quinta-feira, 12 de setembro de 2013

No tempo que passa abanonamo-nos a palavra



Felizes os que escutam a Palavra de Deus e a põem em prática (Lc 11, 28).
O simples e idiota Francisco, como ele próprio costumava se apresentar (cf. Ord 39), sem maior instrução, isto é, sem uma formação própria do clérigo ou do letrado de então, tinha tal conhecimento da Palavra que “penetrava nas realidades escondidas dos mistérios e o que era inacessível à ciência dos mestres, abria-se seu afeto cheio de amor” (2Cel 102). Sem ser mestre na arte de falar, ele resolvia questões difíceis e, como Jó (cf. Jó 28,11), iluminava os pontos obscuros, chegando revelar aquilo que o texto escriturístico escondia aos estudiosos (José Rodriguez Carballo, OFM, Guiados pela Palavra, mendicantes de sentido, n. 15).
Em muitos momentos andamos preocupados com nossa caminhada de cristãos ou de religiosos. Temos receio de marcar passo. Não queremos nos deixar anestesiar pela rotina. Desejamos progredir na intimidade do Senhor e num amor de verdade pelos outros. Georges Bernanos, escritor francês, escreve: “A maioria dentre nós engaja na vida apenas uma pequena parte, ridiculamente pequena de sua existência. As pessoas vivem na superfície de si mesmas. O solo humano é tão rico que alguns se dão por satisfeitos com essa mínima parte. O santo não vive do lucro sobre o lucro, mas engaja toda a sua vida”.


Ora, para darmos passos adiante será preciso o exercício delicado da escuta. Aceitar escutar, desejar escutar. Escutar o quê? Escutar quem? Dizemos: escutar a voz do Senhor, ouvir a Palavra do Senhor. Por Palavra de Deus não pensamos apenas nos textos do Antigo ou do Novo Testamento, mas no eco desses livros na vida das pessoas com as quais convivemos, no coração da Igreja, na vida dos santos e, evidentemente, em nosso projeto de existência.

A escuta parece ser o que existe de mais humano e de mais essencial. Talvez somente sejamos nós mesmos quando escutamos. Escutar é levar em conta um outro, conferir-lhe realidade e presença. A escuta só existe quando nos relacionamos com um outro, com outros. Quem escuta reconhece que não existe por si, nem sozinho. Sabe perfeitamente que nas horas das escolhas decisivas não pode estar isolado. Necessita alimentar uma disposição fundamental de escuta.

Escuta aquele que tem a capacidade de receber de fora, dos outros, do Outro. Escutar e obedecer quase significam a mesma coisa: estirar os ouvidos para captar o que vem de fora. A escuta se transforma em disponibilidade do coração, aceitação de se deixar instruir, chance de transformação. Não somos os mestres exclusivos da verdade. A verdade se partilha. Pela mútua escuta nos tornamos discípulos uns dos outros. Somos “mendicantes” do sentido da vida.

Quando digo que “escuto alguém” pode querer significar; confio nele, quero segui-lo, obedeço-o. Pode também significar: “Deixo-lhe a possibilidade de falar, de ser ouvido, de existir mais densamente, talvez de nascer e de renascer. Escuto a palavra de um outro para receber dele alguma coisa porque faço confiança nele. O outro me escuta para que eu possa falar, porque deposita confiança em mim. Bem no coração da escuta está a confiança. Quando não confiamos, não falamos. Sem confiança não há escuta. Régine du Charlat: “A confiança ousa crer que, apesar de tudo, estamos ligados uns aos outros. A confiança é o núcleo incandescente de todo relacionamento”. Entrar na escuta é ingressar na confiança.

“Ouve, Israel, o Senhor teu Deus”(Dt 6,4): cada dia, ainda hoje, ele continua falando, falando de maneira nova, dizendo o que ainda não tínhamos ouvido. O fiel sincero e reto se põe à escuta da Palavra. “Este é o meu Filho muito amado. Escutai-o” (Mt 3, 17). Jesus é colocado diante de vidas, de histórias para ser ouvido, para ser obedecido e assim ele pode operar maravilhas.

Pela escuta da Palavra entramos no campo da experiência espiritual. Abrimos nosso interior, fazemos confiança nele. “Se hoje como ontem é urgente conhecer melhor o homem Jesus, reconhecido como Cristo e confessado como Senhor, não temos outro caminho para chegar a esse objetivo senão tomar o livro das Escrituras, abrir-lhe as portas de nossos corações e oferecer escuta e acolhida à Palavra. Se nosso coração arde no desejo de sair da insignificância ou da prostração de nossos cotidianos fracassos, não temos outro caminho senão deixar-nos possuir pela Palavra e dar-lhes amplo espaço em nossas vidas. Ser possuído pela Palavra e por Cristo é a mesma coisa. Se quisermos recriar e refundar nossa vida e missão, não nos resta outra saída senão abrir espaço à Palavra, relê-la, estudá-la, meditá-la, acolhê-la num coração vazio e pobre, sussurrá-la dia e noite para então vivê-la e celebrá-la” ( Guiados pela palavra, op. cit., n. 20).

Escutar a Palavra, melhorar a qualidade de nossa Liturgia das Horas, com mais silêncio, mais reverencia à Palavra. Viver em nossas casas a Leitura Orante da Bíblia. “Estirar o ouvido” também para escutar nossa vida, nossa própria humanidade, escutar-nos, escutar o grito das ruas, escutar o murmúrio do irmão que sente o frio do isolamento. Não se trata apenas de uma beata leitura das páginas da Escritura, mas tentar ouvir esse Deus que nos fala, também em nosso estilo de vida consagrada. “A vida consagrada e, com ela, a vida franciscana, são chamadas a percorrer um longo êxodo de busca e de renovação que já não tem volta. Com muitos homens e mulheres, nossos contemporâneos, somos mendicantes de sentido. A partir da escuta da Palavra, nossa vida será, no presente e no futuro, como foi no passado, proposta alternativa e de fronteira. A Palavra nos convida a isso, impele-nos e nos convoca. A partir e com a Palavra, nossas vidas serão testemunho de uma palavra que não pode calar, de uma razão que não pode se ocultar, de uma convicção que se necessita partilhar. Como o fogo da Palavra, nosso coração arderá e nossa vida encontrará o ritmo de Deus, que é sempre jovem e atual, que jamais passa. A Palavra tem uma força transformadora impressionante e, se nossa vida se deixar tocar pela Palavra, transformar-se-á, sem dúvida alguma: a rotina dará lugar à novidade evangélica, o cansaço, à coragem, a resignação, à lucidez e à audácia, os medos à liberdade. Quando formos capazes de abandonarmos à Palavra, de confiar nela, de apostar tudo numa única carta, aconteça o que acontecer, ficará em nós um sabor intenso que nos garante que somos de Deus e para Deus, que não estamos sós. Se nossa vida se puser à escuta da Palavra e se deixar levar por ela, encontrará novas paragens e novas sendas para tomar o caminho mais suportável e alegre. É necessário abrir espaços pessoais e comunitários à Palavra. Nosso futuro, como o futuro de toda a vida consagrada, está em deixar-nos fazer pela Palavra” (Guiados pela palavra…op. cit., n. 20). T









 
 

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