se os exames públicos deixei o coro, deixei de servir na igreja, perdi o contacto com ela, deixei o cabelo comprido e vestia-me de maneira diferente”.

Meditação e budismo

A estudar na Universidade de Sussex, especializou-se em filosofia indiana e depois em budismo. “Durante algum tempo fiz a Meditação Trascendental de Maharishi Mahesh Yogui, porém deixei-a porque não gostava da sua superficialidade e parecia-me que distorcia a tradição indiana“, escreveu no seu livro.
Em 1973 já tinha tudo claro: tinha estudado tanto o budismo que via o mundo com categorias budistas. Refugiou-se formalmente como budista na tradição tibetana Dgelugspa, a do Dalai Lama. Sendo professor na Universidade de Bristol criou o seu próprio círculo de budistas.
Praticava a meditação, dava palestras em encontros budistas, aparecia em debates televisivos como budista tibetano e participou de debates públicos com o católico dissidente Hans Küng e o catalão orientalista Raimon Panikkar.

O que atraía no budismo

Williams explica:
“Interessava-me a filosofia, mas também a meditação e o exótico Oriente. Muitos de nós considerávamos o budismo interessante, porque parecia muito mais racional do que as alternativas, e às vezes muito mais exótico. Os budistas não creem em Deus, ou melhor, não parecia ter razões para crer em Deus e a existência do mal era para nós um argumento positivo a seu contrário. Nós que havíamos crescido como cristãos estávamos fartos de defender Deus num mundo hostil, cheio de detratores. No budismo existe um sistema de moralidade, espiritualidade e filosofia imensamente sofisticado, que não necessita de Deus para nada”.
Anos depois, ao converter-se ao catolicismo, o filósofo escreveu:
“Se repararmos como são os budistas do Ocidente, o chamado Budismo Ocidental, o que encontramos com regularidade é uma forma de cristianismo na qual tiraram as partes que os cristãos ‘pós-cristãos’ encontram mais dificuldades em aceitar”.
Williams conheceu um líder chamado Sthaira Sangharakshita que propunha aos budistas de passado cristão praticar a “blasfêmia terapêutica”, para conseguirem desapegar-se do seu fundo cristão, insultando coisas consideradas santas em sua cultura. Para Williams esta ideia parecia uma barbaridade.

O problema da reencarnação

O budismo no Ocidente apresenta-se sobretudo como uma técnica para viver experiências positivas: paz, harmonia, relaxamento… Mas à medida que Williams via o passar dos anos, como filósofo não podia evitar fazer-se perguntas, e entre elas: o que passa depois da morte? Há budistas que preferem não pensar no tema, e consideram que é “Mara”, uma “ilusão”, uma distração, um tema no qual não vale a pena pensar, mas pode um filósofo deixar de perguntar-se?
“Os budistas creem no renascimento, ou melhor, na reencarnação, como é chamada. Não há um início na série de vidas renascidas: todos temos renascido infinitas vezes, não há princípio nem se necessita de um Deus que o inicie”.
Williams recorda que na época dos primeiros cristãos as crenças a favor da reencarnação estavam muito difundidas na Grécia e Roma, mas o cristianismo nunca as aceitou. “E por boas razões: se a reencarnação é verdade, nós não temos nenhuma esperança“.

O que há de mim numa barata?

