quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Os Nove Modos de Oração de São Domingos de Gusmão

fr. João da Cruz, op (séc. XVI),
Crónica de la Orden de Predicadores (Lisboa, 1567)
1.
Mas não se deve calar nem passar, em geral com as outras virtudes deste santo confessor, a sua fervorosa e contínua oração, sem que façamos uma especial menção dela. Pois quem leia atentamente tudo quanto dissemos até aqui, em tudo encontrará que resplandeceu nele esta virtude com grande claridade. Porque o bem-aventurado santo, em todas as suas obras, tinha a oração por instrumento para as fazer, amava-a e seguia-a, como jóia de inestimável valor na vida espiritual.
Porque, como vimos, rezando, este homem de Deus fazia tantos milagres. Rezando recebia revelações divinas e alcançava maravilhosas vitórias do adversário. Rezando conseguia de Nosso Senhor as graças que lhe pedia, para si e para os seus frades, tanto temporais como espirituais. Rezando penetrava em muitos sentidos da sagrada escritura, mais do que pela lição ou pelo estudo. Rezando ganhava ânimo para pregar tão sábios e frutuosos sermões. E não duvido que, pela oração, alcançou de Deus a inocência que teve e a perseverança na sua santidade.
Finalmente, esta poderosa e maravilhosa virtude que o santo varão tinha tão contínua e familiar, que toda a sua vida era uma contínua oração.
E quanto à oração comum, à qual estava obrigado pelo estado clerical, já acima se disse que era diligentíssimo e com suma atenção rezava todo o ofício, de dia e de noite. E nos conventos assistia sempre com grande cuidado e vigilância na solenidade do ofício divino. E caminhando, se ouvia tocar a matinas nalgum mosteiro ou nalguma igreja, levantava-se e despertava os seus companheiros e rezava com eles.

Mas não rezava só com a língua, mas – como diz o apóstolo – com o espírito e com a alma. E não se contentava em rezar ao Senhor só com o espírito, mas com a língua e com a garganta – também lhe servia – e com outros movimentos do corpo.

A sua principal oração e mais elevado espírito era quando celebrava o santíssimo sacrifício da Missa, o qual fazia todos os dias onde quer que se encontrasse e tivesse oportunidade. E com muito temor e reverência celebrava, como se visse a Nosso Senhor Jesus Cristo em corpo e alma, conversando com os homens, ou cravado na cruz. E com tantas lágrimas dizia toda a Missa, sobretudo quando chegava ao Pai Nosso, que a todos os presentes colocava em grande devoção. E quando ouvia ou via a outro sacerdote celebrar da mesma maneira, começava a chorar. E quando via e adorava o Senhor, dava tantos gemidos e gritos, que achou melhor, por muito tempo, não ouvir missa na companhia dos seus religiosos, para não os inquietar.
Desta maneira se punha nas orações comuns e de obrigação. Mas não se contentava com isto, sabendo que, ainda que o servo de Deus faça tudo o que lhe é mandado fazer, se deve chamar servo inútil. Por isso, em muitas outras horas do dia e principalmente da noite, fazia oração a Deus levantando o seu espírito com grande fervor e caridade, e exercitando-se nas santas meditações: ou da paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, ou da sua divindade, ou das suas acções, ou dos seus benefícios, segundo o que o Espírito Santo ia guiando o seu espírito. E como tinha a sua carne obediente à alma, juntamente se exercitava com os movimentos do corpo, segundo as diversidades das aflições e pensamentos que tinha na sua alma, porque, como diz o salmista, a sua alma e a sua carne se alegravam no Deus vivo. E com os mesmos gestos avivava ainda mais o fogo da devoção.
E, segundo isto, tinha diferentes maneiras de rezar na postura do seu corpo, sem dúvida ordenado e composto pela interior devoção da alma. A qual, porque aos homens estava escondida, pareciam estranhos e desordenados os movimentos e as palavras que dava e dizia, porque poucos entendem a força do espírito no tempo da oração. Por isso diz David: “feliz o povo que sabe o que é louvar”, que é um gozo da alma com o seu Deus que não se pode explicar com palavras, mas também não se pode dissimular para que não se mostre por um sinal exterior.

2.

[primeiro modo]
Muitas vezes, segundo alguns religiosos que o viram, colocava-se diante de um altar, inclinando não só a cabeça mas meio corpo, com tanto respeito como se estivesse na presença do Senhor, que o altar representava na sua alma. Entendendo ainda desta humilhação corporal o que diz Salomão: “a oração do que se humilha penetra os céus”, e trazendo à memória a humildade do Filho de Deus, por nós crucificado.

[segundo modo]

Outras vezes deitava todo o corpo por terra, rebaixando-se e depreciando-se, como se não fosse digno de estar de pé. Imitando o exemplo dos santos Reis que assim prostrados adoraram o Menino Jesus. E lembrando-se que o próprio Senhor, perto da sua paixão, com a face por terra, rezou ao Pai no horto. E então, dizia as palavras daquele humilde publicano, que não ousava levantar os olhos ao alto: “Deus, tem misericórdia de mim, pecador”, e o que o profeta David escreve: “A minha alma está prostrada no pó da terra, e o meu coração e as minhas entranhas coladas à terra”.

