terça-feira, 19 de março de 2013

Cartas de Pe. Pio de Pietrelcina


Pietrelcina, 18 de março de 1915.
Meu caríssimo pai,
Que o Espírito o santifique e o ilumine sempre mais com os bens eternos, a nós reservados pela bondade do Celeste Pai. Amém!
Que Jesus lhe dê conhecimento do meu verdadeiro estado atual. Sou um crucificado do amor, meu caro pai! A minha crise é extremamente angustiante.
Reze a Jesus por mim e não deixe de escrever-me sempre e freqüentemente, perdoando se não receber resposta.
Desejaria revê-lo e, para dizer a verdade, esperava fazê-lo quando retornasse de sua missão. Jesus não quer; seja sempre bendito!
Não posso continuar, o meu estado de ânimo atual não me permite. Perdoe-me.
Abençoe-me sempre.
Frei Pio, capuchinho
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Pietrelcina, 21 de abril de 1915
Meu caríssimo pai,
Que as chamas do divino amor consumam no senhor tudo aquilo que não agrada aos olhos do divino esposo: Jesus o faça santo. Amém!
Essa manhã, Jesus veio; ao lhe perguntar sobre como que deveria responder às suas perguntas, ele me disse:
Ao teu pai, está decidido, em compensação pelos cansaços sustentados por minha glória, a alegria do espírito... Diversas providências foram tomadas para fazer reflorescer na província o espírito do Fundador; os frutos ainda são poucos. Insiste e vigia para que as providências tomadas não sejam facilmente esquecidas.
Aqui Jesus parou um pouco; logo depois retomou:
A Itália, meu filho, não quis escutar a voz do amor. Soube, no entanto, que há tempos eu mantenho suspenso o braço de meu Pai, que quer lançar sobre essa filha adúltera os seus raios. Esperava-se que as desventuras alheias a tivessem feito cair em si, que a tivessem feito entoar o
miserere
a seu tempo. Não soube apreciar nem mesmo este último traço de meu amor; por isso, o seu pecado tornou-se mais abominável diante de mim... A ela está reservada certamente a sorte tocada às suas companheiras.
Pai, não se irrite comigo, se deixo insatisfeita alguma pergunta sua; eu não conheço nem sei nada mais. Mas não duvide; se agradar a Jesus dizer-me algo a respeito, prometo-lhe dizer-lhe logo, bem conhecendo que a obrigação de responder às suas perguntas perdura sempre.
Como faço, ó pai, para que, quando estou com Jesus, tudo aquilo que tenho intenção e vontade resoluta de pedir-lhe me venha à mente? E sinto mesmo uma imensa dor dessa minha falta de memória. Como explicá-lo? Ninguém até hoje pôde convencer-me plenamente.
Escute uma coisa muito estranha. Quando estou com Jesus, ocorre perguntar a ele coisas, as quais nunca tive em mente antes; ou apresentar-lhe pessoas que não só nunca me passaram em mente, mas também – o que mais me maravilha – que não conheço pessoas e nunca ouvi falar delas.
E aqui faço uma observação: que, quando isso acontece, não me lembro de Jesus não estar de acordo, em favor das tais pessoas pelas quais lhe peço.
Rendo vivíssimas graças a Jesus pelas certezas que o senhor me deu, em nome dele, em sua última carta.
Peço-lhe que, ao fazer a caridade de escrever-me, faça ainda outra: escrever-me sempre.
Concordo que sou muito pretensioso com o senhor, mas perdoe a minha fraqueza: para meu atual estado, as cartas me dão um pouquinho de luz.
Frei Pio.
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Foggia, 23 de agosto de 1916
Meu caríssimo pai,
Que Jesus o assista sempre e lhe dê a abundante força que o faça sempre cumprir exatamente o seu sacro ministério.
Gostaria que, neste ano, o dia do seu onomástico passasse despercebido. Mas não consegui. No entanto, de que maneira poderei cumprimentá-lo, enquanto o senhor está nas terras do terror? Eu o cumprimento apenas da maneira que sei e posso, e o senhor, tão bom, não deixará de aceitar, sabendo que é da parte de um coração que ardentemente o ama com amor todo santo diante do divino Esposo.
