Medo do silêncio? Por quê?


O silêncio possibilita o conhecimento interior

stive pensando, por algum tempo, sobre o que eu poderia partilhar com você. Há algumas semanas, algo tem me inquietado e despertado a respeito do barulho e do silêncio.
Hoje em dia, é impressionante como há excesso de barulho e ruído. Passamos por uma carência de silêncio. Andando na rua, é muito comum ouvirmos sons, músicas, propagandas, principalmente nos grandes centros urbanos. Dentro dos ônibus, o som está ligado; nos supermercados e shoppings, a mesma coisa. O dia inteiro e o tempo todo é ocupado com músicas, programas de rádio, TV etc; sem falar nos barulhos e ruídos de buzinas, marteladas e falatório.
Muitas pessoas, ao chegarem em casa depois de um longo dia de trabalho, imediatamente, ligam o som ou a televisão, muitas vezes nem querendo ouvir a música ou assistir àquele programa que está passando. É que não suportam o silêncio e o fato de estarem sozinhas em casa. Outros até mesmo nem conseguem dormir se não for com a TV ou o som ligado – ainda que seja com o volume baixo.
Fiquei pensando comigo: nós não conseguimos mais ficar em silêncio. Ele se tornou insuportável, e a realidade de nos depararmos com a solidão nos apavora!

Por que o silêncio é “terrível”?

De fato, o silêncio é “terrível”, pois nos possibilita entrarmos em nós mesmos e nos conhecermos, depararmo-nos com realidades que preferimos que permaneçam adormecidas. Por isso é melhor não silenciar, não estar a sós.
Com isso, cada segundo deve ser preenchido com som, música, programas de TV, pois preferimos estar na companhia de todos, menos de nós mesmos.
Interessante é que é muito comum perguntarmos para alguém assim: “Ei, quem você é? Fale-me de você”. E a resposta, quando existe, é a seguinte: “Bem, eu sou fulano de tal, faço isso e aquilo, trabalho em tal lugar, estudo nessa ou naquela faculdade” e ponto final. O interessante é que não perguntamos o que a pessoa faz, mas quem ela é.
Como é difícil responder a essa pergunta! Sabe por quê? Porque estamos perdendo a capacidade de ouvir a nós mesmos, de silenciarmos e nos encontrarmos conosco. Isso porque pensamos que só temos mazelas, por isso é preferível manter a superficialidade do conhecimento de si, ou então simplesmente por achar que não vale a pena.

Contudo, preciso lhe falar: você não é só miséria e desilusão, não é apenas feridas e marcas dolorosas. Você é precioso e traz em si riquezas incalculáveis. Você é um tesouro que precisa ser descoberto, mas para isso é preciso cavar fundo, e as ferramentas não são outras senão o silêncio e a solidão.
Quem disse que estar só é ruim? Não admira que, em diversas passagens do Evangelho, Jesus, após um longo dia de missão, se retirava a sós na montanha para orar? Ele buscava ali dois encontros: primeiro, consigo mesmo, e outro com o Pai. Uma vez que mergulhava na profunda solidão, podia encontrar-se a si mesmo. O interessante é que, encontrando-se consigo, ele estava inteiro, e podia encontrar-se com o Pai. E ali havia repouso e alegria!
Só conseguiremos orar a Deus em profundidade quando aprendermos a nos encontrar, e, a partir daí, percebermos quem somos. Saberemos que só Ele nos completa e nos torna inteiros como Jesus. Disso depende a nossa felicidade.

Ouve, Israel!

Uma palavra do Antigo Testamento, que muito me chama à atenção, inclusive porque é constantemente orada pelos judeus, pois é a base de sua fé é o “Shemah, Israel”: “Ouve, Israel, Eu Sou o Senhor, teu Deus, que te fiz sair da terra do Egito, da casa da servidão…” (Ex 20, 2ss). Veja que a primeira palavra é “Shemah”, que se traduz pelo imperativo “ouve”. Mas como poderemos ouvir se não conseguimos silenciar?
Por isso, a importância de nos exercitarmos no silêncio e na capacidade de escuta. Só assim ouviremos de Deus as maravilhas que Ele realizou e realiza em nós, e também seremos libertos de toda escravidão e servidão.
Diante dessas poucas palavras, quero provocar você a fazer uma experiência do encontro consigo mesmo e, a partir daí, seus encontros com Deus terão um enorme salto de qualidade. Comece aos poucos, exercite-se em reservar uns poucos minutos de silêncio e interioridade, busque descobrir a riqueza que você é e, com certeza, o louvor a Deus, nosso Criador e nosso Pai fluirá espontaneamente.
Um abraço! Deus o abençoe!
Por Padre Clóvis Andrade de Melo, via Canção Nova

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