[terceiro modo]

Outras vezes fazia oração em pé, levantado e direito, em especial quando se disciplinava. E então dizia: “A vossa disciplina, Senhor, me castigou, e a vossa disciplina me ensinará”.

[quarto modo]

Outras vezes, rezava de joelhos e dizia as palavras do leproso que, nessa posição, pediu a cura ao nosso Redentor: “Senhor, se quiserdes podeis curar-me”. E as que disse Santo Estêvão, quando, enquanto lhe atiravam pedras se colocou de joelhos e disse: “Senhor, recebe o meu espírito”. E, depois disto, clamava tão alto, que os frades ouviam. E dizia fortemente o mesmo que David: “A ti, Senhor eu clamo, não te cales nem deixes de me responder”. E dito isto, descansava assim, de joelhos. E já não se ouvia a sua voz, mas dentro do seu coração falava para si, movendo os lábios, como a mãe de Samuel. E algumas vezes, levantava os olhos e o rosto, como se quisesse subir ao céu, e subitamente se alegrava e limpava as suas lágrimas que lhe corriam dos olhos. Outras vezes levantava-se e voltava a ajoelhar-se, e isto repetia muitas vezes.

[quinto modo]

Outras vezes estava em pé e direito, diante do altar, sem se encostar a alguma coisa. E tinha as suas mãos abertas, diante do peito, somo se estivesse lendo algum livro com grande atenção e reverência, e parecia que dentro de si meditava as palavras de Deus e que entendia os mistérios da divina escritura. E algumas vezes tinha os ouvidos atentos, como para ouvir e entender o que lhe diziam, punha as mãos sobre os seus olhos e apertava-os fortemente. Outras vezes levantava as mãos até aos ombros, abertas como as coloca o sacerdote quando diz Missa.

[sexto modo]

Outras vezes rezava em pé, de braços estendidos em modo de cruz, e algumas vezes via-se o seu corpo levantado da terra. E chorava fortemente, lembrando-se de quando o nosso Redentor esteve levantado na cruz, preso por três cravos, pedindo ao Pai por nós, com muitas lágrimas, como diz o Apóstolo. E dizia com David: “A ti, Senhor, eu clamo, durante o dia estendo a ti a minhas mãos”.

[sétimo modo]

Outras vezes rezava em pé, com os braços estendidos ao alto e as mãos juntas acima da cabeça, como se fossem uma seta, e algumas vezes as abria como se estivesse a receber alguma coisa que lhe enviavam do alto. E dizia como o salmista: “Ouve o grito das minhas súplicas quando te invoco, quando ergo as minhas mãos para o teu santuário”. E então, segundo parecia aos frades, pedia e alcançava de Deus os favores e mercês para a sua Ordem. Mas não demorava muito neste modo de orar, que frequentemente se arrebatava e saía fora de si, mas logo voltava a si como se voltasse de novo ao mundo, ou como quem vinha de um longo caminho.

[oitavo modo]

Outras vezes rezava desta maneira. Acabando de ler ou ouvir alguma santa lição, afastava-se para um lugar secreto e meditava no que tinha lido e escutado. E viam-no como se estivesse pregando e disputando com algum companheiro. Umas vezes como se estivesse irado consigo mesmo, outras, risonho e contente, outras, choroso; outras vezes, quieto e descansado, e então ouviam-no dizer o que o profeta dizia: “prestarei atenção ao que me diz o Senhor Deus”.
E era seu costume, antes da oração, ler alguma coisa santa e, acabando de ler, fechava o livro e prestava-lhe reverência, inclinando-se diante dele e beijava-o, sobretudo se eram os Evangelhos. E algumas vezes, acabando de ler, colocava a sua fronte sobre as suas mãos e cobria a cabeça com o escapulário.

[nono modo]

Outras vezes rezava caminhando (como dissemos acima) e dizia para si ou ao companheiro o que escreve o profeta Oseias: “vou levá-la a um lugar deserto e falar-lhe ao coração”. E quando ficava sozinho adiantando-se ou ficando para trás, fazia muitas vezes sobre si o sinal da cruz, e mexia muitas vezes a mão, levantada diante do seu rosto, como quem sacode de si mosquitos ou quem enxota moscas.

3.

Estas nove maneiras de orar usava o bem-aventurado Padre, quando e onde o encaminhava o Espírito Santo, como aqueles santos animais que viu o profeta Ezequiel. E quem duvida que admoestaria com poderosas razões aos seus frades a que fizessem o mesmo.
E como se diz da águia, que voa diante dos seus filhos para os incitar a que eles voem, assim o santo varão se coloca como exemplo aos seus súbditos para que rezassem, e para que na sua Ordem perseverasse este santo exercício como importantíssimo para conservação de toda a virtude.


Tradução.: fr. Filipe, op | Revisão: Maria Torres

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