O meu sincero cumprimento que lhe apresento por um dia tão estranho é que o bom Deus lhe conceda as mais eleitas graças, com uma perfeitíssima correspondência de sua parte ao querer dele.
Aceite, meu caríssimo pai, estes meus ardentíssimos votos para o senhor neste ano de extremo
desconforto e de superlativa desolação. O senhor já pode compreender que passo este dia diante de Jesus, e esteja seguro de que não serei o único que lutará diante dele.
Encontrarei sempre a companhia de todas as almas amantes de Jesus, principalmente aquelas que a nós estão unidas em um mesmo espírito. Sim, pai, nós todos rezamos sempre pelo senhor! Que agrade ao nosso Pai celeste tornar-nos todos dignos da glória eterna; assim, elevaremos por toda a eternidade o hino de louvor e de bênção.
Se não faço as minhas notícias chegarem mais freqüentemente, ó pai, não me culpe; saiba que isso não provém da má vontade. O senhor sabe de tudo. Além disso, deve saber que não me resta um só momento livre: um turbilhão de almas sedentas de Jesus precipita-se sobre mim, a ponto de me fazer levar as mãos à cabeça.
Diante de tão abundante reunião, por um lado me sinto alegre no Senhor, pois vejo que as filas das almas eleitas vão sempre aumentando, e Jesus é cada vez mais amado; por outro lado, me sinto prostrado por tanto peso e quase humilhado, por razões mais fáceis de compreender.
Para ter um pouco de alívio e distração, pedi que o padre provincial me mandasse por algum tempo a San Giovanni. Não lhe expus verdadeiramente todas as razões que me levaram a pedir-lhe tal permissão.
Expus-lhe apenas algumas e com muita timidez. Ele me respondeu logo, assentindo plenamente ao que eu lhe havia pedido. No entanto, disse-me para esperar um pouco, até que se soubesse do prognóstico sobre o padre guardião, que atualmente está em observação em um dos hospitais militares de Roma.
Se ele for dispensado, disse-me o provincial, logo que tiver retornado, poderei ir para San Giovanni. Se ele não voltar, acrescentou, devo esperar que outro venha em seu lugar.
Diga-me, pai, fiz mal em pedir essa permissão pelas razões que apenas em parte mencionei
anteriormente? Se fiz mal, estou disposto a fazer qualquer sacrifício para não descumprir as vontades divinas.
Gostaria de dizer-lhe tantas coisas, mas que isso seja feito em tempos melhores. Não tenho mais força para continuar. Que Jesus lhe pague pelo bem que me fez; em Jesus o abraço, filial e cordialmente.
Frei Pio, capuchinho.
Frei Paolo e frei Camillo estão cada vez melhor. Receba da parte deles os mais respeitosos cumprimentos.
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Pietrelcina, 31 de março de 1912
Meu caríssimo pai,
Agradecido pelos tantos cuidados que o senhor teve comigo; sinto, agora que se aproxima a santa Páscoa, um sagrado dever de não a deixar passar sem desejar-lhe todas as graças que possam torná-lo feliz aqui na terra e beato no céu.
Esse, meu pai, é o voto que sei fazer-lhe e creio que será muito bem aceito pelo senhor. Em tal solenidade, de minha parte, não deixarei de orar, por sua bela alma a Jesus ressurgido, em minha indignidade, ainda que não me esqueça de rezar todos os dias pelo senhor.
Nestes dias santos, mais do que nunca, estou muitíssimo aflito por causa do
barbablù. Peço-lhe, então, que me recomende vivamente ao Senhor, para que não me faça permanecer vítima desse inimigo comum.
Deus, no entanto, está comigo, e as consolações, que sempre me faz provar, são tão doces, que não consigo descrevê-las.
Quanto à saúde, sinto-me discretamente bem. Imagino que o senhor não esteja contente pela narração geral do meu estado interior, mas, meu pai, a vista quer me privar também deste último, isto é, de narrar minuciosamente o mau estado interno. Deus sabe quão abalado fico depois de escrever um pouco.