Imaginemos que vamos ser executados sem dor amanhã pela manhã, mas sabemos com toda segurança que depois reencarnaremos como uma barata. “Acostumar-te-ás, não há problema, ser barata não é como o nada ou o grande vazio, é uma vida, continuarás vivo… Mas por que nada disso nos consola?“, argumenta Williams.
Mais específico ainda:
“Não peço que imagineis que despertais dentro do corpo de uma barata, como na Metamorfose de Kafka. Serias uma barata, e quem sabe quais são os sonhos ou imaginações de uma barata?”
“O terror de ser executado na aurora e renascer como barata é que, simplesmente, isso seria o meu fim. Não posso imaginar como é renascer como barata porque não há nada que imaginar! Simplesmente, não teria nada de mim aí. Se a reencarnação é verdade, nem eu nem meus seres queridos sobreviveríamos à morte. O eu, a pessoa real que sou, a minha história, acaba. Quem sabe haja outro ser vivo com algum tipo de conexão causal com a vida que eu fui, alguém influenciado por meu karma, mas eu já não estou”.
“No nível quotidiano, os budistas tendem a obscurecer este facto -que eu desapareço do tudo com a morte- quando falam de ‘meu renascer’ ou de ‘preocupar-se com as vidas futuras’, mas na realidade qualquer renascer -como uma barata sul-americana- não seria ‘eu mesmo’, e por tanto cabe perguntar-se por que hei de preocupar-me com as minhas reencarnações futuras”.

Iluminação, sim… mas quem a consegue?

Para escapar do ciclo das reencarnações, o budismo ensina que é possível alcançar a iluminação, o nirvana, uma absoluta perfeição e desapego nesta vida. Quando alguém tem 20 anos pode pensar que com muito esforço o conseguirá. Mas Williams, com mais de 20 anos de intensa prática budista e meditativa o tinha claro:
“É evidente que não vou conseguir a iluminação nesta vida. Todos os budistas tenderão a dizer isso de todo o mundo. A iluminação é uma conquista extremadamente rara e suprema, para heróis espirituais, não para nós, não para gente como eu. Assim eu, e os meus amigos e familiares, não temos esperança”.

Karma: pagar pelas outras vidas tuas… que não eras tu

Williams explica rapidamente a teoria do karma: alguns males e alguns bens que experimentas, são consequência do que fizeste em uma vida passada.
“Mas como se pode dizer que um ditador cruel que foste noutra vida eras tu? A ideia que um um bebê fica doente por algo que fez outra pessoa, não nos consegue convencer. Não se pode dizer que o que alguém fez noutra vida, seja a resposta mais aceitável para o problema do mal. O bebê não foi quem fez os atos malvados, como também eu não sou uma barata depois de minha execução”.
O cristianismo oferece esperança
“O budismo não tinha esperança. Os cristãos sim têm esperança, por isso quis ser cristão. Voltei a examinar as coisas que tinha rejeitado em minha juventude. Dei-me conta que é racional crer em Deus, mais racional do que crer, como os budistas, que não há Deus”.
Examinou a chave da proposta cristã: que Jesus tinha ressuscitado.
“Assombrou-me descobrir que a ressurreição literal de Cristo dentre os mortos depois de sua crucifixão é a explicação mais racional do sucedido. Isso fazia do cristianismo a opção mais racional das religiões teístas, e como cristão considerei que devia dar prioridade à Igreja Católica”.
“O cristianismo é a religião do valor infinito de cada pessoa. Cada pessoa é uma criação individual de Deus, e como tal Deus ama-a e valoriza-a infinitamente. Nisto se baseia toda a moral cristã, desde o valor da família ao altruísmo e o sacrifício dos santos. Por sermos infinitamente valiosos, é que Jesus morreu por nós, para salvar a cada um. E somos as pessoas que somos, com nossas histórias, amigos e parentes. Nossa fé é que em Deus nossas mortes terão significado para cada um de nós, de formas que excedem a nossa imaginação mas que inclusive agora já suscitam a nossa esperança e alimentam nossas vidas”.
Hoje Paul Williams é um laico dominicano e um grande admirador de São Tomás de Aquino. Lamenta que às vezes, em encontros ecumênicos ou análises de religião comparada, se faça o contraste entre os místicos cristãos de linguagem simples (como São João da Cruz) com teóricos budistas muito elaborados, com um discurso muito intelectualizado que fazem parecer o místico cristão uma versão simples de uma filosofia complexa. Williams considera que esses autores budistas devem comparar-se com autores sistemáticos como São Tomás.

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