domingo, 2 de junho de 2013

Apareceu-me o demônio do lado esquerdo...

Certa vez, num oratório, apareceu-me o demônio do lado esquerdo, em abominável figura… Outra vez me atormentou durante cinco horas, com dores tão terríveis e desassossego interior e exterior, que me parecia insuportável… De muitos fatos cobrei experiência de que não há coisa de que mais fujam os demônios do que água benta… O fato é que já compreendi perfeitamente quão pequeno é o poder dos demônios contra mim, se eu mesma não for contra Deus. Por isto, quase não os temo. De nada valem suas forças, a menos que vejam almas covardes que abandonam a luta. Aqui mostram eles sua tirania.
Havia muito tempo que o Senhor me fazia muitas graças já referidas e outras ainda maiores, quando, um dia, estando em oração, achei-me subitamente, ao que me parecia, metida corpo e alma no inferno.
Entendi que o Senhor queria me fazer ver o lugar que os demônios aí me haviam preparado, e eu merecera por meus pecados. Durou brevíssimo tempo. Contudo, ainda que vivesse muitos anos, acho impossível esquecê-lo.
No inferno, o tormento interior é tal, que não há palavras para o definir, nem se pode entender como é realmente. Na alma, senti tal fogo, que não tenho capacidade para o descrever. No corpo, eram incomparáveis as dores. Tenho passado, nesta vida, dores gravíssimas. No dizer dos médicos, são as maiores dores que se podem suportar, como, por exemplo, quando se encolheram todos os meus nervos e fiquei tolhida. Já não falo de outras muitas dores de diversos gêneros, e até algumas causadas pelo
demônio. Posso afirmar que tudo foi nada em comparação com o que no inferno experimentei.
Sim, repito: tudo mais pode se chamar nada em relação ao agonizar da alma no inferno. É um aperto, um afogamento, uma aflição tão intensa, todos acompanhados de uma tristeza tão desesperada e pungente, que não sei como posso explicar semelhante estado! Compará-lo à sensação de que vos estão sempre a arrancar a alma é pouco. Em tal caso, seria como se alguém nos acabasse com a vida.
Aqui, no inferno, é a própria alma que se despedaça. O fato é que não sei como descrever aquele fogo interior e aquele desespero que se sobrepõem a tão grandes tormentos. Eu não via quem os provocava, mas sentia-me queimar e retalhar. Piores, repito, são aquele fogo e aquele desespero que me consumiam interiormente.
Não entendo como, sem claridade, n o inferno se enxerga tudo, causando dor nos olhos.
Lia que os demônios atenazam as almas e lhes infligem outros suplícios. Tudo é nada a respeito da verdadeira pena, que é muito diferente. Em uma palavra: é tão diferente quanto o esboço o é da realidade. Queima-se aqui na Terra é sofrimento muito leve em comparação com o fogo do inferno.
Em parte, nos queixamos sem motivo.
Sobre a inquisição: Poderiam levantar contra mim algum falso testemunho e me denunciar aos inquisidores. Achei graça na ideia. Fez-me rir porque, neste ponto, nunca temi. Tinha consciência de que, em matéria de fé, eu estava pronta a morrer mil vezes para não ir contra a menor cerimônia da Igreja ou por qualquer verdade da Escritura… Em bem mau estado andaria minha alma se nela houvesse coisa de tal natureza, que me fizesse temer a inquisição. Se eu imaginasse haver necessidade, seria a primeira a ir buscá-la.


Santa Tereza D'Avila

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