Então, até mais, meu pai, quando Deus quiser e onde quiser.
Beijo-lhe a mão e lhe peço que me abençoe fortemente.
Seu,
Frei Pio capuchinho.
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Pietrelcina, 18 de abril de 1912
Caríssimo pai,
Viva Jesus! Estou muito contente de poder entreter-me um pouco com o senhor mediante esta carta. Mas como farei para narrar-lhe os novos triunfos de Jesus em minha alma, nestes dias? Limito-me em narrarlhe apenas aquilo que aconteceu comigo na última terça-feira. Que fogo aceso senti, nesse dia, no coração!
Mas senti também que esse fogo foi acesso por uma mão amiga, por uma mão divinamente zelosa.
Estava ainda na cama, quando fui visitado por aqueles homens ruins, que me batiam de uma maneira tão bárbara, que tenho como graça ter conseguido suportar aquilo sem morrer; uma prova, meu pai, que era muito superior às minhas forças.
O bom Jesus, no entanto, que permitiu ao
barbablù tratar-me de tal modo, não deixou depois de me consolar e de me fortificar no espírito.
Com dificuldade, pude ir ter com o divino prisioneiro para celebrar. Terminada a missa, distraí-me com Jesus no rendimento de graças. Oh!, como foi suave o colóquio tido com o paraíso, esta manhã! Tal foi que, se quisesse tentar dizer tudo, não o poderia; houve coisas que não podem ser traduzidas em linguagem humana sem se perder o sentido profundo e celeste. O coração de Jesus e o meu, permita-me a expressão, se fundiram. Não eram mais dois corações que batiam, mas um só. O meu coração desapareceu como uma gota d´água que se perde no mar. Jesus era o paraíso, o rei. A alegria em mim era tão intensa e tão profunda, que não mais pude [me]conter; as lágrimas mais deliciosas inundaram o meu rosto.
Sim, meu pai, o ser humano não pode compreender que, quando o paraíso dirige-se ao coração, esse coração aflito, exilado, fraco e mortal não o pode suportar sem chorar. Sim, repito, apenas a alegria que enchia o meu coração foi que me fez chorar tanto. Essa visita, creia, me reanimou por inteiro. Viva o divino prisioneiro!
O demônio nos impossibilitará de nos vermos antes do capítulo, mas não importa que consiga nos impedir de nos abraçarmos fisicamente. Eu faço desde já um sacrifício a Jesus. Nós nos contemplamos diante de Jesus.
Termino, pois não agüento mais.
Quando o senhor estiver diante dele, não se esqueça de recomendar o seu pobre discípulo.
Frei Pio.
Minha família, o arquipresbítero e todos os nossos amigos lhe desejam tudo de bom.
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Pietrelcina, 9 de agosto de 1912.
Caríssimo pai,
Há muito tempo desejava escrever ao senhor, mas
barbablù me impediu. Eu disse que o fez porque, toda vez que eu me determinava a escrever, eis que uma fortíssima dor de cabeça me sobrevinha; parecia que logo, logo, fosse se despedaçar, acompanhada de uma agudíssima dor no braço direito, que me impossibilitava de segurar a caneta.
Sinto, meu pai, que o amor me dominará finalmente; a alma corre o risco de separar-se do corpo, pois não pode amar Jesus o bastante na terra.
Sim, a minha alma está ferida de amor por Jesus; estou doente de amor; provo continuamente a amarga pena daquele ardor que queima e não se consuma. Sugira-me, se puder, o remédio para o atual estado de minha alma.
Eis uma pálida figura daquilo que Jesus opera em mim. Como uma corrente que leva consigo, na
profundidade dos mares, tudo aquilo que encontra em seu caminho, assim a minha alma, que está no fundo do oceano sem margens do amor de Jesus, sem algum mérito meu; sem poder tomar consciência, atrai para si todos os seus tesouros.
Meu pai, enquanto eu escrevo, todavia, onde está o meu pensamento? No belo dia de minha ordenação.
Amanhã, Festa de São Lourenço, é também o dia de minha festa. Já comecei a provar novamente o júbilo daquele santo dia para mim. Desde esta manhã, comecei a provar o paraíso... E como será quando o provarmos eternamente? Comparo a paz do coração, que senti naquele dia, com a paz do coração que começo a provar desde a vigília e não encontro nada de diferente.
O Dia de São Lourenço foi a ocasião na qual encontrei o meu coração mais aceso de amor por Jesus. Como fui feliz, como gozei naquele dia!
Pai, o senhor leu a presente e, já que não duvido que o senhor me ama, reze e agradeça também a Jesus por mim.
Em meados do corrente mês, terei necessidade dos medicamentos; ser-lhe-ei muito grato se o senhor pedir também em meu nome ao padre mestre, para que possa provar-me. Se isso não lhe for difícil; não importa, Jesus pensará em nós.
Todos os conhecidos lhe mandam lembranças; o arquipresbítero reverencia o senhor; eu o abraço com ternura.
Seu pobre discípulo,
Frei Pio.
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Pietrelcina, 29 de dezembro de 1912
Meu caríssimo pai,
Outro ano está se passando na eternidade com o peso das minhas culpas nele cometidas! Quantas almas com mais sorte que eu saudaram a aurora e não o fim! Quantas almas entraram na casa de Jesus e lá ficarão para sempre! Quantas almas felicíssimas, por mim invejadas, foram para a eternidade com a morte dos justos, beijadas por Jesus, confortadas pelos sacramentos, assistidas por um ministro de Deus, com o sorriso do céu nos lábios, não obstante os suplícios das dores físicas pelas quais foram oprimidas!
O viver na Terra, meu pai, me aborrece. É um tormento tão amargo para mim o viver a vida do exílio, que pouco a pouco não agüento mais. Pensar que a cada instante posso perder Jesus me dá uma aflição que não sei explicar; somente a alma que ama Jesus sinceramente poderá saber.
Nesses dias tão solenes para mim, pois são festas do celeste Menino, freqüentemente sou tomado por aqueles êxtases de amor divino que tanto enfraquecem meu coração. Com toda a condescendência de Jesus para comigo, dirigi a ele a costumeira oração com mais confidências: “Ó Jesus, se eu pudesse amarvos
e sofrer por vós tanto quanto eu gostaria para vos fazer feliz e reparar, de algum modo, as ingratidões dos seres humanos para convosco!”.
Jesus, no entanto, me fez escutar ainda mais a sua voz em meu coração: “Meu filho, o amor se conhece na dor; você o sentirá agudo no seu espírito e mais agudo ainda no seu corpo”.
Essas palavras permanecem, meu pai, obscuras para mim.
Aqueles homens ruins procuraram me atormentar de todos os modos; queixo-me, por isso, a Jesus e sinto que ele repete para mim: “Coragem; depois da batalha, vem a paz”. Ele diz que preciso de fidelidade e amor. Estou pronto para tudo, para fazer a sua vontade. Apenas reze, suplico-lhe, para que este pouco de vida que me resta eu o utilize para a glória de Jesus e que ele faça passar este tempo do mesmo modo com que se propaga a luz.
Rezei a Jesus pelo que o senhor me pediu ultimamente; mas ele não me respondeu. Há um tempo que não quer se dignar de me dar uma resposta, já que se trata dos afazeres de nossa província, pois está muito desgostoso com o agir dela. Parece-me que o senhor deva aceitar ativamente a carga sempre que lhe for imposta, pois a mim parece que, embora o senhor seja um tanto fraco para esse ofício, deveria aceitar mesmo assim, pois faltam pessoas mais apropriadas para isso.
Peço-lhe, no entanto, que não solicite essa carga, nem mesmo indiretamente; e, se lhe for possível recusar, faça-o.
Nada recebi de padre Stefano, isto é, de Foggia; até a metade do mês vindouro, não me faltam
medicamentos. Depois Deus proverá.
Preciso parar, não consigo continuar; desejo-lhe da parte do arquipresbítero, de minha família e de todos os bons amigos um bom início de ano, extensivo a toda a comunidade.
Tenha-me sempre como seu discípulo.
Frei Pio
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San Giovanni Rotondo, 6 de setembro de 1918
Meu caríssimo pai,
Que Jesus esteja sempre com o senhor e lhe pague tudo o que faz para a minha alma!
Recebi a sua carta; cheio de reconhecimento e gratidão, agradeço-lhe o que nela disse.
O que aconteceu? Tenho freqüentemente satanás perto de mim com as suas vivazes tentações, e eu olho tudo, sempre inerte, pois sinto-me impotente sempre para saber libertar-me com uma vontade que eu desejaria enérgica.
O assalto avança, avança e avança sempre e me golpeia ao meio. A santa obediência, que era a última voz restante para manter sólida a fortaleza decadente, é também colocada em jogo. Meu Deus!... O que acontecerá com esta vossa criatura?
As assegurações submergem na fúria das ânsias e dos tormentos, pois aquele que é onipotente sabe destruir a luz e as impressões de conforto, justamente porque a alma deve estar no tormento, e, depois da gota de mel, é levada a aproximar os seus lábios do cálice da suprema amargura para continuar a sorvê-lo até o fim. Cumpram-se, ó Deus-Amor, os vossos eternos e justos decretos sobre vossa criatura, mas deixai para ela a força de esperar contra
spem!
Pai, termino. Não tenho mais força para continuar.
Recomende-me a Jesus, que o mesmo faço eu assiduamente pelo senhor; peço-lhe que fique tranqüilo, pois Jesus está contente com o senhor e a prova chega a seu final.
Retribua por mim os cumprimentos ao doutor. Comprazo-me e agradeço a Deus essa bela companhia que lhe enviou. Ele é verdadeiramente um bom filho; mas também os bons filhos, algumas vezes, desagradam à vontade paterna. Também ele arriscou a graça por um excesso cometido em um momento de extrema prova.
Abençoe-me sempre.
Afeiçoadíssimo,
Frei Pio, capuchinho
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San Giovanni Rotondo, 17 de outubro de 1918
Meu caríssimo pai,
Que Jesus, sol da justiça, brilhe sempre sobre o seu espírito!
Estou de volta ao senhor depois de passado um longuíssimo tempo no silêncio; o senhor me perdoará certamente, sabendo que isso não foi causado por negligência ou descuido, mas por impotência absoluta.
Estive de cama também por causa da gripe espanhola, que também aqui causa muitas mortes. Eu desejei muito que o Senhor me tivesse chamado a si, mas fui por ele reenviado à minha mísera existência para a luta do tempo.
Passei e passo horas terríveis e tristes; físico e moral já me dão a morte a todo momento. Deus é
indiferente a meu espírito! Ó bem de minha alma, onde estais? Onde vos escondestes? Onde vos
reencontrar? Onde vos buscar? Não vedes, ó Jesus, que a minha alma quer vos sentir a todo custo? Buscavos em todo lugar, mas não vos encontra senão na plenitude de vosso furor, enchendo-a de um extremo tormento e amargura, dando-lhe a entender o quanto a vós se destina e o quanto a vós pertence.
Quem consegue exprimir a gravidade de minha posição?! O que compreendo ao reflexo de vossa luz, não consigo dizer com a linguagem humana; quando tento balbuciar algo, a alma reconhece ter errado e estar mais do que nunca distante da verdade dos fatos.
Meu bem! Estou privado de vós para sempre? Tenho vontade de gritar e de me lamentar com voz superlativamente forte, mas estou fraquíssimo, e as forças não me acompanham. No entanto, o que eu farei se não ascender ao vosso trono este lamento: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?
A minha alma é toda voltada para o quadro claro de minha miséria! Meu Deus! Que eu suporte tal lutuosa vista: retirai de mim o teu raio refletido, pois eu não suporto tão aberto contraste. Meu pai, eu vejo toda a minha maldade e a minha ingratidão em todo o seu esplendor: vejo o antigo homem danado escondido em si mesmo; parece-me querer retribuir a Deus a sua ausência, negando-lhe seus direitos, que lhe são de mais estreito dever. E que força é preciso fazer para ajudá-lo! Meu Deus! Logo que chegardes em  meu socorro, eu temo a mim mesmo, pérfida, ingrata criatura para seu Criador, que a protegeria dos seus poderosos inimigos.
Não soube valer-me de vossos tão altos favores; agora me vejo condenado somente a viver em minha incapacidade, recurvado sobre mim mesmo, em ato de desencaminhamento, e a vossa mão vai pesando cada vez mais sobre mim. Ai de mim! Quem me libertará de mim mesmo? Quem me tirará deste corpo de morte? Quem me estenderá uma mão para que eu não seja envolvido nem engolido pelo vasto e profundo oceano? Será necessário que eu me resigne a ser envolvido pela tempestade que acossa sempre mais?
Será necessário que eu pronuncie o
fiat! Ao olhar para aquele misterioso personagem que me feriu todo e que não desiste da dura, áspera, aguda e penetrante operação, e não dá tempo ao tempo para que cicatrizem as antigas chagas, já que sobre estas abre novas com infinito tormento para a pobre vítima?
Ó meu pai, venha em meu socorro, por caridade! Todo o meu interior chove sangue, e, muitas vezes, o olho é levado a resignar-se em vê-lo escorrer também exteriormente. Oh! Tire de mim este tormento, esta condenação, esta humilhação, esta confusão! Não depende do espírito poder e saber resistir.
Quanto eu gostaria, meu pai, de ainda lhe contar, mas a plenitude da dor me sufoca, torna-me mudo. Use a caridade de sua solícita resposta e esteja certo de que lhe agradecerei e rezarei sempre pelo senhor. Abençoe-me sempre.
Frei Pio, capuchinho.
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San Giovanni Rotondo, 8 de novembro de 1916
Meu caríssimo pai,
Que Jesus o assista sempre e lhe dê luz para compreender o meu presente estado.
Que Jesus me prove sempre com o fogo das tribulações, Fiat! Agora talvez estejamos na prova que me fora anunciada em Foggia. Há dias, meu bom pai, senti forte em mim a necessidade de dirigir-me ao senhor para receber alguma palavra de conforto em meio a altas tempestades, entre as quais está a minha pobre alma, desde que o senhor se distanciou daqui. Mas até este momento não me foi possível fazê-lo, tão grande é a tempestade que estrondeia dentro e fora de mim.
Mas Deus, o que foi a minha vida nesses dias perante vós, nos quais as mais pantanosas trevas investiram contra mim! E o que será ainda do meu futuro? Eu ignoro tudo, completamente tudo. No entanto, não deixarei de elevar as minhas mãos no santo lugar durante a noite, e vos bendirei sempre, até que eu tenha um sopro de vida. Suplico-vos, ó meu bom Deus, para que sejais a minha vida, a minha barca e o meu porto. Vós me fizestes subir sobre a cruz do vosso Filho, e eu me esforço para me adaptar da melhor maneira: estou convencido de que jamais descerei dela e que jamais deverei ver o ar sereno.
Estou persuadido de que é preciso falar a vós entre trovões e redemoinhos de vento, convém ver-vos no silvado, entre o fogo dos espinhos; mas, para executar tudo isso, acho necessário ficar descalço e renunciar inteiramente à própria vontade e à própria afeição.
A tudo isso estou disposto, mas vós vos deixareis ser visto um dia sob o Tabor, sobre o santo pôr-do-sol?
Terei força, sem jamais me cansar, para ascender à celeste visão do meu Salvador?
Sinto que o terreno que piso cede sob os meu pés. Quem reforçará os meus passos? Quem, senão vós, que sois o bastão de minha fraqueza?
Miserere de mim, ó Deus, miserere de mim! Não mais me façais
experimentar a minha fraqueza!
Que a vossa fé ilumine mais uma vez o meu intelecto; que a vossa caridade aqueça meu coração
compungido pela dor de ofender-vos na hora da provação!
Meu [Deus], como é agudo este atroz pensamento que de mim não se retira nunca! Meu Deus, meu Deus, não me façais apaixonar-me mais por vós! Eu não mais me governo!
Meu pai, perdoe-me! Eu não sei mais reordenar as minhas idéias. Se não fosse interrompido neste ponto, quem sabe aonde teria ido parar. Teria colocado, sem perceber, à dura prova a sua paciência.
Tenha a bondade de escutar qual é o meu estado, que lhe prometo fazê-lo brevemente. A batalha foi retomada com maior fúria. O meu espírito há tempos está imerso nas mais pantanosas trevas. Reconheço
encontrar-me na grande insuficiência de praticar o bem; encontro-me em um extremo abandono: muita perturbação no estômago espiritual, muita amargura experimento na boca interior, o que me torna amargo o vinho mais doce deste mundo.
Pensamentos blasfemos atravessam continuamente a minha mente; e mais ainda sugestões, infidelidades e descrenças. Sinto a alma ferida, morro em todos os instantes da vida. A minha alma não mais repousa tranqüila, já que Deus não pode permitir tudo aquilo que me acontece, sem que não esteja extremamente desgostoso comigo. Ele não pode se encontrar nesta alma: ele é muito puro e estaria grandemente desvalorizado ao permanecer nesta alma, na qual acontecem coisas assim.
O demônio estrondeia e ruge assiduamente em torno da minha pobre vontade. Não faço outra coisa neste estado, a não ser dizer com firme resolução, embora sem sentimento: “Viva Jesus! Eu creio...”. Mas quem pode dizer-lhe como pronuncio essas santas expressões? Pronuncio-as com timidez, sem força nem coragem, a grande violência pratico contra mim mesmo.
Diga-me, pai, é possível, é compatível este estado com a presença de Deus nesta alma? Não é talvez esse o efeito da retirada de Deus desta alma? Meu pai, peço-lhe, fale-me mais uma vez com toda a franqueza e sinceridade. Sugira-me a maneira como devo comportar-me para não ofender o Senhor e se há esperança para mim de que Deus voltará para esta alma.
As mais pantanosas trevas reinam sobre tudo o que faço. Uma dúvida perene atravessa o meu espírito em todas as minhas ações. Um sentimento me sugere sempre que opere em tudo com consciência duvidosa.
Esforço-me para lembrar-me daquilo que a autoridade me ordenou a esse respeito, mas o que o senhor quer?! O Senhor me confunde, não lembro nada precisamente. Que martírio é também isso para mim! O não saber se se opera com a glória de Deus ou mesmo com a sua ofensa é mais doloroso que a própria morte.
Por caridade, meu pai, não se inquiete por mim. Estou pronto para tudo, para sacrificar tudo, para não ofender a Deus. Compraza-se assim em sugerir-me algo também a esse propósito. Diga-me como devo responder a esses tão penosos pensamentos, que eu ignoro por quem são sugeridos.
Quanta coisa gostaria de dizer-lhe, mas não consigo me dominar: imerso, como estou, neste tão penoso estado, não consigo reordenar as minhas idéias. O meu coração quer amar; esforça-se para conseguir, mas não encontra como. O pobrezinho encontra-se talvez fora de seu centro, e eis por que não sabe onde pode repousar.
Meu pai, quanto mais tempo demorará ainda para passar tal estado? Oh! Se eu pudesse ao menos saber que tudo isso não é ofensa a Deus! Se isso eu pudesse saber, sinto-me disposto a suportar penas maiores por toda a vida, por mais longa que pudesse ser.
Abençoe-me sempre e reze a Jesus para que, se neste estado não estiver a sua glória, me liberte o mais rápido possível.
Apesar de todos esses tormentos, que eu sinto no mais íntimo do meu espírito, sempre tenho força para rezar pelo senhor e renovar a Deus continuamente a oferta uma vez feita a ele a seu respeito. Com grande estima e profundo respeito e veneração, beijo-lhe a mão, dizendo sempre!
O seu pobre filho,
Frei Pio, capuchinho.
Quando responder à presente, peço-lhe que me envie um atestado seu, para eu mostrar, quando me
apresentar em Nápoles, para poder celebrar.

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